SEU BALANCÊ
Intérprete: Zeca Pagodinho
Compositores: Toninho Geraes e Paulinho Resende

Quando o canto da sereia
Reluziu no seu olhar
Acertou na minha veia
Conseguiu me enfeitiçar

Tem veneno o seu perfume
Que me faz o seu refém
Seu sorriso tem um lume
Que nenhuma estrela tem

Tô com medo desse doce
Tô comendo em suas mãos
Nunca imaginei que fosse
Mergulhar na tentação

Essa boca que me beija
Me enlouquece de paixão
Te entreguei numa bandeja
A chave do meu coração

Seu tempero me deixa bolado é um mel misturado com dendê
No seu colo eu me embalo eu me embolo
Até numa casinha de sapê
Como é lindo o bailado debaixo dessa sua saia godê

Quando roda no bamba-querer, fazendo fuzuê
Minha deusa esse seu encanto parece que vem do Ilê

Ou será de um jogo de jongo que fica no Colubandê
Eu só sei que o som do batuque é truque do seu balancê
Preta cola comigo porque, tô amando você

Lalaiá lalaiá lalaiá lalaiá lalaiá lala iá
Lalaiá lalaiá lalaiá lalaiá lalaiá lala iá
Lalaiá lalaiá lalaiá lalaiá lalaiá lala iá

Preta cola comigo porque estou amando você
Estou amando você

Salve Zeca, o fluminense mais baiano do samba brasileiro.

Salve os notáveis músicos e letristas Paulinho Resende e Toninho Geraes.

BOA TARDE!!!

(Vitor Hugo Soares)


Moro e Lula: encontro marcado, 3 de maio, em Curitiba…


…e Wagner: delação sobre entrega de propina
da Odebrecht deixa mal ex-governador.

ARTIGO DA SEMANA

Mãe em cena: e a hora do vamos ver de Moro e Lula

Vitor Hugo Soares

“No meio do caminho desta vida / me vi perdido numa selva escura, / solitário, sem sol e sem saída./ Ah, como armar no ar uma figura / dessa selva selvagem, dura, forte, que, só de eu a pensar, me desfigura?/ É quase tão amargo como a morte; / mas para expor o bem que eu encontrei, / outros dados darei da minha sorte”

(Trecho de “Inferno”, Canto I, extraído de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri)

Abril de 2017 corre infernal e desabalado no mundo, mas principalmente neste lado de baixo da linha imaginária do equador que nos toca viver: o incrível outono brasileiro deste tempo temerário trafega do jeito que o diabo gosta, mas com Deus de olhos bem abertos. Parece que estamos na encruzilhada entre as melhores apostas de redenção de um País (para muitos) e das maiores desesperanças (para outros tantos).

Os dias são assim: nem a senhora mãe de 93 anos de idade do figurão, do poder baiano e nacional, fica de fora. Foi arrastada também, esta semana, pela hecatombe política, governamental e moral causada pela saraivada de depoimentos, em delações premiadas, dos dois donos e dos principais executivos do império empresarial Odebrecht, no processo histórico da Lava Jato. Liberados semana passada pelo STF, devidamente acompanhados de áudios e imagens que seguem causando abalos e devastando biografias e reputações por toda parte.

Crua, popular e implacavelmente. Sem poupar ninguém com real ou aparente culpa no cartório. É bem o caso – para citar apenas um, mas emblemático, grave e assustador exemplo – da revelação feita por Hilberto Mascarenhas (deslavado executivo encarregado de tocar o departamento principal de distribuição de propinas do grupo comandado pelo patriarca Emílio Odebrecht (e seu filho Marcelo, preso há quase dois anos em uma cadeia de Curitiba).

A partir de Salvador, a cidade de todos os santos e de quase todos os pecados (no dizer de um dos seus maiores cronistas do cotidiano, já falecido), Mascarenhas chefiava o clandestino setor que funcionou, a pleno vapor, durante anos seguidos. Principalmente, e com mais intensidade e amplitude corruptora, em períodos eleitorais ou de apresentações ou votações no Congresso, e assembleias estaduais, de projetos e medidas não de relevância pública, e sim de interesse financeiro direto da empreiteira fundada pelo velho Norberto.

Ao longo de três gerações, a maior empresa nacional da construção civil criou muitos braços. Afiou suas garras. Virou também a máquina “bem azeitada” (expressão mais ao gosto de seus donos na Bahia) de controle e dominação política e governamental, que a sociedade brasileira e o mundo cada dia descobrem um pouco mais, desde o começo da Lava Jato, quando a Polícia Federal, os procuradores da República e o juiz Sergio Moro começaram a escarafunchar a roubalheira sem tamanho alastrada na Petrobras, maior orgulho nacional até então. Práticas que vêm de longe, já se sabe, mas que encontraram em 13 anos dos governos petistas de Lula e Dilma o terreno mais pantanoso e adequado para crescer, prosperar, dominar um país e se expandir continente e mundo afora, avassaladoramente.É o que se vê, pelos relatos de entrega da dinheirama da corrupção em quartos de hotéis, em desvãos de aeroportos, em baias de hipódromos… E as revelações mais escabrosas não param de surgir, a cada dia e a cada noticiário.

Os delatores não poupam nada nem ninguém, aparentemente. O homem do setor de pagamentos de vendidos políticos, governantes e altos burocratas do governo, Hilberto Mascarenhas, por exemplo, contou que a pessoa que recebia a propina indicava o local de entrega. O caixa-mor do propinoduto revelou então, que teve entrega de propina até em casa de mãe. Confirmou que foram pagos R$ 500 mil para o então governador da Bahia, Jaques Wagner, na casa da mãe dele, no Rio de Janeiro.

“Ele (Wagner) teve algum problema lá com a mãe dele e não queria mais que fosse usada a casa da mãe dele para fazer esse pagamento. Ele pediu e nós fizemos um esforço grande e conseguimos pagar em Salvador”, contou cruamente Mascarenhas. Wagner repudiou as afirmações do homem da Odebrecht. Disse em nota ao JN, que o delator é um criminoso confesso que tenta reduzir a sua pena, “nem que para isso tenha de envolver uma senhora de 93 anos”. Em Feira da Santana, na condição de secretário do governo petista de Rui Costa, reforçou a negativa ao participar de comício político mal disfarçado de ato administrativo, já de olho na reeleição do afilhado que colocou no Palácio de Ondina. A conferir.

E, como se não bastasse, ainda tivemos na quinta-feira, os depoimentos de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, e de Antônio Palocci, ex-ministro da Fazenda, ambos com potência explosiva suficiente para deixar o ex-presidente Lula e Brasília insones e em estado de pavor. Tudo isso enquanto Curitiba vive dias de expectativas. No dia 3 de maio, o ex-presidente Lula, acusado de praticar crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro, prestará depoimento na Justiça Federal, diante do juiz Sérgio Moro.

Na capital paranaense os comentários sobre o “duelo” corre em todas a bocas, a começar pela “Boca Maldita”, ponto referencial de manifestações políticas da cidade. Estive por lá no começo deste ano. No mês que vem não poderei ir. Mas espero se repita agora, algo semelhante ao pensamento expressado pelo motorista de taxi, um simpático tipo nipônico, quando conduzia o jornalista ao hotel, em janeiro. Comentei sobre a chuva que caía então em Curitiba. E o japa, tranquilo, sorrindo, falou: “é bom chover, que haja muita chuva, assim não faltará água para a Lava Jato continuar seu trabalho de limpeza de toda a sujeira em nosso país”. Então, que venha maio e a chuva.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Burt, para ouvir, sonhar ver a cidade acordar feliz!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Cerimônia esvaziada em Ouro Preto

Lula desistiu de ser condecorado com a medalha da Inconfidência. Flavio Dino, Tião Viana e Rui Costa também ignoraram a cerimônia de mais cedo em Ouro Preto.

Convidados por Fernando Pimentel, os artistas Marieta Severo, Wagner Moura, Camila Pitanga e Gregório Duvivier não apareceram.

Renan Calheiros Filhos, governador de Alagoas, foi um dos poucos que toparam a homenagem.

abr
22
Posted on 22-04-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-04-2017


Luscar, no portal de humor gráfico A Charge Online


Duas vítimas da rede de tráfico internacional de mulheres estudam
em uma casa de acolhimento da ONG Projeto Esperança, na Espanha, em abril passado.
Carlos Rosillo
María R. Sahuquillo


DO EL PAÍS

María R. Sahuquillo

Madri

Carla levou uma semana para ser informada de que não trabalharia como babá. Nem com idosos. Tampouco faria faxinas, como lhe haviam dito. Não. Teria que se prostituir. Comunicaram isso sem meias palavras. Intimidaram-na. Ameaçaram fazer mal à sua família. E ela tinha motivos para acreditar. Muitos. Tinham, sob algum pretexto, retirado seu passaporte brasileiro assim que aterrissou na Espanha, e ela agora estava num país desconhecido, à mercê de pessoas que antes acreditava que iriam ajudá-la. “Eu estava fazendo faculdade, fiquei sem trabalho e uma amiga me ofereceu a possibilidade de vir trabalhar no serviço doméstico durante seis meses para juntar um pouco de dinheiro. Achei que seria um período duro, mas que superaria. Quando cheguei, a realidade era bem diferente. Nunca acreditei que isso poderia me acontecer. Eu achava que tudo aquilo que se contava sobre mulheres enganadas era mentira”, diz, com o semblante carregado. Tinha 23 anos.

A brasileira ficou por algumas semanas em um apartamento de Madri frequentado por homens que queriam sexo em troca de dinheiro. Depois, em Portugal. Em Sevilha (também na Espanha). E de volta à capital espanhola. Sempre em apartamentos, como muitas das mulheres extracomunitárias sem documentos. Quanto mais afastado da vista pública, melhor. “Não podia sair sozinha. Controlavam tudo. É o que as redes fazem até te adestrarem. Até estarem seguros de que você não irá fugir. Você fica aterrorizada”, frisa Carla (nome fictício, como todas as mulheres que falam nessa reportagem para proteger sua identidade). Esteve nessa situação por mais de um ano. “Vim com uma mala cheia de sonhos e caí em um buraco do qual não acreditava que existisse saída”, diz alisando o rabo de cavalo que prende seus cachos escuros. Ela encontrou.

“Eu achava que tudo aquilo que se contava sobre mulheres enganadas era mentira”

Carla, uma mulher séria, eloquente, com voz grave e que tem sotaque suave quando fala espanhol, hoje ajuda outras mulheres a escaparem das máfias. É agente social na organização especializada APRAMP e uma das mediadoras que ajudam a identificar as vítimas dessa chaga e que as acompanham para que possam refazer suas vidas. “Somos sobreviventes do tráfico sexual e contamos a elas que se nós conseguimos sair, elas também conseguem”, diz. São 12 na equipe. Existem romenas, brasileiras, paraguaias, nigerianas e dominicanas; as principais nacionalidades das mulheres que chegam à Espanha para serem exploradas sexualmente, de acordo com os dados das autoridades. Quando conseguem sair da rede criminosa que as trouxe começa sua recuperação. E o processo, conta Carla, é duríssimo. “É preciso recuperar hábitos perdidos. É preciso voltar a aprender quase tudo, porque quando nos trazem nos anulam completamente como pessoas, física, psicológica e economicamente”, diz a mediadora.

Tempos depois de escapar da máfia que a escravizou, quando estava preparada, Carla contou tudo a sua família. “É parte do que sou agora. Não tenho vergonha”, diz. A brasileira lembra como se fosse ontem o dia em que conseguiu fugir. O dia de seu “resgate”. Uma mediadora da APRAMP, como ela é hoje, procurava indícios de que era uma vítima de tráfico sexual e um dia falou com ela. “Ela me disse que eu poderia ter uma vida diferente, que não precisaria estar ali. Recebi um número de telefone para emergências ativo 24 horas e um dia, em que havia recebido uma tremenda surra e acreditava que a próxima iria me matar, liguei para que me resgatassem. Não é fácil porque você está ali por sete ou oito meses, deixa de acreditar em você mesma e nas pessoas. E quando vê que aparece outra pessoa com promessas pensa que não irá cumpri-las. Mas eu estava tão desesperada. Chegou um determinado momento de minha vida em que eu havia esquecido meu nome, os motivos pelos que vim. Não aguentava mais”, conta.

Brasileiras, romenas, paraguaias, nigerianas e dominicanas: essas são as principais nacionalidades das vítimas de tráfico sexual na Espanha

A APRAMP ativou seu dispositivo de resgate e Carla foi levada a um apartamento protegido onde começou a terapia psicológica e onde recebeu a oferta de apoio legal. Na Espanha, diz Rocío Nieto, presidenta da organização que ajudou Carla, a assistência às vítimas de tráfico sexual está majoritariamente nas mãos de organizações como a sua e o Projeto Esperança, com apartamentos em 15 cidades aos quais chegam as mulheres que estavam sob custódia das forças de segurança e onde recebem cuidados médicos, aulas de espanhol, oficinas. Isso se forem identificadas como vítimas de tráfico sexual, algo que nem sempre acontece. Essa falha no sistema permitiu que mulheres nessa situação fossem detidas nas ruas e internadas nos CIE, como denuncia uma investigação da Women’s Link Worldwide e como alertou a Defensoria Pública. E que recebessem multas por “exibição obscena do corpo” por prostituírem-se nas ruas.

Carla foi identificada como vítima de tráfico sexual. Uma vez a salvo começou a fazer cursos para manter-se ocupada e ter uma formação para conseguir trabalhar. Estudou para ser auxiliar de geriatria e cuidou por um tempo de uma idosa que hoje considera como parte de sua família. Quando teve condições, começou a formação como agente social para se tornar mediadora.

Enquanto a brasileira conta sua história na sede de Madri, em um dos bairros com mais prostituição de rua, sete sobreviventes fazem um exercício de relaxamento no quarto ao lado. Em outra salinha, três jovens nigerianas com o cabelo penteado em dezenas de coques feitos com trancinhas, pintam um desenho. Na entrada, outras costuram vários vestidos em um dos cursos que a organização – que colabora com empresas como a Reale e com associações de costureiras e confecções – iniciou. Carla ajusta o colete, olha seu telefone e sai do local. Poucos metros depois começa a falar com as mulheres que esperam por clientes na rua. Cumprimenta cada uma. Entrega seu cartão a duas delas e segue seu caminho. Espera que alguma delas ligue, como ela o fez. E que voltem a viver.