Ariano Suassuna, Jerry Adriani e Teté Zarôio

Janio Ferreira Soares

Quando alguém me pergunta se tenho WatsApp e digo: “não, não tenho, mas se você quiser me dizer algo é só ligar”, o espanto de quem indaga me faz lembrar daquela história contada por Ariano Suassuna acontecida num jantar grã-fino no Rio de Janeiro, logo após sua posse na Academia Brasileira de Letras.

Dizia o velho bardo – com sua voz de quem fala de dentro de um pote sem água – que estava sentado numa enorme mesa com uma fome danada (até aquele instante só tinham lhe servido uns salgadinhos com gosto de coco-catolé) quando, a certa altura de um papo chatíssimo, a anfitriã lhe perguntou, quase afirmando: “naturalmente o senhor já foi a Disney, não?”.

Sua tímida confissão de que nunca saíra nem do Brasil, foi o bastante para transformá-lo numa espécie de ET diante dos convidados, mais ou menos como alguns me acham por não fazer parte dos que vivem a receber correntes do bem e textos atribuídos à Clarice Lispector, coitada, que nessas horas deve gastar seu charmoso sotaque ucraniano lá do além só para xingar os que curtem pérolas como: “Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das ideias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes. Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: – e daí? EU ADORO VOAR!”.

Mudando de assunto, no final da semana passada, no feriado de 21 de abril, aconteceu o Moto Paulo Afonso 2017, um dos maiores encontros de motociclistas do Nordeste. Uns dias antes fiz contato com o empresário de Jerry Adriani e acertamos uma apresentação sua no evento, mas aí ele foi hospitalizado e, infelizmente, nos deixou. Vida que segue, em sua homenagem conto um fato ocorrido num programa de calouros que havia aqui em Paulo Afonso nos loucos anos 70, época onde o politicamente correto morava longe e o tal empoderamento feminino se resumia na malemolência de Gal Costa com as pernas de fora cantando baby, te amo, nem sei se te amo.

Pois muito bem, no meio dos concorrentes lá estava o nosso glorioso Teté Zóio de Bufa, fã de Jerry, cujo apelido vinha de um forte estrabismo que se acentuava em momentos de tensão, como aquele.

Salão lotado, o locutor pergunta: “vai cantar o que, Teté?”. “Olhos Feiticeiros, de Jerry”. Introdução dada e assim que ele manda a primeira frase, dizendo: “Tem feitiço teus olhos”, um gaiato no pé do palco, grita: “tem é nos seus, zarôio da peste!”.

Apesar da raiva, Teté não perdeu o ritmo e, apontando para seu algoz, adaptou a frase seguinte, mandando um: “eu te pego lá fora!”. Por conta disso, nosso quase astro ficou em segundo lugar, e em vez da panela de pressão levou pra casa uma caixa de sabonete Phebo. Bons tempos!

Janio Ferreira Soares, cronista , é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

Grande Jerry Adriani ! Saudades também de Paulo Afonso e suas rádios incríveis nas tardes de abril à beira do Rio São Francisco.

BOA TARDE!!!

(Vitor Hugo Soares)


Ministro Fachin: reação à soltura de presos da Lava Jato…


…e “Um Inimigo do Povo”, drama de Ibsen,
encenado no Projeto Justiça, no Rio de Janeiro


ARTIGO DA SEMANA

A solidão de Fachin e o dramaturgo norueguês

Vitor Hugo Soares

O ministro relator do processo da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Luiz Edson Fachin, nesta complicada semana de quase fim de abril, buscou auxílio na obra e no pensamento do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, para sinalizar o seu sentimento de abandono e solidão, na encrencada quadra da vida política, jurídica, governamental e moral que atravessamos, na qual foi agregado, nesta sexta-feira, 28, um delicado e corrosivo ingrediente de revolta sindical espalhada pelo país.

Fachin, com seu jeitão enigmático e meio tímido (como um verso de bolero cubano Anos 50) fez seu desabafo quase em sussurro, diante do grupo de jornalistas que o aguardava na chegada ao prédio do STF, em Brasília, no dia seguinte à intrigante sessão da Segunda Turma que o deixou aporrinhado e em aparentes dúvidas sobre o seu entorno. O fez, no entanto, com exemplo intelectualmente culto e caprichado. Usou metáforas tão poderosas e contundentes, que suas palavras ainda ressoam e repercutem com força e expressividade dos Tambores de Calanda, durante as cerimônias da Semana Santa em Saragoza. Descritas magnificamente pelo cineasta espanhol, Luiz Buñuel, em seu livro de memórias, “Meu Último Suspiro”, que este jornalista não cansa de citar e recomendar. Mais que nunca, nestes tempos indecifráveis do mundo em geral, mas principalmente do Brasil.

Foi uma espécie de repentino “cair na real”, amarga sensação de estar só , ou quase, entre seus pares. do ministro que agora, além de suas atribuições próprias, como membro da Suprema Corte de Justiça, carrega nas costas, também, o pesado e desafiante encargo de conduzir o processo da Lava Jato. A súbita percepção do abissal descompasso dos seus afazeres com a imensa responsabilidade que lhe foi passada. Depois da prematura morte do ministro Teori Zavaski, no terrível desastre no mar da tão belo quanto simbolicamente montanhosa e sinistra costa de Paraty.

Este episódio já foi exposto e repisado, em narrativas e análises diversas, ao longo dos últimos dias. Mas o fato comporta diferentes análises, segue candente e ainda queima como ferroadas das antigas abelhas africanas (antes de serem amansadas, depois de repetidas experiências científicas realizadas em laboratórios e apiários da Bahia, depois que as “africanas” viraram uma praga ameaçadora e quase mortal) . Não custa relembrar, em mais este texto de informação e opinião. Peço só um pouco de paciência (embora saiba que sobra pouca no país atualmente, de todos os lados), para cumprir norma básica de contextualizar fatos antes de emitir opinião, lição que aprendi nos livros do mestre Juarez Bahia, e nos muitos anos de trabalho sob o comando do premiado repórter (seis Esso de Jornalismo) e saudoso editor nacional do Jornal do Brasil.

Na quarta-feira, 26, com carradas de razão, Fachin estranhou e reagiu ironicamente, ao comentar os votos de colegas na decisão que mandou soltar dois presos da Lava Jato, um deles o empresário José Carlos Bunlai (notório amigo do peito de Lula e sua família em anos de poder e mando), simbólico exemplar desta triste história da formação de organizações criminosas de corruptos e corruptores, nos âmbitos público e privado, para saquear a Petrobras e o erário em muitas outras áreas, como o desfiar do novelo vai revelando a cada dia. Para Fachin, soaram como indicadores de afrouxamento de prisões no processo cavernoso.
No dia seguinte à preocupante sessão da Segunda Turma, o ministro relator da Lava Jato comentou, ao ser questionado pelos repórteres sobre as decisões: “Saí daqui ontem com vontade de reler o (Henrik Ibsen), “Um Inimigo do Povo”. Mais não disse Fachin, (além do sorriso irônico que esboçou), nem precisava!

Na famosa peça teatral, o dramaturgo norueguês trata do drama de um homem que queria salvar a sua cidade, ameaçada por corruptos e ambiciosos poderosos que poluem o seu rio, mas vira um inimigo do povo. A obra referida pelo ministro, de 1882, considerada um marco na abordagem do tema da defesa do meio ambiente – ao ter como personagem principal um cidadão idealista em luta contra a corrupção – é, acima de tudo, “uma impiedosa crítica às elites, aos governos, aos partidos, à imprensa, e ao pensamento único”, como já sintetizou um dos inúmeros analistas de “Um Inimigo do Povo” ao longo do tempo. “O cenário brasileiro sugere uma releitura dessa peça do velho Ibsen”, aconselhou, ainda, o homem da Justiça, antes de encerrar a conversa com os jornalistas. Pelo exemplo citado e recomendado, também atento e antenado leitor de clássicos do realismo literário.

Na parte que me toca, a revisitação ao livro da história do Dr Stockmann, médico da cidade do interior da Noruega, cuja maior fonte de renda vem da sua Estação Balneária, já está agendada. O farei, espero, logo depois que concluir a leitura do belo, pungente e a cada página mais surpreendente “A Menina que foi Vento – Memórias de Uma Imigrante”, o recém lançado livro de memórias de Symona Gropper: a jornalista nascida na Romênia, detentora, com justiça, do reconhecimento como um dos melhores textos do Jornal do Brasil desde que ainda bem jovem ingressou no diário carioca de prestígio nacional, depois brilhante colega de trabalho, durante anos, na sucursal do JB em Salvador e , ainda mais recentemente, na redação de “A Tarde”, na rápida passagem de Ricardo Noblat no comando do jornalismo do diário baiano. Uma saga comovente e leitura essencial para estes dias loucos de tanta gente desterrada no mundo.
Ficam as duas sugestões de leituras para este feriado. Vivamente.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta.E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

O eterno Oscar da Penha, em parceria com J Luna, bota para fritar a tristeza! Viva a dupla!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

abr
29
Posted on 29-04-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 29-04-2017


Visão do protesto em São Paulo, no Largo da Batata.
Ricardo Stuckert

DO EL PAÍS

H. Mendonça

A. Benites
São Paulo / Brasília
Visão do protesto em São Paulo, no Largo da Batata.
Visão do protesto em São Paulo, no Largo da Batata. Ricardo Stuckert

A manhã despontou no coração de São Paulo e os transeuntes que se via eram os moradores de rua que ali passam seus dias. Lojas fechadas, pouquíssimo trânsito e entradas de metrô completamente desertas. A imagem se repetiu durante horas nesta sexta-feira nas principais cidades brasileiras. Foi uma demonstração de força do movimento sindical que convocou uma greve geral contra as reformas trabalhista e previdenciária do Governo Michel Temer e conseguiu paralisar a rotina nas capitais graças, principalmente, à crucial adesão do setor de transportes _a única exceção foi o Rio de Janeiro, onde os ônibus circularam.

Na primeira paralisação nacional em 21 anos, os sindicalistas contaram com apoios pouco frequentes contra o Planalto, como a participação da Força Sindical, uma organização que apoiou o impeachment, a mobilização explícita da cúpula católica e a interrupção das aulas até em caros colégios particulares em várias capitais. “É preciso reivindicar nossos direitos que estão sendo retirados por um presidente impopular e ilegítimo”, dizia, na zona oeste de São Paulo, o estudante de escola privada André Neto, de 17 anos, num dos poucos protestos da jornada que acabaria em repressão policial _diante da casa de Michel Temer na cidade. Enquanto em Brasília houve tensão, mas não incidentes, no Rio, as cenas dramáticas de ônibus incendiados por mascarados se mesclaram às dos manifestantes correndo das bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia.

Instado a se manifestar sobre a mobilização, o presidente Temer fez uma declaração pública na qual reduziu a greve geral a “pequenos grupos que bloquearam rodovias e avenidas”. Ele insistiu que seguirá seus propósitos de “modernizar a legislação nacional” e descartou qualquer diálogo com sindicatos ou outros grupos da sociedade civil ao advertir que o debate sobre as reformas se realizará “na arena adequada para essa discussão, que é o Congresso Nacional”.

De fato, está no Congresso tanto as chances de sobrevivência do Governo Temer e sua agenda liberal como o termômetro real do impacto da mobilização desta sexta-feira. O Planalto, que conseguiu na Câmara passar a reforma trabalhista nesta semana, agora mapeia os parlamentares traidores para se preparar para a batalha mais difícil: a da reforma da Previdência. Se perceber que pode sofrer derrota ou mais defecções em sua pressionada base de apoio, o Governo será obrigado ao menos adiar o cronograma da votação na comissão especial do tema, prevista para o dia 3, e no plenário, entre 8 e 20 de maio. Se isso acontecer, pode ser ao menos uma vitória tática as forças que foram às ruas.

A mensagem das organizações da greve geral é que a pressão não cessará. No principal ato em São Paulo, o coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), Guilherme Boulos, exigia que “após a maior greve dos últimos 30 anos no Brasil, realizada hoje”, os senadores ouvissem “a voz das ruas” para reverter a reforma trabalhista aprovada na Câmara na quarta-feira. “Entre a aprovação na Câmara e o texto ir para o Senado nós paramos o Brasil”, disse. Mais do que as ruas, Temer parece estar preocupado com os cálculos de um Senado povoado por denunciados na Operação Lava Jato e, especialmente, com a resistência de um neooposicionista, o ex-presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL).
A guerra de narrativas sobre a greve

No Largo da Batata, principal ponto de manifestação na zona oeste de São Paulo, também se faziam sentir os ecos da Lava Jato na primeira manifestação após o bombardeio das delações da Odebrecht. Acuados por inquéritos da operação, os senadores petistas Lindberg Faria (RJ) e Gleisi Hoffmann (PR) discursaram em cima do carro de som. “Essa greve é o começo da derrubada de Temer”, afirmou Faria, sem empolgar a multidão que ouvia. De acordo com o senador, a bancada do partido irá apresentar um projeto de lei para antecipar as eleições presidenciais para outubro deste ano.

Crianças, bandeiras com o arco-íris – símbolo do movimento LGBT – , representantes do movimento negro e de vários coletivos da periferia dividiam o espaço com as tradicionais bandeiras vermelhas de movimentos como o MTST, CUT e MST. Estava por lá também um professor vestido com a camisa da seleção brasileira e segurando uma bandeira do país, numa indumentária típica dos atos pró-impeachment de 2015 e 2016. Wirmondes Corrêa Birges lamentava a participação dos petistas no ato. “Eu estou aqui lutando por melhores condições para meus filhos e netos, não queria que PT ou PSDB transformassem isso em uma coisa partidária”, afirmou, mas ressaltou apoiar a antecipação de eleições. “Precisamos de eleições diretas.”

O professor simbolizava uma das interrogações da jornada: a mobilização conseguiria implodir a polarização política entre forças esquerdistas e o PT de um lado, e forças à direita do outro, para conquistar um público mais geral contra as reformas? A pergunta não tem resposta clara ainda, mas o que se viu foi uma reencenação do fla-flu político, com uma feroz disputa sobre a narrativa da greve. Liderando o front de resistência, estava o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que chamou os grevistas de “vagabundos”. A controvérsia envolveu até a TV Globo, que, criticada porque seu Jornal Nacional não havia noticiado a greve prevista na quinta, resolveu fazer uma reportagem nesta sexta para mostrar o esforço da principal emissora de TV do país na cobertura. Nas redes sociais, a resistência também foi palpável. Mesmo com um Governo aprovado por menos de 10% da população e com uma agenda que seria impopular em boa parte do mundo, houve um bom volume de críticos dos transtornos da paralisação e de táticas de piquetes e bloqueios para forçar a adesão ao movimento.
Manifestante gesticula próximo a ônibus incendiado no Rio. Polícia dispersou manifestantes com bombas de gás.
Manifestante gesticula próximo a ônibus incendiado no Rio. Polícia dispersou manifestantes com bombas de gás. Leo Correa AP

Nas ruas, a questão do apoio à pauta se tornava mais complexas. Fabiana Paiva, que trabalha em um lanchonete dentro do terminal Jabaquara, em São Paulo, reclamava da clientela fraca. Contava que conseguira uma lotação para ir ao trabalho, mas não tinha a menor ideia de como iria voltar para casa. “Acho que essa paralisação é correta. Sou contra todas essas reformas do Governo, mas prefiro não protestar para não ter problema aqui no trabalho.”

A preocupação de Fabiana não soa menor diante dos novos dados de desemprego. Quando a jornada da greve ainda começava nesta sexta, os brasileiros toparam com uma notícia do IBGE que refletia a profundidade da crise econômica. Pela primeira vez na história, o Brasil ultrapassou a marca de 14 milhões de desempregados, ou 13,7% da população economicamente ativa. A cifra é aterradora num país que até pouco tempo flertava com a ideia do pleno emprego e um complicador a mais para Temer: não trazia nenhum sinal da recuperação econômica prometida por ele.

Colaborou María Martín, do Rio de Janeiro.

abr
29
Posted on 29-04-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 29-04-2017


Tacho, no jornal NH (RS)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Moro manda Lula devolver coroa de ouro, esculturas e jóias

Sérgio Moro autorizou que a Presidência da República busque no cofre do Banco do Brasil, em São Bernardo do Campo, as jóias que Lula recebeu de outros chefes de Estado quando estava no mandato.

Relatório produzido pela Secretaria de Administração da Presidência indicou que os itens foram recebidos por Lula “em trocas de presentes” e deveriam ter sido incorporados ao acervo público.

Entre os itens estão esculturas, uma coroa, três espadas e uma adaga. Na prática, Lula se apropriou de um bem público.

“Agentes públicos não podem receber presentes de valor e quando recebidos, por ser circunstancialmente inviável a recusa, devem ser incorporados ao patrimônio público”, disse Moro.