DO EL PAÍS

OPINIÃO

Venezuela, hoje

Mario Vargas Llosa

O porta-voz do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e prefeito de Valladolid, Óscar Puente, declarou que, a seu ver, há na Espanha “um superdimensionamento” do que ocorre na Venezuela, porque quando um país vive o drama que a nação bolivariana experimenta aquilo não é só culpa de um Governo, mas “responsabilidade coletiva dos venezuelanos”.

Tal afirmação demonstra uma total ignorância da tragédia que a Venezuela vive ou um fanatismo ideológico quadriculado. É preciso de mais de um indivíduo para desonrar um partido, sem dúvida, sobretudo havendo socialistas que, com Felipe González à frente, têm demonstrado uma solidariedade tão ativa com os valentes democratas venezuelanos que, apesar dos assassinatos, das torturas e da repressão enlouquecida desatada por Maduro e seu bando governante, impediram até agora que o regime transforme esse país em uma segunda Cuba. Mas que, entre seus dirigentes atuais, haja na Espanha socialistas capazes de deformar de um modo tão extremo a realidade venezuelana, sem que sejam corrigidos e reprovados pela direção, é algo que delata o inquietante desvio de um partido que contribuiu de maneira tão decisiva para a democratização da Espanha depois da Transição.

A verdade é que a Venezuela foi, por quarenta anos, uma democracia exemplar e um país muito próspero ao qual imigrantes de todo o mundo acorriam em busca de trabalho, e tanto os Governos adecos [do partido AD] como os copeianos [do partido COPEI] travaram uma batalha sem quartel contra as ditaduras que ainda então prosperavam no restante da América Latina. O presidente Rómulo Betancourt tentou convencer os Governos democráticos do continente a romperem relações diplomáticas e comerciais com todas as tiranias militares e populistas, e as submeterem a um boicote sistemático, a fim de acelerar sua queda. Não foi respaldado na época, mas, várias décadas depois, sua generosa iniciativa acaba de ser postulada pela Declaração de Lima, na qual, convidados pelo Peru, todos os grandes países da América Latina – entre eles Brasil, Argentina, México, Colômbia, Chile, Uruguai e outros cinco nações da região –, além dos Estados Unidos, Canadá, Itália e Alemanha, decidiram isolar a ditadura de Maduro e não reconhecer as decisões da espúria Assembleia Constituinte com a qual o regime vem tentando substituir o Parlamento legítimo onde a oposição detém a maioria das cadeiras.

O porta-voz socialista não parece tampouco ter se inteirado de que as Nações Unidas denunciaram, por meio de seu Alto Comissariado para os Direitos Humanos, as torturas às quais a ditadura venezuelana vem submetendo os opositores há vários meses, que incluem choques elétricos, espancamentos sistemáticos, muitas horas pendurados pelos pulsos, asfixia com gases, estupros, além de detenções arbitrárias e invasão e destruição das residências dos suspeitos de colaborar com a oposição. Mais de 5.000 pessoas foram detidas sem serem levadas aos tribunais, as forças de segurança assassinaram meia centena nas últimas manifestações, e os bandos de delinquentes chamados de coletivos do regime, 27.

Ao menos dois milhões de pessoas emigraram pressionadas pelo terror, a insegurança e a pobreza

O assédio sistemático aos adversários da ditadura se estende, claro está, a suas famílias, que perdem seu trabalho, são discriminadas nos racionamentos de comida e vítimas de nacionalizações e expropriações. Mas, provavelmente, com toda a crueldade que denotam estas violações a direitos humanos que são hoje o pão de cada dia para dezenas de milhares de infelizes venezuelanos, nada disto seja tão terrível como o empobrecimento vertiginoso que a política econômica insensata de Chávez e seu herdeiro causou ao povo venezuelano em seu conjunto. Um dos países mais ricos do mundo, que deveria ter os níveis de vida da Suécia ou Suíça, padece hoje em dia dos índices de sobrevivência das mais empobrecidas nações africanas: a pobreza afeta 83% da população. As façanhas do chavismo são sofrer a inflação mais alta do mundo – prevê-se para este ano que alcançará 720% – e um PIB que, segundo o Fundo Monetário Internacional, cai 7,4%, ou seja, ser uma sociedade onde os únicos que se livram da fome e da escassez de praticamente tudo, começando pelos remédios e as divisas e terminando pelo papel higiênico, são um punhado de privilegiados da nomenclatura, incluindo aí um bom número de generais – a Venezuela tem mais generais que os Estados Unidos, e um bom número deles foi comprado ao receberem a incumbência de gerir as grandes operações do narcotráfico –, que pode adquirir alimentos, remédios, provisões, roupa, etc., a preços de ouro, no mercado negro. A gente comum e normal, entretanto, vê seu nível de vida cair dia após dia.

Quantas centenas de milhares de venezuelanos os malfeitos econômicos e sociais do regime obrigaram a emigrar? É muito difícil averiguar com exatidão, mas os cálculos falam de pelo menos dois milhões de pessoas que, agoniadas com a insegurança, a pobreza, o terror, a fome e a sinistra perspectiva de uma piora da crise, se esparramaram pelo vasto mundo em busca de melhores condições de vida ou, pelo menos, de um pouco mais de liberdade.

Não há precedentes na história da América Latina de um país que a demagogia estatista e coletivista de um Governo tenha destruído econômica e socialmente, como ocorreu na Venezuela. O extraordinário é que a política de destruir as empresas privadas, agigantando o setor público como que afetado por uma elefantíase, e pondo cada vez mais travas ao investimento estrangeiro, foi levada a cabo quando todo o mundo socialista, da desaparecida URSS à China, do Vietnã a Cuba, começava a dar marcha à ré, depois do fracasso econômico catastrófico da socialização forçada da economia. Que ideia passou pela cabeça de semelhantes ignorantes? A utopia do paraíso socialista, uma fabulação que, pelo visto, apesar de todos os desmentidos que a realidade lhe inflige, sempre volta a levantar a cabeça e seduzir massas ingênuas, que, depois, serão as primeiras vítimas desse erro.

É verdade que a Venezuela da democracia contra a qual se rebelou o comandante Chávez havia sido vítima da corrupção e que, na abundância de recursos daqueles anos – os da Venezuela saudita –, surgiram fortunas ilícitas à sombra do poder. Mas aquilo tinha reparo dentro da legalidade democrática e, de qualquer modo, os eleitores podiam punir os governantes corruptos mediante eleições, que na época eram livres. Agora não mais, pois são manipuladas por um regime que, nas últimas, por exemplo, inventou um milhão de votos a mais do que obteve, segundo a própria empresa contratada para verificar a votação. Apesar disso, a oposição inscreveu candidatos para as eleições regionais de governadores convocadas por Maduro. Há alguma possibilidade de que sejam eleições de verdade, em que o mais votado ganhe? Creio que não e, claro, nada me agradaria tanto quanto estar enganado. Mas, depois da grotesca balela da “eleição” da Assembleia Constituinte e da defenestração manu militari da procuradora-geral Ortega Díaz, alguém acredita que Maduro é capaz de se deixar derrotar nas urnas? Ele fez todos os embustes eleitorais, tirando a máscara e mostrando a verdadeira condição autoritária do regime, precisamente porque sabe que tem contra si a maioria do país. Na triste situação à qual a Venezuela chegou é pouco menos que impossível – a menos que haja uma fratura traumática do próprio regime – que recupere a democracia de maneira pacífica, por meio de eleições limpas.

BOM DIA!!!


O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin.
Ciete Silvério/A2img

DO EL PAÍS

Gil Alessi

São Paulo

“Eu quero ser o presidente do povo brasileiro, de empresários que geram empregos, do povo sacrificado do Brasil, injustiçado”. Com essa declaração, feita nesta quinta-feira, o governador Geraldo Alckmin se lançou em definitivo na briga pela vaga tucana na disputa pelo Palácio do Planalto. Nas últimas semanas ele já vinha, sem muito alarde, mobilizando aliados para dar corpo à sua candidatura e formar seu arco de alianças para a disputa da presidência da República em 2018. Indagado se seria o melhor nome para o cargo, o tucano foi discreto: “Isso a modéstia não me deixa responder”. O candidato do PSDB para a disputa do ano que vem provavelmente sairá de um embate entre criador e criatura: de um lado um veterano com mais de 40 anos de vida pública e três mandatos à frente do maior Estado do país e, do outro, João Doria, o novato empresário autointitulado “gestor e não político” cuja chegada à maior prefeitura do país foi um projeto do próprio Alckmin
O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin.
O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin. Ciete Silvério/A2img

Enquanto o prefeito de São Paulo e afilhado político do governador aposta em uma presença massiva nas redes sociais, um agenda repleta de viagens a outros Estados e bons resultados nas pesquisas para tentar se cacifar como o nome da legenda para a vaga, seu padrinho joga outro jogo. Esta semana Alckmin se reuniu com os prefeitos do PSDB das 30 maiores cidades paulistas – Doria não foi convidado. Na pauta do encontro, o plano de Governo para disputa de 2018 e a necessidade de um candidato que “fugisse da lógica da polarização”, afirmou um deputado. Para os próximos dias, o governador, que não escondeu dos presentes sua vontade de disputar novamente a presidência, deve realizar outra reunião com mais algumas dezenas de prefeitos do partido.

Com uma agenda mais discreta, o governador também já se encontrou este semestre com aliados do Nordeste, sempre aos finais de semana, como fazem questão de frisar os defensores de sua candidatura. Apenas em agosto, Doria visitou a região duas vezes durante dias úteis, quando em tese deveria estar dando expediente na capital, o que provocou críticas ao prefeito “turista”. Os dois sabem que a região pode ser a chave para uma vitória em 2018, com seus mais de 39 milhões de votos espalhados por nove Estados. O Nordeste, considerado um reduto do PT – a região foi fundamental para a vitória de Dilma Rousseff em 2014 -, pode se tornar “campo aberto” frente à possibilidade de Lula ficar de fora do páreo ano que vem devido a uma condenação em segunda instância na Operação Lava Jato.

No final do ano passado Alckmin já havia feito acenos à região Nordeste, com a cessão, em dezembro, de quatro conjuntos de bombas de água para auxiliar no combate à seca nos Estados da Paraíba e Pernambuco. Os equipamentos são os mesmos utilizados para captar água do volume morto do sistema Cantareira durante a crise hídrica em São Paulo. No final de agosto o empréstimo foi renovado. “Alckmin já tem uma agenda nacional, mas é uma agenda limitada à responsabilidade que ele tem no Governo de São Paulo, não pode ficar deixando o Estado três vezes por semana”, alfineta o deputado federal Silvio Torres (PSDB-SP), defensor declarado da candidatura do governador. O candidato tucano deve ser escolhido até “no máximo” janeiro. Em outubro o partido realizará as convenções municipais, em novembro as estaduais, e em dezembro será a nacional. Caso haja mais de um postulante, existe a possibilidade de que sejam realizadas prévias em janeiro. Caso isso ocorra, existe a possibilidade de uma divisão na legenda: o diretório municipal paulistano, por exemplo, saiu rachado das prévias de 2016, que apontaram Doria como candidato.

O Governador, em tese, larga na frente também na disputa interna do PSDB, já que o atual presidente da sigla, Tasso Jereissati, declarou que é Alckmin “o primeiro da fila” à espera da candidatura presidencial. Mas isso não quer dizer que o caminho adiante seja fácil. O que está em jogo não é só a candidatura do PSDB, mas a escolha de um candidato que investidores e empresários considerem competitivo para levar adiante uma programa de reformas liberais com uma aliança de direita _exatamente como o atual Governo. Pode ser com o tucanos ou sem eles. Neste quesito, nem todos compram o ocupante do Palácio dos Bandeirantes como melhor defensor dessa bandeira num momento de descrença nos políticos tradicionais. Nesta quarta-feira, a consultoria Eurasia, que avalia risco políticos para investidores, disse que Alckmin era o candidato do establishment político justamente quando há uma “febre” no eleitorado pelos “anti-sistema” ou que se apresentam como novatos, como o próprio Doria. Foi respondendo a um questionamento de um jornalista sobre a avaliação da consultoria que Alckmin decidiu subir no ringue de vez para falar abertamente da candidatura.

Presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Cauê Macris (PSDB) afirma que o governador já conta com o apoio de diversos partidos em sua empreitada rumo ao Planalto, como o PSB, PTB, PV, PPS e PP. “Só popularidade não elege ninguém”, diz o parlamentar. “O apresentador Luciano Huck, por exemplo. Pode ser presidente? Ele é popular. Mas sem alianças, se não fizer costura de palanques em outros Estados, dificilmente viabiliza uma candidatura”, continua Macris, destacando a importância dos apoios principalmente para o tempo de TV da campanha, calculado com base no número de deputados da coligação.

Para Macris, a situação financeira do Estado de São Paulo durante o atual momento de crise econômica é mais um indicativo das qualidades do governador, e deve ser apresentada por Alckmin “no momento certo” para a população brasileira. “Na maior turbulência São Paulo não quebrou, paga salários dos servidores em dia, e ainda consegue investir”, diz o deputado. Apesar da agenda nacional “contida”, nos bastidores o governador trabalha ativamente. Em agosto reuniu-se com o governador Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, e com representantes do grupo de deputados conhecidos como os cabeças pretas do PSDB. A ala é considerada mais radical, defendendo inclusive o desembarque do partido do Governo Temer, algo que tanto Doria quanto Alckmin são contra.

Para o presidente estadual do PSDB, o deputado Pedro Tobias, o candidato do partido precisa“pacificar o país”. “Alckmin tem esse perfil, além da experiência acumulada por sucessivos mandatos”, diz. O parlamentar aponta que Doria entrou na “lógica da polarização”, trocando ataques com o ex-presidente Lula, algo que “o país já não aguenta mais”. “O prefeito não tem feito uma pré-campanha propositiva, ele está entrando na linha do discurso raivoso de Lula”, diz.

Doria sempre afirmou que caso o governador coloque sua candidatura, ele não disputaria a presidência. O prefeito, no entanto, tem a seu favor para chegar ao Palácio do Planalto a onda de popularidade na qual vem surfando nas últimas pesquisas de opinião. Levantamento do Instituto Ipsos divulgado no dia 26 coloca o prefeito paulista como o tucano com a menor taxa de desaprovação, e a maior aprovação, superando Alckmin e os senadores José Serra e Aécio Neves. Além disso, 28% dos entrevistados disseram desconhecer o prefeito paulista, o que justificaria o “tour” de Doria pelo país.

Para o deputado Torres, “a pesquisa não significa nada para a eleição do ano que vem”, uma vez que seria “a preliminar da preliminar”. “O que define eleição é 30 dias antes, quando começa o horário eleitoral”, afirma. Para Torres, o candidato do PSDB para a presidência não será escolhido “com base nisso”, e faz uma ressalva a Doria: “Não se ganha aliados por pesquisa”.

Tucanos paulistas afirmam que o prefeito, caso opte por disputar as prévias do partido para a vaga de candidato, terá que lidar com dois estigmas. “Olha só o que aconteceu com o [José] Serra”, afirma um parlamentar da sigla que prefere o anonimato. Em 2006 Serra deixou a prefeitura após pouco mais de dois anos de gestão para disputar, com sucesso, o Governo. Quatro anos depois, quando tentou alçar voos mais altos rumo ao Planalto, foi rechaçado nas urnas. Além disso, Doria ficaria “marcado como traidor” de Alckmin: a candidatura do empresário à prefeitura foi uma aposta pessoal do governador.

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Posted on 01-09-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 01-09-2017


Paixão, na Gazeta do Povo (PR)

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DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

A voz do povo iguala PSDB e PT

Pesquisa do Instituto Paraná mostra que, para 66,3% dos brasileiros, os tucanos estão tão enrolados na Lava-Jato quanto os petistas.

Só 28,9% veem o PSDB menos atingido pela operação do que o PT.

Outro dado: mais da metade do país (55,6%) acha que os tucanos deveriam deixar a base de apoio a Michel Temer.