As três procuradoras que integram a força tarefa da Lava Jato Foto: M.Pimenta


DO EL PAÍS

Carla Jiménez

Curitiba

Três mulheres fazem parte do mais famoso time de procuradores do Ministério Público Federal que tem provocado úlceras e calafrios na espinha de políticos e empresários no Brasil. Entre os 14 integrantes da força tarefa que formam a operação Lava Jato, há três representantes do sexo feminino. Laura Tessler, Isabel Cristina Vieira e Jerusa Burmann Viecili estão em Curitiba, sob a coordenação de Deltan Dallagnol, ajudando a destrinchar informações da maior investigação sobre corrupção já feita no país, que já ultrapassou as fronteiras do continente. Isso coloca o trio no olho do furacão de um projeto ousado e numa rotina intensa que tem forçado o país a se repensar. “A corrupção é sistêmica no Brasil e apartidária. Tornou-se tão estruturada no país que acontece em todos os órgãos da administração pública”, diz Viecili, que nasceu em Ijuí, no Rio Grande do Sul, e ingressou na Lava Jato no começo de 2016.
As três procuradoras que integram a força tarefa da Lava Jato
As três procuradoras que integram a força tarefa da Lava Jato M.Pimenta

As três servidoras atenderam a reportagem do EL PAÍS numa sala de reunião do Ministério Público da capital paranaense. A proposta é conhecer as mulheres do núcleo de procuradores que desafiou o status quo brasileiro. O tom sério inicial do encontro é brevemente interrompido quando o fotógrafo do jornal avisa que estará fazendo fotos enquanto concedem a entrevista. “Deixa passar um batom!”, pede uma delas em tom de brincadeira, quebrando o gelo. É a evidência mais clara que estamos entre mulheres. Mas a conversa é retomada rapidamente, e a questão do gênero desaparece. Ao longo de uma hora e vinte e cinco minutos de conversa, elas não olham para o fotógrafo e esquecem o barulho dos cliques que perdurou todo o tempo.

Contar um pouco da evolução das investigações e o modus operandi da equipe é o que de fato motiva o trio a se expor para prestar contas do trabalho da Lava Jato que começou em 2014. Sabem que o apoio da opinião pública é um dos elementos centrais para o sucesso da ambiciosa empreitada assumida pela força tarefa.

Pergunto se há alguma diferença no trato num ambiente onde elas são minoria. “Seria contraditório não ter igualdade se trabalhamos por justiça”, afirma Tessler, uma jovem gaúcha de cabelos loiros, na casa dos 30 anos, que chegou à Lava Jato em agosto de 2015. “Às vezes eles querem invadir nosso banheiro porque a estrutura aqui é deficiente”, graceja Viecili. Mas garante que os colegas são muito cavalheiros.

Vieira é a mais velha do trio. É de São Paulo e passa a maior parte da semana em Curitiba. Tem filhos crescidos, e garante que nunca sentiu diferença em seu trabalho pelo fato de ser mulher. Ressalta, na verdade, que sente-se realizada em atuar no Ministério Público como um agente de transformação da sociedade. “É uma carreira onde podemos nos instruir muito do ponto de vista intelectual, social e humano. Tenho a satisfação de trabalhar na defesa do patrimônio público”, diz.
Isabel Cristina Vieira, procuradora da Lava Jato
Isabel Cristina Vieira, procuradora da Lava Jato M.Pimenta

O idealismo é um traço marcante entre os procuradores da Lava Jato que, goste-se ou não dos seus métodos, trouxe à tona o modus operandi dos esquemas nefastos de poder e colocou a elite brasileira em plano de desespero. “Corrupção não acontece à luz do dia sob holofotes. Acontece na sombra, em hotéis, linguagens cifradas, encontros secretos, pagamentos no exterior, por pessoas interpostas”, afirma Tessler. Ao longo das investigações da Lava Jato, depara-se com algumas cenas de machismo por parte dos investigados. “Vai falar grosso? Eu também sei falar”, disse ela certa vez a uma pessoa que ela não revela quem é.

A equipe trabalha em duplas ou trios dividindo o foco das investigações. O time completo dos 14 procuradores se reúne ao menos uma vez por semana para trocar dados e completar mais uma parte do quebra-cabeça da corrupção brasileira. As procuradoras têm consciência do tamanho da expectativa que o Brasil, exausto das mazelas políticas, depositou em seus ombros. A operação em si não é a solução dos problemas do país, lembra Tessler, uma das responsáveis por desbaratar o departamento de propinas da Odebrecht. “A cultura arraigada é muito mais significativa do que o que revelamos”, avalia. Viecili reforça o argumento da colega. “Não tem como falar se o partido A ou B é maio ou menos corrupto. Todos os partidos se beneficiavam com isso”, diz ela. A procuradora gaúcha tem cabelos lisos negros, e uma tatuagem no pulso escrito “Faith”. Foi a única que deu um minuto e meio ao fotógrafo para fazer uma foto mais posada.

Ao longo da entrevista as três estão compenetradas. O QG da Lava Jato não é propriamente um lugar para informalidades. Ali está a inteligência da investigação que levou bilionários, como Eike Batista e Marcelo Odebrecht, para a prisão, assim como o outrora poderoso, ex-governador do Rio, Sérgio Cabral. Deixou também o Partido dos Trabalhadores de joelhos, e tornou-se o pesadelo do ex-presidente Lula.
Jerusa Viecili, procurada da Lava Jato
Jerusa Viecili, procurada da Lava Jato M.Pimenta

As mulheres da Lava Jato sabem que entraram numa guerra sem precedentes e que de certo mesmo elas só têm a seu favor o apoio da população à continuidade da operação. O movimento contrário de quem deseja vê-las pelas costas é feroz. “Os investigados tentam destruir moralmente os procuradores, e depois vem a enxurrada de leis para tentar tirar os instrumentos de combate a corrupção, para que a lógica de corrupção endêmica se perpetue”, diz Tessler.

Mas como os demais procuradores, elas estão longe de se intimidar, cientes do que está em jogo num horizonte histórico. “É uma ambição arrojada, a de mudar uma cultura”, avalia Vieira. Ela não se ilude de que será possível transformações aceleradas a partir de agora. “Não existem regenerações sumárias, são processos lentos”, completa. Sabem também da necessidade urgente de se mudar leis. Aumentar a pena para crimes de corrupção, e acabar com a prescrição de penas. “Ou se tem cultura que puna esses agentes, ou vai passar a Lava Jato e tudo volta a ser como antes”, sublinha a procuradora.
Laura Tessler, procuradora da Lava Jato
Laura Tessler, procuradora da Lava Jato M.Pimenta

Ao final da conversa, volto a insistir. Como é estar com tantos homens ao redor? “É divertido”, desconversa Tessler. A explicação concisa deixa entrever que no fundo elas não veem diferença na sua atuação pelo fato de serem mulheres. A carreira que abraçaram tem efetivamente mais homens. “Quando prestei concurso 80% dos candidatos eram homens”, lembra Viecili. Antes de chegar à força tarefa, trabalhava na área de crimes financeiros no centro-oeste do país. O fato de ser uma profissão que exige deslocamentos geográficos grandes pode ser um fator de desestímulo para quem tem a maternidade no horizonte de curto prazo. Tessler e Viecili ainda não têm filhos. “Mas isso não é nem nunca foi impeditivo”, afirma Vieira. As mulheres da Lava Jato são mesmo boas de briga.

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