DO EL PAÍS

Afonso Benites
Brasília

O Senado Federal reverteu a decisão da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal que afastou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) de suas funções parlamentares. Por 44 votos a 26, os senadores entenderam que o tucano deverá retomar as suas atividades no Congresso Nacional, assim como deixar de se recolher em sua casa todas as noites.

O tucano foi denunciado pela Procuradoria Geral da República sob acusação de corrupção no caso JBS. O magnata Joesley Batista delatou Aécio e apresentou áudios nos quais eles negociam a entrega de dinheiro – o senador diz que não era propina, mas sim a negociação de um apartamento. Com o dinheiro, dois milhões de reais, ele pagaria os custos de sua defesa nos diversos processos judiciais que responde junto ao Supremo. Seus advogados reclamam que a decisão do STF é inconstitucional e foi tomada antes mesmo de tornar Aécio réu.

O caso de Aécio vem sendo tratado com um divisor de águas. O STF enfrenta críticas por ter mudado completamente de entendimento: se o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi afastado por decisão soberana da Corte, o mesmo tribunal agora diz que cabe às Casas Legislativas referendar ou não a medida restritiva.

Em princípio, havia quase um consenso entre os partidos para proteger Aécio. Mas a repercussão de que os parlamentares estariam apelando a um espírito de corpo, várias legendas mudaram seu posicionamento. A principal delas foi o PT, que chegou a dizer que votaria pela manutenção das funções parlamentares do tucano, e, depois, decidiu que gostaria de vê-lo afastado. A importância que as siglas passaram a dar a questão foi tamanha que nem questões de saúde foram levadas em conta. Romero Jucá (PMDB-RR), recém operado de uma diverticulite, e Paulo Bauer, internado na manhã de terça-feira com uma crise hipertensiva, estiveram no plenário para votarem a favor do tucano. Ronaldo Caiado (DEM-GO), que estava de licença médica por ter fraturado um ombro ao cair de uma mula, também compareceu, em cadeira de rodas, para votar contra o tucano.

No Senado, aliados de Aécio diziam estar defendendo as prerrogativas da Casa frente ao STF – só se pode prender parlamentares em flagrante e são os eleitos que definem se afastam ou não o acusado de seu mandato, segundo a Constituição. “Estou preocupado com os precedentes. Eu estou preocupado que, amanhã, estendam as medidas cautelares não só para o Congresso Nacional, mas para as Assembleias Legislativas, e os governadores com poder e aqueles que tiverem poder, e até membros do Poder Judiciário, constranjam deputados estaduais”, afirmou o senador Jader Barbalho (PMDB-PA).

Um outro defensor e correligionário de Aécio, Roberto Rocha (PSDB-MA), diz que os que defendem o afastamento estão mais preocupados com a opinião pública do que com a questão constitucional. “Esse jogo é de perde-perde. É um jogo de quem se preocupa com as redes sociais. E, se alguém ganhar, está fora do campo, usando botas e fardas”, declarou.

Os que queriam manter a decisão da turma do STF argumentavam que os senadores só fazem o jogo corporativo de salvar Aécio pensando nas acusações que eles próprios enfrentam e sem se importar com as cobranças dos eleitores. “Não votamos contra o senador, votamos em respeito à independência dos poderes, votamos em respeito a quem compete a última palavra em matéria de aplicação e interpretação da Constituição, que é o Supremo Tribunal Federal e não ao Senado Federal”, afirmou Álvaro Dias (PODE-PR).

Mais cedo, antes da votação, Aécio enviou uma carta a todos os senadores na qual disse ser alvo de uma “trama ardilosa” construída com a ajuda de membros da Procuradoria Geral da República. Afirmou ainda que o que está “em jogo é se pode, de forma monocrática ou por maioria de votos de uma das turmas do Supremo, um parlamentar ser afastado de suas funções sem ser previamente julgado”.

Desafinado – Antonio Carlos Jobim & Joe Henderson (HQ) (From Carnegie Hall Salutes The Jazz Masters, 1994).

BOA TARDE!!!

(Gilson Nogueira)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Bendita ração

A ração de João Doria não é de João Doria, e sim da Igreja Católica.

Dom Odilo Scherer disse à Folha de S. Paulo:

“Isso não é um projeto do prefeito. O apoio da Igreja a essa iniciativa vem de longe.”

O arcebispo de São Paulo teme que o projeto possa ser cancelado por causa de um bando de demagogos:

“Eu acho que seria uma pena algo que nasceu para ser bom, por equívocos ou manipulação política, seja de qual lado for, venha a ser de alguma forma amputado ou boicotado”.

O próprio Dom Odilo Scherer experimentou a ração:

“Provei os produtos feitos a partir da farinata e não teria problemas em consumi-los todo dia.”


Fernando de Szyszlo/ VICENTE

DO EL PAÍS

ARTIGO/PEDRA DE TOQUE

A morte do amigo

Mário Vargas Llosa

Eram três da madrugada quando minha filha ligou para dizer que Lila e Fernando de Szyszlo tinham morrido. O mundo ao meu redor vai se despovoando e ficando mais vazio

Eram três da madrugada em Moscou quando o telefone tocou. Minha filha Morgana ligava para dizer que Lila e Fernando de Szyszlo tinham morrido, ao despencarem de uma escada de sua casa. Não consegui mais dormir. Passei o resto da noite paralisado por um atordoamento estúpido e um sentimento de horror.

Tantas vezes ouvi Szyszlo (Godi para os amigos) dizer que não queria sobreviver a Lila, que se ela morresse primeiro ele se mataria, que, pensei, talvez tivesse acontecido assim. Mas, minutos depois, quando pude falar com Vicente, o filho de Szyszlo, que estava lá trêmulo, junto aos cadáveres, me confirmou que tinha sido um acidente. Depois alguém me informou que haviam morrido de mãos dadas e, segundo os médicos, a morte tinha sido instantânea, por uma idêntica fratura de crânio.

O que me resta de vida já não será o mesmo sem Godi, o melhor dos amigos. Foi um grande artista, um dos últimos, entre os pintores, a quem se podia aplicar esse adjetivo com justiça, e uma esplêndida pessoa. Culto, afetuoso, divertido, leal. Enriquecia a noite com suas histórias e suas piadas quando estava de bom humor, e suas observações eram agudas e certeiras quando se recordava das pessoas que havia conhecido e que admirava, como Tamayo, Breton e Octavio Paz. Havia nele uma decência indestrutível quando falava de política ou do Peru, uma falta total de oportunismo ou cautela, uma integridade que –sem que buscasse, e a contragosto– em seus últimos anos foi transformando-o no seu país em uma autoridade moral cuja opinião era solicitada sobre todos os assuntos. Quando estava de mau humor se fechava em um mutismo de sílabas, uma imobilidade de estátua, e o nariz se arrebitava.

Godi estava mais que penalizado com a grande confusão que caracteriza a arte em nossos dias

Sua paixão era a arte, claro, mas a literatura o apaixonava também, e havia lido muito, e lia e relia sempre seus autores favoritos, e era uma delícia para a inteligência ouvi-lo falar de Proust, de Borges, e ouvi-lo recitar de memória os sonetos mais barrocos de Quevedo ou o poema de amor que Doris Gibson inspirou a Emilio Adolfo Westphalen.

Quando o conheci, em julho ou agosto de 1958, era casado com Blanca Varela. Viviam numa pequena mansarda de Santa Beatriz, que era ao mesmo tempo casa e ateliê. Desde o primeiro instante soube que seríamos amigos íntimos. A amizade é tão misteriosa e intensa como o amor, e a amizade de Blanca e Godi foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida, à qual devo experiências estimulantes, cálidas, dessas que nos compensam pelos maus momentos e nos revelam que, feitas as contas, a vida afinal vale a pena ser vivida.

Blanca e Godi se casaram muito jovens e foram excelentes companheiros: ambos se ajudaram a ser, ele, um magnífico pintor, e ela, uma poeta delicada e sensível. Mas o grande amor-paixão de Szyszlo foi Lila, uma mulher maravilhosa que o entendeu melhor do que ninguém e lhe deu essa coisa elusiva e tão difícil que é a felicidade. Recordo agora a alegria que crepitava em cada linha dessa carta que me escreveu quando enfim puderam casar-se. Pensando bem, que tenham compartilhado esse final tão rápido e ostentoso foi talvez a melhor maneira que tinham de morrer. O problema já não é mais deles, é de nós que ainda ficamos por aqui, “intratáveis quando os recordamos”, como diz o poema de César Moro, outro dos que Godi tinha sempre intacto na memória.

Acho que Godi esteve sempre perto, ajudando-me com sua amizade generosa em quase todas as coisas importantes que me aconteceram. Nunca pude agradecer-lhe o suficiente por, nos três anos em que as circunstâncias me empurraram a atuar na política, ter se dedicado também de corpo e alma a essa tarefa tão pouco afim ao seu caráter e, com outros dois amigos –Cartucho Miró Quesada e Pipo Thorndike–, na mais delicada e incômoda das responsabilidades: controlando a lisura da arrecadação e dos gastos da campanha. Claro que foi a primeira pessoa em que pensei quando fui receber o Prêmio Nobel de Literatura, e lá estava, apesar da viagem interminável e dos transtornos que os longos trajetos de avião infligiam à sua saúde. Muitas vezes me havia prometido que, se algum dia meus livros fossem incorporados à Pléiade, iria acompanhar-me e, de fato, ali apareceu de repente, em Paris, com Vicente, e sua intervenção no Instituto Cervantes foi a mais pessoal e celebrada de todas.

Tenho certeza de que durará mais que sua geração e que a minha e que muitas outras mais.

Muitas vezes o vi enfrentar com estoicismo as decepções, tão frequentes na vida peruana. Mas há uma que o fez desmoronar e nunca pôde superar: a morte de seu filho Lorenzo, em um acidente aéreo. Uma ferida que sangrava sem cessar, inclusive naqueles períodos em que trabalhava melhor e parecia estar mais animado. Nunca esquecerei a extraordinária elegância com que suportou essa carta pública, tão mesquinha, de seus colegas peruanos, protestando por terem querido dar seu nome a um museu de arte moderna em Lima.

Esta manhã, enquanto visitava a galeria Tretiakov, sem deixar um só minuto de pensar nele, imaginava como teria sido melhor ter a sua companhia para este percurso pela Rússia artística dos anos dez e vinte do século passado, a de Kandinsky, Chagall, Malevich, Tatlin, Goncharova e tantos outros. E lembrava o muito que aprendi ao seu lado, visitando exposições ou ouvindo-o falar da própria pintura, algo que fazia raras vezes, e sempre para lamentar que cada quadro que saía do seu ateliê fosse, não importa quão árduo trabalhasse, “uma derrota irremediável”.

Estava mais que penalizado com a grande confusão que caracteriza a arte em nossos dias, como confessa na autobiografia, publicada em janeiro deste ano (Alfaguara), com os engodos que se perpetram e que são consolidados por críticos e galeristas sem escrúpulos e colecionadores gananciosos e insensíveis. Ele nunca enganou ninguém e suou frio para seguir em frente desde que abandonou os estudos de arquitetura e começou a pintar, ainda muito jovem, telas ligeiramente influenciadas pelo cubismo. Desde que descobriu a arte não figurativa se entregou a ela, com disciplina, perseverança e tenacidade, redescobrindo pouco a pouco, com o passar dos anos, a realidade por meio de seu país. A arte dos antigos peruanos se transformara em uma obsessão da sua idade adulta e se insinuaria em suas pinturas, confundindo-se com as formas e as cores mais ousadas da vanguarda. Até constituir esse mundo próprio do qual dão conta os misteriosos aposentos solitários e geométricos, que têm algo de templo e algo de sala de torturas, os estranhos ardis e totens que os habitam e que com suas sementes, nus, incisões, fendas e meias luas, sugerem um mundo bárbaro, anterior à razão, feito somente de instinto, magia e medo. Apesar de ser tão lúcido, provavelmente nem ele teria podido explicar tudo aquilo que sua pintura evoca e mescla, e que a clarividência de sua intuição e seu bom ofício artesanal integravam nesses belos quadros inquietantes, incômodos e perturbadores. Agora que ele não está mais, nos resta sua pintura. Tenho certeza de que durará mais que sua geração e que a minha e que muitas outras mais.

O mundo ao meu redor vai se despovoando e ficando cada dia mais vazio.


Uma canção sobre tempo e sentimentos, que balança o coração do editor do BP em qualquer tempo.

BOM DIA!!!

DEU NO BLOG O ANTAGONISA

Geddel e Lúcio não pagavam aluguel por ‘bunker da propina’

Administradora do prédio usado por Geddel Vieira Lima, Patrícia Queiroz dos Santos revelou à Polícia Federal ter presenciado telefonemas de Silvio Silveira, dono do imóvel, a Geddel e Lúcio Vieira Lima.

Silveira não cobrava pelo aluguel do apartamento, mas pedia em troca apoio dos irmãos para obras de pavimentação que beneficiassem seus empreendimentos imobiliários.

“Já vi Sílvio ligando para os irmãos, por exemplo, para pedir que vias sejam pavimentadas em acessos de empreendimentos que as empresas do grupo do qual Sílvio faz parte fizeram a construção”, disse Patrícia, em depoimento obtido pela Folha.

out
17
Posted on 17-10-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 17-10-2017


Clayton, no jornal O Povo (CE)


Cristina Kirchner em campanha

DO EL PAÍS

Carlos E. Cué

Buenos Aires

Quando se olha para a superfície das informações argentinas, as manejadas pelos círculos do poder, todas as pesquisas relevantes publicadas e não publicadas, as percepções dos analistas, o ambiente empresarial, sindical e político, a conclusão é clara: Cristina Fernández de Kirchner está a ponto de sofrer uma derrota nas eleições legislativas de 22 de outubro, dentro de uma semana, quando competirá para ser a senadora por Buenos Aires, o que marcará bem provavelmente seu declínio definitivo e consolidará o poder de Mauricio Macri, que dominará assim o país com uma oposição muito debilitada.

Mas ela vai lutar até o final para evitar isso. Nesta segunda-feira organizou um grande ato no estádio do Racing, em plena região metropolitana, a empobrecida periferia industrial de Buenos Aires, onde está seu núcleo duro. Será uma nova exibição para recordar que continua sendo capaz de mobilizar massas de argentinos, como outrora. Seus seguidores admitem que a batalha está difícil, sobretudo, dizem, porque os meios de comunicação mais importantes apoiam o Governo, mas argumentam que debaixo dessa superfície informativa ela está se mexendo nas redes, onde agora concentra uma campanha sem muitos recursos, uma onda de descontentamento com o Governo que pode levar a uma surpresa. Em sua equipe lembram que há dois anos, quando Macri chegou ao poder, todas as pesquisas indicavam que ele venceria o segundo turno por 10 pontos, mas, no fim, obteve uma vantagem de menos de 3, porque na reta final o avanço do peronismo foi muito importante. Desta vez vão tentar de novo, embora pareça muito mais difícil. De qualquer modo, ela será senadora porque, mesmo perdendo, entra – há três cadeiras em disputa –, mas uma derrota clara seria um golpe político duríssimo para uma mulher acostumada a ganhar desde os anos 90.

Macri não tem só a seu favor todo o mundo do poder empresarial e boa parte do sindical, um respaldo internacional bem notável e uma corrente de mudança depois de 13 anos do kirchnerismo no poder. Conta também com um aliado muito poderoso: boa parte do peronismo deseja com mais paixão até que os macristas que Cristina Fernández de Kirchner perca estas eleições. Porque na votação de 22 de outubro duas coisas se definem. Uma, que já parece certa, é confirmar que o macrismo veio para ficar, que não é um acidente. “Não ganhamos por acaso em 2015, porque não havia outros. Esta mudança é profunda”, insiste Marcos Peña, mão direita de Macri. “Peço a todos que se distanciem do ceticismo e do pessimismo crônico para fazer as cosias que chegou a hora de fazer”, clama o próprio Macri antes os empresários.

A consolidação do poder do presidente é um fato. Mas há outra coisa em jogo nestas eleições: quem liderará a oposição. Cristina Kirchner voltou com esse objetivo, ser a chefa da oposição. E todos os peronistas que aspiram a esse posto, e são vários, entre eles alguns de destaque, como o governador de Salta, Juan Manuel Urtubev, estão se mexendo para que ela perca no domingo, dia 22, e assim eles possam aspirar a ser o candidato que enfrentará Macri em 2019. Por isso a ex-presidenta necessita de uma vitória ou pelo menos uma derrota por pequena margem para evitar que seja o próprio peronismo, um movimento criado por e para o poder, que não aceita perdedores, a devorá-la rapidamente. Ante essa possibilidade de derrota, ela já está começando a dizer que “a transparência das eleições não está garantida”.

Apesar de haver tantas coisas em jogo, a campanha transcorre na surdina, sem grande entusiasmo, porque a maior parte do poder argentino já dá por certa a vitória. De fato, Macri cresceu tanto que está rompendo com todos os manuais de campanhas eleitorais. Anunciou abertamente que depois das eleições haverá uma forte elevação de tarifas, isto é, que as pessoas verão um aumento no combustível e nas contas de luz e água. E nem sequer isso o fez cair nas pesquisas. Como se fosse pouco, admitiu que está em cima da mesa a possibilidade de uma reforma trabalhista para baixar o custo argentino, embora insista em que não será tão radical como a polêmica reforma brasileira. Além disso, entrou em campanha contra as “máfias sindicais” e deixou cair que tem uma lista com 562 pessoas que são as que impedem o crescimento do país com seus freios em diferentes setores.

Macri está muito confiante porque todos os analistas afirmam que a onda em seu favor é irrefreável neste momento. Só um dado na última semana mostrou que as coisas ainda poderiam se complicar para ele: a inflação voltou a subir, com 1,9% mensal. É precisamente esta inflação que está castigando os bairros populares onde Cristina tem o coração dos eleitores. A crise econômica é a última esperança da ex-presidenta para evitar a pior derrota de sua longa e bem-sucedida careira política.