Poesias que moram no meu quintal

Janio Ferreira Soares

Os sábados começavam com uma leve ressaca, consequência dos muitos vinhos brindando às sextas, o arroz de pato ou simplesmente a perfeição do solo de Ovelha Negra executado por Carlini na sua guitarra Les Paul. Vagalumes e outros seres noturnos também eram festejados, assim como a lua refletida n’água, parceira ideal para o lento ranger da rede ninando um corpo cansado na paz da varanda oeste.

Não sei se por causa das primeiras matizes transpassando janelas ou se para encontrar minha salvação num Deus estrangeiro, deixava meu ceticismo de lado e começava o dia colocando My Sweet Lord num volume alto o suficiente para que o doce Senhor pudesse ouvir o clamor de George Harrison querendo encontrá-lo – e, de quebra, também me perdoar, por duvidá-lo.

Crianças com faíscas nas pernas e biscoitos nas mãos subiam em árvores de variados frutos, enquanto os primeiros cheiros saíam das panelas de Finha num provocante passeio pela casa, anunciando aos olfatos que, em breve, o invisível se materializaria em concretas delícias.

O sol chegando na cumeeira era a deixa para arriar a capota do jipe 65 de cor semelhante ao oitizeiro que o sombreava, pronto para lançar-se porteira afora em busca dos lugares mais remotos que, dependendo do charme, tornavam-se estações de uma via-crúcis inversa, onde as paradas eram celebradas com folias, bebidas e canções.

Assim, para cada pau d’arco arroxeando o chão com suas flores, um stop e a voz de Milton cantando tios, sabiás e laranjeiras. Um riachinho correndo pós-chuva da madrugada? Vem cá, Luiza, clarear o mato como um brilhante partindo a luz em sete cores, revelando os sete mil amores do nosso maestro soberano. Vento norte, um zum de besouro no ar? Lá vinha Djavan com suas onomatopeias e deliciosas dissonâncias, por sinal em claro risco de extinção nesse momento em que patrulhas cibernéticas ditam regras, e os padrões sonoros e estéticos se traduzem em Giselle Bündchen, aos prantos, achando que vai salvar o mundo cantando Imagine.

A propósito, este é meu segundo texto neste setembro que hoje finda, onde falo mais de mim do que dos fatos que rolam por aí. Para quem prefere atualidades, minhas desculpas. É que por esses dias voltei a andar no sítio onde morei por quase 30 anos – e que há uns 10 estava fechado – e, por conta disso, um filme bom não para de passar em minha cabeça. Mas como outubro está começando, pode ser que as coisas mudem. O problema é que umas caraibeiras já amarelam na beira do rio e um casal de vin-vin faz seu ninho bem num pé de um jambo-branco florido. Desse jeito, a cura gay e as arengas de Trump e Jong vão ter que esperar um pouco até eu me habituar, de novo, com os poemas soltos que a vida, há anos, escreve nas bordas do meu quintal.


Raquel Dodge: evasivas na primeira entrevista à frente da PGR…


…Fernanda Torres: verdadeira na entrevista do Manhattan Connection.

ARTIGO DA SEMANA

Raquel Dodge (Brasília), Fernanda Torres (NY): arte e desastre da entrevista

Vitor Hugo Soares

A nova procuradora geral da República, Raquel Dodge, cada dia mais trancada, reticente e enigmática (ao olhar e percepção deste rodado jornalista) e a atriz e escritora Fernanda Torres (cada vez mais brilhante, carismática, bem humorada e espontânea por natureza ao bater na porta dos 50 anos de profissão), estiveram esta semana sob o crivo de perguntas e o foco direto dos holofotes, em entrevistas merecedoras de atenção e análise (de forma e conteúdo).

No caso de Dodge, pelo que pode representar de desapontamento e desperdício, uma coletiva cercada de tantas expectativas de informações e esclarecimentos, nos territórios complicados da justiça, da política, do governo e da imprensa no País na quadra atual. No caso de Fernanda, pela arte, interesse e relevância que pode representar uma boa e bem conduzida sessão de perguntas e respostas e de sua insubstituível importância para a comunicação em geral e para o jornalismo em particular. Acompanhei as duas entrevistas à distância, em Salvador, através do canal privado Globo News.

Em New York (onde já morou, estudou e trabalhou), para o lançamento de seu livro “Fim”, e festejando meio século de marcante carreira, a atriz e escritora foi a entrevistada, na quase madrugada de domingo, do programa Manhattan Connection. Revista semanal de TV ancorada pelo jornalista Lucas Mendes, nascido nas montanhas de Minas Gerais, mas à vontade, como sempre, no estúdio de onde comanda as suas “manratazanas” ( a expressão é do próprio Lucas) na cidade da maçã: Caio Blinder, Ricardo Amorim, Diogo Mainardi e Pedro Andrade.

A harvardiana Raquel Dodge, cercada de máximos elogios acadêmicos, técnico – jurídicos e oficiais, no dia seguinte, em Brasília, sob intensa carga de tensão e bombardeio de notícias, decide dar a sua primeira entrevista coletiva à jornalistas de uma imprensa ávida não só de novas informações mas, principalmente, de definição de posturas e esclarecimentos diretos da nova comandante da PGR, um pilar fundamental deste tempo de Lava Jato e de investigações de corruptos, corruptores, propineiros e atrapalhadores de investigação. Tremores e temores que começam nos palácios do atual mandatário, Michel Temer (PMDB), praticamente no fundo do poço, de descrédito da sociedade, como demonstram cabalmente os minguados 3% de aprovação da mais recente pesquisa de opinião, divulgada nesta quinta-feira pelo Ibope.

A nova comandante da PGR estava “em casa”, mas eram evidentes os sinais de que não se sentia à vontade. Parecia incomodada e fora do tom desde a leitura de morosa e inapetente (do ponto de vista jornalístico) apresentação feita por escrito. Seus entrevistadores – quase todos habituados a farta lavoura de bambu e produção de flecha – pareciam cheios de dedos e ainda mais incomodados que a entrevistada.

Aqui faço um interlúdio (obrigado Henri Miller), para uma rápida consulta ao “Dicionário de Jornalismo”, de Juarez Bahia (ex – editor nacional do Jornal do Brasil, mestre de teoria e prática de jornalismo, seis prêmios Esso de Reportagem), essencial para continuidade das informações e análise deste artigo, sobre os desempenhos de Fernanda Torres e de Raquel Dodge, no Manhattan e na coletiva em Brasília, respectivamente. Meu saudoso ex-editor destaca a essencialidade da entrevista, ao assinalar que os padrões do noticiário a valorizam e privilegiam, como essencial na comunicação de massa, pelo fenômeno psicoafetivo que esta prática envolve. Alerta, ao mesmo tempo, para os maiores riscos da entrevista – a dissimulação e a fabulação- seja em que contexto for.

A experiência demonstra –segundo está no dicionário de Bahia – quanto mais amplo e aberto o campo da entrevista, menores são os riscos que a cercam. A pergunta “fechada” (este foi bem o caso do encontro com Dodge, do começo ao fim), sugere resposta insatisfatória, dispersiva e incompleta. A entrevista de pergunta “aberta” (o caso de Fernanda Torres no programa da TV), provoca resposta espontânea, comparativa, documental. Histórica, muitas vezes.

Na primeira entrevista de Dodge à frente da crucial PGR, para o bem ou para o mal, as perguntas, em geral, foram tímidas, macias e, em alguns casos, excessivamente bem comportadas. As respostas foram quase todas evasivas, insossas, burocráticas, com o mesmo odor de naftalina e a irrelevância das falas do atual ocupante do Palácio do Jaburu. No fim, aquela incômoda sensação de que praticamente nada de novo ou relevante restou da conversa para a abertura da notícia, com a revelação ou o registro do mais importante da entrevista). Por aparente falta de assunto, ficou praticamente unânime (ou fabulado?), que o principal foi a procuradora-geral ter dito que a rescisão de acordo de delação premiada não invalida as provas obtidas no acordo. Mais gosto de coisa requentada, impossível. Ou não? Ficou a esperança, que tantas vezes experimentei em situações do tipo, em minha longa passagem pelo JB e outras redações: “vamos ver se melhora da próxima vez”.

Na entrevista de Fernanda Torres, no Manhattan Connection, o que se viu e ouviu foi praticamente o oposto, desde as irreverentes e espontâneas perguntas do âncora do programa, e as respostas à altura da ágil e sempre bem humorada entrevistada. Mesmo quando precisou responder questões pessoais, políticas e profissionais delicadas. A exemplo de responder sobre os seus piores momentos em 50 anos de vida artística no teatro, no cinema e na televisão. De falar do desastre que abala o Rio de Janeiro, sua cidade amada, e do triste e deprimente quadro político e moral, que as vezes lhe dá vontade de deixar seu país, “mas que logo passa”.

Do mesmo jeito respondeu sobre o seu amor por Portugal e admiração pelo modo dos portugueses superarem suas crises – pessoais, econômicas, políticas e governamentais. E sua notável forma espontânea e desencucada de narrar historias e situações. A exemplo de quando morou em Lisboa e dos contatos com a gente da terra na fase em que esteve à frente do elenco da peça “A Casa dos Budas Ditosos”, baseada no livro de João Ubaldo Ribeiro, e precisava repetir, em cena todas as noites, a frase do escritor baiano: “toda portuguesa gosta de dar o c…”.
Formidável e de matar de rir, inclusive diante da reação de seus entrevistadores, a começar por Lucas Mendes. Nesta entrevista, o gosto e desejo que ficaram foi o de “quero mais”. Uma entrevista para não esquecer. Bravo, entrevistada e entrevistadores.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Maravilha de música e de intewrpretação.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Alckmin e o ‘dever moral’

Em entrevista à rádio Jovem Pan, Geraldo Alckmin declarou que o eventual perdedor de uma prévia tucana pela candidatura ao Planalto terá a obrigação de apoiar quem ganhar:

“Vou trabalhar para eu ser candidato. Se não for, não tem problema, eu vou ajudar quem for candidato. Quem ganhar está legitimado para ser o candidato. Quem perder tem o dever moral de apoiar quem ganhou.”

O governador não citou o nome de João Doria na entrevista nenhuma vez. Nem precisava.

set
30
Posted on 30-09-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 30-09-2017


Jorge Braga, no jornal O Popular (GO)

set
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Posted on 30-09-2017
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À esquerda, ‘Mona Lisa’. À direita, o rascunho que o Louvre está estudando, intitulado ‘Monna Vanna’. Christophel Fine Art/UIG via Getty Images

DO EL PAÍS

O desenho de um nu que guarda muita semelhança com a Mona Lisa pode ter sido feito por Leonardo da Vinci, afirmaram especialistas para a agência de notícias AFP nesta quinta-feira, 28 de setembro. Um grupo de cientistas do museu do Louvre de Paris, onde se exibe a obra-prima, examinaram um desenho a carvão conhecido como a Monna Vanna, atribuído ao estúdio do artista florentino.

O desenho permaneceu desde 1862 na ampla coleção de arte renascentista do Museu Condé, no palácio de Chantilly, ao norte da capital francesa. Os curadores do museu acreditam, depois de meses de exames no Louvre, que “o desenho é pelo menos em parte” obra de Da Vinci. “O desenho tem uma qualidade, pela forma como foram feitos o rosto e as mãos, que é verdadeiramente notável. Não é uma cópia sem graça”, explicou o curador Mathieu Deldicque. “Estamos vendo algo que foi realizado em paralelo à Mona Lisa, no fim da vida de Leonardo”, acrescentou.

“É quase certo que se trata de um trabalho preparatório para pintura a óleo”, acrescentou, deduzindo que estaria intimamente relacionado com a Mona Lisa. Segundo Deldicque, as mãos e o corpo são quase idênticos à obra-prima de Leonardo de Vinci. O desenho é quase do mesmo tamanho que a Mona Lisa, enquanto os pequenos orifícios que há em volta do corpo indicariam que pode ter sido usado para transferir essa silhueta para a tela, argumentou.
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O especialista em restauração do Louvre, Bruno Mottin, confirmou que desenho data da época em que Leonardo de Vinci, no início do século XV, viveu e que era de uma “qualidade muito alta”. Os exames comprovaram que não se tratava de uma cópia de um original perdido, declarou o especialista ao diário Le Parisien. No entanto, advertiu que “é preciso ser prudente” sobre a autoria. “O traço da parte de cima do desenho, perto da cabeça, foi realizado por uma pessoa destra”, enquanto que o artista, que morreu em França em 1519, era canhoto. “É um trabalho que levará tempo”, acrescentou. “Trata-se de um desenho sobre o qual é muito difícil trabalhar, porque é especialmente frágil.”

No entanto, Mottin afirmou que esperavam esclarecer a identidade do artista em um prazo de dois anos, em tempo para uma exposição em Chantilly comemorativa dos 500º aniversário da morte de Leonardo da Vinci.

Mais de 10 especialistas estudaram cuidadosamente o desenho nas últimas semanas, recorrendo a vários scanners e outros métodos científicos. Suas pesquisas se concentraram em averiguar se o desenho foi feito antes ou depois da Mona Lisa, concluída depois de 1503.

O desenho de Chantilly tinha sido atribuído, em princípio, ao mestre toscano quando foi comprado pelo Henrique D’Orleães (Duc d’Aumale) em 1862 por 7.000 francos, valor importante naquele época. Mas, anos depois, os especialistas duvidaram de sua autenticidade e deduziram que o desenho pode ter estado executado por algum integrante do estúdio do artista.

Há cerca de 20 pinturas e desenhos da Mona Lisa nua em coleções de todo o mundo, mas a maior parte delas até hoje foi muito difícil de datar.