Márcia!, Marcia!

Artur Xexeo

Vi, pela primeira vez, Márcia Cabrita na redação de um jornal que nem existe mais. Eu editava o caderno supostamente cultural da publicação. Ela divulgava um restaurante no Humaitá — naquela construção onde hoje funciona a Casa do Mago. Tinha vinte e poucos anos e já era atriz, mas tentava aumentar a renda mensal com o dinheiro extra da divulgação. Estava sempre ao lado de Luís Salém, outro ator que se desdobrava em atividades pouco artísticas para ter algum troco a mais no fim do mês. Era uma alegria. A barra pesada do fechamento diário era interrompida para a gente ouvir Márcia e Salém contando alguma coisa. Podia ser qualquer coisa. Era sempre engraçado.

Foi pra “dar uma força” àquela garota simpática que me vi em ambiente que, em condições normais de temperatura e pressão, eu não frequentaria. No porão da boate Kitinete, ali na Barata Ribeiro, onde um dia tinha funcionado o Crepúsculo de Cubatão (ou será que foi no Crepúsculo mesmo?), Márcia e Salém uniam-se a Aloísio de Abreu em espetáculo irresistível. Não precisava de “força” alguma. “Subversões”, o show no qual o trio apresentava paródias de sucessos musicais, tinha casa cheia toda noite. Depois de “Subversões”, tornou-se impossível ouvir “Amor e poder”, o hit de Rosana, e não se lembrar de “Meu nome é Creusa”, a versão subversiva do trio. “Subversões” poderia ficar em cartaz para sempre. E meio que ficou.

Márcia foi a primeira pessoa que viu nos meus textos aqui da coluna algum humor que serviria ao teatro. Pelo menos, foi a primeira pessoa a me convidar para escrever um esquete para ela e Salém. Eu, bobo, não aceitei. E fiquei devendo esse texto para ela.

Acompanhei sua ascensão profissional e torci muito por ela quando seu rosto começou a ser conhecido do grande público — “Subversões”, definitivamente, era do circuito alternativo — pelos programas da Globo. Ela não se conformava de eu me lembrar das aparições que fazia no seriado “Delegacia de Mulheres”. Márcia era parte do que hoje se chama de “elenco de apoio”, mas, na época, era figuração mesmo. Acompanhei a alegria com que ela entrou para o elenco de “As atrizes”, um exemplar do mais digno teatrão, que não tinha nada a ver com sua carreira alternativa até então. O texto era de Juca de Oliveira, as atrizes do título eram Tônia Carrero e Lucélia Santos. O elenco ainda contava com Osmar Prado e Mauro Mendonça. Márcia estava no lugar certo, no meio de estrelas.

Foi nessa época que ela começou a ter dúvidas se tinha acertado ao escolher seu nome artístico. Cabrita? Acho que Tônia implicou com o sobrenome que Márcia herdou dos antepassados portugueses. Ela, então, veio me fazer uma consulta profissional. Já que eu convivia bem com o Xexéo, ela deveria manter o Cabrita? Dei força. Sabia que o talento de Márcia faria o público nem se dar conta de que, talvez, aquele sobrenome fosse meio esquisito. Eu estava certo.

Por dois ou três anos, Márcia, Salém e Aloísio promoveram uma entrega de prêmios. Era o Prêmio Subversões para os destaques do ano. Bem, destaques na visão daquele trio demolidor. Lembro-me de um ano no qual Vera Loyola estava entre os premiados. Eu também. Fui indicado na categoria Arquivo X. Os candidatos eram Xuxa, Xexéo e… desculpa aí … xoxota. Fui o escolhido. Subi ao palco do Teatro dos Quatro para receber a estatueta de uma modelo linda e inteiramente pelada (ela era a terceira indicada). Por que topei pagar o mico? Porque eu adorava Márcia Cabrita. Todo mundo adorava Márcia Cabrita.

Sem dúvida, o melhor papel na carreira de Márcia foi a empregada de “Sai de baixo”. Era uma missão difícil. Márcia estava simplesmente substituindo a insubstituível Cláudia Jimenez. Não lhe deram muitos instrumentos. A empregada de Márcia não tinha nem nome. Foi ela quem a batizou de Neide Aparecida. Interpretou o personagem por três anos. Foi a empregada que durou mais tempo naquele apartamento do Largo do Arouche. Há quatro anos, quando o canal Viva produziu quatro episódios especiais do programa, dez anos depois de ele sair do ar, Márcia reencontrou o mais popular de seus personagens. Desta vez, o colunista que vos fala teve a honra de escrever os roteiros dos novos episódios. E não é que, enfim, escrevi um texto teatral para a minha amiga Márcia Cabrita?

Doente há sete anos, Márcia nunca deixou de trabalhar. Na época do “Sai de baixo” do Viva, ela estava bem frágil. Mas animadíssima. Esses sete anos foram assim, tempos bons interrompidos por recaídas. Até outro dia, estava no ar em “Novo Mundo”, novela que não conseguiu gravar até o fim. Ainda aparece nos episódios do humorístico “Treme-Treme” no canal Multishow.

Toda vida dedicada à arte de fazer rir deve ser celebrada. Neste Brasil no qual a gente se cerca de tanta coisa sem graça, Márcia conseguiu manter o bom humor e nunca deixou de alegrar o público. Num país que cada vez provoca mais tristeza na população, a Cabrita vai fazer falta.

Dá-lhe Adriana, garganta con arena. Maravilha!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

nov
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DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Aécio não detonou Huck, mas para Huck é ótimo que a impressão seja essa

Como publicamos ontem, Aécio Neves disse que a candidatura de Luciano Huck representa “um pouco a falência da política. É o momento de desgaste generalizado”.

Hoje os sites estão fazendo um escarcéu nas manchetes, tentando passar a impressão de que Aécio detonou Huck, naquela combinação de falta de assunto com petismo.

O senador tucano só disse a verdade: vivemos um momento de desgaste tão profundo — e um dos seus protagonistas é o próprio Aécio — que muitos enxergam um caminho em alguém fora da política.

Mas essa mistura de falta de assunto com petismo só fortalece Huck. É ótimo parecer que está sendo detonado por Aécio.

nov
13
Posted on 13-11-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 13-11-2017


Clayton, no jornal O Povo (CE)

nov
13
Posted on 13-11-2017
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DO EL PAÍS

Álex Vicente
Paris

Aconteceu num dia de junho de 1966. Sendo uma jovem atriz de 19 anos, Anne Wiazemsky entrou em um cinema para ver Masculino-Feminino, o novo filme de Jean-Luc Godard. O que viu mudou sua vida. Ao sair, ainda aturdida, decidiu enviar uma carta ao diretor. “Dizia-lhe que tinha gostado muito do filme dele. Dizia também que adorava o homem que estava por trás daquilo, que o amava”, deixou escrito a atriz e romancista, falecida em Paris no dia 5, no livro Um Ano Estudioso. Assim começou um dos grandes romances da história do cinema, que inspirou O Formidável, o novo filme do francês Michel Hazanavicius, em cartaz em São Paulo.

Revelado em 2011 com O Artista, que ganhou cinco prêmios Oscar, incluídos os de melhor filme e diretor, Hazanavicius retorna depois do tropeço que foi The Search, que teve catastrófica acolhida em Cannes. Com O Formidável, as coisas correram um pouco melhor para ele na última edição do festival. “Não era muito difícil [que ocorresse aquilo]“, sorri o diretor ao recordar aquele remake de um velho filme de Fred Zinnemann, que ele decidiu transportar para a guerra da Chechênia. Foi uma tentativa de se apresentar como cineasta sério depois da chuva de estatuetas, mas não deu certo. “Quando comecei a trabalhar na televisão nos anos noventa, a ironia era um instrumento subversivo. Depois se transformou quase no pensamento dominante. The Search foi uma tentativa de acabar com essa ironia cáustica”, justifica-se agora.

Um protagonista que não liga para o seu retrato

Jean-Luc Godard nunca aprovou o projeto, mas também não tentou impedi-lo. “Ele me pediu que lhe enviasse o roteiro e depois nunca respondeu. Eu lhe propus que visse o filme, mas também não obtive resposta”, afirma o diretor Michel Hazanavicius. “Eu diria que meu filme não lhe importa.” Semanas antes de morrer, Anne Wiazemsky se pronunciou a respeito: “Faz tempo que sua política é a de ignorar tudo que se escreve sobre ele, incluindo meus livros”, afirmou em uma de suas últimas entrevistas, na rádio pública francesa. Disse que não acreditava que esta peculiar biografia cinematográfica lhe tenha feito mal, como também não fizeram seus dois livros autobiográficos sobre essa relação. “É um crocodilo”, afirmou Wiazemsky. Os dois romperam relações depois da separação do casal, marcada pela tentativa de suicídio de Godard. Só voltaram a se cruzar uma vez, no Festival de Cannes de 1982. Ele lhe disse que se emocionou ao ver o filme que Godard estava apresentando no festival, Paixão, com uma nova musa ruiva chamada Isabelle Huppert. Ele lhe respondeu com sua característica fala pausada: “Não quero voltar a emocionar você nunca mais, assim como não quero que você me emocione”.

Seu novo filme volta a abraçar o gênero em que se sai melhor: a comédia de tons nostálgicos e impregnada dessa mesma ironia que ele critica. “Sim, mas acredito que meu humor é benevolente. Vivemos em uma época marcada por uma grande ansiedade. Zombar de tudo não ajuda. Tento não dirigir olhares de desprezo para os temas e as pessoas de que falo”, responde o diretor. O Formidável retrata a paixão entre um mito do cinema, admirado tanto por Renoir como pelos Beatles, e uma garota de boa família, neta do grande escritor gaullista e católico François Mauriac, que ainda procurava seu lugar no mundo. Eles são interpretados por um irreconhecível Louis Garrel, em versão calva e com sotaque, e a atriz franco-britânica Stacy Martin, descoberta por Lars von Trier em Ninfomaníaca.

Seu retrato de Godard desagradou parte da crítica francesa: Hazanavicius o apresenta como um tipo resmungão, desmancha-prazeres, narcisista e possessivo. E, no aspecto criativo, mergulhado em uma profunda crise depois da desigual acolhida de A Chinesa, seu primeiro projeto com Wiazemsky. Para Hazanavicius, não importa que o tratem de sacrílego. Diz sentir respeito por Godard, mas não veneração. E admite ter sido influenciado por ele, embora não mais que qualquer outra pessoa que se dedique à sétima arte. “Os impressionistas deixaram de copiar a natureza para plasmar cores e formas na tela. Godard fez algo parecido no cinema, abrindo-o a novas possibilidades”, diz Hazanavicius.

O filme resume os seis anos de convivência e os sete filmes rodados com Wiazemsky em pleno período maoísta de Godard, quando renegou seus filmes anteriores e tentou abolir a autoridade do diretor com o grupo Dziga Vertov, impulsor de um cinema sem atores e sem argumento (“e sem espectadores”, como aponta um personagem de O Formidável), no qual as decisões eram tomadas em assembleia por toda a equipe. A experiência fracassou, mas entrou para a história como uma das principais tentativas de acabar com a concepção tradicional do gênio romântico.

No aspecto visual, entretanto, Hazanavicius bebe dos grandes êxitos do Godard dos anos sessenta, como Acossado e O Desprezo. Sua técnica é similar à que utilizou em O Artista e na saga Agente 117, com Jean Dujardin interpretando um hilariante agente secreto, que parodiava os códigos dos filmes de espiões do século passado. Em O Formidável, Hazanavicius faz um inventário de recursos formais próprios da Nouvelle Vague, que depois rearticula em sua narração. Sua sequência de sexo em planos fragmentados parece o melhor exemplo disso. Esse método foi chamado de pastiche. “No gosto de pôr etiquetas na comédia. No fundo, o importante é se faz rir ou não. Chamá-lo de pastiche me parece redutor, espero ter ido um pouco mais longe”, afirma. Hazanavicius prefere usar um termo duchampiano e meio pomposo, détournement: pegar um objeto existente e distorcer seu significado. “Embora prefira que me digam que rodei um excelente pastiche em vez de um détournement passável”, ironiza.
Michel Hazanavicius, apresentando ‘O Formidável’ em Cannes. ampliar foto
Michel Hazanavicius, apresentando ‘O Formidável’ em Cannes. Pascal Le Segretain Getty Images

O Godard de O Formidável é um provocador nato, um camicase que se alimenta do insulto e da rejeição alheia. Vai às reuniões de estudantes na Sorbonne durante o Maio de 68 na França, onde provoca vaias ao comentar a situação em Israel. “Os judeus são os nazistas de hoje”, proclama. Para Hazanavicius, o cineasta representa perfeitamente o espírito de seu tempo. “O Maio de 68 consistiu nisso: vamos começar destruindo a sociedade, e depois veremos o que fazer. Depois não construíram nada, mas talvez já tenha sido suficiente destruir esse mundo anterior”, diz o diretor. “Com Godard acontece algo parecido: ele derrubou tudo e depois passeou sobre as ruínas.” Sua revolução fracassará, assim como sua história de amor. Mas as duas terminarão deixando uma marca indelével.