Cármen Lúcia, presidente do STF Divulgação


DO EL PAÍS

Regiane Oliveira

O Governo de Michel Temer conseguiu se manter em pé após a apertada vitória no Supremo Tribunal Eleitoral (4×3), apesar de índícios de abuso de poder econômico e político na eleição de 2014. Mas isso não quer dizer que a tempestade passou. Foram poucas horas de descanso até o Planalto ser atingido por uma nova crise, desta vez. Uma reportagem da revista Veja afirma que Temer teria acionado a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para investigar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF.

A notícia provocou reações exaltadas na Corte. Cármen Lúcia, presidente do STF, afirmou em nota que é “inadmissível a prática de gravíssimo crime contra o Supremo Tribunal Federal, contra a Democracia e contra as liberdades, se confirmada informação de devassa ilegal da vida de um de seus integrantes”.

Sem mencionar a reportagem, a ministra disse que a prática de espionagem é “própria de ditaduras” contrárias à vida livre de toda pessoa. Mais grave ainda por se tratar de uma investigação que tem como foco a atuação de um juiz. Cármen Lúcia pede que a ação seja “penalmente apurada” e que os responsáveis sejam “exemplarmente processados e condenados”.

“O Supremo Tribunal Federal repudia, com veemência, espreita espúria, inconstitucional e imoral contra qualquer cidadão e, mais ainda, contra um de seus integrantes, mais ainda se voltada para constranger a Justiça”, afirmou Cármen Lúcia.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também se manifestou a respeito. “É com perplexidade que se toma conhecimento de suposta utilização do aparato estatal para desmerecer um membro da mais alta corte do país, que tem pautado sua atuação com isenção e responsabilidade”, afirmou em nota. Segundo Janot, caso se confirme “tal atentado” aos poderes da República, este será mais um infeliz episódio da grave crise de representatividade pela qual passa o país. “Em vez de fortalecer a democracia com iniciativas condizentes com os anseios dos brasileiros, adotam-se práticas de um Estado de exceção”.

Michel Temer não tardou a responder as acusações, afirmando que jamais “acionou” a Abin para investigar a vida do ministro Edson Fachin. “O governo não usa a máquina pública contra os cidadãos brasileiros, muito menos fará qualquer tipo de ação que não respeite aos estritos ditames da lei”, disse em nota. “A Abin é órgão que cumpre suas funções seguindo os princípios do Estado de Direito, sem instrumentalização e nos limites da lei que regem seus serviços. Reitera-se que não há, nem houve, em momento algum a intenção do governo de combater a Operação Lava Jato.”

A crise acontece um dia após Edson Fachin dar uma palestra no Instituto dos Advogados do Paraná, em Curitiba, em uma rara aparição, na qual afirmou não acreditar que “altas autoridades da República” tentem interferir na investigação [da Lava Jato], segundo reportagem do UOL. “Isso não é compatível com os exercícios dessas funções”, disse o ministro em resposta a um abaixo assinado realizado pelo colégio de presidentes de Institutos de Advogados do Brasil contrários a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da JBS, cujo foco é investigar membros da Corte que teriam relações com executivos da empresa.

BOM DIA!!!

jun
11
Posted on 11-06-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 11-06-2017

As 7 sujeiras varridas pelo TSE para baixo do tapete
DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

O Globo resumiu os sete pontos de abuso político e econômico da chapa Dilma-Temer listados pelo relator Herman Benjamin e varridos para baixo do tapete por quatro ministros do presidente:

1) “Propina gordura”, acumulada em anos anteriores e usada na eleição, oriunda da Petrobras.

2) Pagamentos feitos aos marqueteiros João Santana e Mônica Moura pelo estaleiro Keppel Fells.

3) Recursos desviados da Sete Brasil, fornecedora da Petrobras.

4) “Propina gordura” da Odebrecht.

5) Compra de apoio político de outros partidos a fim de apoiar a campanha.

6) Pagamentos via caixa dois para João Santana e Mônica Moura.

7) Gastos ilícitos com gráficas contratadas para prestar serviços à campanha.

“Benjamin ressaltou que, mesmo excluídas as delações, há provas robustas que justificavam a cassação: por exemplo, compra do apoio de partidos políticos, pagamento por serviços não prestados por gráficas de fachada e contratos de construção de navios-sonda com pagamentos de propina.

Em seu voto, o relator ainda disse que, mesmo que não houvesse nenhum ilícito ou infração isoladamente muito grave, o ‘conjunto da obra’ justificaria a cassação do mandato.”

Mas a cegueira voluntária é imbatível.

jun
11
Posted on 11-06-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 11-06-2017


Simanca, no jornal A Tarde


Tom Zé, em São Paulo. Isadora Brant/Folhapress

DO EL PAÍS

Chema García Martínez

Às portas do Howard Gilman Opera House, no Brooklyn, em Nova York, duas voluntárias devidamente credenciadas como membros do comitê Defend Democracy in Brazil abordam o transeunte. “O senhor está vindo para o show de Tom Zé?”, perguntam antes de entregar uma “Carta aberta ao presidente ilegítimo Michel Temer”, que vem acompanhada da letra da Marchinha Fora Temer, composição do protagonista do espetáculo Cante com Tom Zé.

O mais desleixado/iconoclastia/instável (literalmente) dos cantores e compositores octogenários brasileiros está aqui para contar suas coisas anti Temer e demais ao numeroso público que compareceu ao suntuoso coliseu de estilo neo alguma coisa, a metade ou mais de suposta origem brasileira, todos com seu flyer correspondente. O show, reunião, ou qualquer outra coisa, é organizado por uma associação sem fins lucrativos dedicada à promoção das “músicas do mundo”, que são todas as que não forem de Beyoncé e Justin Bieber, ou seja, todas, ou quase. E o pessoal, o local, que não entende nada.

Acontece que Tom Zé veio à sua apresentação na cidade dos arranha-céus e dos Starbucks consciente de seu dever como embaixador da música brasileira. Alguém do seu séquito o convenceu a fazer apresentações em inglês, mas Tom Zé não fala inglês (pequeno detalhe sem importância). E é então que ele desce do palco com um salto, upa!, para falar com a espectadora bilíngue da primeira fila: “Por favor, você sabe como se diz ‘criança’ em inglês?”. E é então que a plateia responde em coro: “Child, Tom, se diz child!”. E assim.

O portinglês de Tom Zé é o que tem, não há quem o entenda, dá no mesmo se for um anglófono, lusófono ou ambidestro. Mas Tom Zé é assim: gosta-se dele como é, naif, delirante, uma criança brincando de ser artista, frentista e, de novo, artista. Ele veste o macacão de trabalho que usa em cena, que remete ao Tom Zé trabalhador anterior a David Byrne e sua “descoberta” por parte da crítica anglo. Sem Byrne, sem tudo o mais, teria continuado ali, com seu macacão e sem seu violão. O Brasil castiga a heterodoxia e os heterodoxos como Tom Zé e Hermeto Pascoal. É preciso ter completado 80 anos para que o heterodoxo deixe de sê-lo e se torne uma “lenda” e apareça na coluna social de O Globo.

Um show de Tom Zé é uma mistura de música, performance e algo que não se sabe o que é e que tem a ver com o aleatório, o imprevisível, mesmo quando tudo em sua música esteja amarrado e bem amarrado. E se não for ele, é Daniel Maia, na guitarra elétrica e outros misteres, para o que der e vier.

A música de Tom Zé é assim: uma máquina de precisão em que uma peça leva à outra, e à seguinte. O imprevisível é trazido pelo próprio artista. Tom Zé-dadá, working class hero, antitropicalista e antitudo. Um punk à sua maneira.

Em seu show de sábado passado, Tom Zé apresentou todo o repertório do novo disco, uma espécie de tratado erótico sui generis, no qual explora a sexualidade infantil, ou adolescente, através de suas próprias recordações. “As letras são absolutamente platônicas”, avisa, “as representações são absolutamente carnais”. O artista coloca a mão na maleta de suprimentos que o acompanha para extrair dela uma panty carmim, que veste por cima do macacão, libertando a mulher que todo homem carrega dentro, ou se supõe que carregue. A coisa fala de símbolos: o fundo de um violão previamente desmontado se torna objeto de sonhos úmidos do artista menino-adolescente. Cronista inquieto da cotidianidade, Tom Zé canta para nos fazer mais felizes e inteligentes, ou assim o diz; e nós agradecemos.

De seus shows anteriores em solo americano, as composições inspiradas nas páginas amarelas e os anúncios do sistema de som do metrô de Nova York. Do seu velho repertório, as clássicas Cademar, Fliperama, Augusta, Angélica e Consolação, Menina, Amanhã de Manhã… demonstrações de um gênio movido pela curiosidade sobre tudo que o rodeia: “A curiosidade inventou a humanidade”, explica ao público.

Na saída, uma dupla de voluntárias –estas são outras– vem com uma ficha em que pedem a opinião do espectador sobre o que viu e ouviu, acompanhada por um questionário personalizado: “Você se considera homem, mulher, transgênero ou gênero não confirmado?”. América, ou seja.