Guido Araújo: um nome e um símbolo.

Bahia em Pauta reproduz nesta quarta-feira, 27 de setembro de 2017, da desoladora notícia da partida de Guido Araújo (aos 83 anos), criador, pilar e guia da Jornada de Cinema da Bahia. este artigo publicado originalmente em 13 de setembro de 2008, no Blog do Noblat (O Globo) e na extinta revista digital do Terra Magazine, de Bob Fernandes. É o tributo singelo deste BP e deste editor (que viu a mostra nascer e andou ao lado de seu fundador durante décadas) a Guido Araújo, o heroico e notável senhor das Jornadas.

Que a memória de Guido Araújo seja tão resistente, digna e exemplar, quanto foi a vida deste incrível baiano de Castro Alves, cidadão da América Latina e do mundo. Adeus, com saudades. (Vitor Hugo Soares).

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Jornada de cinema e resistência (a Guido Araújo)

Vitor Hugo Soares

A 35ª edição da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, inaugurada quinta-feira em Salvador (segue com sua múltipla e sempre politizada e polêmica programação de filmes e debates até o dia 18), dá motivos a muitas ilações. Não apenas as vinculadas com o objeto em si da mais antiga e resistente mostra de cinema documental do País. Também para outras e múltiplas referências jornalísticas, sentimentais e políticas, principalmente, evocadas por este evento nascido em meio ao tumulto do desbunde baiano e brasileiro dos anos 70.

Uma das lembranças mais comoventes: o 11 de Setembro de 1973, do ataque terrestre e aéreo ao Palácio La Moneda, em Santiago do Chile, no mais dramático e sangrento atentado à democracia na América Latina. Uma das primeiras vítimas foi o presidente Salvador Allende, abatido no começo da escalada de mais de três mil mortos e desaparecidos nos anos seguintes de ditadura. Quando a notícia da morte de Allende chegou a Salvador, abria-se a Jornada de Cinema daquele ano. Cineastas e público promoveram então, na calçada do também falecido Cine Rio Vermelho, a primeira homenagem à memória do líder político desaparecido e, ao mesmo tempo, o primeiro ato de protesto no Brasil contra a implantação da ditadura chilena.

Para os de memória curta, os que descartam ou simplesmente preferem nem ouvir falar dos desvarios no continente em décadas tão recentes, vale dizer: sem dar bolas para os que a acusam de saudosista e de ser “um dos últimos redutos de artistas e intelectuais da velha esquerda brasileira”, vale informar: a jornada iniciada com garra e teimosia como simples mostra local de curta metragem pelo documentarista Guido Araujo (assistente de direção do carioca Nelson Pereira dos Santos no antológico “Rio 40 Graus”), virou evento internacional em meio a solavancos e tempestades quase mortais.

A Jornada de Cinema da Bahia é um eterno sobrevivente”, define o cineasta baiano Tuna Espinheira (também saudade), um dos premiados pioneiros da mostra. Desde que surgiu como s e quase clandestino evento local nas dependências da Reitoria da UFBA e do Instituto Cultural Brasil-Alemanha (ICBA), balançou inúmeras vezes em sua trajetória, mas não caiu. Resistente como a Bahia dos versos eternos de Dorival, “está viva ainda lá”, mesmo perseguida durante anos por governos militares e burocratas civis de Brasília e seus representantes estaduais. É fato que precisou dar muitas voltas e alguns passos de retrocesso. Às vezes foi forçada a fugir de Salvador, como nos períodos em que, para não morrer de vez, teve de migrar para a paraibana Campina Grande, ou abrigar-se na heróica cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano.

Mas a Jornada não só sobreviveu. Transformou-se também em mostra internacional e até já conta com recursos e ajuda de estatal. Seguramente não precisa mais, como nos temerários tempos pioneiros, que jornalistas, cineastas, artistas ou simples adeptos e amantes de cinema tragam escondidos em suas bagagens de turistas acidentais, “perigosos” filmes em Super-8 ou fitas Cassetes, produções de “realizadores subversivos”, de perseguidos políticos no Chile ou na Argentina, para exibição na Jornada de Cinema da Bahia.

Tantos anos depois, confesso: tremi em alguma oportunidades, na passagem de ônibus pela Aduana na fronteira Uruguai-Brasil, e de avião nos aeroportos de Santiago e Buenos Aires, diante da possibilidade dos fiscais e agentes policiais descobrirem os filmes carregados de explosiva nitroglicerina política e social ao revistarem a bagagem. Tremores que voltavam com igual intensidade na hora dos desembarques nos aeroportos de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Mesmo à distância e menos participativo, sei e vejo que em sua 35ª edição, a Jornada Internacional de Cinema da Bahia segue fiel tanto ao seu símbolo de origem – o Tatu resistente e fuçador criado por Chico Liberato – quanto ao seu lema inicial: “Por um mundo mais humano”.

Assim, quando praticamente todas as atenções e todos os espaços se abrem à lembrança do 11 de Setembro em que os Boeings de Bin Laden derrubaram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque (e as pungentes e justas homenagens à memória das mais de 2.000 vítimas inocentes nos Estados Unidos), a Jornada de Cinema da Bahia guarda um olhar de compaixão e de protesto também em relação a outro 11 de Setembro de triste memória: o do ataque ao Palácio La Moneda, onde o presidente Allende morreu resistindo ao atentado do ditador Pinochet contra a democracia no Chile, mal que produziu o saldo macabro de mais de 3 mil mortos e desaparecidos até passar.

Longa vida à Jornada de Cinema da Bahia.

(ADEUS, GUIDO!)

Vitor Hugo Soares é jornalista , ex-integrante da equipe pioneira da Jornada de Cinema da Bahia, sob o comando de Guido Araújo).


DO EL PAÍS

Daniel Haidar

São Paulo

Após quase dois meses de espera, os ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) negaram nesta terça-feira a prisão do senador Aécio Neves (PSDB) por cinco votos a zero. O pedido foi feito pela Procuradoria-Geral da República no dia 31 de julho.

Mas outro pedido do Ministério Público foi atendido: o afastamento de Aécio do mandato de senador. Por três votos a dois, os ministros determinaram que ele seja proibido de exercer as atividades de parlamentar. Foram favoráveis ao afastamento os ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux e acabaram derrotados os ministros Marco Aurélio Mello e Alexandre de Moraes. Aécio tinha sido afastado do mandato de senador em 18 de maio, pelo ministro Edson Fachin, mas seu caso foi distribuído para o ministro Marco Aurélio Mello, que permitiu que ele voltasse ao Senado no fim de junho.

Barroso, Weber e Fux também determinaram que o senador entregue seu passaporte à Justiça e que fique recolhido em casa à noite, para mitigar o risco de fuga, decisões em que Mello e Moraes também foram derrotados. Os ministros proibiram o senador de manter contato com outros investigados na Operação Lava Jato, como vinha fazendo.

Aécio é processado no Supremo Tribunal Federal, acusado de corrupção passiva e obstrução de Justiça, por ter solicitado 2 milhões de reais de propina ao empresário Joesley Batista, sócio do frigorífico JBS, dos quais pelo menos 500 mil reais foram pagos a intermediários do senador. As entregas de dinheiro foram filmadas. Para se defender, Aécio alegou que pediu o dinheiro como um empréstimo para pagar advogados, o que nunca foi feito.

A prisão de Aécio já tinha sido rejeitada inicialmente pelo ministro Edson Fachin e, em outro momento, pelo ministro Marco Aurélio Mello, mas a Procuradoria-Geral da República recorreu para que o pedido fosse analisado pela Primeira Turma, o que foi adiado e só ocorreu nesta terça-feira.

Primorosa interpretação de Maria Bethânia. Uma das melhores e mais intensas da carreira da filha querida de Santo Amaro da Purificação. Confira.

BOM DIA !!!

(Vitor Hugo Soares)

set
27
Posted on 27-09-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 27-09-2017

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Em carta dura, Palocci pede desfiliação do PT

Antonio Palocci entregou a Gleisi Hoffmann, presidente do PT, uma carta pedindo sua desfiliação do partido, registra o Radar.

No texto, o ex-ministro de Lula e Dilma diz que o PT deveria reconhecer seus erros e colaborar com a Justiça –sugestão que ele próprio teria dado a Lula e ao antecessor de Gleisi, Rui Falcão.

DO EL PAÍS

Tom C. Avendaño

A biblioteca Clarice Lispector, em São Paulo, é um edifício público de concreto localizado na Lapa, um bairro de classe média relativamente próximo ao centro da cidade. Tem portas amarelas e azuis por fora; por dentro, principalmente pessoas idosas sentadas em meia dúzia de mesas redondas. Quase todo mundo sabe que a tal Lispector que dá o nome ao prédio era alguém importante, embora nem todos consigam identificá-la como a escritora brasileira mais traduzida e aclamada em décadas. E ninguém responde com a disposição de Lycia, uma adolescente de 14 anos e enormes óculos de acrílico que olhava as estantes metálicas nas paredes. “Acho que a conheço”, diz. E, depois de uma pesquisa no Google, mostra o celular: na tela, várias fotos em preto e branco de uma mulher linda e congelada em um gesto distante, como uma estrela de cinema dos anos quarenta. Em cada versão da foto, há uma frase diferente: “O verão está instalado em meu coração”. “Todo silêncio tem um nome”. “Este é meu problema: nunca fui de gostar pouco, ou gosto muito ou não gosto.” Todas as frases são atribuídas a Lispector, a mulher da foto, mas poucas realmente são. Lycia conclui: “Ainda não li livros dela, mas acho que gosto”.

Quarenta anos após sua morte, Clarice Lispector desfruta de uma enorme fama nas redes, transformada em um ícone da autoajuda adolescente. Para seus leitores mais sérios, os que defendem que arrancar suas frases do complexo e delicado contexto ao qual pertencem equivale a tirar sua alma, é apenas uma anedota ignominiosa. Para alguns jovens, é o que Lispector sempre foi. Mas também é um sintoma do complicado legado que a própria escritora, que nunca mostrou o menor interesse pela vida pública, deixou em seu país. “Clarice vive hoje um culto de sua imagem, mais do que de sua literatura”, destaca Yudith Rosenbaum, professora de literatura brasileira da Universidade de São Paulo e autora de dois livros sobre a escritora. “Por não conceder entrevistas, por ter se isolado e cercado sua vida de mistério e por preferir o silêncio às falas vazias, a escritora criou ao redor de si uma aura de inacessibilidade ao lado de uma legião de fãs idólatras”. Ao longo das décadas, Lispector se transformou em um fenômeno muito difícil de ignorar, mas isso só piorou o problema da marca deixada na literatura brasileira por alguém tão difícil de classificar.

Acaba sendo difícil falar de Lispector, mesmo como escritora brasileira, porque suas obras parecem passar por cima da realidade terrena. Uma vez, em 1969, dedicou algumas das crônicas que escrevia no Jornal do Brasil ao tema da violência policial (porque os policiais haviam disparado 13 vezes contra um bandido famoso). Seu último romance, A Hora da Estrela, fala de uma garota que, assim como ela fez há anos, viaja do Nordeste ao Rio de Janeiro. E nada mais. Em quase 40 anos de produção, não há mais referências explícitas ao lugar nem à época que a rodeavam. Rosenbaum fala de uma referência implícita em alguns textos. “Ao tratar da mulher e do feminino em suas relações familiares nas décadas de 50 e 70 no Brasil – e poucos escritores o fizeram com tamanha profundidade – distingue-se o vínculo paradoxal da patroa com sua empregada, essa íntima estranha que habita o lar, misto de pertencimento e exclusão. Há várias crônicas de Clarice, publicadas no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, que trazem experiências da própria escritora com suas empregadas, cujos processos de espelhamento e diferenciação entre ambas revelam conflitos de classe, mantidos em surdina na cultura brasileira”. A acadêmica lembra que, no romance A Paixão Segundo G.H., o enredo é ambientado no quarto da empregada.
Da esquerda à direita, Mania Krimgold, Elisa, Clarice, Tania e Pinkhas Lispector ampliar foto
Da esquerda à direita, Mania Krimgold, Elisa, Clarice, Tania e Pinkhas Lispector Editorial Siruela

Quase tão inútil como tentar rotulá-la pelo conteúdo de seus textos é estudar sua forma. Seu estilo, entre a poesia e a prosa, de pintar os detalhes cotidianos de espiritualidade e de usar a primeira pessoa em histórias em que ela não é um personagem, mais a afasta do que a aproxima de seus contemporâneos: não se parece com ninguém e sua visão não lembra nenhum movimento. “Ela se diferenciou do neoregionalismo dos anos trinta, que dominou boa parte do período literário em que surgiu. Mais afeita às influências do romance introspectivo ou intimista, herdeira da prosa de ficção católica francesa, Clarice ainda assim não se vincularia inteiramente a nenhuma dessas duas vertentes,” avalia Rosenbaum. Benjamin Moser, autor de Clarice, a biografia que em 2009 galvanizou a fama internacional da escritora, também resiste à classificação: “Ler Clarice é uma experiência muito pessoal. Falar dela no código nacional ou acadêmico é uma péssima ideia, é permitir que um grupinho sem imaginação enterre uma artista em um túmulo empoeirado”, afirma. “Clarice é melhor descrita como uma amante com a qual alguém tem momentos de luz, de amor, de sexo e de morte. Isso soará exagerado para aqueles que não a leram, mas, para aqueles que sim, parecerá óbvio e até mesmo um pouco limitado.”

Lispector morreu em 1977. Sua influência sobre futuros escritores do país acabou por ser mais problemática do que o esperado. Muitos tentaram ocupar seu espaço e, durante anos, proliferaram imitações de seu estilo: algumas excessivamente místicas, outras simplesmente impenetráveis. Outros escritores fugiram de sua temível sombra. Caio Fernando Abreu, um escritor dos anos setenta e oitenta que hoje também passa por um revival, 20 anos após sua morte, recusou-se a ler a obra de Lispector para não se contaminar. Não foi o único. “Um jovem escritor de São Paulo me disse que, depois de Clarice, muitos brasileiros sentiram que não tinham nada a dizer”, lembra Moser.

“Por não conceder entrevistas, por ter se isolado e cercado sua vida de mistério, criou ao redor de si uma aura de inacessibilidade ao lado de uma legião de fãs idólatras”

Ao mesmo tempo, a visão universal de Lispector ajudou sua obra a ganhar terreno no exterior. Em 1954, foi publicada na França a primeira tradução de um romance da escritora. Em Nova York, o primeiro foi lançado em 1964; já nos anos oitenta, os títulos em inglês haviam se multiplicado. A editora Schöffling & Co. comprou os direitos em alemão, e a Siruela fez o mesmo em espanhol. “Ela sempre foi uma figura de culto, mas apenas entre os especialistas, como um segredo bem guardado. Foram as traduções e o interesse que começou despertar no exterior que a transformaram em um fenômeno brasileiro”, opina o editor e escritor Pedro Corrêa do Lago. O prestígio de outros países completou a equação. Com um estilo tão peculiar que se limitava à sua obra, tendo cultivado muito pouco sua faceta pública e com seu nome mais endossado pelo estrangeiro do que pelo próprio país, Clarice Lispector passou a ser uma figura de culto. Mais algumas décadas nesse caminho e estaria protagonizando memes para a próxima geração.

Pelo menos por enquanto, desde que sua presença permaneça relativamente próxima no tempo. Seu valor para o país é claro: “É, juntamente com Guimarães Rosa, a grande escritora da segunda metade do século XX”, diz Corrêa do Lago. Talvez seja questão de que, com o tempo, acabe encontrando um espaço que não dependa de representar ou não a mentalidade brasileira. “E Shakespeare representava a mentalidade inglesa? Ou Cervantes, a espanhola? No início, claro que não: eram simples escritores, e Dom Quixote poderia ter sido escrito na França tanto quanto Hamlet poderia ter sido escrito na Itália”, protesta Moser. “Mas os grandes artistas sabem projetar, de uma maneira muito estranha, uma visão muito excêntrica e pessoal sobre os falantes de todo um idioma, e também sabem fazer com que acreditem que essa visão é sua. Assim, é impossível imaginar o espanhol sem Cervantes, o inglês sem Shakespeare, e o português sem Clarice.”

set
27
Posted on 27-09-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 27-09-2017


Duke, no jornal Tempo (MG)


O novo presidente de Angola, João Lourenço
AMPE ROGERIO AFP

DO EL PAÍS

Gemma Parellada
Lobito (Angola) 26 SET 2017 – 21:32 BRT

O grande patriarca de Angola, José Eduardo dos Santos, fez na terça-feira a histórica saída da presidência, depois de 38 anos no poder, ao transmitir o cargo ao seu sucessor em cerimônia realizada no gigantesco mausoléu de Agostinho Neto, em Luanda, a capital, diante de milhares de pessoas.

O novo presidente, João Lourenço, um dos fiéis membros do círculo de Santos, general respeitado dentro do Exército, representa a continuidade. O presidente cessante também ficou com a presidência do partido e blindou sua capacidade de continuar influindo na política do país. No entanto, a ascensão de Lourenço ao poder abre as portas de uma nova era, uma vez que implica uma mudança de rosto em um país onde o mesmo líder governou durante as últimas quatro décadas.

Lourenço herda um país em plena crise econômica, carente de divisas e uma economia dependente do petróleo, mas também com grande potencial. Angola teve de sair do zero em 2002, com um país destruído depois de quatro décadas de guerra. Em 17 anos de paz, foram reconstruídas grandes infraestruturas básicas (estradas, ferrovias, aeroportos ou barragens), mas ainda há muito a fazer.

Ex-veterano de guerra e general, chamado pelos angolanos pelo apelido de “J Lo” – como Jenifer López –, o novo presidente de Angola, João Lourenço, compartilha com seu antecessor o anticarisma e toda uma vida dedicada ao Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), o único partido que governou Angola desde a independência. Mas fica à margem dos escândalos de corrupção que envolvem tanto seu antecessor quanto muitos dos chamados “generais” de seu círculo mais próximo.

Ministro da Defesa, Lourenço é casado com Ana Dias de Lourenço, uma tecnocrata que ocupou vários cargos ministeriais e representou Angola no Banco Mundial.

João Manuel Gonçalves Lourenço nasceu em 1954 anos na cidade portuária de Lobito, no centro costeiro de Angola ainda sob controle colonial de Portugal. Lourenço cresceu entre a agitação da ferrovia, que transportava minerais do vizinho Congo Belga (hoje República Democrática do Congo), a frenética atividade marítima do segundo porto mais importante do país – naquela época estava em plena efervescência – e o início da guerra pela independência (1961-1974).
O ex-presidente de Angola (à esquerda) e sua esposa, na cerimônia de transmissão do cargo na terça-feira em Luanda
O ex-presidente de Angola (à esquerda) e sua esposa, na cerimônia de transmissão do cargo na terça-feira em Luanda AMPE ROGERIO AFP

Filho de uma família engajada politicamente, a infância e a adolescência de João Lourenço coincidiram com as primeiras revoltas da maioria negra contra Portugal e com o nascimento do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), do qual fez parte durante toda a sua vida. O pai, enfermeiro, passou três anos na prisão por atividades políticas ilícitas.

Aos 20 anos, João Lourenço juntou-se à luta armada e participou dos combates durante o último ano da guerra de libertação, até a proclamação da independência, em 1975, quando o MPLA assumiu o poder. No entanto, após a fuga maciça dos portugueses, o conflito se transformou em guerra civil e, agora, com um Governo recém-adquirido e um país a ser construído, Lourenço e seus camaradas do MPLA continuam em estado de guerra.

Como centenas de jovens africanos durante a guerra fria, Lourenço esteve na União Soviética (de 1978 a 1982), onde recebeu treinamento militar e estudou História na Academia Superior Lenin, em Moscou, antes de retornar a Angola e se tornar governador de Moxico, uma das regiões com mais atividade bélica, em um dos momentos mais difíceis da guerra civil. Feudo da UNITA – seus rivais de armas – Lourenço foi governador em território inimigo, sendo protagonista em uma das fases mais duras do conflito. Base de operações tanto para a UNITA quanto para o MPLA, Moxico também foi cenário de muitas incursões do Exército da África do Sul, que apoiava a UNITA, e no final da guerra mais longa em África era uma das regiões mais minadas do mundo.

E aí começou a ascensão de João Lourenço. Primeiro adquiriu a liderança política do antigo ramo armado, depois se tornou presidente do grupo parlamentar, até chegar à vice-presidência da Assembleia Nacional.

Lourenço revelou ambições presidenciais pela primeira vez em 1998, com o país ainda em guerra, quando foi nomeado secretário-geral do MPLA. Mostrou sua motivação para suceder Santos, mas com a paz, em 2002, a saída de Santos se desvaneceu e ele pagou sua ousadia com alguns anos de purgatório político. Discreto – mas firme –, Lourenço voltou à cena política como ministro da Defesa em 2014. Com a confiança de Santos recuperada e catapultada, Lourenço abriu caminho rumo ao topo, até que no ano passado apareceu como sucessor.