Um mergulho na saudade

Gilson Nogueira

Subo a Avenida Euclides da Cunha, na Graça, vindo do Cemiterio do Campo Santo, na Federação,onde acompanhei, ao lado de minha mulher, perto do meio-dia,o sepultamento de Heraldo Lago Ribeiro, amigo dos anos em que caminhar na Cidade da Bahia não siginificava correr risco de vida, e lembro do carinho que o jovem historiador, de raro talento,dispensava à minha familia.No instante em que pensono Carnaval e suas tragedias, como obra do Demonio fantasiado de gente como a gente, piso em pedacinhos
coloridos de saudade, a caminho da padaria. Logo, penso, algum foliao das antigas passou por aqui deixando lágrimas de papel no chão. E vejo o amigo, com a fantasia do lendario Os Internacionais,saindo do bairro de Santo Antonio, ao encontro da rapaziada na Mouraria. Passa um automovel com o som alto, buzinando ignorancia. E, logo, ocorre-me a lembranca de não ter ouvido uma so Musica de Carnaval no Carnaval da Bahia,ou melhor de Salvador. Dizem-me que é um festival de > absurdos sonoros e nada mais. No ar, simplesmente, ecos
de coisa nenhuma e uma sinfonia torta de festa carnavalesca. Não mais as mãozinhas para cima apelando reconhecimento e sacudindo o vazio. Em lugar das canções de momo, os apelos eróticos-musicais desafiando os bons costumes e servindo de chamada absurda para atrair internautas,como se crianças não tivessem acesso a computadores e seus derivados. Pecam,nesse balaio de insensatez,alguns jornais.
De repente. em casa, perto do feijão nosso com arroz e bife de cada dia, um tamborim solitario invade meu juizo. No ritmo do Jacu! Recordo maravilhosas marchinhas carnavalescas carregadas de inocencia, como a que Jorge Veiga cantou no Carnaval de 1960 em homenagem a Brigitte Bardot, simbolo sexual do cinema frances que abraçou a Bossa Nova e o balneario de Buzios como suas grandes paixões brasileiras. Em uma espiada rápida no movimento da Avenida Centenario, onde o poão caminha em direcao ao circuito atlantico da festa, emociono-me, choro por dentro, em format de serpentina, ao ver um folião do Filhos de Ghandy, trajando a fantasia do bloco mais admirado do planeta, segurando a mão do seu filhote, também fantasiado de historia carnavalesca, como se estivessem,ali, em passos rapidos, escrevendo, no asfalto, um poema de resistencia e esperanca de, um dia, o Carnaval da Bahia voltar a ser o que era, ou seja, um festival de sonhos possíveis e impossíveis família baiana, dionisíaco, com o que o diabo tem de melhor, para provocar paixões, sacudir a galera em torno da alegria de viver as fantasias de hora marcada, para acordar, depois, com a ressaca da realidade. Em Salvador, especialmente, assim como é cruel ver o Carnaval deixar de ser Carnaval, até o dia em que ele sucumba de vez, e emergir na beira da Praia do Farol da Barra com um colar de coliformes fecais sobre a cabeca. Para alguns, é Carnaval. É ai que mora o perigo.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do Bahia em Pauta.

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