Maravilha de composição! Maravilhosa interpretação de Nara e Edu!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)


A economista Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins e pesquisadora do Instituto Peterson

DO EL PAÍS

Daniel Haidar

São Paulo

A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional e professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington, chegou a experimentar um breve momento de otimismo cauteloso com a economia brasileira no início do Governo Michel Temer. Mas esse sentimento não durou nem seis meses. A discussão e a aprovação da emenda do teto dos gastos públicos acabou com qualquer boa expectativa. E, depois da revelação da investigação sobre a suposta trama de corrupção envolvendo Temer e o empresário Joesley Batista, sócio da JBS, ela passou a defender que o presidente devia renunciar ao mandato. Ex-diretora da Casa das Garças, tradicional reduto do pensamento econômico liberal no Brasil, De Bolle, mesmo favorável a privatizações, critica a proposta de Temer, que considera inoportuna. “Querem realmente vender ativos pra pagar o déficit primário? Estão vendendo o almoço pra pagar o jantar”, afirma. Para a economista, as iniciativas ousadas e polêmicas de Temer são tentativas de “criar espuma” para agradar ao mercado. “Estão criando espuma desde o ano passado com todas as reformas e viram que criar espuma é bom, porque mudou expectativas. Então continuaram com a mesma tática”, critica.

Pergunta. Qual a lógica do lançamento repentino de um projeto de privatizações por Temer?

Resposta. Uma coisa que tem sido absolutamente marcante no Governo Temer é essa tendência de querer fazer grandes manchetes e grandes esperanças, mas no final das contas entregar algo muito aquém do prometido. Temer faz promessas grandiosas, esperando que vai transformar o Brasil em dois anos. Houve uma tentativa bem sucedida de reverter o processo inflacionário, talvez mais influenciado pela recessão do que outra coisa, mas ao menos o Banco Central deu sinalizações corretas e vemos alguma recuperaçãozinha no consumo por conta disso. Houve tentativas de dar o pontapé em reformas, não geraram grande coisa, mas foi um início. Teve uma mudança na administração da Petrobras e mudanças no marco regulatório do pré-sal que foram importantes. Mas, para além disso, o problema é que esse Governo tenta o tempo inteiro inflar manchete e no fim das contas entrega a rebimboca da parafuseta. O teto do gasto público é um pouco disso: foi anunciado como algo revolucionário, mas para ser funcional depende da reforma da Previdência que não vai ter. E o Governo Temer trata os seus críticos da mesma forma que Dilma tratava. Nesse aspecto, é muito parecido com o governo anterior. Como Temer tem pouco tempo pra entregar resultados, está fazendo tudo no afogadilho. Teto de gastos foi feito no afogadilho e agora privatizações são feitas no afogadilho. O princípio de fazer privatizações é inquestionável. Mas sair anunciando um listão de liquidação de não sei quantos ativos, só pra botar manchete gorda, e depois ter menos de um ano pra entregar não parece nem um pouco viável. Querem realmente vender ativos para pagar o déficit primário? Estão vendendo o almoço para pagar o jantar. É pra isso que querem fazer privatizações? A legitimidade é absolutamente questionável, porque vimos, na área fiscal, o Governo dizer e fazer coisas opostas. Temer teve que fazer o fisiologismo clássico do PMDB para conseguir se manter onde está. Sacrificou-se o ajuste fiscal no altar do Temer — o espetáculo da Câmara discutindo a denuncia contra ele foi exatamente isso. E se pegar a lista de ativos que vão ser privatizados, tem um monte de coisas que estavam na lista da Dilma. Muita coisa requentada.

Por que com Dilma era ruim e com Temer é bom? Está todo mundo com espuma no olho e não consegue observar direito

P. E parece um bom momento para privatizar? Podem comprar os ativos por preços justos?

R. Por um preço qualquer, até tem gente pra comprar. Mas esses ativos têm valor. Vão vender a preço de banana? Estão vendendo a preço justo? O momento no Brasil não condiz com nenhum cálculo razoável de preço justo. Nas condições atuais, ninguém vai pagar o preço justo, porque ninguém sabe o que acontece depois de 2018. O grau de incerteza em relação a essas privatizações é imenso. Então qualquer empresa ou grupo que venha a querer comprar alguns desses ativos vai querer o desconto pela incerteza e o desconto pelo desespero do governo também. Essa privatização soa oportunismo e esse é o Governo de oportunismo por excelência. É uma tentativa de agradar o mercado, porque, afinal de contas, não vai acontecer mais nada nesse Governo. E tem uma tentativa de criar espuma. Estão criando espuma desde o ano passado com todas as reformas e viram que criar espuma é bom, porque mudou expectativas. Deu certo. Então continuaram com a mesma tática. Qualquer pessoa que pare e pense a respeito chega à conclusão de que não vão conseguir vender nada ou, se conseguirem, vai ser a preço de banana.

P. Seria possível ter metas fiscais mais rigorosas se Temer não tivesse uma situação tão frágil?

Essa privatização soa a oportunismo e esse é o governo de oportunismo por excelência

R. Não há dúvida que não estaríamos em situação tão ruim quanto estamos se não fosse a necessidade de Temer e de outros políticos de se defenderem a qualquer custo das acusações contra eles, sejam elas fundamentadas ou não. É o fisiologismo clássico do PMDB aliado a uma necessidade de sobrevivência política, que piora o fisiologismo. Isso conspira desfavoravelmente ao ajuste fiscal. Sem dúvida alguma, perspectivas desse ano e do próximo também estão bem piores. Esse Governo antes de qualquer coisa quer a sobrevivência política. É a ponte para o futuro deles. Não é a ponte para o futuro do Brasil.

P. Há diferença fundamental entre perdoar dívidas em programas de refinanciamento tributário e dar isenções tributárias como Dilma?

R. Tanto a desoneração quanto o refinanciamento de dívidas geram incentivos perversos. Porque o que você está dizendo pra empresa que deixou de pagar impostos é que em algum momento você vai perdoar. Pra que empresa vai pagar imposto se em algum momento vai pagar? Então cria um risco moral e vamos lembrar o seguinte. Quando Temer começou mandato, o ministério da Fazenda não queria ouvir falar de refinanciamento. Isso foi super criticado. Quando era a Dilma fazendo refinanciamento, todo mundo saiu dizendo que era péssima ideia. Quando Temer faz, fica tudo bem. Por que com Dilma era ruim e com Temer é bom? Está todo mundo com espuma no olho e não consegue observar direito. É a sensação que dá. Não tem coerência. Se você criticava lá atrás, tem que criticar agora. Se você criticava listas de concessões da Dilma, tem que criticar listas de privatização do Temer, porque é a mesma coisa. Se você criticava revisões de meta da Dilma, tem que criticar revisões de meta do Temer.

Esse governo antes de qualquer coisa quer a sobrevivência política. É a ponte para o futuro deles

P. Qual a diferença entre um Governo Temer e um governo Dilma?

R. A diferença entre Dilma e Temer é que Dilma era movida por ideologia. Ela achava que a economia funcionava de determinada forma — e não funcionava daquele modo. Tanto assim que deu no que deu. Fez um monte de experimentos e deixou o país em situação péssima, tudo isso por ideologia. Temer não faz nada por ideologia, faz por fisiologia. Temer é pragmático para fazer a ponte do futuro dele. Práticas escusas existiam e continuaram existindo depois de Dilma. E, sendo Temer vice-presidente de Dilma, não houve descontinuidade nesse sentido. Entre um e outro, as escolhas de política econômica acabaram sendo parecidas por razões diferentes. Dilma queria que economia crescesse de qualquer jeito e deu tudo errado. Temer não: faz o que tem de ser feito para conseguir ficar onde está. E por isso o país paga um preço. Mas acaba sendo um tipo semelhante de desordem. No lado fiscal, estamos igual ou pior do que estávamos.

P. Nesta quinta-feira, o impeachment de Dilma Rousseff completa um ano. Qual vai ser o legado do Governo Temer?

R. Temer não tem legado para deixar. Tem pra deixar o fim de um ciclo. O fim do Governo Temer vai demarcar o fim do ciclo do PT no Governo. Pelo menos desse PT que começou em 2003 com Lula. Isso não acabou no fim do governo Dilma, porque as práticas que estão aí continuam sendo exatamente as mesmas. Temer é parte absoluta desse ciclo do que se passou nessa década e meia. Não tem como ele se dissociar disso. Espero que nós todos tenhamos a sobriedade de saber eleger alguém decente, que saiba fazer um bom governo de verdade a partir de janeiro de 2019, porque fica um problema gravíssimo fiscal para próximo governo se resolver. Foi o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy quem começou a limpar todas as pedaladas das contas públicas. O Governo Temer ainda achou muita porcaria escondida, mas já tinham herdado do Levy um bom início de faxina nas contas públicas. Mas ao próximo governo será entregue o seguinte: contas em frangalhos, déficit alto, dívida pública crescendo. Porém, boa parte dos esqueletos fiscais já terão aparecido. Não sei se todos.

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Gilmar desinibido

Gilmar Mendes falou por telefone com Josias de Souza sobre o caso das flores de Jacob Barata.

Disse que o Ministério Público não vai inibi-lo, que os procuradores têm prática autoritária e são incentivados pela imprensa.

Ele desqualificou Rodrigo Janot (“um sindicalista”) e sugeriu que há mais procuradores desonestos, além de Ângelo Villela.

Gilmar afirmou, ainda, que há maioria na Segunda Turma para revogar a prisão de condenados em segunda instância. O placar, segundo ele, é de 4×1.

ago
31
Posted on 31-08-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 31-08-2017


Aroeira, no jornal O Dia (RJ)


Os saltos de Melania Trump, antes de voar para o Texas.
JIM WATSON AFP


DO EL PAÍS

Sandro Pozzi

O sapato de salto alto de Melania Trump tornou-se na terça-feira um símbolo — efêmero — da desconexão do clã presidencial com a realidade. A primeira-dama dos Estados Unidos escolheu no primeiro momento um stiletto de dar vertigem para a primeira visita à região afetada pelo furacão Harvey. O traje era complementado por uma jaqueta verde de tipo bomber do exército, óculos de aviador, calças capri justas. Ela estava perfeitamente penteada. O conjunto causou grande agitação no universo do Twitter, tão propenso à comoção instantânea, mas o debate nacional durou tanto quanto o voo para o Texas. Melania desceu do avião com tênis brancos, os cabelos amarrados em um rabo de cavalo.

O exame ao qual as primeiras-damas são submetidas por causa do estilo é constante. No caso da esposa de Donald Trump, uma ex-modelo, isso é feito com mais afinco. Se o presidente procurava oferecer a imagem de ter tudo sob controle, o primeiro conjunto escolhido por sua esposa criou imediatamente uma onda de comentários nas redes sociais, que literalmente transbordaram com uma infinidade de fotos de diferentes ângulos e ataques em que foi comparada a uma Barbie em uma missão de resgate. A elegância que a caracteriza contrastava radicalmente com as cenas trágicas que chegam da região devastada.

As fotografias da discórdia foram feitas no jardim da Casa Branca antes de ela se dirigir ao Air Force One com destino ao aeroporto de Corpus Christi. Durante o voo, talvez informada do vendaval que a esperava ao aterrissar, ela trocou os sapatos de salto alto por tênis brancos, tirou a jaqueta militar e recolheu o cabelo sob um boné preto no qual se podia ler FLOTUS — sigla de primeira-dama — na viseira. Depois se sentou à esquerda do marido no briefing que as autoridades fizeram sobre o dispositivo em operação. Evitaram Houston para não interferir nos trabalhos de resgate.

O presidente estava mais em sintonia com o que se espera de uma roupa normal para visitar os sobreviventes da tempestade, usando uma capa de chuva, calças caqui e botas marrons. E, claro, para encorajar suas bases, um boné com o USA bordado em azul e a bandeira de listras e estrelas na lateral. A Casa Branca respondeu à polêmica lamentando que as pessoas se preocupem com os sapatos usados por Melania Trump quando há um grande desastre natural no Texas que afeta a vida de centenas de milhares de pessoas. “É muito triste”, avaliaram.

ago
30


DO EL PAÍS

Afonso Benites
Brasília

Mais do que participar da cúpula dos chefes de Estado dos BRICS, o presidente brasileiro Michel Temer (PMDB) chega nesta quinta-feira à China em uma visita de Estado com a estratégica missão de vender parte de seu incerto programa de privatização de 57 empresas públicas do Brasil, o maior em 20 anos, que inclui a gigante Eletrobrás, o aeroporto de Congonhas e até a Casa da Moeda, além de várias obras de infraestrutura. As empresas serão expostas como em vitrines ao chineses, ávidos investidores no país, mas representantes dos outros países no encontro _Rússia, África, Índia e África do Sul_ não serão deixados de lado.

A China é o principal parceiro comercial brasileiro. No ano passado, a balança comercial entre os dois países atingiu a cifra de 58,4 bilhões de dólares – sendo 35,1 bilhões de exportação brasileira e 23,3 bilhões em importações. Além disso, O Brasil se transformou nos últimos dois anos no principal beneficiário das linhas de crédito dos bancos chineses. Essas instituições concederam no ano passado empréstimos no valor de 15 bilhões de dólares (47 bilhões de reais), máximo histórico que coincidiu com um dos anos mais conturbados em política e economia no Brasil.

Temer abordou os eventuais negócios entre Brasil e China em entrevista à emissora de TV estatal chinesa CCTV, nesta semana. “Esperamos que a China possa se interessar de participar desses eventos, dessas concessões que nós vamos fazer, para se trazer naturalmente capital para o Brasil”. O embaixador do Brasil no país asiático, Marcos Caramuru, acredita que os empresários chineses teriam interesse nas áreas de energia elétrica, rodovias, ferrovias e portos. “Tem ativos na área de infraestrutura que vão interessar aos chineses e fazer com que eles se posicionem para participar dos leilões. A China foi o país que mais investiu em infraestrutura no mundo. Por trás disso, eles têm uma capacidade de financiamento robusta”, disse Caramuru à Agência Brasil.

Do lado chinês, também não faltaram loas públicas ao Brasil, por meio da agência oficial Xinhua, controlada pelo Governo comunista. A agência, usada também para enviar mensagens diplomáticas, publicou entrevista na qual Wu Baiyi, diretor do Instituto de América Latina da Academia Chinesa de Ciências Sociais, diz que a relação bilateral entre Brasil e China tem um papel central tanto dentro dos Brics, que completa dez anos de formação, como nas relações de Pequim com o resto da América Latina. “Brasil, como coração da cooperação China-América Latina, pode compartilhar suas experiências com a China com outros países da região”, diz o texto. O tom é bem mais positivo do que o usado logo que Temer assumiu o poder e sua diplomacia deu sinais contraditórios a respeito da prioridades do BRICS na agenda da política externa brasileira. O recebimento do mandatário brasileiro em visita de Estado, a mais solene da hierarquia diplomática, também é um sinal do melhor momento nas relações.

Temer deixou o Brasil na terça-feira e tem volta prevista para 6 de setembro. Entre os dias 31 agosto e 2 de setembro, encontrará com o presidente chinês, Xi Jinping, e o primeiro ministro Li Keqiang. Participará também de um evento com empresários sino-brasileiros. Entre os dias 3 e 5, estará na cidade de Xiamen, onde ocorrerá o encontro dos BRICS. Nesse período, o presidente também se encontrará com os primeiros ministros da Tailândia, Prayut Chan-o-cha, e da Índia, Narendra Modi.
Legislativo à espera

O presidente levou consigo uma longa comitiva de políticos. São sete ministros e 11 deputados federais. Defensores de primeira hora do Planalto, como o trio de ferro na Câmara, Darcísio Perondi (PMDB-RS), Carlos Marun (PMDB-MS) e Beto Mansur (PRB-SP), ganharam uma espécie de prêmio pela lealdade: foram incluídos no avião presidencial.

Com a viagem de Temer, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), assumiu interinamente a presidência, o que deve atrapalhar o andamento da reforma política –já com dificuldades de tramitação, o tema ficou paralisado. Parte dos deputados de oposição tenta obstruir os trabalhos, que estão sendo conduzidos pelo inexperiente deputado André Fufuca (PP-MA). A expectativa é que as votações de projetos relevantes só ocorram depois que Maia retorne ao seu posto, o que só deve ocorrer na véspera de feriado em comemoração à independência do Brasil.



“A Força do Querer”, de Glória Perez, o folhetim das 9h da TV Globo:Desnudamentos e revelações de Ivana no esplêndido capítulo desta terça-feira. Extraordinárias interpretações e uma trilha musical de arrasar. Bravo!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

ago
30
Posted on 30-08-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 30-08-2017

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Quem abana quem, Cármen?

Cármen Lúcia, a seu modo, defendeu os juízes brasileiros, em sessão do CNJ;

“Muito obrigada a todos os juízes brasileiros que contarão sempre comigo, ainda que em um ou outro ponto haja discordância quanto à forma de procedimentos. Mas não haverá de alguém imaginar que o Conselho Nacional de Justiça, especialmente esta presidência, não tem o maior respeito e principalmente a certeza de que o juiz é necessário para que possa trabalhar bem, como tem trabalhado, e honrar bem o Brasil, como tem honrado, e com isso teremos certamente melhores condições para termos uma democracia republicana federativa, como está posta na Constituição.”

Quem abana quem, Cármen? É só isso que os juízes precisam saber.

ago
30
Posted on 30-08-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 30-08-2017


Quinho, no Diário da Tarde (MG)

DO EL PAÍS

Daniel Verdú

Ninguém foi à concessionária pegar a Ducati Monster vermelha que ele pagou com o inesperado sucesso de Gomorra. Seu irmão e ele faziam aniversário com alguns dias de diferença, e aquele ciclone de 650 cilindradas serviria para comemorar. A caminho de casa, com apenas 26 anos e um sorriso impossível de conter, Roberto Saviano (Nápoles, 1979) poderia jurar que as coisas não tinham como melhorar. E tinha razão. Naquele dia, como o resto de sua família, também compreendeu que durante muito tempo não voltaria a sair sozinho à rua. E muito menos de moto. Passaram-se 11 anos desde que o clã dos Casalesi lançou sua condenação ao escritor por revelar suas ações em Gomorra, e a vida de Roberto Saviano, emocionalmente congelada em muitos aspectos naquele setembro de 2006, é hoje um elemento indissociável da sua obra. A reclusão faz parte da sua lenda e também – ele não esconde – do fascínio por seus livros, séries e filmes. O escritor é, sem dúvidas, o personagem principal de um universo que se retroalimenta de um exército de secundários imaginários que falam como os mafiosos que conheceu nas longas escutas policiais, e de verdadeiros capos da Camorra que decoram suas casas e se penteiam como seus protagonistas. Os Savastano, Conte e demais famílias que compõem a particular genética do mal traçada por Saviano correm agora pelas ruas de Secondigliano como se fossem suas próprias criaturas. Assim pouco original é a vida. E pode ser que a sua, que transcorre com frequência em uma escuridão tomada por medos, ansiedades e remorsos, esteja muitas vezes determinada. Mas ainda é difícil não se perturbar diante de suas mudanças de ritmo. Esta entrevista, por exemplo, iria ser em um hotel de Bolonha. Mas, depois de alguns minutos de espera, um sujeito alto, quadrado e calvo, de quem assoma a ponta do cano de uma pistola sob o casaco, atravessa o hall na direção do jornalista. “Acompanhe-me, daremos uma volta.” É o chefe da escolta de cinco carabinieri – ele lhes dedicou seu penúltimo livro – que esperam fora, posicionados ao redor de dois carros blindados. No assento detrás do primeiro automóvel, com um boné azul e um blazer, um rapaz com barba, e um quê de sobrancelhas juntas – o sinal preferido dos mafiosos para zombar dele nos julgamentos –, estende a mão e pronuncia o evidente: “Olá, sou Roberto”.

Mas para entender este Saviano, que hoje passa a maior parte do tempo nos Estados Unidos e dando conferências pelo mundo, convém esquecer por um segundo o jovem e talentoso jornalista, a história da moto ou a recordação de sua vida anterior. Comecem a pensar nele como uma grande produtora internacional de conteúdos narrativos que goza da admiração de Scorsese e Salman Rushdie. Uma estrela para quem Bono, rei das boas causas, pede aplausos na metade de um show. Seu talento narrativo só é comparável à habilidade para vender o produto e agarrar pelo pescoço seu interlocutor. Seja neste parque de Bolonha em que pediu que a entrevista fosse feita enquanto estica as pernas ou do outro lado da tela do televisor.

Sua série Gomorra — um enorme sucesso mundial sobre a qual rejeitou escrever um remake americano para não estragá-la – está na terceira temporada. Gosta do formato, por isso está a ponto de iniciar outra, sobre Muamar Gadafi, desta vez como autor e produtor executivo. A reclusão e o talento dão para muito, e ele continua publicando nos principais meios de comunicação, onde acende e apaga polêmicas como se fossem cigarros – em uma delas, o xenófobo Matteo Salvini acaba de ameaçar retirar-lhe a escolta se chegar ao Governo –, e escreve livros publicados em 30 idiomas

Como La Paranza dei Bambini, seu novo e potente artefato criativo, centrado na delinquência juvenil do centro de Nápoles e na mudança de paradigma em relação às velhas famílias. Hoje a Camorra é um animal ferido, fragmentado e compulsivo que já dispara quase sem motivo. Claro, tem um filme em andamento e quem sabe alguma temporada televisiva.

Pergunta: Como se pode falar do mundo, escrever sobre o que acontece na rua, estando recluso, com escolta nas 24 horas do dia?

Resposta: É verdade… Este romance eu construí vendo julgamentos, escutando conversas interceptadas. Lia investigações e entrevistava os sobreviventes destes bandos na prisão. A primeira cena de humilhação, por exemplo, um policial contou para mim. Hoje só posso estar na rua com os meus [aponta os cinco seguranças que fazem sua escolta no parque]. Já não posso ser invisível, e isso eu perdi. Mas também tenho muito mais acesso a material judicial.

P. E como são os julgamentos desses garotos que descreve? Há algum momento em que se arrependem ou desmoronam?

R. Não. Alguns até aplaudem ao ouvir uma condenação de 25 anos. Como se dissessem “que me importa, tenho 16 anos e sairei com 26!” Estão orgulhosos de entrar na cadeia. Em outra investigação à qual tive acesso, perguntam a um garoto: “O que quer fazer quando for adulto?” E ele responde: “Nunca pensei nisso, morrerei de todo jeito”. Estamos falando da Europa? Parece uma frase de um miliciano da jihad.

“Há uma parte de Nápoles que é muito hostil comigo. Há pessoas que cospem em mim. Dizem que ganhei dinheiro às custas da cidade”

P. Os garotos de Scampia começam a se pentear como os protagonistas de Gomorra; as casas dos capos onde a polícia entrou ultimamente se parecem muito com a de Pietro Savastano, o chefe camorrista da sua série… Preocupa-o que todo o universo que criou comece a se transformar em um referencial para os criminosos?

R. É que já é assim. Os camorristas usam as mesmas palavras dos meus personagens, e estão conscientes disso. Mas não escrever sobre esses temas não impedirá que continuem com o que fazem. Se não têm Gomorra, terão Scarface ou O Poderoso Chefão. São criminosos que veem nessas histórias sua própria representação. Em minha cidade, Walter Schiavone fez para si uma casa idêntica à de Tony Montana [o protagonista de Scarface]. Deu o vídeo ao arquiteto para que a reproduzisse… No entanto, o estranho é que em Nápoles agora abriram um escritório antidifamação e denunciam quem consideram que fala mal de Nápoles.

P. E você está em primeiro lugar na lista.

R. Sim, mas o que eu faço não é falar mal de uma cidade. É narrar uma ferida para que seja resolvida. O fato de que os criminosos se inspirem na série, como aconteceu com Breaking Bad, não significa que não fossem de todo modo cometer os delitos. Mas reconheço que o mundo criminoso se vê tão representado em minhas histórias que busca aí parte de sua identidade. Por exemplo: se você quer ser capo, penteia-se como Genny Savastano [um dos protagonistas da série Gomorra], assim as pessoas que não te conhecem já sabem que você é um sujeito duro. O problema é que às vezes leio: “Atentado como em Gomorra” ou “roubo como em Gomorra”…, e isso não é verdade; tudo já acontecia antes.

P. Quando prenderam o capo Guzmán encontraram um exemplar de seu livro ZeroZeroZero autografado.

R. Sim, isso me trouxe muitos problemas. Segundo me disseram, estava escrito: “Para o Chapo, um abraço”. Eu não o havia autografado, claro. Mas houve uma avalanche contra mim. Embora tenha havido muitos capos que me leram, como Michele Zagaria, que tinha Gomorra. Todos veem a série.

P. Mas temos uma ligação metanarrativa importante, chegamos a um ponto em que sua ficção e a realidade criminal se retroalimentam.

R. Sim, mas sempre tento desmontar o mito do mafioso. Mostro em detalhes sua vida, seus negócios… Considero O Poderoso Chefão uma obra-prima, mas você nunca vê como Michael Corleone ganha o dinheiro. Você não o vê extorquir nem construir os cassinos. E esse relato contribui para a o fascínio. Tentei narrar os mecanismos internos para evitar a mistificação.

“Como você convive com a ideia de que as pessoas de quem se aproxima têm de compartilhar o seu destino? É uma situação de merda. Se me posiciono, há uma avalanche de lama”

Na série Gomorra, justamente, é impossível estabelecer empatia com alguém, até mesmo quando você começa a ter carinho por alguns dos personagens. Isso foi uma escolha muito concreta também no filme. Na série, por exemplo, quando você começa a gostar do imortal porque é um justiceiro malvado, ele tortura uma menina. Trabalho sobre a impossibilidade de gerar empatia. Os verdadeiros protagonistas não são os personagens, mas Scampia, o poder…

P. Em Scampia também estão contra sua obra…

R. Fizeram uma manifestação contra mim! Mas quando voltaram para lá os filhos de Di Lauro, narcos que saíram da prisão, ninguém fez nenhuma manifestação. Ninguém disse que não os queria porque tinham passado 10 anos na cadeia. Só se manifestaram contra mim. Há até um manifesto online que se chama Scampiamoci da Saviano. Entendo que não gostem de minhas obras, mas pensar que eu criei isso é absurdo.

P. Volta de vez em quando a Nápoles?

R. Sim, sobretudo para os julgamentos. Mas já não posso ir como antes. Há uma parte da cidade que é muito hostil comigo. Se te levo para dar uma volta você verá: há pessoas que cospem em mim. Dizem que ganhei dinheiro às custas da cidade. O dinheiro honesto que ganhou uma pessoa que escreve é um problema, mas o que conseguiram os criminosos durante todos esses anos, não. Estou há 10 anos vivendo com isto, é algo muito italiano. É como se os cidadãos de Albuquerque tivessem ficado irritados com os autores de Breaking Bad por causa da série…

P. Você e sua história se transformaram em um personagem que faz parte de seu próprio relato narrativo. Como administra essa relação?

R. Tento estar longe do personagem, me interessa pouco. Há pouco tempo me dei conta de que alguns acham que sou alguém antipático ou triste, ou apenas um camorrólogo…. O que me causou mais danos foi ter de enfrentar essa imagem que os outros formam da gente. Pense que isso da escolta vai além de que te impeça de levar uma vida normal: um dos motivos por que não vou à praia, por exemplo, é pelas críticas que receberia por viver bem com o dinheiro dos italianos. Mas acontece que a escolta serve para isso, para poder dar uma volta e estar aqui agora.

P. Chegou a se acostumar a esta vida?

R. Talvez um pouco, às vezes penso que aprendi com os condenados ao 41 bis [o artigo do Código Penal que se aplica a membros das máfias depois do assassinato do juiz Giovanni Falcone e que obriga a uma reclusão extrema] essa capacidade de estar fechado tanto tempo [ri]. Mas ciclicamente vem a depressão: não quero me levantar, não confio em ninguém, acho que todos querem me ferrar, achacar, insultar… Em minhas redes sociais há 2,5 milhões de seguidores, imagine quantos haters posso ter.

P. Dá a impressão de que ultimamente tem sido mais afetado pelas críticas e esse ódio anônimo de que fala do que pela própria reclusão.

R. Isso mesmo. Você pode me perguntar: “vão te matar?”. Pois, não sei. Mas se a luz continua a me iluminar, será muito difícil. Mas antes de tudo isso vem a deslegitimação. Também aconteceu com o juiz Falcone: foi devastado a vida toda pelos ataques contra sua pessoa. Eu tento aprender com ele.

P. Também o acusam de ter copiado histórias ou plagiado.

R. Sim, é isso de “isto já se sabia” ou “isto já tinha sido contado”… Mas minha força não se baseia em dar exclusivas, mas em tornar visível o que temos sob os olhos da crônica diária. Eu não descubro como os capos fazem, de acordo com quais coisas. Isso está nas investigações judiciais. Eu as narro, analiso. E isso tive de contar muitas vezes. Mas passei à ficção para não ter de me justificar mais.

P. Nesta nova etapa da sua vida, tem se interessado muito ultimamente pelas crianças: com este livro, com palestras em escolas, campanhas contra o assédio… Eu me pergunto se pensa em ter filhos nas condições em que vive.

R. Me produz ansiedade, me dá terror pensar que as pessoas que amo tenham que viver como eu. Minha mãe teve um infarte e me senti culpado. Vim correndo dos EUA e, em parte, foi porque me senti como se lhe tivesse dado o golpe no coração. Há 10 anos que a faço ir de um lado a outro sem as contrapartidas que eu tenho: entrevistas, sucesso comercial, trabalhar no que gosto… Ela só teve problemas. E meu irmão, a quem amo demais, o mesmo. Ele me diz que está comigo, mas sei que está cansado de aguentar tanto.

P. Disseram isso a você alguma vez?

R. Meu irmão, não, porque tem essa espécie de orgulho. Mas minha mãe um pouco mais, também pelo modo como eu me arruinei a vida. Os amigos pagam por mim, e isso é muito doloroso. Faço uma afirmação e vão até eles para responderem. É muito injusto, não sei se é normal. E-mails, mensagens no celular… Assim, como você convive com a ideia de que as pessoas das quais você se aproxima têm de compartilhar o seu destino? É uma situação de merda porque toda vez que assumo uma posição pública há uma avalanche de lama.

P. Existe uma inclinação a pensar que sua condenação foi uma bênção comercial.

R. Sei disso, também para Salman [Rushdie] diziam que tinha de levar flores ao túmulo de Khomeini por tê-lo transformado no escritor mais famoso do mundo. E é verdade que há um lado que me deu algo… mas, veja, a verdade é esta: eu, quando recebi as ameaças, já havia vendido 100.000 cópias. Minha mãe ainda me diz: “Roberto, você não caminhava, voava…” Tinha conseguido ser escritor, publicava em jornais, era o que eu queria… Quando a ameaça chega, tudo se torna maior. Eu tinha um segundo contrato, estava comprando uma moto… Se pudesse voltar atrás, iria para aquele setembro.

P. Mudaria o que fez depois da ameaça?

R. Sim, e seria muito mais prudente, não teria feito Gomorra da mesma maneira. Eu os desafiei, estava convencido de ser invencível. Eu tinha uma vida de intelectual de verdade, não esta merda de vida de vagabundo, ou personagem clandestino… Esta noite durmo com eles [aponta os carabineiros que o acompanham]. Além disso, tenho um enorme sentimento de culpa porque arruinei a vida de muita gente que eu amava muito. Mas eu tinha 26 anos, era muito jovem e estava convencido de ser invencível. No final me despedaçaram… Mas, bem, ainda estou aqui.

P. Como combate o sentimento de culpa?

R. Eu sofro muito, sinto que não mereço a felicidade. Minhas escolhas determinaram a vida de meu entorno. Meu irmão estava tranquilamente em sua cidade antes de tudo isto… [toda a sua família se mudou para o norte da Itália]. Tenho dois sonhos recorrentes. Em um estou em um quarto sem janelas, fechado a sete chaves, do qual só posso sair entrando em um buraco. O outro é que encontro minha mãe e meu irmão e não me reconhecem.

P. E por que não deixa de escrever sobre Nápoles?

R. Quanto mais me distancio, mais escrevo sobre Nápoles. A distância aumenta a proximidade do coração, do pensamento e da análise. Todo meu distanciamento é um modo de continuar em Nápoles. É minha terra, eu a conheço muito bem e sinto sua falta. Por isso me parece uma infâmia que me chamem de inimigo da cidade. Toda vez que fecho um contrato, teclo no Google: “Casa à venda em Nápoles”. Então telefono ao banco para pedir a hipoteca, e o sujeito me responde: “Tem certeza de que é em Nápoles?” Em seguida desligo e não volto a ligar.

Daniel Verdú: Trabalha como repórter do El País desde 2005. Aprendeu o ofício na seção de Local, acompanhando a política e os percalços municipais, e depois passou alguns anos dedicado à música e trabalhando em reportagens culturais. Atualmente escreve histórias em profundidade, perfis e entrevistas para diferentes seções do jornal, com um olho nas novas narrativas.