O procurador-geral, Rodrigo Janot.
Joédson Alves EFE

DO EL PAÍS

Talita Bedinelli

Brasília

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu na tarde desta terça-feira que o Supremo Tribunal Federal abra 83 inquéritos contra políticos delatados pelos funcionários da Odebrecht na investigação da Lava Jato. Ele também pediu a quebra de sigilo dos depoimentos, mas quem decidirá sobre isso é o ministro Edson Fachin, responsável pela Lava Jato no STF, e não se sabe quanto tempo ele demorará para julgar as petições. A segunda lista Janot era esperada desde o final da semana passada e criou clima de tensão em Brasília. Apenas com a quebra de sigilo será possível saber quem são os políticos que Janot pede que sejam investigados. Já há indícios de que os delatores implicaram nomes relacionados a PT, PMDB, PSDB, entre outros partidos.

Segundo o STF, apenas o trabalho de registro do material enviado por Janot deve demorar entre dois e três dias. Somente depois disso é que o ministro Fachin começará a analisar tudo. Na última quinta-feira, a assessoria de imprensa do Supremo recolheu HDs de veículos de imprensa para que, assim que a decisão de Fachin seja tomada, os jornalistas possam ter acesso ao material. Essa fase também deverá demorar alguns dias, já que o material é pesado. Ele é composto, em sua maioria, por vídeos e áudios. Os advogados dos delatores pediram, no entanto, para que os vídeos não sejam divulgados, com o objetivo de se proteger a imagem dos ex-funcionários da empresa.

O material chegou ao Supremo em dez caixas, carregadas por funcionárias da PGR, por volta de 17h. Ele está sendo mantido em uma sala cofre, acessada apenas por pessoas autorizadas. Segundo a Procuradoria-Geral da República, ao todo foram feitos 320 pedidos para o STF. Além dos 83 pedidos de abertura de investigação contra os políticos com foro privilegiado (direito de presidente, ministros e parlamentares), foram solicitados 211 “declínios de competência” para outras instâncias da Justiça. Essa cifra pode se referir a pessoas que não tem o foro e, portanto, serão julgados pela Justiça comum, ou tem foro privilegiado, mas não no STF _no caso de a lista incluir governadores, por exemplo, o caso irá para o STJ (Supremo Tribunal de Justiça). Também foram pedidos sete arquivamentos e 19 outras providências, que não ficaram claras quais são.

A lista era esperada desde o final da semana passada e criou clima de tensão em Brasília. No Congresso, já se falava no início dessa semana em medo de uma “paralisia” na Casa e parlamentares começaram a relativizar o recebimento de caixa dois, uma das acusações que os executivos da Odebrecht já relataram ao longo dos últimos meses. O envio dos documentos provocou apreensão nos deputados nesta terça-feira à tarde. Vários perguntavam à imprensa se “algum nome” havia saído. “Esta é a realidade da Casa, infelizmente”, afirmou Alessandro Molon (Rede-RJ). Na avaliação do parlamentar, a lista deve emperrar ainda mais as votações no Congresso: “O Governo quer fazer parecer que não, mas a realidade é que haverá uma convulsão em sua base aliada, uma vez que muitos serão alvos de inquérito”.

DO G1/ O GLOBO

Em depoimento de cerca de uma hora à Justiça Federal de Brasília nesta terça-feira (14), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou que tenha atuado para obstruir a Operação Lava Jato. Ele disse também, em alusão a investigações envolvendo seu nome, que há três anos vem sendo vítima de um “massacre”.

Lula é um dos sete réus em ação penal que apura suspeita de obstrução dos trabalhos da Lava Jato. O processo, aberto em julho do ano passado, verifica se houve uma tentativa do grupo de convencer o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró a não fechar acordo de delação premiada.

Segundo as investigações, Lula, o senador cassado Delcídio do Amaral (sem partido-MS), o ex-chefe de gabinete de Delcídio Diogo Ferreira, o banqueiro André Esteves – sócio do BTG Pactual –, o advogado Edson Ribeiro, o pecuarista José Carlos Bumlai e o filho dele, Maurício Bumlai, teriam tentado impedir que Cerveró revelasse à Justiça detalhes do esquema de corrupção que atuava na Petrobras em troca de uma redução da pena.

Esta é a primeira vez que Lula depõe como réu na Lava Jato. Questionado pelo juiz Ricardo Leite se os fatos presentes na denúncia são verdadeiros ou falsos, o ex-presidente respondeu que são falsos.
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa o prédio da Justiça Federal, em Brasília, onde o petista foi interrogado nesta terça-feira (14) (Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo) Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa o prédio da Justiça Federal, em Brasília, onde o petista foi interrogado nesta terça-feira (14) (Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo)

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa o prédio da Justiça Federal, em Brasília, onde o petista foi interrogado nesta terça-feira (14) (Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo)

“Há mais ou menos três anos, doutor, eu tenho sido vítima de uma… eu diria quase que de um massacre. Ou seja, eu acho que todos aqui têm dimensão que um cidadão que foi um presidente da República [...] de repente é pego de surpresa por manchetes de jornais e televisão todo dia, todo santo dia, no café da manhã, no almoço e na janta alguém insinuando ‘tal empresário vai prestar uma delação e vai acusar o Lula, tal deputado vai prestar uma delação e vai acusar o Lula. Agora vou prender fulano, agora vão pegar o Lula, prenderam o Bumlai, vai delatar o Lula, prenderam o Delcídio, vai delatar o Lula, prenderam o Papa, vão delatar o Lula’. Estou esperando pacientemente”, afirmou o ex-presidente ao juiz.

“O senhor sabe o que que é o senhor acordar todo dia achando que a imprensa está na porta de casa porque eu vou ser preso?”, completou Lula.

O ex-presidente também enfatizou que entre pessoas presas na Lava Jato, empresários e políticos, não há ninguém que tenha dado ou recebido dinheiro dele.

“Eu duvido, antes, durante e depois [do mandato], os que estão presos e os que vão ser presos, que tenha um empresário, um político, que tenha a coragem de dizer que um dia me deu dez reais, que tenha coragem de dizer que Lula deu cinco centavos pra ele.”

Durante o depoimento, Lula afirmou que os fatos apresentados se tratam de “ilações”. Disse também que os governos do PT fizeram com que as instituições no Brasil fossem fortalecidas.

“Me ofende profundamente insinuação de que o PT é organização criminosa”, disse. “A procuradoria não existia, era uma peça de ficção, quando cheguei no governo”, completou.

Lula disse que passou os oito anos de seu governo sem participar de jantares e aniversários para evitar situações com pessoas pedindo favores.

“Fiquei oito anos no meu mandato, doutor, oito anos sem ir em um jantar, um aniversário, um casamento exatamente para não dar pretexto de aparecer aqueles que vão tomar meu champanhe e pedir um favor e vem tirar fotografia com celular pra depois depois explorar essa fotografia”, afirmou o ex-presidente ao juiz.

Cerveró e Bumlai

Lula afirmou que não tinha contato com o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. “Eu não conheço o Cerveró, conheço agora que ele ficou famoso”, disse. “Quem falava com o Cerveró era o Delcídio, que era amigo do Cerveró”, disse.

O ex-presidente disse ter “quase certeza” de que Cerveró foi indicado ao cargo na estatal pelo PMDB. Ele ressaltou que todos os nomes indicados ao conselho de administração da Petrobras eram pessoas com “capacidade técnica”.

Sobre Bumlai, Lula afirmou ter “profundo respeito”, mas ponderou que não tratava de negócios com o pecuarista.

“Eu conversava com o Bumlai, tenho profundo respeito. Ele sabe que a relação que tinha comigo não permitia discutir nenhum negócio”, disse Lula.

‘Chateado’ com Delcídio

Lula disse ainda que ficou “chateado” com as declarações do senador cassado Delcídio do Amaral, que era do PT. Em delação premiada, Delcídio disse que que o ex-presidente tinha conhecimento do esquema de corrupção que atuou na Petrobras e agiu para barrar as investigações da Operação Lava Jato.

“Eu fico chateado por uma ilação feita nesse processo contra mim pelo senador Delcídio. Portanto, eu gostaria de dizer que eu estou aqui pra responder a toda e qualquer pergunta”, disse Lula.

Questionado pelo juiz se conversou sobre a Lava Jato com Delcídio, o ex-presidente respondeu: “Da Lava Jato, hoje no Brasil, a gente fala no café, no almoço, na janta e ainda depois da novela. Só passa isso na televisão.”

O juiz perguntou para Lula sobre a versão de Delcídio de que o ex-presidente teria pedido ao senador cassado comprar o silêncio de Cerveró. Lula disse que o único brasileiro que poderia ter medo de um depoimento do ex-diretor era o próprio Delcídio.

“Doutor, só tem um brasileiro que poderia ter medo de um depoimento do Cerveró pela relação que tinha com ele, que é o Delcídio. Eu não tinha relação com o Cerveró, portanto, eu não tive nenhuma preocupação com o depoimento de nenhum dos empresários, de nenhum diretor da Petrobras porque não tem essa relação com eles. Portanto, o Delcidio contou uma inverdade nesse processo”, afirmou Lula.

O ex-presidente também foi questionado sobre uma suposta reunião no Instituto Lula, revelada por Delcídio, em que ambos teriam conversado sobre uma maneira de evitar a delação de Cerveró. Segundo Lula, houve várias reuniões com Delcídio no instituto, mas, segundo o ex-presidente nenhuma foi para tratar da delação.

“Várias vezes o Delcídio esteve lá. Várias vezes”, disse Lula. “Eu não tenho nenhuma razão pra ter qualquer problema com depoimento do Cerveró. Nenhuma razão. Não conheço, não tive convivência com ele”, afirmou.

Questionado pelo juiz se surgiu com Delcídio alguma conversa sobre impedir a delação de Cerveró, Lula respondeu: “Não surgiu”.

Apoio à Lava Jato

Lula ainda afirmou que não é contra a Lava Jato.

“Tem gente que acha que eu sou contra a Lava Jato. Pelo contrário, eu quero que a Lava Jato vá fundo pra ver se acaba com a corrupção”, ressaltou o ex-presidente.

Durante o depoimento, o ex-presidente criticou as acusações contra seu nome que vê na imprensa e declarações de procuradores que, segundo Lula, estariam o acusando sem provas.

“Um juiz, um promotor, um delegado, não tem que ficar fazendo pirotecnia com as pessoas. Se tem um brasileiro que quer a verdade nesse país sou eu”, disse. “Quero que a Lava Jato vá a fundo para acabar com a corrupção. O que sou contra é execrar”, enfatizou.

Na última fala da oitiva, Lula aparentou estar emocionado ao ressaltar que, na visão dele, não há provas que o incriminem.

“Eu estou com muita coisa na garganta para falar. Eu estou cansado de ver procurador dizer que não precisa de provas, que tem convicção, de juiz dizer ‘eu não preciso de provas, eu vou votar com fé’. Eu quero prova. Alguém tem que dizer qual o crime que eu cometi. (…) Tenho 71 anos de vida, eu cansei, cansei de ver as instituições que eu ajudei a criar desde a Constituinte desvalorizadas. Eu sempre valorizei o Ministério Público, a Polícia Federal e o Judiciário. Eu indiquei quase todos, nunca pedi um favor pessoal”, disse.

Lula chega à Justiça para depor sobre suspeita de obstrução da Lava Jato

Ruas fechadas

Por medida de segurança, a via de acesso ao prédio que recebe o depoimento do ex-presidente foi interditada pela Polícia Militar do Distrito Federal desde o início da manhã.

No momento da chegada de Lula, havia cerca de 25 manifestantes nas proximidades, todos a favor do ex-presidente. O local também tinha pichações com palavras de apoio a Lula.

DEU NO BLOG DO NOBLAT (O GLOBO)

A importância da Lava-Jato

José Padilha

1)Na base do sistema político brasileiro opera um mecanismo de exploração da sociedade por quadrilhas formadas por fornecedores do estado e grandes partidos políticos. (Em meu ultimo artigo, intitulado Desobediência Civil, descrevi como este mecanismo exploratório opera. A diante me refiro a ele apenas como “o mecanismo”.)

2) O mecanismo opera em todas as esferas do setor público: no legislativo, no executivo, no governo federal, nos estados e nos municípios.

3) No executivo ele opera via o superfaturamento de obras e de serviços prestados ao estado e as empresas estatais.

4) No legislativo ele opera via a formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar por elas.

5) O mecanismo existe a revelia da ideologia.

6) O mecanismo viabilizou a eleição de todos os governos brasileiros desde a retomada das eleições diretas, sejam eles de esquerda ou de direita.

7) Foi o mecanismo quem elegeu o PMDB, o DEM, o PSDB e o PT. Foi o mecanismo quem elegeu José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

8) No sistema político brasileiro a ideologia está limitada pelo mecanismo: ela pode balizar politicas públicas, mas somente quando estas políticas não interferem com o funcionamento do mecanismo.

9) O mecanismo opera uma seleção: políticos que não aderem a ele tem poucos recursos para fazer campanhas eleitorais e raramente são eleitos.

10) A seleção operada pelo mecanismo é ética e moral: políticos que tem valores incompatíveis com a corrupção tendem a serem eliminados do sistema politico brasileiro pelo mecanismo.

11) O mecanismo impõe uma barreira para a entrada de pessoas inteligentes e honestas na política nacional, posto que as pessoas inteligentes entendem como ele funciona e as pessoas honestas não o aceitam.

12) A maioria dos políticos brasileiros tem baixos padrões morais e éticos. (Não se sabe se isto decorre do mecanismo, ou se o mecanismo decorre disto. Sabe-se, todavia, que na vigência do mecanismo este sempre será o caso.)

13) A administração pública brasileira se constitui a partir de acordos relativos a repartição dos recursos desviados pelo mecanismo.

14) Um político que chega ao poder pode fazer mudanças administrativas no país, mas somente quando estas mudanças não colocam em cheque o funcionamento do mecanismo.

15) Um político honesto que porventura chegue ao poder e tente fazer mudanças administrativas e legais que vão contra o mecanismo terá contra ele a maioria dos membros da sua classe.

16) A eficiência e a transparência estão em contradição com o mecanismo.

17) Resulta daí que na vigência do mecanismo o estado brasileiro jamais poderá ser eficiente no controle dos gastos públicos.

18) As políticas econômicas e as práticas administrativas que levam ao crescimento econômico sustentável são, portanto, incompatíveis com o mecanismo, que tende a gerar um estado cronicamente deficitário.

19) Embora o mecanismo não possa conviver com um estado eficiente, ele também não pode deixar o estado falir. Se o estado falir o mecanismo morre.

20) A combinação destes dois fatores faz com que a economia brasileira tenha períodos de crescimento baixos, seguidos de crise fiscal, seguidos ajustes que visam conter os gastos públicos, seguidos de novos períodos de crescimento baixo, seguidos de nova crise fiscal…

21) Como as leis são feitas por congressistas corruptos, e os magistrados das cortes superiores são indicados por políticos eleitos pelo mecanismo, é natural que tanto a lei quanto os magistrados das instâncias superiores tendam a ser lenientes com a corrupção. (Pense no foro privilegiado. Pense no fato de que apesar de mais de 500 parlamentares terem sido investigados pelo STF desde 1998, a primeira condenação só tenha ocorrido em 2010.)

22) A operação Lava-Jato só foi possível por causa de uma conjunção improvável de fatores: um governo extremamente incompetente e fragilizado diante da derrocada econômica que causou, uma bobeada do parlamento que não percebeu que a legislação que operacionalizou a delação premiada era incompatível com o mecanismo, e o fato de que uma investigação potencialmente explosiva caiu nas mãos de uma equipe de investigadores, procuradores e de juízes rígida, competente e com bastante sorte.

23) Não é certo que a Lava-Jato vai promover o desmonte do mecanismo. As forças politicas e jurídicas contrárias são significativas.

24) O Brasil atual esta sendo administrado por um grupo de políticos especializados em operar o mecanismo, e que quer mantêlo funcionando.

25) O desmonte definitivo do mecanismo é mais importante para o Brasil do que a estabilidade econômica de curto prazo.

26) Sem forte mobilização popular é improvável que a Lava-Jato promova o desmonte do mecanismo.

27) Se o desmonte do mecanismo não decorrer da Lava-Jato, os políticos vão alterar a lei, e o Brasil terá que conviver com o mecanismo por um longo tempo.

José Padilha é cinesasta

BOM DIA!!!

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

A grana sempre foi nossa

A Odebrecht e outras empreiteiras não “corromperam” funcionários nem políticos, porque isso implicaria usar os próprios recursos para comprar quem quer que fosse e ganhar concorrências fraudulentas.

As empresas, mais assemelhadas a organizações criminosas, como são chamadas as quadrilhas modernamente, cobravam por serviços obviamente superfaturados, pagando, portanto, com recursos públicos, as vantagens que tinham encomendado.

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Padilha: “só falo à Justiça”

Eliseu Padilha afirmou ao Globo que só falará a respeito das menções a seu nome sobre o suposto recebimento de recursos via caixa 2 “quando e se” for chamado pela Justiça para se defender e prestar esclarecimentos.

O ministro afirmou que não fará declarações baseadas em um “delator”, em referência a José Yunes, advogado e amigo do presidente Michel Temer.

mar
14
Posted on 14-03-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 14-03-2017


Jarbas, no Diário de Pernambuco

mar
14
Posted on 14-03-2017
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O papa Francisco na Santa Magdalena de Cardossa,
em Roma, no domingo. F. Origlia Getty Images

Passavam-se cinco minutos das sete da noit

DO EL PAÍS

Daniel Verdú

Roma

Passavam-se cinco minutos das sete da noite do dia 13 de março de 2013 e chovia na praça de São Pedro, no Vaticano. A fumaça branca começou a sair pela chaminé — o comignolo — sobre o telhado da Capela Sistina e o cardeal Juan-Louis Tauran anunciou em latim o nome do novo pontífice. Ele não constava das listas das principais apostas, saiu na quinta votação e muita gente não sabia nem mesmo de onde provinha. Era o Papa de número 266 a se sentar na cadeira de Pedro, mas o primeiro que vinha do fim do mundo, como ele mesmo brincou em suas primeiras palavras. Um lugar, no entanto, de onde procedem hoje 49% dos fiéis de uma comunidade integrada por 1,3 bilhão de pessoas. Os que o elegeram sabiam que aquele seria o começo de um pontificado revolucionário, era urgente que houvesse mudanças em uma igreja em crise, manchada por todo tipo de escândalos. À luz de algumas resistências depois desses quatro anos, pode-se supor que nem todos imaginavam o alcance daquilo que ele tinha em mente.

Entrevista com o Pontífice
A revolução do papa Francisco completa quatro anos

O papa Francisco conversou com o EL PAÍS no final de janeiro: “O perigo é que, em tempos de crise, busquemos um salvador”.

A primeira coisa que Jorge Mario Bergoglio (Buenos Aires, 1936) fez ao aparecer no balcão do Vaticano já como papa Francisco, foi dedicar uma prece a Bento XVI: um pontífice emérito que, pela primeira vez desde a Idade Média, iria conviver com o novo. Uma característica que por si só já tornaria singular o seu mandato, desde o primeiro dia. O respeito mútuo e a relação que os dois mantêm — conta-se que Bergoglio deu um passo para trás no conclave anterior, que Ratzinger foi eleito — é um dos eixos gravitacionais de seu mandato. Mas, a partir desse respeito, surge também uma das grandes diferenças. Enquanto a Igreja de Bento XVI se baseava fundamentalmente na teologia, a de Francisco se volta para o céu com uma atitude muito mais pastoral e próxima da terra; adotando gestos e um linguajar de aproximação. No fim das contas, a narrativa constituída por um abraço a um doente grave de neurofibromatose — a imagem correu o mundo — pode ser mais poderosa do que uma encíclica.

Com maior ou menor profundidade, ao longo desses quatro anos Francisco tem abordado os temas mais delicados que afetavam a instituição. As portas estão abertas, e há avanços significativos em alguns aspectos; em outros, porém, ele encontrou maior resistência. As finanças do Vaticano melhoraram — o déficit caiu pela metade, embora as contas ainda sejam estranhamente pouco transparentes para uma instituição dessa magnitude; a Igreja se abriu para homossexuais, ou pelo menos se refutou a sua marginalização, e em entrevista semana passada ao Die Zeit, ele avançou a possibilidade de que homens casados venham a ser ordenados para prestar algum tipo de serviço em lugares onde haja crise de vocações.

A iniciativa que provocou mais polêmica surgiu justamente com o texto da Amoris Laetitia, a famosa exortação apostólica com a qual ele abriu a Igreja a homens divorciados que se casaram novamente, o que lhe custou uma longa campanha de ataques demolidores — cartazes na rua ou uma capa falsa do l’Osservatore Romano — por parte de alguns membros da Cúria liderados, de forma aberta, pelo cardeal norte-americano Raymond Burke. O religioso criticou o texto, expôs suas dúvidas e pediu um esclarecimento público de Francisco. Burke também chegou a dizer que “uma agenda gay” estaria tomando conta do Vaticano.

A resistência às mudanças se espalha por dezenas de blogs que orbitam em torno dos membros mais conservadores da Igreja. Mas também foram expostas do lado de dentro. Marie Collins, uma das duas vítimas de abusos que integravam a nova comissão criada pelo Papa para analisar e prevenir os casos de pederastia na Igreja, retirou-se na semana passada, denunciando ter encontrado resistências demais às mudanças. Especialmente na Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício). A resistência é minoritária, mas incomoda. O próprio Francisco admitiu neste domingo a um grupo de crianças de uma paróquia romana que teme mais as maledicências das pessoas, “inclusive da Cúria”, do que as bruxas.

Mas até agora nada disso o segurou. Andrea Riccardi, professor de história do cristianismo e fundador da prestigiada comunidade humanitária Sant Egidio, acredita que Francisco é “um grande reformador”. “O Papa tem como eixo a adaptação pastoral de sua Igreja. Acredito que as resistências aparecem porque ele quer mudar muitas coisas. Mas ele se dedicou também à reforma da Cúria, e aí as coisas caminham muito lentamente. Sobretudo porque o Papa entendeu que a verdadeira reforma é a do novo pessoal e de sua conversão espiritual. É o discurso sobre a enfermidade da Cúria. Ele quer mudar a mentalidade do serviço romano”, observa Riccardi.

Francisco fez renascer a força diplomática do Vaticano e conquistou o respeito de líderes mundiais como Angela Merkel e Barack Obama

Embora Francisco não tenha fraquejado em nenhum momento ao apontar os problemas da Cúria, como no famoso e direto discurso em que descreveu as 15 doenças que a ameaçam, ou ao tomar decisões como a da destituição do Grão-Mestre da Ordem Soberana de Malta — que desobedeceu às suas determinações —, muitas pessoas veem no seu mandato um papado horizontal. Para a eleição do vigário de Roma, por exemplo, acaba de se abrir um processo de consulta aos párocos, uma espécie de primárias vaticanas. E a fim de ter uma assessoria permanente, ele formou um conselho de cardeais — conhecido como C9 — que discute, analisa e se pronuncia em relação às grandes reformas. Inclusive as que se expandem bem além dos muros do Vaticano.

Pois, nesses quatro anos, Francisco também fez ressurgir o enorme poder diplomático da instituição. Viajou a lugares para onde foi convidado, pronunciou-se a respeito de questões geopolíticas — do conflito entre Palestina e Israel aos planos de Donald Trump — e abriu as portas (sem medidas concretas ainda) para a retomada das relações do Vaticano com a China. Tanto em suas viagens como em seu discurso, Francisco se lançou em busca da conquista das periferias políticas e culturais do planeta e conquistou o respeito de governantes como Angela Merkel e Barack Obama com sua defesa da ecologia e a luta contra a corrupção.

Conviver com a existência de um papa emérito foi o primeiro sintoma de que o mandato de Francisco seria diferente de todos os outros

Seu envolvimento na questão do drama dos refugiados e da imigração, sua viagem a Lesbos, de onde retornou com três famílias sírias e cujo cenário qualificou como “a maior tragédia humanitária desde a II Guerra Mundial”, foi um dos pontos culminantes de uma ininterrupta ação humanitária que o levou do centro do mundo a cada rincão das periferias culturais, políticas e sociais do planeta.

Quando Francisco se tornou Papa naquela tarde chuvosa de 13 de março de 2013, a verdadeira tempestade se produzia do lado de dentro dos muros do Vaticano. Seus quatro anos de pontificado abriram a instituição para o mundo e procuraram transformar o repúdio que ela começava a provocar em acolhimento. Em uma instituição na qual a unidade de medida de tempo são os séculos, quatro anos ainda são pouco para saber do alcance que terá a revolução que Jorge Mario Bergoglio abraçou. As janelas do Vaticano foram abertas naquela tarde, mas é cedo para saber se o ar que circula no seu interior foi realmente renovado.