Edgar Junio festeja o gol na Fonte.
Foto:Margarida Neide


DO JORNAL A TARDE

Daniel Dorea

Era uma decisão. Não entre supertimes sedentos por um título, mas entre equipes meia-boca querendo fugir do rebaixamento. Ainda assim, estava valendo, principalmente para os mais de 30 mil tricolores que comemoraram o triunfo por 2 a 1 no Ba-Vi com torcida única na Fonte Nova.

O gol de Edigar Junio aos 43 minutos do segundo tempo mandou o Esquadrão para o 12º lugar no Brasileiro, cinco pontos à frente do rival, agora o 17º, dentro da zona da degola. O Vitória tenta deixar a posição incômoda na próxima rodada, na qual recebe o Atlético-GO no domingo, às 17h. Mesmo dia em que o Bahia, às 16h (da Bahia), visita o Fluminense.

Cenário óbvio

Dos cenários possíveis do clássico, um dos mais óbvios permeou o primeiro tempo: Bahia tendo iniciativa (com 67% de posse de bola) e Vitória fechadinho, esperando uma chance de partir no contra-ataque. Isso é o básico, mas faz-se necessário pontuar que os dois times ficaram devendo muito futebol nos 45 minutos iniciais. O Esquadrão esteve sem inspiração. As arrancadas de Mendoza e Zé Rafael mostraram-se inócuas e o desempenho do armador Allione, no lugar do machucado Vinícius, ficou muito aquém do que se poderia esperar. O resultado foi uma produção escassa, com apenas duas finalizações, apesar do domínio territorial.

O Bahia também sofreu com o elevado número de faltas cometidas pelo rival, e tinha várias jogadas promissoras interrompidas desta maneira. Foram 13 infrações do Vitória contra apenas três do Tricolor na etapa inicial. Três rubro-negros foram advertidos, enquanto Mendoza (suspenso da próxima partida) levou o único amarelo do Bahia.

O jogo deixou a desejar em emoção e os pelos dos torcedores só foram levemente eriçados nos minutos finais. Aos 35, David provou que a estratégia do Leão de explorar a transição rápida nos contragolpes era uma boa pedida. Ele recebeu na esquerda, arrancou e chutou de canhota para acertar o lado de fora da rede.

O curioso é que o Bahia, dono da bola, respondeu na mesma moeda. Aos 42, Mendoza, acionado em contra-ataque, atrapalhou-se na hora de dominar a bola, mas conseguiu finalizar. Caíque defendeu.

A chance de o tempo complementar seguir com o mesmo ritmo da etapa inaugural era grande, mas um lance atípico com um minuto de bola rolando mudou tudo. Zé Rafael errou ao tentar passe mais incisivo, porém, contou com a sorte. E com a infelicidade de Wallace, que cortou mal a bola e deixou o oponente Mendoza na cara do gol. Ele não desperdiçou a oportunidade, assumiu a artilharia isolada do Bahia no Brasileiro, com seis gols, e deixou o time em condição confortável na partida.

Já o Rubro-Negro se viu obrigado a buscar a imposição de jogo. Assim, passou a dar brecha para a velocidade do rival, que contava com o dia inspirado de Mendoza. Aos 12, o colombiano roubou bola no meio-campo, tabelou com Edigar Junio e chutou por cima. A resposta do Vitória, quatro minutos depois, veio num vacilo feio de Edson, que perdeu a bola na entrada da sua área de defesa para David. Ele bateu forte e acertou a trave.

Neste momento, o Leão tentava encurralar o Bahia, que, aos 20 minutos, trocou Allione pelo zagueiro Thiago Martins. Aos 26, Tréllez ganhou de Tiago e seu toque sutil para tirar de Jean quase encontrou a rede. Parecia o começo de uma pressão rubro-negra, porém, o Esquadrão conseguiu um alívio aos 29, quando Eduardo chutou, a bola desviou em Wallace e quase traiu Caíque, que operou um milagre.

Enquanto se encaminhava para o fim, a partida ia ficando cada vez mais tranquila para o Bahia. No entanto, o Leão acabou chegando à igualdade em um lance tão casual quando o do tento de Mendoza. Aos 37 minutos, Cleiton Xavier cobrou escanteio, Jean saiu em falso, a bola bateu em Renê Júnior e sobrou para Wallace, que redimiu-se da falha no gol do Bahia ao marcar.

E aí, armado com três zagueiros para segurar a vantagem, como o Tricolor iria se mandar à frente para buscar o triunfo? A resposta veio aos 43 minutos. Régis fez jogadaça e deixou Edigar cara a cara com Caíque. O arqueiro rubro-negro evitou parcialmente o gol, que sairia na cobrança do escanteio com o mesmo Edigar, aproveitando desvio de Edson no primeiro pau. Delírio tricolor na arquibancada e tranquilidade na classificação.

O saudoso Simonal, que visitou a Fonte Nova, no ano de 1969, antes do Tri, hoje acrescentaria …
Acertou, quem disse …”Aqui é o País do Futebol”.

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Ciro: “Nem pensar em privatizar Petrobras e Eletrobras”

Enquanto Luciano Huck ouve o cicerone Arminio Fraga, e João Doria tem como guru a economista Ana Carla Abraão Costa, Ciro Gomes “mantém o ex-ministro e filósofo Mangabeira Unger como um de seus principais colaboradores”, segundo o Estadão.

“Recentemente, indicou apoio ao manifesto do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira que, entre outras coisas, condena as privatizações.”

Neste sentido, o ex-governador do Ceará e pré-candidato presidencial pelo PDT declarou ao jornal:

“Nem pensar em privatizar Petrobras e Eletrobras. Não é questão de esquerdismo infantil. Brasil e Venezuela têm petróleo excedente e os EUA consomem mais petróleo do que produzem. Por que vamos entregar isso aos estrangeiros? Isso é estratégico, é uma vantagem que vamos ter de usar por 30 anos.

A população, zangada com ineficiências do Estado, começa a acreditar que para acabar com o carrapato tem de matar a vaca. Qualquer venda de parcela do petróleo brasileiro feita com a mudança da lei de partilha, se eu for presidente, será desapropriada, com a devida indenização. Se privatizarem a Eletrobras, também tomaremos de volta. Pode conceder estradas, mas o que faz o gênio brasileiro nos aeroportos? Privatiza os que dão lucro e deixa o resto onerando o Tesouro.”

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Posted on 22-10-2017
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Miguel, no Jornal do Comércio (PE)

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Ernest Hemingway, com um leopardo morto, em 1953.
EARL THEISEN AP

DO EL PAÍS

Um ‘supermacho’ em dúvida: a face oculta de Hemingway
Nova biografia aborda a identidade de gênero e a orientação sexual do escritor norte-americano, conhecido pela virilidade que cultivava em sua obra literária e em público

Álex Vicente
Chicago

Ernest Hemingway (1899-1961) adorava o boxe, a caça, a pesca e as touradas. Participou de três diferentes guerras, das quais retornou como um herói. Explorou o continente africano, onde participou de numerosos safáris. E tratou as mulheres com a crueldade e violência conhecidas. Criou, definitivamente, um personagem sob medida, com quem encarnou um paradigma de virilidade durante o século passado. Também em sua obra deixou para trás o gosto pelo lirismo, as metáforas e a adjetivação do modernismo literário. Preferiu adotar um estilo mais varonil, fundamentado em frases breves e contundentes como socos. Essa foi sua imagem pública até o final de seus dias. A privada, entretanto, era um pouco diferente. Isso foi dito por Zelda, a instável, mas lúcida esposa de Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby: “Ninguém pode ser tão machão”.

Uma nova biografia, feita por Mary V. Dearborn, publicada pela editora norte-americana Knopf no primeiro semestre, confirma a insegurança que Hemingway sentia sobre sua identidade sexual. “Isso foi parte do que o destruiu ao final de sua vida”, diz Dearborn, a primeira mulher que enfrentou o desafio de condensar a agitada existência de Hemingway, após dedicar diversos volumes a outros símbolos da masculinidade literária como Norman Mailer e Henry Miller.

A biografia de 750 páginas examina todos os aspectos de sua vida e obra, mas é seu estudo das questões de gênero que a diferencia de suas antecessoras. O livro revela a fascinação do escritor pela androginia e suas fantasias sexuais com os cortes de cabelo: costumava pedir às suas companheiras que o usassem o mais curto possível, enquanto ele o deixou crescer e chegou a tingi-lo de loiro e acaju (quando lhe perguntavam o que havia acontecido, respondia que era culpa dos raios de sol). Ao retornar de sua segunda viagem à África, o autor fez questão de furar as orelhas. “Usar brincos terá um efeito mortífero em sua reputação”, precisou dissuadi-lo sua quarta esposa, a jornalista Mary Welsh.

Hemingway foi um homossexual reprimido? “A resposta curta é não”, afirma Dearborn. Qual seria a longa? “Foi indubitavelmente queer [de gênero ambíguo]. Superou, se preferirem, o fato de se definir como gay. Inverteu as expectativas existentes sobre a identidade e o comportamento de homens e mulheres”, acrescenta. Lembra também que em seu romance póstumo e inacabado, O Jardim do Éden, o alter ego de Hemingway, um escritor chamado David Bourne, pede a sua mulher que corte o cabelo e depois o sodomize com um consolo, prática que o próprio Hemingway teria praticado com Welsh. Para Dearborn, essas fantasias “não falam de homossexualidade e de travestismo, mas em adotar o papel feminino durante o ato sexual”. Hemingway se adiantou assim a essa fluidez de gênero que hoje está em todas as bocas.

Antes de viver em Paris, Pamplona, Cayo Hueso e Havana, Hemingway nasceu e viveu até os seis anos em uma casa de três andares e estilo vitoriano no bairro de Oak Park, na periferia de Chicago, que o escritor costumava definir como “um lugar de jardins largos e mentes estreitas”. No bairro se encontra um pequeno museu dedicado à sua memória, na mesma rua arborizada onde está sua casa natal. No interior do museu está exposta uma caricatura desenhada para a Vanity Fair, em 1933, em que Hemingway aparece vestido com uma tanga e jogando tônico capilar nos peitorais. Em outro mostruário está uma foto do escritor quando bebê. Aparece vestido de menina, algo comum no começo do século XX, quando os bebês eram vestidos dessa forma durante seu primeiro ano de vida. Mas sua mãe, uma pintora e cantora de ópera chamada Grace, decidiu prolongá-lo por muitos anos mais. De fato, criou Hemingway e sua irmã Marcelline, 18 meses mais velha, como se fossem gêmeos, e os vestiu indistintamente como se ambos fossem meninos ou meninas, segundo seu humor.
Trauma

Para Hemingway, esse capítulo seria um grande trauma que terminaria provocando uma ansiedade que desembocou em sua exagerada virilidade, de acordo com a biografia que Kenneth S. Lynn publicou em 1987, que permitiu alterar sua imagem pública e também abrir sua obra a novas interpretações. Quando são relidos romances e contos de Hemingway, ganhador do Nobel de Literatura em 1954, sobressaem menos os super-heróis e mais os homens inseguros. Como o protagonista de A Curta Vida Feliz de Francis Macomber, envergonhado por sair correndo quando tentava atirar em um leão em um safári, muitos deles tentam alcançar um ideal de masculinidade impossível.

Outro de seus biógrafos, Paul Hendrickson, autor de Hemingway´s Boat, sobre o apego do escritor por um barco batizado como Pilar, não acredita que essa hombridade superlativa e quase paródica possa ser vista como uma atuação ao público. “A hipermasculinidade foi uma parte do que ele era. Foi real e autêntica. Talvez fosse uma máscara conveniente ao seu ego, mas não era fraudulenta”, afirma o professor da Universidade da Pensilvânia e antigo jornalista do The Washington Post. “Acho que foi homossexual, mas com muitos sentimentos contraditórios em relação ao seu gênero. Nunca encontrei a menor prova que sugerisse que se sentia atraído por outros homens”.

Hendrickson também descreve sua difícil relação com seu filho mais novo, Gregory, que praticou o transformismo por toda sua vida e acabou mudando de sexo aos 63 anos. Morreu com o nome de Gloria em uma prisão para mulheres na Flórida, na qual acabou por praticar exibicionismo em via pública. Uma vez, quando era pequeno, Hemingway o surpreendeu provando as meias-calças de sua mãe. Mais tarde lhe diria: “Você e eu viemos de uma tribo estranha”. Para Hendrickson, Gregory/Gloria realizou o que seu pai só admitia em seu foro interior e em algum texto clandestino. “Por isso existia uma relação de amor e ódio entre eles”, afirma. Dearborn diz que essa foi a cela de onde nunca conseguiria escapar: “Em um mundo melhor, Hemingway teria furado as orelhas”.


DO EL PAÍS

Opinião

Brasil entre a pós-verdade e o teatro do absurdo

Juan Arias

O Brasil, às vésperas da eleição presidencial de 2018, está vivendo uma mistura explosiva entre a mentira emotiva da pós-verdade, e a obra de teatro do absurdo, materializada na genial peça, “Esperando Godot”, do dramaturgo Samuel Beckett. Na obra do dramaturgo irlandês sabemos que Godot nunca vai chegar e, mesmo assim, todos continuam esperando por ele. O escritor ironiza que a vida é o que está acontecendo e não o que estamos esperando, do contrário, acabaríamos não vivendo a realidade. Ou alguém imagina que em 2018 vai chegar o Godot para redimir o Brasil de todos seus males? Ou que teremos o milagre de contar com um Congresso novo, expurgado dos caciques que dominam hoje, com políticos limpos de corrupção? Ou um Supremo que, finalmente, também colocará os políticos de luxo na prisão, que seja apenas a garantia da Constituição, sem se sujar em obscuros jogos políticos? Ou que dedique seu tempo discutindo se os cigarros podem ter sabor? O tabaco mata, com ou sem sabor. Todos sabem.

Não é pessimismo, é simples observação da realidade. Logo iremos ver, por exemplo, repetida pela terceira vez, uma com Dilma e duas com Temer, a votação para decidir se condenam ou absolvem um presidente. Será uma nova peça de teatro do absurdo. Podemos observar, se ainda tivermos paciência para ouvir, o vazio da linguagem de suas senhorias, a oferta de seu voto às suas famílias, a mentira da pós-verdade coberta pela emoção da pobreza de suas palavras. O verdadeiro Brasil parece não existir ou contar. Não conta o Brasil das pessoas normais que gostariam que as palavras significassem a verdade, que, por exemplo, fosse abolido o foro privilegiado, que é realmente um refúgio seguro contra os crimes dos políticos, privilégio que possuem hoje, no Brasil, 20.000 pessoas enquanto que nos Estados Unidos nem o Presidente da República conta com isso. Ou que o voto fosse livre e não obrigatório. Ou que as pessoas entrassem na política não para se enriquecer nem para acumular privilégios, mas para estar a serviço dos eleitores.

O Brasil precisa hoje de um banho de realidade contra as mentiras da pós-verdade, manuseadas pela linguagem dos políticos que é mais perigosa do que jocosa, porque, em sua grosseria está escondido o desejo de enganar principalmente a grande massa de pessoas com pouca cultura, fascinadas pelos discursos messiânicos dos novos ou velhos Godot, que são na verdade mais um fantasma da mídia do que uma realidade e uma solução. A sociedade brasileira moderna precisa abrir os olhos para não ser arrastada pela ilusão de que são os políticos, com suas mentiras ou meias-verdades, os únicos que podem tirar o país do poço em que ele foi jogado. É preciso uma reação inteligente, racional e não emocional da rua e dos meios de comunicação para saber distinguir entre aqueles que se apresentam como meros salvadores e aqueles que realmente sentem e se interessam pela vida das pessoas, cada dia mais ameaçadas e manipuladas.

Hoje existe no Brasil uma parte da sociedade mil vezes mais bem preparada do que a geração de seus pais. É uma reserva imobilizada, frente a uma porta fechada para impedir sua entrada na vida política. Uma parte da sociedade que seria capaz de entender o perigo da pós-verdade e o absurdo dos messianismos já desgastados. É dever de todos deixar que passem, abrir as portas do poder a eles e para isso é essencial que, quando chegar a hora de decidir nas urnas, seja punida a velha política que agora funciona como tampão para evitar a chegada de uma nova sabedoria. Votar de novo, por exemplo, nos caciques de sempre, sabendo que estão condenados ou são culpados de crimes de corrupção, seria a constatação de que o Brasil prefere esperar sentado a chegada de Godot. Ou que, no fundo, prefere e acha divertido se embalar na ambiguidade da pós-verdade, o novo maná dos políticos que se recusam a morrer.

Arriba Catalunha!!! Arriba Espanha!!!

BOM DOMINGO!!!

(Vitor Hugo Soares)

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Posted on 22-10-2017
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DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Digitais não comprovam ligação com dinheiro, diz defesa de Geddel

As impressões digitais de Geddel Vieira Lima, identificadas em notas do montante de R$ 51 milhões apreendido em Salvador, não são suficientes para comprovar sua ligação com o dinheiro.

É o que afirmam os advogados do ex-ministro em documento encaminhado à Justiça, segundo a coluna Expresso, da Época.

“Isso porque, segundo eles, a investigação não indicou o local do bunker onde ocorreu a apreensão e nem as circunstâncias em que foi encontrada a dinheirama.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, foi taxativa ao rebater:

‘Falta a este argumento qualquer base nos fatos.’”

Tente outra vez, Geddel.

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Posted on 22-10-2017
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Frank, no jornal A Notícia (SC)


DO EL PAÍS

Lupita Nyong’o se somou à lista de mulheres que acusam Harvey Weinstein de abusos sexuais. A atriz ganhadora de um Oscar por Doze Anos de Escravidão contou seu encontro com o produtor em um artigo em primeira pessoa publicado no jornal The New York Times, no qual faz um relato dilacerador. “Sinto-me sozinha desde que ocorreu e culpei a mim mesma, assim como as demais mulheres que compartilharam suas histórias”, diz no início de sua narração.

A atriz, de 34 anos, conta que conheceu Weinstein na Alemanha. “Foi em 2011 na cerimônia de prêmios de Berlim, enquanto ainda estudava na Escola de Arte Dramática de Yale. Um intermediário o apresentou a mim como ‘o produtor mais poderoso de Hollywood’, recorda. “Como eu era uma atriz aspirante, estava ansiosa para conhecer gente da indústria, mas a pessoa que o apresentou me disse: ‘Ele é um bom contato na indústria, mas cuidado porque pode ser um abusador”, revela sobre quem ela hoje considera ter um “padrão sinistro de comportamento”.

“Pouco tempo depois de nos conhecermos em Berlim”, afirma Nyong’o, “Harvey me escreveu me convidando a assistir à projeção de um filme. Disse-me que o veríamos juntamente com sua família em sua casa em Westport, Connecticut”. Quando chegou à mansão, ali estavam seus filhos pequenos e os empregados domésticos. “Depois do almoço, chegamos à casa e conheci seus funcionários e seus filhos. Ele me mostrou a casa e depois reuniu todos nós na sala de projeção para ver o filme”, narra.
Lupita Nyong’ou, no dia em que ganhou o Oscar.
Lupita Nyong’ou, no dia em que ganhou o Oscar. KEVIN WINTER AFP

Lupita Nyong’o assinala que se instalou para a projeção. “Mas, 15 minutos depois, Harvey veio me buscar e me disse que queria me mostrar algo. Reclamei, já que queria terminar de ver o filme, mas ele insistiu para que fosse com ele, ditando a lei como se eu também fosse um de seus filhos. Eu não queria confusão diante de seus filhos, por isso saí da sala com ele.” Ela acrescenta: “Harvey me levou para seu quarto e disse que queria me fazer uma massagem. Pensei, inicialmente, que estava brincando. Senti-me insegura. Entrei um pouco em pânico e pensei rapidamente em me oferecer para lhe fazer, eu, as massagens e assim tomar o controle para ganhar tempo e saber em todo momento onde estavam suas mãos”. Nyong’o prossegue: “Ele concordou e se deitou na cama. Comecei a lhe massagear as costas para ganhar tempo, para descobrir como me livrar dessa situação indesejável. Em pouco tempo, ele disse que queria tirar as calças. Eu lhe disse que não fizesse isso e informei que me deixaria extremamente incômoda. Ele se levantou para fazer isso, de qualquer forma, e fui até a porta, dizendo que não estava nada cômoda com isso. ‘Se não vamos ver o filme, devo retornar à escola”, afirmei.

“Abri a porta e fiquei de pé junto ao batente. Ele pôs a camisa e voltou a mencionar o quanto eu era teimosa. Concordei, com uma risada fácil, procurando sair da situação de forma segura. Afinal, estava na casa dele com seus funcionários, mas acho que era um quarto à prova de som”, conta. “Não sabia como agir sem pôr em perigo meu futuro. Mas decidi que não aceitaria mais nenhuma visita a lugares privados com Harvey Weinstein”, pensou após esse primeiro encontro.

Depois eles voltaram a se encontrar em uma leitura de roteiro para um projeto de Weinstein, cujo produtor disse a Nyong’o que ela podia comparecer com quem quisesse. Depois do teste, os dois foram a um restaurante com amigos de Nyong’o e outra atriz. A reunião transcorreu normalmente. “Ele sabia ser encantador quando queria algo. Era sem dúvida um abusador, mas podia ser realmente encantador, o que me confundia. Fui pensando que talvez ele tivesse aprendido quais eram meus limites e fosse respeitá-los”, escreve Nyong’o sobre seu terceiro encontro com o produtor, hoje demitido de sua própria empresa.

Seu quarto encontro foi em Nova York, onde ela atendeu ao convite para ver o filme W.E.: O Romance do Século. Nyong’o viajou sozinha, pois se sentia mais segura após seu último encontro. No entanto, depois da projeção, ao chegar a um restaurante no bairro de TriBeCa, a assistente de Weinstein lhe informou que os dois jantariam sozinhos. “Antes que chegassem os aperitivos, anunciou: ‘Vamos direto ao assunto. Tenho um quarto privado no andar de cima onde podemos terminar nosso jantar’. Fiquei pasmada. Eu lhe disse que preferia comer no restaurante. Ele me disse que não fosse tão ingênua. Se queria ser uma atriz, tinha de estar disposta a fazer esse tipo de coisas. Ele disse que tinha saído com a famosa atriz X e Y, e que visse até onde as havia feito chegar.” Nyong’o relata a resposta que Weinstein lhe deu depois que ela reuniu coragem para rejeitar sua oferta: “Você não faz ideia do que está rejeitando”.
Lupita Nyong’ou, com seu Oscar como melhor atriz de partilha por seu papel em ‘Doze anos de escravatura’. ampliar foto
Lupita Nyong’ou, com seu Oscar como melhor atriz de partilha por seu papel em ‘Doze anos de escravatura’. cordon press

“‘Com todo o respeito, eu não seria capaz de dormir de noite se fizesse o que está me pedindo, por isso tenho de recusar’, respondi. Antes de ir embora, eu precisava me certificar de não ter despertado uma besta que arruinaria meu nome e destruiria minhas possibilidades na indústria antes mesmo de estar nela. ‘Só quero saber se estamos bem’, eu lhe disse. ‘Não sei sua carreira, mas você ficará bem’, disse-me. Pareceu uma ameaça e um consolo ao mesmo tempo. Do que, eu não podia ter certeza.”

Até setembro de 2013 eles não voltaram a se ver, depois da estreia de Doze Anos de Escravidão em Toronto. “Ele me disse que não podia acreditar como eu havia chegado tão rápido onde estava, e que tinha me tratado muito mal no passado. Estava envergonhado de suas ações e prometeu me respeitar no futuro. Eu agradeci e fui embora. Mas fiz uma promessa a mim mesma: não trabalhar nunca com Harvey Weinstein.” Pouco depois de Nyong’o ganhar o Oscar por esse filme, Weinstein lhe ofereceu um papel durante um encontro que ele insistiu em ter em Cannes, e ela se manteve firme em sua recusa todas as vezes nas quais ele lhe pediu que participasse do filme. “E esse foi meu último encontro com Harvey Weinstein. Eu compartilho isso agora porque agora sei o que não sabia então. Fui parte de uma comunidade crescente de mulheres que lidaram em segredo com o assédio de Harvey Weinstein.” Lupita Nyong’o conclui seu relato afirmando: “Agora levanto a voz para ajudar a pôr fim à conspiração do silêncio”.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que entrega os prêmios Oscar, decidiu há oito dias, em uma reunião de emergência, expulsar Harvey Weinstein. A decisão foi tomada com a aprovação de mais de dois terços dos 54 membros de sua junta diretora, entre os quais estão Steven Spielberg, Tom Hanks, Whoopi Goldberg e Kathleen Kennedy. No comunicado, a instituição afirma que Weinstein foi expulso “não só para nos separamos de alguém que não merece o respeito de seus colegas, mas também para enviar uma mensagem: acabou a época de assédio sexual em nossa indústria”. O produtor, acusado por 30 mulheres na última semana de abuso sexual em distintos graus (incluindo quatro violações), passou a ser tóxico em Hollywood e agora se retirou para dar entrada em uma clínica de reabilitação para viciados em sexo, depois que, além de tudo, sua mulher, Georgina Chapman, estilista da Marchesa, anunciou estar se divorciando dele.