out
06
Postado em 06-10-2009
Arquivado em (Artigos, Laura) por vitor em 06-10-2009 23:36

France Telecom: “suicídios assustam”
suicidios
=================================================
ARTIGO / PRESSÕES

Por trás dos suicídios na France Telecom

Laura Tonhá

Notícias de suicídio sempre assustam, estamos pouco preparados para lidar com a desistência diante da vida. A nossa cultura: ocidental, global, midática, séc. XXI reza que a vida é “maravilhosa” e que só não é feliz, lindo e rico quem não quer. Difícil entender porque num mundo tão “maravilhoso”, o suicídio seja uma opção cada vez mais freqüente.

A onda de suicídios na France Telecom talvez não tenha tido a cobertura na imprensa mundial que o fato merecia, ou uma análise mais profunda que explicasse o que leva 24 funcionários de uma empresa a se suicidarem num período de 1 ano e meio.

A morte mais recente aconteceu no último dia 28, um funcionário atirou-se de um viaduto, depois de escrever uma carta denunciando o clima profissional vivido no seio da gigante das telecomunicações francesa.

De acordo com a AFP, rede de notícias da França, o empregado trabalhava numa central de chamadas da France Telecom em Annecy, nos Alpes. Casado e pai de dois filhos, o homem de 51 anos deixou dentro do carro uma carta dirigida à sua mulher, “evocando o sofrimento vivido no contexto profissional”. A mulher do suicida explicou aos investigadores que “o seu marido se encontrava muito depressivo há vários meses”.

Os sindicatos informaram que o funcionário tinha sido transferido recentemente para uma central telefônica onde as condições de trabalho são péssimas.

“É aterrorizante. Ele trabalhava numa secção conhecida há muito tempo por ser insuportável, havia uma verdadeira indiferença, nenhum calor humano, não se falava senão de números, os empregados eram carne para canhão”, palavras de Patrice Diochet, do sindicato CFTC.

Conforme notícias da AFP, também no mês de setembro, um técnico de 48 anos da cidade de Troyes esfaqueou a si próprio durante uma reunião, após ouvir que teria que mudar de função; e uma mulher de 32 anos cometeu suicídio em um dos escritórios do grupo em Paris, a funcionária pulou da janela do quarto andar de um prédio após uma reunião.

Os sindicatos afirmam que todo esse desespero é causado pela reestruturação crônica da France Telecom e por pressões no ambiente de trabalho.

O Blog de Luiz Nassif explica que a empresa francesa implantou uma política de “mobilidade sistemática” de seus “cadres” ( quadros técnicos e administrativos com cargos de chefia intermediária). Por essa política, a cada 3 anos esses funcionários são transferidos de local de trabalho. Além disso, estabeleceu metas individuais de produtividade que geram uma concorrência insuportável entre colegas de trabalho, metas, aliás, consideradas por trabalhadores e sindicalistas geralmente impossíveis de serem atingidas com os meios materiais disponíveis.

A editora de Época Negócios, Alexa Salomão, escreveu em sua coluna: ”A France Telecom não é “uma qualquer”. Foi uma estatal poderosa, privatizada no final dos anos 90. O Estado detém 26% do capital, o que ainda faz dela um patrimônio francês. Seu lucro, no ano passado, superou os quatro bilhões de euros. Mais de 100 mil pessoas trabalham na empresa. Por tudo isso, o que está ocorrendo lá – e da forma como está ocorrendo – ultrapassa a fronteira do surreal”.

Surreal em qualquer lugar, mais surreal na França, mundialmente conhecida por trabalhadores engajados em seus direitos; local onde práticas como o “boss-napping” (sequestro de executivos de empresas, que vão demitir pessoas, para negociação de melhores condições para os trabalhadores) recebem apoio da população.

Paulo Nogueira, editor do blog Diário do Mundo, em reportagem sobre a França, ressalta que o francês tem uma relação com o trabalho bem diferente do que se vê nos Estados Unidos, e consequentemente no Brasil. A vida fora do escritório faz parte da cultura dos franceses, os americanos vêem isso com a mesma desconfiança misturada com desprezo com que os franceses vêem a cultura workaholic e consumista entranhada nos Estados Unidos.

De acordo com Nogueira, um executivo que trabalhou na França escreveu há pouco um artigo revelador para o New York Times em que relata sua dificuldade:  “Meus superiores me avisaram para evitar a palavra changement (mudança) nas conversas com minha equipe; “evolução” seria mais palatável. Mudança está associada a idéias e conceitos importados, coisa que é difícil de engolir para os franceses”.

Talvez isto explique um pouco porque 24 trabalhadores franceses preferiram a morte a seguir o padrão “workaholic”, para não dizer selvagem, que grandes empresas adotam para concorrer num mercado global.

Lembro-me de uma conversa recente com um amigo psicólogo em que ele dizia que a psicologia nas organizações é uma farsa. Nas palavras dele, ainda que psicólogos organizacionais estejam “na moda” e ganhem muito dinheiro com pesquisas de clima e cultura organizacional, entre outras técnicas de análise das relações humanas corporativas, no final das contas, o que prevalece nas empresas privadas é o lucro. E por ele vale tudo.

Depois das 24 mortes o presidente da France Telecom, que não divulgou seus próprios dados sobre os suicídios, anunciou um congelamento temporário das transferências e mudanças de funções de funcionários até o final de outubro. E foi só. O salve-se quem puder está legalizado.

Laura Tonhá, publicitária baiana, é uma das criadoras do Bahia em Pauta.

Comentários

Cida Torneros on 7 outubro, 2009 at 17:11 #

Excelente, intrigante e instigante artigo. Parabéns e abraços!
Cida Torneros


Mariana Soares on 7 outubro, 2009 at 20:13 #

Belíssimo artigo, Laura! Há muito venho refletindo sobre quão desumana e fria são algumas relações de trabalho que encontramos por aí. Não é a toa que o número de pessoas com câncer vem crescendo assustadoramente. Há chefias e trabalhos insuportáveis e agressivas e uma total inexistência de cultura para reprimir estes tipos de abuso. Algumas pessoas, por outro lado, vivem apenas e tão somente para o trabalho, por necessidade financeira ou por total desprezo a sua propria vida pessoal, encontrando no trabalho uma espécie de fuga em relação a uma realidade que não conseguem mudar. A vida é bela e a nossa profissão tem a sua beleza e o seu charme, mas sempre dentro de um equilibrio de papeis que a nos cabe desempenhar nesta vida.


Mel Campos on 13 outubro, 2009 at 10:50 #

Lamentável o nível de estresse a que são submetido os empregados em decorrencia da luta economica e tecnologica crescente no mundo globalizado. Parabens ao bahia em pauta e a autora deste artigo.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: