Donald Trump a caminho do Salão Oval.
Yuri Gripas REUTERS


DO EL PAIS

Ncolás Alonso

Washington

Ninguém duvida que Donald Trump é um presidente incomum. Mas sua estranha chegada ao poder da maior potência mundial e seu caráter imprevisível e errático não são o único aspecto surpreendente. Seu dia a dia na Casa Branca, muito diferente do de presidentes anteriores, reflete uma rotina mais simples e menos enigmática que a de seus antecessores.

Barack Obama encerrava seus dias de trabalho na Casa Branca lendo sozinho no Salão Oval. Dizia que os livros o ajudavam a “parar e ter perspectiva” sobre o que estava acontecendo no mundo, refletir e fazer autocrítica. George W. Bush entrava no Salão Oval às 7h30, e interrompia o trabalho com uma sessão de exercícios, que com frequência consistia em sair para correr ou brincar com seus cachorros. Fazia as refeições com a família e descansava as oito horas recomendadas para render diante das exigências da presidência. Bill Clinton saía para correr três vezes por semana, um hobby que considerava fundamental para desconectar mentalmente da intensidade do trabalho.

Mas na rotina do atual presidente — que não lê livros, não pratica esportes e é conhecido por sua dieta insalubre — os costumes são totalmente diferentes. Trump se levanta antes 6h, assim como fazia em sua adorada Trump Tower de Nova York, mas só começa a trabalhar às 9h. Até então, segundo uma entrevista ao The New York Times logo após a posse, o presidente assiste aos programas matutinos de televisão na residência da Casa Branca. Também folheia os jornais de referência, os quais costuma qualificar de “desonestos”, como The New York Times e The Washington Post.

Depois de três horas dedicadas ao entretenimento, o presidente passa à Ala Oeste da Casa Branca, onde fica o Salão Oval. Durante o dia, Trump faz reuniões com assessores, empresários de vários setores e outros membros do Governo. Com frequência, almoça com o vice-presidente Mike Pense em uma das salas de refeição da residência.

Uma investigação do Post aponta que por volta das 18h ou 19h o presidente dá seu expediente por encerrado. É quando volta à residência e se dedica à sua agenda pessoal. Mas, como não tem a companhia de sua esposa, Melania, e do seu filho Barron – eles decidiram ficar em Nova York até que o garoto acabe o ano letivo –, Trump costuma terminar o dia como começou: vendo televisão e, às vezes, postando mensagens em seu perfil no Twitter, algo que se tornou uma característica ímpar do atual presidente.

Poucos dias depois da sua posse, a emissora Fox News – uma de suas preferidas – mostrava uma reportagem sobre a violência e a criminalidade em Chicago. Aos 20 minutos de programa, o presidente, que o assistia, tuitou do seu celular Android: “Se Chicago não consertar a terrível carnificina que está ocorrendo, mandarei os (agentes) federais”. Essa situação se repetiu diversas vezes, para assombro de jornalistas e comentaristas políticos espantados com a reatividade do homem mais poderoso do mundo às informações televisivas.

Até agora, Trump tem usado os fins de semana para viajar com relativa frequência à mansão que possui no seu clube privado Mar-a-Lago, que ele chama de “Casa Branca de inverno”. Lá o presidente joga golfe e mantém reuniões com membros da sua equipe e com velhos amigos, distante da pressão da capital.

É normal que os presidentes precisem de um período de adaptação ao se instalarem na Casa Branca. Mas para Trump, uma pessoa alheia à política, o processo de adaptação à emblemática residência da avenida Pennsylvania, número 1.600, é ainda mais difícil. Talvez por isso, para se sentir mais em casa, decidiu colocar cortinas douradas nas janelas do Salão Oval. Já era assim na Trump Tower.

Comentários

luís augusto on 3 março, 2017 at 7:14 #

Me lembra um ex-presidente brasileiro que se orgulhava de não ler.


Daniel on 3 março, 2017 at 17:29 #

Afora o tom claramente hostil da reportagem, me espanta o teor depreciativo que se faz sobre cada ponto elencado sobre os “costumes” de Trump. Com Obama, fosse o que fosse, o cenário seria outro.

Saudade de uma época em que a imprensa era imparcial e isenta!


Taciano Lemos de Carvalho on 3 março, 2017 at 23:28 #

Saudades de Dom Helder Câmara. Sábio, repetia que a diferença entre um governo de Democratas e o de Republicanos era a diferença que existia entre a Coca Cola e a Pepsi Cola.


luis augusto on 4 março, 2017 at 6:46 #

Pra mim já é muita diferença. Sempre cito Ivan Lessa, para quem, de quatro em quatro anos, os americanos elegem George Washington, embora tenha sido diferente com Obama, por múltiplos motivos, numa brincadeira que só a História sabe fazer.


Daniel on 4 março, 2017 at 15:19 #

Para quem se interessar pelo reais pensamentos e princípios do governo Trump – sem mediação e distorção ideológica de uma imprensa hostil – sugiro ver o discurso completo (e legendado) feito no Congresso Nacional daquele país nesta semana: https://www.youtube.com/watch?v=XgEeGDOzXso


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