O senador Edison Lobão. Ag. Br

DO EL PAIS

Gil Alessi

São Paulo

A Polícia Federal realizou nesta quinta-feira a Operação Leviatã, que investiga o pagamento de propinas para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, e da usina nuclear de Angra 3, no Rio de Janeiro. Entre os alvos da operação, que é um desdobramento da Lava Jato, estão o ex-senador Luiz Otávio Campos (PMDB-PA), ligado ao peemedebista Jader Barbalho, e Márcio Lobão, filho do senador Edison Lobão (PMDB-MA). Os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão no escritório e residência de ambos no Rio, em Brasília e em Belém. Segundo investigações preliminares, políticos ligados ao PT e ao PMDB cobravam uma taxa de 1% sobre as obras na hidrelétrica.

A Leviatã coloca pressão sobre o clã Lobão e o PMDB apenas uma semana após Edison, o patriarca da família que já é investigado pela Lava Jato em dois inquéritos, ser eleito para presidir a Comissão de Constituição e Justiça do Senado – uma das mais poderosas do Congresso. Caberá ao colegiado sabatinar Alexandre de Moraes, indicado pelo presidente Michel Temer para a vaga de Zavascki no STF, e também o futuro procurador-geral da República, que virá a substituir Rodrigo Janot quando concluir o seu mandato. O parlamentar afirmou, pouco após assumir a presidência da comissão, que “investigação não deve causar constrangimento a ninguém”. Não escondeu também sua posição de apoiar a anistia aos crimes de caixa 2, um dos delitos que mais fomentam o rastilho de pólvora da Lava Jato. Ao jornal o Estado de São Paulo no início da semana, Lobão também criticou a Lava Jato, que segundo ele se tornou um “inquérito universal”, e atacou o modelo de delações premiadas: “Delação só deve ser admitida com o delator solto. Deve ser espontâneo”.

O nome da operação, Leviatã, é uma alfinetada na família Lobão: foi escolhido para homenagear a obra do filósofo político inglês Thomas Hobbes, que escreveu que “o homem é o lobo do homem”. Em nota, a PF afirma que “os investigados, na medida de suas participações, poderão responder pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa”.

Em 2011, período em que foram cometidos os crimes investigados pela Leviatã, Edison era ministro de Minas e Energia do Governo de Dilma Rousseff (PT). Seu filho Márcio foi citado na delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, vazada para a imprensa em junho de 2016. Outros colaboradores da Justiça ligados à empreiteira Andrade Gutierrez, entre eles Flávio Barra, também implicaram a família no esquema de corrupção: relataram que Edison recebeu cerca de 5 milhões de reais em propinas relativas a Belo Monte. Desse total, 600.000 reais teriam sido pagos em dinheiro vivo e entregues na casa de Márcio. “Nós fizemos essa entrega na casa do filho do ministro Lobão, no Rio de Janeiro”, afirmou Barra em seu depoimento.

Edison também foi mencionado pelo ex-diretor da área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, em sua delação. De acordo com o colaborador, entre 2009 e 2010 Lobão o pressionou para favorecer o banco BVA em acordos com a Petros, o fundo de pensão da Petrobras.

O patriarca do clã coleciona citações em investigações suspeitas. Em 2016 seu nome apareceu em documentos revelados pelo Panama Papers, como sendo titular de contas em offshores operadas pela empresa Mossack Fonseca, de acordo com Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo. Em 2014 Edison teve seu nome relacionado a outro escândalo, envolvendo, desta vez, o fundo de pensão dos funcionários dos Correios, o Postalis. Ele também é investigado desde 2015 por suspeita de ser sócio oculto de um grupo de companhias sediado nas Ilhas Cayman, um conhecido paraíso fiscal caribenho.

Estima-se que o total de propina paga ao PT e PMDB na construção e Belo Monte possa chegar a 150 milhões de reais. Parte do dinheiro foi repassado às legendas via doações legais de campanha entre 2010 e 2014. Após diversos atrasos e polêmicas envolvendo o licenciamento ambiental da obra, a usina deve ser concluída em 2019. Além da Andrade Gutierrez, as empreiteiras Odebrecht e Camargo Corrêa também participaram das obras. Executivos e ex-diretores de ambas as empresas também firmaram acordos de delação premiada – a expectativa é que os colaboradores da Odebrecht atinjam em cheio o Governo de Temer.

A operação foi realizada com o aval do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, que assumiu a relatoria da Lava Jato após a morte de Teori Zavascki, e foi a primeira a ser autorizada pelo novo magistrado. A reportagem não conseguiu entrar em contato com os advogados de Lobão e Campos.

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