Viva marias, zezés, mulatas e apitos

Janio Ferreira Soares

Embora dada como morta pela Constituição de 1988, nossa velha censura não se cansa de mandar sinais de que vai muito bem, obrigada, apesar do calor abrasador que domina seus aposentos lá no quinto dos infernos.

Magra, bronzeada e com uma tatuagem de dona Solange Hernandez no dorso da mão que mutilava versos, sua mais recente aparição foi justamente para influenciar dirigentes de alguns blocos carnavalescos do eixo Rio/São Paulo que, sob a alegação de que determinadas marchinhas são preconceituosas, simplesmente as baniram de seus carnavais.

Assim, os foliões que quiserem se esbaldar ao som de Cabeleira do Zezé, O Teu Cabelo Não Nega e Maria Sapatão, vão ter que se contentar com algumas obras-primas do funk, a exemplo de Deu Onda, cujo poético refrão adaptado (“meu pau te ama”) deve conter nas entrelinhas uma mensagem em favor das minorias, tão profunda, mas tão profunda, que meus velhos neurônios baleados pelas rodouros da vida não conseguem alcançar.

A propósito, gostaria de narrar duas historinhas que talvez eu já tenha até contado neste espaço, que versam exatamente sobre esses dias onde quase tudo é permitido e que, pelo jeito, muitos gostariam de transformar num grande encontro de adoradores de churrasco de melancia.

A primeira é sobre a origem da marchinha Índio Quer Apito, enquanto a outra é de um fato testemunhado por mim. Simbora!

Dizem que no governo Juscelino, sua esposa, dona Sara, foi visitar uma comunidade indígena e levou várias bugigangas para os índios. Já no final, quando ela foi colocar um colar no pescoço do cacique, se descuidou e soltou um punzinho meio assobiado, o que levou o velho cara-pálida a olhar empolgado para o seu pandeiro e, muito mais por sacanagem que inocência, dizer: “índio não quer colar, índio quer apito!”.

A outra aconteceu num baile de Carnaval no CPA (Clube Paulo Afonso) no comecinho dos anos 80, época em que a diretoria do clube, quase toda pernambucana, dividia a festa em duas partes. Na primeira, uma orquestra executava frevos e marchinhas para agradar os mais velhos e, na sequência, uma banda tocava axé para animar os jovens.

Certa noite, em grande maioria no salão, uma impaciente moçada se postou em frente ao palco onde a ótima Orquestra do Maestro Turpim mandava ver e começou a gritar: “Cipó! Cipó! Cipó!” – nome da banda que viria a seguir.

Extremamente irritado, Elói, o saudoso e excelente crooner da orquestra, ainda tentou acalmar a turba cantando Bandeira Branca, mas, sem sucesso, pegou o microfone e, com sua característica voz de trovão, mandou na veia: “e agora, seus bostinhas, vocês vão ter o que merecem: Cipó!”.

Janio Ferreira Soares , cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

Com frevo, funk ou marchinha, que neste Carnaval reinem zezés, mulatas, cipós e apitos de todas as origens e calibres. Evoé!

Vai dedicada ao doutor Ulysses Guimarães (em memória) e a sua Constituição cidadã.

CENSURA NÃO!!!

BOA TARDE!!!

(Vitor Hugo Soares)


Quinteto de graúdos do PMDB se assusta…


…com buscas e apreensões da Leviatã
sobre Belo Monte e Angra 3.

ARTIGO DA SEMANA

Voo do Leviatã e o jogo (em dupla) FHC – Lula

Vitor Hugo Soares

Com atenção máxima – e o interesse jornalístico que o fato desperta – sigo desde cedo, na quinta-feira(16), do meu observatório baiano de sismos políticos, instalado na cidade de todos os santos (“e de quase todos os pecados”, como dizia o cronista Nelson Gallo), os lances principais da Operação Leviatã (braço da Lava Jato) que agentes da Polícia Federal promovem em vários pontos do País. Cumprem mandados judiciais de buscas e apreensões em “endereços nobres”. Apuram sobre propinas e outras mutretas remuneradas, em torno das obras de construção da hidrelétrica de Belo Monte, que ocupam terras e águas amazônicas, no interior do Pará.

Logo no começo do dia cercado de suspeitas e de expectativas, até mesmo sobre o próprio futuro da PF, esta movimentação representa um reconfortante sinal de alento moral, no quase final desta estranha semana de fevereiro, em que os números das pesquisas se destacaram nos espaços de informação e opinião, a partir de seus resultados que (real ou ardilosamente) parecem derrubar ainda mais a parca confiabilidade do presidente Temer (PMDB), e elevar Lula (PT), o ex, que segura onde e em quem pode para não desabar de vez: duas faces – opostas na aparência pela conjuntura – da tragédia brasileira (na política, na ética, na economia e na administração pública) dos últimos 14 anos.

Tem, igualmente, um ou mais dedos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), no meio desta história pouco exemplar. Novo pacto da velha e histórica dupla FHC – Lula parece estar em andamento. Mas isso é história longa, tortuosa, cheia de vai-e-vem, que pede um artigo inteiro para contar. Fica para depois.

Por enquanto, preciso de espaço de “interlúdio” ( obrigado Henri Miller) , para falar sobre o Leviatã. Personagem magnificamente escolhido pelos que pensam e executam a Lava Jato, para denominar este novo e promissor veio investigativo e de inteligência policial no âmbito geral do Petrolão. Que parece mirar Edison Lobão, entre outros potentados da política e da administração pública da atual República peemedebista que domina o país, mas que vem de longe – aliado (e beneficiário coadjuvante) que têm sido de governos petistas e tucanos.

À exemplo das indestrutíveis baratas, que “já faziam bater as sandálias no Novo Testamento”, segundo a magistral alegoria de Garcia Marquez no singular romance “Cem Anos de Solidão”, também o bíblico Leviatã exerce um enorme fascínio e curiosidade sobre este jornalista, desde os bancos ginasiais . Criatura mítica, carregada de simbologias, no Antigo Testamento, a figura do Leviatã é retratada pela primeira vez no Livro de Jó, capítulo 41. A descrição é breve, mas o suficiente para ser considerado pela Igreja Católica, na Idade Média, como o demônio representante da Inveja, o quinto pecado. Foi representado, também, na condição de um dos sete príncipes infernais.

Uma definição do Leviatã, provavelmente a primeira, em nota explicativa, é marcante: “monstro que se representa sob a forma de crocodilo, segundo a mitologia fenícia” (Velho Testamento, 1957:614). Em outras descrições figurativas, assume múltiplas formas de animais: serpente, polvo, leão marinho… Uma das mais impressionantes descrições de que me recordo, entre as leituras juvenis de aluno do Dom Bosco, colégio salesiano referencial em Petrolina (PE), dizia assim, como leio reproduzido agora em um espaço sobre o tema na web: “Debaixo de nós nada mais se via, senão uma tempestade negra, até que, olhando para o oriente, entre as nuvens e vagas, divisamos uma cascata de sangue misturado com fogo. E próximo de nós emergiu e afundou de novo o vulto escamoso de um leviatã”.

Aqui acaba o interlúdio. E estamos de volta ao começo factual deste artigo de opinião. Ah, antes que eu esqueça: opinar sobre os fatos – uma das maiores conquistas do jornalismo livre nas democracias de verdade -, está virando uma espécie de anátema. Peste maldita para algumas áreas da nossa imprensa e profissionais da comunicação. É provável que seja esta a primeira influência perversa por estas bandas do Atlântico sul, da “era Trump de jornalismo”, que começa a se instalar nos Estados Unidos. Uma lástima, se isso se confirmar! Se for motivado por submersos interesses, pior ainda.

Sobre a Operação Leviatã, que passou por aqui, leio no influente diário espanhol El Pais, que investiga pagamento de propinas para a construção da hidrelétrica monumental no Pará, e da usina nuclear de Angra 3, no Rio de Janeiro, dos maiores escândalos destes dias. Entre os alvos, estão o ex-senador Luiz Otávio (PMDB-PA), ligado a Jader Barbalho. E Márcio Lobão, filho do senador Edison Lobão. “A Leviatã coloca pressão sobre o clã Lobão e o PMDB apenas uma semana após Edison, o patriarca da família, que já é investigado pela Lava Jato em dois inquéritos, ser eleito para presidir a Comissão de Constituição e Justiça – uma das mais poderosas do Congresso. Caberá ao colegiado sabatinar Alexandre Moraes, indicado pelo presidente Michel Temer para a vaga de Teori Zavascki no STF, e também o futuro procurador- geral da República, que virá substituir Rodrigo Janot quando concluir o seu mandato”, registra El Pais, antecipando que pelas falas e condutas recentes de Lobão e outros maiorais de seu partido, os riscos da continuidade da Lava Jato, seguem mais fortes do que muitos dizem ou imaginam. Leviatã sinaliza, portanto, que dias mais difíceis e tempestuosos estão a caminho. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Manda ver Salvador!!!. Com Moraes Moreira, senhor dos carnavais, na frente.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)


Roberto Freire, Jorge Cabral e Raduan Nassar na entrega do Prêmio Camões. Marcos Alves OGlobo


DO EL PAÍS

Camila Moraes

São Paulo

Um dos maiores escritores brasileiros, o paulista Raduan Nassar, professa que aposentou a caneta há mais de 30 anos, mas demonstra que não a força de sua voz. Autor de romances seminais da literatura brasileira, Lavoura Arcaica e Um copo de cólera, Raduan foi convocado na manhã desta sexta-feira ao Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões de 2016 – entregue a cada ano pelos governos de Brasil e de Portugal a escritores expressivos da língua portuguesa. Direto, ainda que polido, ele aproveitou a oportunidade para se manifestar contra o Governo de Michel Temer, referindo-se a ele como “repressor”.

O que era para ser uma homenagem à sua obra foi transformado pelo próprio escritor em um pequeno e contundente ato de protesto. Com isso, despertou reações acaloradas não só do público presente, mas sobretudo do ministro de Cultura Roberto Freire, presente no ato ao lado do embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral, e de Helena Severo, presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

O discurso de Raduan foi forte, ainda que breve. Depois de confessar “dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri” e agradecer a Portugal, o escritor disse que “infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil” e que “vivemos tempos sombrios, muito sombrios”. Sua fala fez menção a episódios recentes da agitada vida política nacional, como a “invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo”, a “invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados” e a “violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua”. “Episódios perpetrados por Alexandre de Moraes”, a quem o escritor se referiu como “figura exótica indicada agora para o Supremo Tribunal Federal”. Ao STF, Raduan dirigiu duras críticas, questionando a nomeação do ministro Moreira Franco, citado na Operação Lava Jato, e recordando, por comparação, o imbróglio em torno da nomeação de Lula à Casa Civil em 2015.

As reações dos presentes foram imediatas e se acirraram quando, depois da fala de Jorge Cabral, o ministro Roberto Freire deixou de lado o discurso que trazia impresso para “lamentar”, como disse, o ocorrido. “O Brasil de hoje assiste perplexo a algumas pessoas da nossa geração, que têm o privilégio de dar exemplos e que viveram um efetivo golpe nos anos 60 do século passado, e que dão exatamente o inverso”, reagiu. Diante de gritos e vaias e da interrupção da sua intervenção algumas vezes por alguns dos presentes, o ministro reagiu dizendo que “é fácil fazer protesto em momentos de governo democrático como o atual” e que “quem dá prêmio a adversário político não é a ditadura!”.

fev
18

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Brasil ganha sem o peso da corrupção, diz Moro

O juiz Sérgio Moro corrobora um conceito clássico quando diz que a Operação Lava-Jato será benéfica à economia do Brasil, ao contrário dos detratores das investigações, que veem danos irreversíveis com a retração de negócios e a destruição da imagem de grandes empresas.

Preliminarmente, é certo que o desenvolvimento do país não se sustentaria com a sangria de recursos públicos, detonadora inevitável, em algum momento, do déficit fiscal e da baixa capacidade de investimento, com todos os desdobramentos, especialmente o desemprego.

A questão é que, no mundo das concorrências, a corrupção entra como um valor incidente qualquer, ao lado de despesas com pessoal, equipamento e operação. Com a expectativa de sua redução, Moro entende que, a longo prazo, o Brasil “será mais competitivo e os custos dos contratatos baixarão”.

fev
18
Posted on 18-02-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-02-2017


J. Bosco, no jornal O Liberal (PA)

fev
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Posted on 18-02-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-02-2017

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Maiores de 70 já podem sacar FGTS

Pessoas com mais de 70 anos já podem sacar o FGTS sem esperar o calendário para a retirada de contas inativas (que começa dia 10 de março).

A medida, anunciada pelo governo federal hoje à tarde, aplica-se não só às contas inativas, mas também às ativas (nos casos já previstos para saque, como compra de imóvel, doença grave, entre outras).

O governo estima que haja R$ 1 bilhão em contas na faixa etária acima dos 70.