CRÔNICA/ SONHOS E MAGIA

Está nevando no país do Lorde Cigano

Janio Ferreira Soares

Vendo essa empolgação de repórteres e turistas com a chegada de uma neve de araque no Sul do país, lembro-me da cena inicial de Bye, Bye, Brasil, filme de 1979 de Cacá Diegues, quando um velho caminhão chega na cidade alagoana de Piranhas, aqui pertinho, com uma boca de alto-falante em cima e os Fevers cantando “ioiô, ioiô, ioiô, ioiô, preso por um fio estou”, acompanhado da inconfundível voz de José Wilker, anunciando: “atenção senhores e senhores, digníssimas autoridades civis, militares e eclesiásticas; depois de prolongada ausência devido a compromissos em São Paulo e no Sul do país, está de volta a esta progressista cidade do sertão a Caravana Rolidei, que tem o orgulho de apresentar ao seu distinto público suas grandes atrações: o fabuloso Andorinha, o rei dos músculos; a internacional Salomé, a rainha da rumba; e o extraordinário e inimitável Lorde Cigano, o imperador dos mágicos e videntes” – sem dúvida um dos mais geniais personagens do fantástico Wilker.

À noite, nosso ilusionista charlatão entra no picadeiro e diz: “e agora, em caráter absolutamente extraordinário, e em homenagem ao distinto público desta fabulosa cidade, eu, Lorde Cigano, o mestre dos sonhos, vou atender ao maior e mais íntimo desejo de cada um de nós brasileiros”, para, em seguida, perguntar: “qual é?, qual é?”. “Muita fartura e progresso”, responde o prefeito, comendo um prato de tapioca. “Ser eterno”, diz um outro. Com a malandragem dos cínicos, Lorde divaga: “ser eterno… nenhum mágico, por mais porreta, jamais conseguiu e nunca vai conseguir fazer a mágica de não morrer. Mas eu, Lorde Cigano, guia das nuvens e do tempo, posso fazer milagres com a vida e posso tornar real o sonho de todos os brasileiros: eu posso fazer nevar no Brasil”. E aí, depois de dizer as palavras mágicas “Para Vigo Me Voy!” (que na verdade é o título de uma famosa rumba que na sequência embala a dança de Salomé), começa a nevar ao som de White Christmas, para júbilo do prefeito, que grita: “tá nevando no sertão!, tá nevando na minha administração!”. “Sim!”, confirma Lorde Cigano, “está nevando no sertão… como na Suíça, na Alemanha, La France… como na velha Inglaterra – saudade! -, como na Europa em geral”. E conclui, diante de deslumbrados espectadores ensopados de coco ralado e isopor: “agora, como em todo país civilizado do mundo, o Brasil também tem neve”.

Pois bem, 38 anos depois, anda fazendo 16 graus no meu quintal. Me sentindo quase europeu, ligo a TV e já tenho a sensação de ver Ângela Merkel no lugar de Gleisi Hoffmann; Macron no de Michel; e o ex-presidente François Hollande sendo condenado por um tríplex na Riviera Francesa. Pardon, periferia, mas já me voy ao Louvre comer um cassoulet e tomar um Bordeaux. Au revoir!

*https://vimeo.com/91022842 Vale a pena lembrar de um tempo em que no Tabariz o som era que nem os Bee Gees.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

https://vimeo.com/91022842

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Temer, Maia e ACM Neto: algo parece ter fugido
do script no jantar no Jaburu.


“A Força do Querer”: traição produz fortes reações
no folhetim das nove de Glória Perez.

ARTIGO DA SEMANA

Política e Traições: choque Temer x Maia e o folhetim de Glória Perez

Vitor Hugo Soares

Nas relações amorosas, na atividade política, ou nos jogos palacianos de poder, a traição (ou a mera suspeita de) é razão suficiente para desencadear reações explosivas drásticas e, em geral, devastadoras. Tanto nos casos dos maiores amores, em um caso, quanto naqueles das, aparentemente, mais sólidas e incondicionais alianças políticas e de governo, entre uma ponta e outra dos enredos.

No Brasil, milhões de espectadores e de eleitores acompanham, nesta segunda quinzena de julho, situações emblemáticas sobre “traíras” (no linguajar soteropolitano das transmissões de futebol pelas rádios locais, que virou expressão nacional da temporada), tema sempre delicado e polêmico: É assim nos capítulos diários do folhetim da TV, assinado por Glória Perez – “A Força do Querer” – ou nos fatos da realidade, que os jornais e blogs anunciam ultimamente, relacionados com a queda de braço do oscilante mandatário maior da República, Michel Temer (PMDB), com o vacilante e atordoado presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM). O resultado, porém, é o incêndio que toma Brasília e começa a se alastrar inevitavelmente pelo País, apesar dos esforços de bombeiros de ocasião, atropelados por velhos e experientes incendiários de ofício.

No primeiro caso – o da novela, em seguida ao Jornal Nacional -, que o diga o ator Dan Stulback. Ele encarna, na trama ficcional, o papel de Eugênio. Protótipo do cidadão do bem, de bons modos e hábitos. Romântico frágil e inseguro, como nos versos da canção consagrada por Adriana Calcanhotto. Marido e pai exemplar, admirado e elogiado por todos que o cercam, capaz de jogar para o alto, de um momento para o outro, a bem sucedida carreira de empresário, para se dedicar a advocacia, seu sonho pessoal da juventude e ponto de partida de seu novo projeto existencial. Mas estamos falando de novela.

Tudo vira de pernas para o ar quando Eugenio é apanhado, em quase flagrante delito de traição, pela mulher Joyce, representada com maestria e arte merecedoras de prêmio, pela atriz Maria Fernanda Cândido. Modelo feminino de beleza, charme e elegância. Adepta praticante das melhores regras da etiqueta, mas que perde o chão, se despenteia, chora, grita e quebra tudo, ao encontrar a gravata que ela dera ao marido, “largada” na sala da casa da amante, sua amiga, confidente e conselheira.

Não conto mais para não chatear ou quebrar, maldosamente, algum segredo ainda desconhecido de quem segue cada passo da trama, a exemplo deste jornalista, tão viciado nas múltiplas e instigantes faces da história, quanto a jogadora Silvana (Lilia Cabral) – mulher do conservador falso durão Eurico (Humberto Martins), no comando dos negócios da família Garcia, relegados pelo irmão.

Só repito o que Stulback anda falando, depois de conhecida a sua desgraçada traição a Joyce. Já recebeu pancadas de guarda-chuva e sombrinhas. nestes dias de chuva e frio do inverno, chutes nas canelas, ameaças de sopapos, sem falar dos freqüentes e inevitáveis chamados para “um particular”, de mulheres e homens, nas ruas por onde passa, ou locais que habitualmente frequenta: ”Até você, rapaz?, bem que disse que você se saísse dessa. Aquela zinha que você arranjou para trair sua esposa não presta, como é que você não viu?”, reclamam desapontados e indignados seguidores de “A Força do Querer”.

Na política, “na vida real” ( como diz meu antenado e crítico irmão Genival , o “Chico” do Bahia, em dias de graça com os feitos de seu time no atual campeonato brasileiro), a batida do jogo das traições é um pouco diferente, mas igualmente devastador no plano das relações de poder. Para constatar, basta seguir o que andam fazendo, ultimamente, o mandatário principal da República e o presidente da Câmara, o primeiro na linha de sucessão, dentro ou fora dos apontamentos de suas respectivas agendas. No caso do ocupante do Jaburu, incluindo os sábados, domingos e feriados.

“Tudo começou na terça-feira, quando Temer decidiu visitar a líder do PSB na Câmara, Tereza Cristina (MS), e convidou os deputados governistas do partido a ingressarem no PMDB. Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB e um crítico feroz do peemedebista, foi contundente: “Um presidente tratar de cooptação de deputado na casa de uma deputada não é propriamente uma agenda de presidente da República (…) Ele deveria estar envolvido na solução de problemas em vez de se dedicar à solução de problemas partidários visando salvar a sua própria pele”, aponta o jornal espanhol El País, em certeira reportagem sobre a política brasileira.

Atingido na moleira, Temer engrenou uma arriscada marcha ré. Convidou o prefeito da capital baiana, ACM Neto para um jantar no Palácio do Jaburu. Convite estendido a Maia, amigo pessoal e companheiro de partido de Neto, ex-parlamentar e reconhecido articulador político, em largada para disputar o governo da Bahia, em 2018, e tentar acabar o domínio petista no estado, derrotando o governador Rui Costa (afilhado de Wagner, Lula e Dilma) na tentativa de reeleição. No dia seguinte, Temer viajou para a reunião do Mercosul, na Argentina, e deixou o governo nas mãos do presidente da Câmara.

Uma foto dos três participantes principais do regabofe, no Jaburu, mostra visível constrangimento geral. Parece exprimir que alguma coisa não correu como previsto, ou fugiu do script. Algo estragado foi servido no cardápio? Alguma suspeita de mais e novas traições?. Perguntar não ofende.

Aguardemos a resposta no retorno do presidente, da reunião de Mendoza, no começo da noite desta sexta-feira, quando os preços dos combustíveis -principiando pela gasolina – começam a disparar os postos em Salvador e no resto do País, resultado imediato da subida de impostos autorizada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meireles. Aí sim, uma perversa traição aos achacados contribuintes e à sociedade indefesa.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Paua. E-mail: vitor-soares1@terra.co.br

Um clip da preciosa reserva musical de Regina, lá nos vales de Napa e Sonoma, dos melhores vinhos californianos. Vai dedicado com afeto e solidariedade ao amigo do peito deste site blog, Luiz Fontana, o poeta de Marília (SP) que se afasta temporariamente das conexões na internet e do BP. Esperamos que pelo menor espaço de tempo possível. Sempre juntos, mesmo sem as esquinas, bares e balcões da web, mas com as estantes da poesia sempre abarrotadas.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

jul
22
Posted on 22-07-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-07-2017

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Vale-tudo no Whatsapp do PSB

O Antagonista soube que os xingamentos viraram rotina, nos últimos dias, no grupo de Whatsapp dos deputados do PSB.

O principal alvo dos ataques por escrito tem sido a líder da bancada, Tereza Cristina, que se reuniu no início da semana com Michel Temer e dissidentes.

“Só não teve porrada ainda, porque a briga, por enquanto, é virtual. Quando o recesso acabar, vai pegar fogo”, prevê um deputado.

Além dos xingamentos, o grupo está cheio de gifs ironizando a postura dos que querem deixar o partido. Uma das montagens diz: “Cada um tem seu preço”.

jul
22
Posted on 22-07-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-07-2017


Amarildo, no diário A Gazeta (ES)


DO EL PAIS

Jan Martínez Ahrens

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, pediu demissão. Sua saída coroa um longo processo de insatisfação que teve início no dia seguinte à posse, quando o presidente Donald Trump chamou a atenção de Spicer reservadamente depois de avaliar como negativa a sua imagem naquela ocasião. Desde então, as relações entre o porta-voz e o mandatário republicano têm sido tumultuosas, a ponto de Trump não esconder as diferenças e até mesmo comentar que só o mantinha no posto “por causa de seus altos índices de audiência”.

Essa tensão, de acordo com as primeiras versões, explodiu nesta sexta-feira quando Trump decidiu nomear como diretor de comunicação da Casa Branca Anthony Scaramucci, um financista de Nova York bastante ativo durante a campanha. Amigo do presidente, de seu filho mais velho e de seu genro, Scaramucci chamou a atenção por defender o republicano diante das câmeras de televisão. Há duas semanas, ele conseguiu obter uma retratação pública por parte da CNN por uma informação falsa que fora divulgada. Essa retificação foi seguida pela demissão de três jornalistas, entre eles o chefe de reportagem investigativa da rede.

Esse êxito o levou a ganhar pontos diante de Trump, que o convocou na manhã desta sexta-feira na Casa Branca para indicar a sua nomeação. Spicer, que já vinha na corda-bamba há algumas semanas, considerou a medida uma desqualificação pessoal e, dada a sua oposição ao nome de Scaramucci, apresentou sua demissão.

Não está claro se Scaramucci irá ou não ocupar o cargo de porta-voz. A diretoria de comunicação é um cargo mais orgânico e de perfil estratégico. Seu ocupante mais recente, Mike Dubke, que se demitiu no final de maio, não era muito conhecido. E sua saída foi tratada por Washington como uma questão de menor importância.

A entrada de Scaramucci também não significa necessariamente o fim das mudanças em curso na Casa Branca. A oposição democrata já está de olho nele. Pouco antes de Trump assumir a presidência do país, o financista vendeu o seu fundo de investimento, SkyBridge Capital, a um grupo chinês. Uma venda que levantou suspeitas e que será com certeza objeto de investigação.