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Maioria da Câmara vota contra a investigação de Temer, enquanto alguns opositores protestam contra o Governo. EVARISTO SA AFP


DO EL PAÍS

Xosé Hermida
Afonso Benites
Brasília

Os mesmos deputados que deram sinal verde para derrubar a presidenta Dilma Rousseff por maquiar as contas públicas, há 15 meses, salvaram nesta quarta-feira o seu sucessor, Michel Temer, de uma denúncia do Ministério Público por suposto recebimento de propina. A aliança de centro-direita que em abril de 2016 acabou com 13 anos de Governo do esquerdista PT conseguiu os apoios necessários para impedir que o Supremo Tribunal Federal analisasse o caso que poderia afastá-lo do cargo por até seis meses. Numa conturbada sessão da Câmara dos Deputados, Temer conseguiu 263 votos, bem mais que os 172 mínimos necessários para enterrar a ação judicial.

Temer e seus aliados utilizaram até o último minuto todas as armas para frear possíveis deserções e garantir a continuidade do Governo, ainda que a oposição, que marcou 227 votos no placar, jamais tenha chegado perto de conseguir os 342 votos necessários dos 513 possíveis Poucos, como Temer, conhecem as artimanhas para captar apoios na política brasileira. Não é à toa que ele presidiu a Câmara em três ocasiões e atuou como um dos homens fortes do PMDB, especialista em selar pactos com Deus e depois com o Diabo, capaz de se aliar durante anos com o PT para depois, repentinamente, transformar-se em seu algoz.

Os esforços de Temer se prolongaram até poucas horas antes da votação: incluíram distribuição de cargos a deputados até reuniões com o nutrido lobby parlamentar dos latifundiários. O Governo – numa manobra não tão incomum – chegou a exonerar 10 ministros temporariamente de seus cargos para que pudessem participar da votação na Câmara. E sempre deixou pairando no ar a situação de dezenas de deputados, que vivem com a ameaça de acabar algum dia na prisão também por práticas corruptas. O que não impediu que representantes de partidos igualmente envolvidos nos escândalos se atacassem mutuamente com termos como “ladrões” e “bando de criminosos”. O presidente sofreu algumas deserções, como a parte de um dos principais aliados do Governo, o PSDB, que recomendou que seus congressistas – embora sem caráter obrigatório – votassem a favor da denúncia. Mas Temer conseguiu desviar de todos os obstáculos.
A denúncia

Se a imagem dos políticos no Brasil está num nível baixíssimo, o debate não contribuiu para melhorá-la. Um dia inteiro de discussões bizantinas de procedimento, truques obstrucionistas e episódios grotescos. Nenhum deles como o protagonizado pelo deputado Wladimir Costa (SD-PR), que ficou famoso há alguns dias depois de ter tatuado o nome de Temer em um braço. Costa brandia um boneco do ex-presidente Lula vestido de presidiário e quase chegou às vias de fato com alguns membros da oposição.

Deputados da esquerda percorreram os corredores da Câmara em manifestação, entraram na sessão em meio a gritos e cartazes de “Fora, Temer” e jogaram no chão uma mala com notas falsas. Deputados próximos ao Governo devolveram as acusações, como Mauro Pereira, do PMDB, que se dirigiu ao juiz Sérgio Moro, que impulsionou as investigações anticorrupção, para pedir: “Coloque Lula na cadeia! Ele é o chefe de uma quadrilha de criminosos”. Os deputados haviam chegado proclamando que seria uma “sessão histórica”, mas a atmosfera nada teve de solene. Enquanto o advogado de Temer defendia a inocência do presidente – chegou a qualificá-lo de “pessoa imaculada, à prova de qualquer crítica’ –, os parlamentares se entretinham conversando em rodinhas ou gravando mensagens em seus celulares para transmitir pelas redes sociais.

Há 15 meses, quando se debatia o impeachment de Dilma Rousseff, milhares de pessoas protestavam na imensa esplanada diante do edifício do Congresso. Embora os índices de rejeição de Temer batam novos recordes, desta vez havia um único manifestante, um homem que há muito tempo percorre o país imitando a figura de Cristo na cruz. A falta de resposta das ruas facilitou a situação para aliados de Temer. A bandeira do patriotismo serviu-lhes no ano passado para derrubar Dilma e voltou a servir-lhes contra as evidências encontradas pelo procurador-geral, Rodrigo Janot, e a polícia de que o presidente, através de um intermediário, acordou o pagamento de subornos com um dos homens mais ricos do país, o magnata da JBS, Joesley Batista. A queda de Temer – alegaram seus defensores, um depois do outro – comprometeria a incipiente recuperação econômica e o programa de reformas liberais, além de afundar ainda mais o país na instabilidade política. “O Brasil está acima de tudo”, repetiram. Apesar das exortações, o placar obtido por Temer não é animador para a reformas. Esse tipo de projeto, como as mudanças previdenciárias, precisa de 308 votos na Câmara, mais do que os apoios diretos, que foram 264, além de 19 ausências e duas abstenções. Seja como for, os argumentos não conseguiram sufocar as queixas de deputados como o pernambucano Silvio Costa (PTdoB): “Não percebem que estamos oficializando a corrupção?”.
A expectativa se voltam para Janot

Há, no entanto, a expectativa de que Rodrigo Janot apresente mais uma ou duas denúncias contra Temer por crimes como formação de quadrilha e obstrução de Justiça. Caso sejam apresentadas, as novas acusações terão de percorrer todo o caminho de novo (primeiro na Comissão de Constituição e Justiça, e só depois no plenário da Câmara novamente). O peemedebista foi o primeiro presidente brasileiro no exercício do mandato a ser denunciado por um crime comum pela Procuradoria-Geral da República

Do verão parisiense ao inverno baiano.

BOM DIA !!!

(Vitor Hugo Soares)


A retaguarda do atraso

Ricardo Noblat

Ministro da Justiça escolhido pelo presidente eleito Tancredo Neves e mantido no cargo pelo presidente empossado José Sarney, o pernambucano Fernando Lyra, um dos líderes do PMDB na luta contra a ditadura militar de 64, era capaz de arriscar o emprego por causa de uma boa frase.

Em 1985, na cerimônia do Teatro Casa Grande, no Rio, em que anunciou o fim da censura, Lyra elogiou Sarney definindo-o com uma frase que se tornou célebre:

- Sarney é a vanguarda do atraso.

Queria dizer que o presidente era o político mais avançado entre aqueles que até pouco antes haviam sustentado o regime dos generais. Sarney jamais perdoou Lyra. Demitiu-o meses depois.

Se fosse vivo, é bem possível que Lyra ser arriscasse a brigar com Temer qualificando de “vitória da retaguarda do atraso” o que deverá se consumar logo mais na Câmara dos Deputados.

Faltarão votos para aprovar a denúncia contra o presidente por crime de corrupção. Temer será salvo por uma aliança firmada entre os políticos mais fisiológicos da Câmara e os encrencados com a Lava Jato e outras operações da Polícia Federal.

Mas não só. Cabeças coroadas dos partidos de oposição conspiraram em segredo para manter Temer no cargo. Apostam que é melhor tê-lo onde está, e cada vez mais fraco, do que trocá-lo por não se sabe quem. De resto, Temer não nega favores a quem lhe pede.

Pareceu difícil derrubar os ex-presidentes Fernando Collor e Dilma Rousseff, mas não foi. Seus eventuais sucessores eram conhecidos – Itamar Franco e Michel Temer. O ronco das ruas fez o resto do serviço.

Quase cinco meses depois do empresário Joesley Batista ter gravado Temer no porão do Palácio do Jaburu, sabe-se quem substituiria Temer provisoriamente – Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara. Mas não se sabe quem o sucederia em definitivo.

De resto, as ruas não roncaram. Mais de 80% dos brasileiros gostariam de ver Temer processado. Mesmo assim preferiram ficar em casa em sinal de protesto contra todos os políticos, partidos e instituições desacreditadas.

As urnas roncarão em 2018.


Neymar e seu pai, em audiência na Espanha.
Getty Imagens


DO EL PAÍS

Breiller Pires

São Paulo

Há pouco mais de um ano, questionei Seu Neymar, ou Neymar pai, como ganhou fama, se os malabarismos contábeis – que ele justifica como “planejamento tributário” – não seriam um meio egoísta de turbinar o faturamento de um jogador milionário. Ele tergiversou, rebatendo que, na verdade, mereceria um prêmio de marketing pela gestão da carreira do filho. Naquela época, Neymar pai ameaçava levar o jogador da Espanha caso não tivessem “uma situação confortável para trabalhar” no país, referindo-se às denúncias de sonegação de impostos por meio dos direitos de imagem acordados com o Barcelona. Não é exatamente este o motivo pelo qual Neymar decidiu trocar o clube catalão pelo PSG, mas ajuda a entender porque não se deve confundir a ganância do pai com a ambição esportiva do filho.

Neymar pai comumente se refere a Neymar como “meu cliente”, desde os tempos em que o atacante ainda era uma promessa na base do Santos. Em pouco tempo como atleta profissional, Neymar se transformou em tudo aquilo que o pai, um ex-jogador de inexpressivo destaque, desejava ter sido e não conseguiu. No futebol, há diversas histórias de filhos frustrados por jamais alçarem os feitos do pai, mas o enredo do pai que usa os louros do filho como escada em busca de notoriedade é singular. A postura vista como tacanha por cartolas não menos astutos e a obsessão por reconhecimento de Neymar pai respingam de forma negativa na verdadeira estrela da família, que, mesmo com todo seu talento e os títulos conquistados na Catalunha, deixará o Barcelona sob a pecha de mercenário devido à condução indiscreta da negociação pelo pai.

Não há dúvida de que o patriarca da família seguirá julgando-se merecedor de um prêmio por ter protagonizado a maior transação da história do futebol, em que o PSG desembolsará 222 milhões de euros (820 milhões de reais) pela multa rescisória com o Barça e garantirá a Neymar pai uma comissão em torno dos 40 milhões de euros (146 milhões de reais). Nem que seja necessário um embate nos tribunais, já que o Barcelona depositou em juízo o bônus de 26 milhões de euros (96 milhões de reais) pela última renovação de contrato, também deve levar outra bolada por seu drible derradeiro nos dirigentes blaugranas. Para Neymar pai, uma tacada de mestre. Para o filho, uma saída aviltante pela porta dos fundos de um dos maiores clubes do mundo.
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O caminhão de dinheiro oferecido pelo Paris Saint-Germain tem peso significativo na transferência. Embora influenciado pelo pai, Neymar está longe de ser o astro idealista que renega as benesses do capitalismo. Mas, para um jogador minimamente lúcido de seu potencial, há outros fatores que interferem na decisão de prescindir da companhia de Lionel Messi, Suárez, Iniesta e Busquets. Neymar alimenta o desejo legítimo de se tornar o melhor jogador do mundo. Ainda que seja difícil realizá-lo em um clube fora do circuito dos gigantes espanhóis, seria praticamente impossível no mesmo time de Messi. Achar que teria chances ao continuar dividindo gols e assistências com o argentino multiconsagrado é uma falácia semelhante à de que poderia figurar entre os três melhores do mundo atuando no Brasil.

Por outro lado, enxergar mero individualismo na decisão de trocar o Barcelona pelo PSG é cair na armadilha de projetar no futebol nossas expectativas por um mundo melhor. Trata-se de um jogo coletivo calcado em disputas individuais, no “um contra um”, na sede de superação. Um esporte que domina o imaginário popular com duelos personificados que marcam gerações, a exemplo de Puskas x Di Stéfano, Pelé x Maradona, Zico x Platini, Romário x Ronaldo, Cristiano Ronaldo x Messi. Se até mesmo jogadores medianos como Lucas, que um dia saiu como a contratação mais valiosa do futebol brasileiro e hoje orbita em segundo plano em Paris, sonham atingir o topo, qual pecado comete Neymar, com reais possibilidades para tal, ao sair da sombra de Messi para construir seu próprio reinado?

Diversas críticas podem ser feitas ao brasileiro. Menos a de que seu individualismo tenha se sobreposto ao jogo coletivo do Barça ao longo dessas quatro temporadas. Neymar derrubou prognósticos ao estabelecer uma afinidade que poucos conseguiram com Messi, que, no dia a dia, não é uma personalidade tão fácil de lidar quanto se presume. Que o diga Ibrahimovic, Eto’o e Villa. Todos sucumbiram à influência do argentino e ao embate de egos no vestiário. Mesmo ao assumir a batuta do time em períodos de baixa do camisa 10, Neymar evitou ocupar a cadeira de protagonista. E ainda amadureceu em vários quesitos, sobretudo com uma postura mais madura em campo. Messi, por sua vez, tão cedo não larga o osso. Seguirá no Barça por mais alguns anos e ampliará suas marcas na disputa particular com Cristiano Ronaldo.

Obviamente irritados com a falta de transparência nas negociações capitaneadas por Neymar pai, dirigentes e muitos torcedores do Barcelona não entendem como um jogador pode trocar o clube que sempre sonhou defender pela aventura com o PSG em uma liga bem menos valorizada que a espanhola. Mas há de se fazer uma ressalva. Atualmente, nem tudo são flores no Barça. O clube tem cometido erros frequentes de avaliação em contratações e prioridades, vide a mal digerida dispensa de Daniel Alves, que provou seu valor na Juventus e se tornou um dos trunfos do PSG para atrair Neymar. Deslizes que comprometem não só a capacidade de contratar, mas também a de reter seus principais valores. Apesar da camisa, da marca mundial e da tradição, o Barcelona atual, que parece cada dia mais inábil para competir com mecenas que despejam fortunas no mercado da bola, já não é visto como o paraíso dos craques. Daniel Alves, jogador mais vencedor em atividade, virou mercadoria descartável. Quem garante que outros não serão tratados da mesma forma?

Qual pecado comete Neymar, com reais possibilidades de se tornar o melhor do mundo, ao sair da sombra de Messi para construir seu próprio reinado?

No Paris Saint-Germain, Neymar encontrará um ambiente acolhedor, repleto de brasileiros. Um time e uma torcida carentes de um ídolo desde a saída de Ibrahimovic. Será tão protagonista quanto na seleção de Tite, o que não significa que resolverá tudo sozinho. Impossível relativizar a qualidade dos novos companheiros, como Di María, Cavani, Verratti, Daniel Alves, Thiago Silva e Marquinhos. Caso fracasse na missão de levar o PSG ao tão perseguido título da Champions League ou de se tornar o melhor do mundo, o atacante, hoje com 25 anos, ainda terá lenha para queimar em outra potência do futebol europeu.

É fácil nutrir antipatia por Neymar pelas atitudes infantis, como o desentendimento com Semedo durante a passagem pelos Estados Unidos, a frivolidade da trupe que o cerca e a exposição desmedida nas redes sociais. Muitos desses comportamentos estão associados à criação de popstar que sempre o educou como um produto, não como o garoto que sacrificou boa parte da juventude em concentrações e compromissos publicitários. No entanto, a gestão presunçosa de sua carreira ao sabor da vaidade e do insaciável afã do pai pelo maior lucro possível não deve obscurecer neste momento um cenário esportivo promissor em Paris. Pelo clube francês, Neymar pode não só aumentar sua coleção de títulos, mas, enfim, se apresentar definitivamente à briga pela Bola de Ouro. Ele tem méritos suficientes, conquistados com o próprio suor, para pleitear o tipo de reconhecimento que bem entender.

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Posted on 03-08-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 03-08-2017


Simanca, no portal de humor gráfico A Charge Online

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