O texto de Ruy Castro, em O Globo, foi reproduzido da págiana da autora teatral e cronista Aninha Franco, no Facebook. Leia, reflita e pode sorrir à vontade, porque sorrir faz bem ao corpo e a alma. (Vitor HugoSoares)

Acidentes acontecem

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO – Uma conhecida minha levou o celular para o chuveiro —não consegue se desgrudar dele— e, em meio ao banho, usou-o sem querer como sabonete. Os celulares têm muitos usos, mas este não é um deles —por enquanto. Outro amigo distraído teve a gravata engolida pela impressora e esta já começava a estrangulá-lo. Foi salvo por sua secretária, que percebeu a iminência da tragédia, correu e apertou o botão de desligar. Acidentes acontecem.

Uma das histórias mais hilariantes contadas pela atriz Carrie Fisher em seu livro “Wishful Drinking” foi a de como seu pai, o cantor Eddie Fisher, já velho, mandou para dentro, com água, seu próprio aparelho para surdez, pensando que era a bolinha que tomava para dormir. Resultado: passou a noite em claro, mas escutando cada ruído de sua flora intestinal.

E minha amiga Ana Luiza Pinheiro, em adolescente, surpreendeu-se ao ver seu pai de gatinhas, no chão do quarto, tentando matar um inseto com o chinelo. “É uma aranha!”, exclamou ele. Ana Luiza aproximou-se e constatou que a aranha vislumbrada por seu pai era apenas seu cílio postiço. Os cílios postiços dos anos 70 eram assim, exuberantes.

Mas nada supera a história que me juraram ter acontecido no velório do sambista João Nogueira, em 2000. Ele era um artista muito querido, daí as cenas de comoção na capela do São João Batista. Um dos mais inconformados era um fã tocado pelo álcool, que se debruçava, descontrolado, chorando sobre o caixão. Quando as pessoas tentaram consolá-lo –”Calma, meu senhor!”–, ele se debateu e sua dentadura escapou e caiu sobre o peito de João Nogueira.

Seguiu-se um momento de mal-estar. Ninguém parecia disposto a pescar aquele objeto. E o homem não se deu por achado. Sem parar de chorar, disse, embargado: “Vai, João! Leva contigo o meu último sorriso!”.

Ouro puro do samba brasileiro, letra e melodia. Cofira.

BOA TARDE!!!

(Vitor Hugo Soares)

set
04
Posted on 04-09-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 04-09-2017


Aroeira, no jornal O Dia (RJ)


DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

“Mentir é proibido”

O delator Marcelo Odebrecht, hoje, entrega Lula.

O delator Lúcio Funaro, na semana passada, entregou Michel Temer.

Para entender como funcionam esses acordos, leia réplica do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima para a Folha de S. Paulo:

“As colaborações são o início de uma investigação e não o seu fim. A palavra do colaborador deve ser confrontada com o máximo de provas que ele puder produzir ou indicar como alcançar. Caso isso exista, e ele revele muitos fatos até então desconhecidos, a colaboração atende aos requisitos de lei e pode ser celebrada.

Além disso, a prática dos acordos obedece a princípios que os tornam muito seguros para a administração da Justiça, pois os benefícios não são dados no momento da assinatura, mas ficam suspensos durante anos, durante os quais o colaborador fica obrigado a condições rígidas e a não voltar a delinquir. Somente ao final desse período é que o colaborador alcança os benefícios totais. Esse modelo possibilitou, por exemplo, que o acordo de Youssef, celebrado em 2003, fosse quebrado em 2013 por ter ele voltado a cometer crimes.

A prática desse modelo de colaboração tem se mostrado revolucionária para investigações de corrupção pelo país. Podemos contar dezenas de operações em que se usa essa técnica com notável sucesso, como a Quadro Negro, a Alcmeon, a Ararath, entre outras.

A crítica, portanto, é descabida e só mostra desconhecimento dessa realidade. Como dizer que um acordo só pode ser celebrado após o uso de outros métodos investigativos, quando o seu objetivo maior é revelar, justamente, aquilo que não se sabe até então?

Somente depois, com as indicações do colaborador, será usada a máquina estatal com economia de recursos, pois as investigações, então, serão orientadas por informações muito mais fidedignas.

Assim, é essencial que os órgãos de persecução aprofundem a investigação e busquem provas que confirmem ou não a palavra do colaborador, e não simplesmente esperem que ele as apresente sozinho, pois não tem os poderes de investigação que o Estado tem.

E se, ao final de tudo, ficar provado que o colaborador mentiu, caberá pedir ao Judiciário que revogue o acordo ou que não aplique os benefícios totais, pois mentir é proibido em todos os acordos.”