Ai de ti, Palourinho!
BP
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BP EDITORIAL

GAVETÃO DO PELÔ

Nos anos 60 e 70, a imprensa baiana contava com Misael Peixoto. Era um mestre, um profissional, em sua época insuperável nas funções de diagramador e paginador, suas especialidades, sem contar o preparo intelectual de autodidata comunista que lhe permitia dar, nas redações, lições de jornalismo aos jornalistas e de escrita a redatores. Mas Misael, que para geral consternação do meio midiático e de muito mais gente morreu há tempo em acidente automobilístico, tinha lá suas histórias.

A preferida dele, que não perdia a oportunidade de contar às gargalhadas quase incontroláveis, era a da “maquininha de mostrar serviço”. Em algum tempo, ele trabalhara com várias outras pessoas em um amplo salão, cada qual em sua mesa. E em cada mesa, além de outros equipamentos e materiais necessários, havia uma maquininha de alguma senventia – ele nunca se deu ao trabalho de explicar qual – quando operante.

Mas havia pouco trabalho a fazer nesse emprego, porque havia muito mais empregados que os necessários. Então, Misael e seus colegas passavam a maior parte do tempo matando tempo. Mas havia um chefe e era severo. Quando era ouvido no corredor o toc, toc dos seus sapatos, todas as vozes se calavam, todos os sorrisos eram suprimidos, todas os rostos tornavam-se modelos de sisudez.

E todas as mãos lançavam-se às “maquininhas de mostrar serviço”, furiosamente rodando uma pequena manivela e alternadamente apertando um botão. O chefe saía feliz, convicto de que ali se trabalhava no limite da capacidade humana.

Décadas depois, o governo baiano pretende gastar mais de R$ 4 milhões para construir um aéreo “gavetão moderno”, que classifica como alguma espécie de palco, no Pelourinho. Uma inovação
arquitetônica espantosa em um ambiente de preservação de antiguidades.

Misael nos dava notícia de uma “maquininha de mostrar serviço” onde serviço não havia. O “gavetão moderno” é mais sincero e franco: mostra falta do que fazer. Assim, direto, na lata.


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BP – EDITORIAL

LADEIRA ABAIXO

Há um flagrante descompasso entre o que prega a propaganda oficial e a situação da Educação no Estado. O Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado, inclusive, conscientes do problema, estão a cobrar do governo Jaques Wagner, uma solução para o que beira o descalabro no setor.

Nada menos que 60% do quadro de servidores da educação, inclusive professores, trabalham no regime de contratação, percebendo em torno de um salário mínimo, isto mesmo, um salário mínimo mensal, mais precisamente R$ 580 reais por 20 horas de trabalho semanal – jornada permitida aos contratados.

Ocorre que, não bastasse o humilhante salário, que percebem até mesmo professores com nível superior, pós-graduação e mestrado, não há regularidade no pagamento. Em todo o estado, milhares deles (milhares), contratados em regime de serviço temporário, estão com salários atrasados há mais de três meses. Alguns já pensando em impetrar mandado de segurança para a garantia dos direitos, diante do abuso.

Um descalabro para qualquer governo. E um descalabro ainda maior para um governo eleito com proposta de mudança nas áreas sociais como educação e saúde.

Boa parte desses professores tem abandonado a sala de aula (parte significativa), gerando uma rotatividade de mestres, que atinge a estonteante média de três professores de uma mesma disciplina, em uma única classe, durante o ano, prejudicando a continuidade do calendário pedagógico.

Os alunos – maioria pertencente às classes mais pobres – sofrem com a mudança constante de professores e a perda de conteúdo programático, o que leva a concluir estar em marcha uma verdadeira tragédia na educação baiana. Estas são informações que nos chegam de dentro das salas de aula, frise-se.

Para os professores efetivos, a situação não é muito diferente. A despeito de estarem com os salários em dia, milhares deles (milhares) estão à espera de promoções, melhorias salariais asseguradas na lei, em virtude de cursos de aperfeiçoamento, como mestrado e doutorado, e tempo de serviço, entre outras.. Há professores efetivos, com mestrado, ganhando em torno de R$ 800 reais.

Junte-se a isso, milhares de livros didáticos empilhados em “bibliotecas” (salas sem qualquer condições de armazenamento), encaixotados, entregues mesmo às traças, bem como equipamentos eletrônicos comprados para supostamente funcionarem como instrumento de apoio, mas que estão estragando por falta de uso, porque não há servidores para operá-los.Ora bolas, bom mesmo é para as editoras e indústrias de equipamentos eletrônicos, que faturam aos milhares pela venda dos produtos.

Não bastasse tudo isso, os cargos das diretorias regionais de educação (Direcs), em todo o estado, viraram alvo de disputas intestinas entre várias facções partidárias, com reflexos, dizem, até mesmo na sucessão municipal de Salvador. Ufa!

Agora, como antes, interessa mesmo o marketing das obras faraônicas, das jogadas espetaculares, da propaganda enganosa e coisas que tais. Tudo conta. Menos, o povo, a sociedade.

Já passou da hora do Ministério Público atuar pra valer, como guardião dos direitos e garantias constitucionais e do Estado Democrático.