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Um velho rastafári no novo Maracanã

Janio Ferreira Soares

Numa das rampas improvisadas de acesso ao novo Maracanã, um solitário rastafári desliza seus dedos pelas cordas de um violão plugado numa pequena caixa de som. Apesar da pose de jamaicano da gema, ele não canta nenhuma de Bob Marley, tampouco de Jimmy Cliff. De sua garganta sai um entusiasmado “eu te amo, meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde-amarelo-branco-azul-anil”, talvez para dar um clima retrô à ocasião. Olho para o chão e não vejo nenhum chapéu a implorar moedas. Seu intuito – pelo visto, inútil – é chamar a atenção de algum repórter das TVs que circulam pelo local em busca do inusitado.

O relógio marca 14 horas e poucos minutos, e milhares de pessoas continuam passando em sua frente sem lhe dar a mínima. Explica-se. A maior parte sequer tinha nascido quando Dom e Ravel criaram os versos da canção que virou o hino do Brasil Ame-o ou Deixe-o. Arrepio-me só de lembrar e bato três vezes no tapume de madeira. Vade-retro, Garrastazu!

Por todo o trajeto, voluntários com megafones dão boas-vindas a um público em sua grande maioria usando camisas da Nike e bermudas de grifes, completamente diferente daqueles torcedores que víamos nos jogos das antigas. Cadê o negão banguela que aparecia em close na tela do Canal 100? Cadê o gordinho com o moto-rádio colado no ouvido roendo as unhas? Cadê a charanga marcando um samba atravessado? A Fifa comeu.

Na entrada são distribuídos milhares de minis Joões-bobos. Cheios, eles são quase tão barulhentos quanto à caxirola, com a desvantagem de não ter o mesmo peso para um arremesso certeiro na cabeça de Felipão. Para completar a presepada, um esforçado locutor incentiva uma coreografia ao som de Danúbio Azul, com a plateia fazendo a marcação da famosa valsa batendo um bastonete contra o outro. Fosse eu um discípulo de Chico Xavier, certamente teria visto o plasma de Strauss tentando furar os 65 mil Joãozinhos e seus bobinhos amestrados com o arco do seu violino.

Quanto ao futebol de nossa Seleção, bem, se eu fosse você ia procurar lá no Posto Ipiranga.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Esporte e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do São Francisco

mar
29
Posted on 29-03-2013
Filed Under (Crônica, Gilson) by vitor on 29-03-2013


“Arena é o cacete: não vai pegar”

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CRÔNICA DA CIDADE

À Espera do Inesperado

Gilson Nogueira

A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu

Inspirado na música de Daniela Mercury e Tote Gira, de 1992, “ O Canto da Cidade”, da qual não esqueço os versos acima, inicio este texto sintonizado nela e no que o poeta escreveu. Por isso, entendo, a cidade de Salvador é minha, como, também, sua, leitor. Salvador é, em síntese, a casa de cada um, haja nascido nela, ou não.

Quero-a, portanto, acima de tudo, protegida pelo Espírito Santo, segura, abençoada por todos os Orixás, limpa, quase sagrada, bem decorada, confortável, com tudo nos seus devidos lugares, lindíssima.

A Barra é a varanda iluminada em que me encontro. E a tenho, ampla, de portas e janelas sempre abertas para a brisa que sopra do mar entrar e fazer a festa com a luz do sol, de janeiro a dezembro de cada ano. Em estado de oração, imagino a cidade onde nasci em mais uma comemoração de seu aniversário, que acontece neste 29 de março, recebendo como grande notícia do dia a Fonte Nova haver resgatado, com destaque, seu nome oficial, ou seja, Estádio Octávio Mangabeira.

A eterna Fonte Nova, absurda e estupidamente denominada, hoje, de Arena ( Argh!).

A Fonte Nova tem nome de batismo e ele deve ser destacado, sempre, em respeito ao povo da Bahia, na fachada: Estádio Octávio Mangabeira, em letras garrafais, ou melhor, garafarredondíssimas. Estádio Octávio Mangabeira, em aço, inoxidável, reluzente como o vulto do grande homem público que foi Octávio Mangabeira, ex-governador da Bahia, construtor da maior “praça esportiva” ( alô, alô Zédejesusbarreto, Martinho Lélis, Zé Ataíde, Oldemar Seixas, Mário Freitas, Sylvio Mendes, Luís Brito!!! ) do Norte e Nordeste do país.

Em tempo, chamar a Fonte Nova de Arena, com certeza, não combina com o jeito de ser do povo da Bahia e do falar baiano. Arena é o cacete, diria ( ou dirá, quem sabe!) o jornalista Ancelmo Góis, em sua coluna, no Globo.

Arena, na minha opinião, não vai pegar na velha Cidade da Bahia. Baiano vai ao Barradão, ao Jóia, ao Armando Oliveira, ao escambau a quatro, mas, à Arena, jamais!

Quem viver verá.

Voltando à menina sapeca pela qual sou apaixonado.Na sua vaidade, mais que natural, de mãe de Martha Rocha e Marta Vasconcellos, misses eternas da Boa Terra, cantada como uma das mais belas metrópoles do mundo, a aniversariante aparenta estar triste, desanimada. Senti isso, ao ver a praia do Farol da Barra, quase vazia, em um dia de forte calor.

Aproximei-me, devagarinho, do Edifício Oceania e fiquei de ouvidos atentos na esperança de escutar o que minha cidade dizia. De repente, um susto: “ Beijo não, não, irei tomar banho, quando eu sair, cheirosa, penteada, vestidinha, de vestido novo, perfumadinha do banheiro, eu falo com você!”

“ Uau!!!” Exultei, irei conversar com a minha cidade e, logo, perguntar-lhe:
“ Você gostaria de ganhar de presente, no seu dia, pintura caprichosa no Edifício Oceania, que, no Carnaval, parecia usar meia vermelha? E, de quebra, pintar aquelas portas de ferro já enferrujado, em parceria da Prefeitura Municipal de Salvador com o condomínio do prédio?”

“ Acho boa idéia! E mais, por que não sugerir, aos gestores da cidade, um concurso para ver quem fará a melhor recuperação da fachada do seu imóvel, desde a Ribeira até Itapuã, envolvendo particulares e não particulares?”

“ Porretíssima sua sacada, minha deusa, aniversariante! Vou citar, aqui, alguns deles: A Igreja de Santo Antonio da Barra, o casario da Conceição da Praia, todos os fortes da capital, caprichando na sua iluminação externa, as calçadas de toda a Orla Marítima, instalando lixeiras, em azul e branco, luminosas, a fim de chamar a atenção dos passantes e educá-los. Ah, são muitos os locais! Sem esquecer de derrubar todos os cacetes-armados, como aquele “sanitário”, encostado em uma árvore, “construido” por algum imbecil, na Rua Engenheiro Celso Torres, na Graça!’

” Além do que é necessário a população saber que o Brasil começou aqui”
“Para o bem ou para o mal?”
“ Não me complique. Deus é quem sabe.”

Gilson Nogueira, jornalista, é colaborador do BP

mar
16

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Habemus Jacuipense e Juazeirense

Janio Ferreira Soares

Agora que a Argentina nos deu um zignal e emplacou o Papa, pelo menos um consolo material para os baianos. Trata-se do novo estádio da Fonte Nova que, justiça seja feita, ficou muito bacana.

Só lamento que seu virginal gramado já comece sendo brutalmente violentado por chuteiras bavinianas que não merecem sequer apilar o barro amarelo dos campos das várzeas.

A propósito, com todo respeito aos seus torcedores, é constrangedor assistir na TV a apresentadores cortando o maior dobrado para me convencer de que Jacuipense, Juazeirense e Feirense representam algo além de uma feliz consonância, que pode até servir de inspiração para batizar essas bandas moderninhas que misturam Jackson do Pandeiro com batidas eletrônicas (“Jacuipense Samba Trio”, “Juazeirense Bossa and Roll”…) – ou então nominar alguma instalação politicamente correta desses artistas de vanguarda, cuja obra ninguém entende lhufas (tipo: “Feirense, Jacuipense e Juazeirense sob o olhar inocente de um pequeno afro-nagô santamarense”).

Daí a neguinho querer me persuadir a perder preciosos minutos de um tempo cada vez mais escorregadio assistindo a jogos insignificantes em tristes estádios vazios, aí já é demais.

Mas, como na piada do cachorro que tem o pescoço preso numa armadilha e quando acha que nada pode ficar pior aparece um vira-lata malandro para desmoralizar sua macheza, o que era ruim apenas para uma minoria agora se expandirá. É que depois do fiasco na Copa do Nordeste, Bahia e Vitória finalmente estrearão no campeonato baiano aumentando consideravelmente o público nos estádios e fazendo com que a mediocridade, até então restrita a poucos gatos pingados, agora seja testemunhada por milhares de cúmplices que se acham torcedores.

Em tempo: acho que Simanca ouviu meu papo com um amigo especialista em fumaça antes de fazer sua charge da última quarta-feira. Enquanto a chaminé do Vaticano soltava o negro fumacê, ele me disse: “meu velho, pela carburação, cor e textura acho que só tem cardeal da Jamaica nesse conclave!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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CRÔNICA/APAGÕES

Apagão com sabor de dèjá vu

Janio Ferreira Soares

Cena 1 – Corria o ano de 2001, Sarney tinha os poderes de Greyskull, o presidente era FHC, Roberto Carlos acabara de cantar Detalhes em seu especial de fim de ano e o PT ainda era um partido que se pensava diferente. No Jornal Nacional Willian Bonner franzia a testa para dizer que sim, a situação dos reservatórios era grave, sim, o apagão viria e sim, só restava rezar para São Pedro mandar chuva, como se o protetor das viúvas e do firmamento tivesse algo a ver com a incompetência tucana. Após o boa noite de Bonner no tom que convém às tragédias, foi ao ar mais um capítulo de O Clone, novela de Glória Perez.

Cena 2 – Corre o ano de 2013, Sarney continua um He-Man acrescido de feições e sabedoria Shaolin, a presidente é a poderosíssima Dilma Rousseff (She-Ra?), o Rei acaba de cantar Detalhes em seu especial de fim de ano e o PT de há muito passou um batom vermelho nos lábios, botou uma minissaia e hoje é figurinha fácil no bailão do cifrão dourado. No Jornal Nacional Bonner franze a testa (agora adornada por uma mecha branca no topete) para dizer que sim, a situação dos reservatórios é grave, sim, o apagão pode ocorrer e sim, é bom rezar para São Pedro, como se as ladainhas atuais fossem chegar mais rapidamente ao destinatário e este, de posse de um tablet de matar Moisés de inveja, daria um toque nas nuvens do Clima Tempo e a chuva jorraria por entre preás e tatus-bola, excetuando-se aqueles que atendem pelo nome de Fuleco. Após o boa noite de Bonner vai ao ar Salve Jorge, novela de Glória Perez. Aí já é dèjá vu demais. Inshalá!

Epílogo – São Pedro procura Deus. “Senhor, não aguento mais levar a culpa pelos apagões”. “Pedrinho, querido (Deus é bonachão), relaxe! Logo cairá a chuvinha de sempre, o BBB voltou, tem a exposição de Sarney no senado… Há quanto tempo você não tira férias? Desça lá, rapaz, aproveite e passe o Carnaval na Bahia. Ah, e dê um abraço na Ivete por mim. Gosto dela”. Enquanto Pedro arruma a mala, só uma dúvida o atormenta: “será que ainda usam mamãe-sacode?”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco que ilumina o Nordeste

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Geleia Geral 2013

Janio Ferreira Soares

Fosse hoje, Torquato Neto e Gilberto Gil teriam inúmeras opções para uma nova versão da genial Geleia Geral, que poderia ser assim: “Azeredo desfolha a bandeira e o fagueiro Dirceu se inicia, Rosemary, falante, faceira, no Planalto Central rodopia e no Banco Rural brasileiro o careca Valério anuncia: ê, Lula-yê-yê-yê-boi, mensalão que vem e que foi, ê Lula yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi.

Paulo Preto é a prova dos nove e Sarney é um porto seguro, minha terra é um rodízio de pizzas, e Brasília é onde o trigo é mais puro, cachoeira no delta-selvagem, Maranhão é o país do futuro. (Repete o refrão, com FHC no lugar de Lula e privatização no de mensalão).

É a mesma dança nas salas, nos gabinetes, em Paris, e quem não dança ensaia, Carnaval, Brown e Gil, mais um santo baiano, superpoder de paisano, barba branca, olho anil, metrô que não risca o trilho, Wanda Chase, Psirico, salve Baby do Brasil. Prefeito novato na área, armistício, céu de prata, bobeou vira Judas na praça, Ba x Vi na incompetência e raça, sons que envergonham o Farol da Barra, baiano é um povo massa/ordeiro/cordeiro/feliz.  (Repete o refrão, com Joaquim Barbosa no lugar de FHC).

Plurialva, contente e brejeira, miss Dilma Brasil diz bom dia, e outra moça também, miss Inácia, da janela examina a folia, salve o lindo pendão dos seus olhos, que o olhar de Eduardo Campos irradia. (Repete o refrão, agora com o ministro Fux na guitarra e todos os colegas do STF fantasiados de Caboclos de Lança tocando tambores do baque virado. Edison Lobão, seminu, dança um toré contra raios e apagões, enquanto Gabrielli, Luiz Caetano, Walter Pinheiro e Otto Alencar esperam a hora de entrar na dança com arcos, flechas e pinturas rupestres nos rostos. Pelegrino chora. Aécio assunta. Suplicy blowin’in the wind).

Renan desfolha a bandeira e o Congresso volta a ser colorido, viva Jader, Idelis e Salvattis, Ribamares, bigodes ao vento. Ê Dilma-yê-yê-yê-boi, pibinho que vem, pibão se foi, ê Dilma-yê-yê-yê, coitado do Mantega, meu boi”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco



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CRÔNICA

Zé Dirceu seria canibal?

Janio Ferreira Soares

Apesar da promessa de não mais escrever sobre o tema, é impossível ficar indiferente à saga da eterna seca, que este ano, em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga, deverá se chamar “Óia eu aqui de novo, rachando!”. A pré-estreia aconteceu em Salvador, onde a presidente Dilma – que deveria ter chegado pilotando um caminhão-pipa -, posou ao lado de governadores com feições calculadamente compungidas, como se alguém ali tivesse boi descarnado no pasto. Fossem sinceros, terminariam a farsa cantando o final de Se Eu Quiser Falar Com Deus, de Gil, que profetiza: “… ao findar vai dar em nada, nada, nada, nada, nada…”.

É por isso que Piaba, prima de Baleia (a vira-lata de Vidas Secas), não se cansa de latir em direção aos helicópteros que passam levando autoridades para visitar as obras de transposição do São Francisco. O sonho dela é que esse pessoal desça só um pouquinho e explique ao povo daqui porque, com o rio tão perto, neguinho ainda continua carregando latas d’água na cabeça. No embalo, ela aproveitaria e daria uma boa mordida na batata de algum ministro ou – quem lhe dera! -, no mocotó de um certo alguém de terninho bege. Pega, Piaba, pega!

P.S. 1 – Soube que os ministros do STF, depois que leram em A TARDE que Zé Dirceu comeu um bode na Bahia, estão discutindo se ele, considerado por muitos o bode expiatório do mensalão, pode ter a pena aumentada pela prática de canibalismo. Segundo Joaquim Barbosa, “alguém capaz de comer um igual e ainda lamber os beiços caracteriza um autoflagelo só cometido por frios e calculistas”. Já Levandowski defende que é preciso provar se a carne era realmente de caprino, “pois há muito cordeiro disfarçado de bode coxeio (olhando cinicamente para Barbosa) por aí. Além disso, cadê a prova material? Cadê as marcas dos caninos de Zé na coluna dilacerada do velho pai-de-chiqueiro (novamente fitando Barbosa estirado numa cadeira ergométrica)?”.

P.S. 2 – É uma honra para este caubói estar no meio do tiroteio proporcionado por Kid Risério e Emiliano Bill. O saloon agradece.

Janio Fereira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do São Francisco.


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Michel Teló agora é afro

Janio Ferreira Soares

Depois das reservas de cotas para afrodescendentes nas universidades federais, o governo resolveu lançar editais que servirão exclusivamente para viabilizar produções e criações artísticas de pessoas negras. Sob a alegação de reparar injustiças passadas, o polêmico anúncio deverá ser feito no Dia da Consciência Negra (22/11) pela nova ministra da Cultura, Marta Suplicy, e certamente vai gerar um furdunço danado, sobretudo entre os branquelos que se acharão, também, discriminados. Mas nada que uma boa temporada no sertão do São Francisco não resolva.

Tomemos como exemplo Michel Teló, que recentemente solicitou ao Ministério da Cultura R$ 1,3 milhões para custear um documentário intitulado “Michel Teló no Mundo” e teve o seu pedido negado. Com essa nova lei ele pode muito bem se embrenhar na catinga sob um sol de torrar calango e, depois de virar um neo-negão, reapresentar o seu projeto com o título de: “Michel dos Palmares no Sertão Afro Delícia”.

Mas as coisas ainda estão meio obscuras. Existirá um padrão de tonalidade para o solicitante? Vale moreno claro? Nos casos suspeitos – como o de Teló – poderá haver exames invasivos, tais como olhar as partes mais cavernosas do corpo para saber se as gradações ocultas combinam com o visual externo? E se mostrar fotos dos ancestrais com os olhos arregalados com medo de tomar leite com manga, aumenta a chance? Espero que essas dúvidas sejam logo esclarecidas para que o Brasil possa ser brindado com uma nova safra de artistas da pesada que, na visão do MinC, ainda não apareceram porque estão esperando uma ajuda oficial que os liberte do manto preto que aprisiona sonhos.

Só não entendo porque Pixinguinha, Riachão, Machado de Assis, Gil, Paulinho da Viola, Lázaro Ramos, Moacir Santos, Milton Nascimento e tantos outros descendentes dos chicoteados d’antanho conseguiram mostrar suas genialidades sem nenhuma espécie de cota. Cheguei até a pensar que fora tão somente pelo talento de cada um. Mas, com toda essa onda, estou quase convencido de que foi milagre de São Benedito.

jul
07


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CRÔNICA/FIGURAS

Kertész, ACM Neto, Pelegrino e Messi

Janio Ferreira Soares

Apesar de o sorteio dos jogos da Copa de 2014 só acontecer em dezembro de 2013, é por demais tentador imaginar algo parecido envolvendo a próxima eleição para prefeito da capital baiana. E aí eu fico pensando em como seria se também houvesse algum evento semelhante para anunciar os nomes daqueles que a partir de agora irão prometer, num átimo de tempo, devolver à Cidade da Bahia o velho brilho que até há pouco encantava multidões e que, por conta das peripécias de um alcaide com ar de moço bom – e com a marca da inépcia estampada na testa -, findou-se. Divaguemos, pois.Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

Costa do Sauipe lotada de jornalista e convidados de todo o planeta, shows de axé comendo no centro, capoeiristas de dorsos ebanizados a destilar malícia diante de boquiabertas gringas esperançosas de que a noite vai ser boa e de tudo vai rolar – ao som de mestre Bimba sem parar -, eis que surgem os apresentadores Varela, Bocão e Wanda Chase (cuja missão é dar um toque de intimidade ao ambiente) para anunciar os nomes daqueles que prometem tirar Salvador do limbo. Antes, porém, uma questão de ordem é levantada pelo PSOL, que quer saber se o partido pode usar o mesmo jingle das eleições para governador (o reggae “eu quero Hilton 50”), já que o atual candidato, Hamilton, possui a mesma fonética e, portanto, faz jus a rima. Autorização concedida, Varela dá uma mãozada sobre o púlpito em formato de berimbau e começa a cerimônia.

No telão surgem as fotos de ACM Neto, Mário Kertész, Pelegrino e companhia, causando as mais diversas reações das torcidas, notadamente quando aparece o nome de Kertész, muito aplaudido pela galera húngara, que pensa tratar-se de André Kertész, genial fotógrafo nascido em Budapeste.
Fim das apresentações, a sensação que se tem é a de que falta um Messi, um Neymar, sei lá, alguém que levante a torcida com uma jogada genial. Mas isso pouco importa diante dos primeiros acordes do Asa e da perspectiva de cruzar com Wanda Chase sentada na pérgula da piscina com as pernas dentro d’água, entrevistando Magary Lord e Saulo.

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CRÔNICA/DEUSES

O Timão e a partícula de Deus!

Maria Aparecida Torneros

Essa coisa de unanimidade, em tempos de globalização, é avento dos Deuses, ou é conversa particular de um Deus que se deixa descobrir através de uma partícula, anunciada e comemorada, pelos físicos do mundo inteiro, num 4 de julho infestado de festas. A grande festa do futebol brasileiro aconteceu, finalmente, em São Paulo com a conquista da taça Libertadores pelo Timão, o Corinthians que anestesia milhões de torcedores em torno da sua bandeira em preto e branco.

Começo a me interessar pela tal Descoberta da partícula de Deus, na verdade, o Bózon de Higgs, este objeto de estudo dos físicos que buscam entender e explicar a origem do Universo.

Encontro muitas informações na internet, a maioria delas me foge à compreensão porque tenho pouco repertório no campo da matemática, mas consigo entender por exemplo esta:
“Uma equipe de físicos do LHC, o acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), anunciou a descoberta de uma suposta Partícula de Deus, o Bóson de Higgs. Mas, qual a importância dessa partícula para física?

Segundo Alberto Santoro, físico brasileiro que trabalha em um dos experimentos do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), ao afirmar a sua existência, é possível comprovar a teoria do Modelo Padrão, capaz de mudar fundamentalmente o conhecimento da física sobre o Universo.

Isso porque o físico Petter Higgs propôs uma teoria a fim de entender como o Universo foi criado. Para ele, quando aconteceu o Big Bang, a explosão que originou o Universo há 14 bilhões de anos, todas as partículas eram iguais.

Após a explosão, o cosmos esfriou e se formou um campo de força invisível, o “campo de Higgs”, com seus respectivos bósons (um tipo de partícula subatômica). Então, essa partícula, o Bóson de Higgs, interagiu com todas as outras e passou uma massa para cada uma.

Esse campo permanece no cosmos e qualquer partícula que interaja com ele recebe uma massa através dos bósons. Quanto mais interagem, mais pesadas se tornam. As partículas que não interagem permanecem sem massa. Portanto, as partículas só conseguiram ganhar massa devido ao Bóson de Higgs.

Então, descobrir a existência dessas partículas em simulações no LHC, acelerador de partículas, explica como as partículas têm massas tão diferentes umas das outras. Logo, a descoberta do Bóson de Higgs confirma as teorias criadas nas últimas décadas, uma vez que essa partícula é a única que falta ser analisada.

Além de um problema da física ser resolvido, todos saberão que as massas têm uma origem bem definida. Isso é muito importante para todas as leis fundamentais da física.”

Bem, uma enorme massa de torcedores se envolve hoje com a alegria da vitória do Timão. É massa que movimenta intensa energia humana, em mundo competitivo que se move à custa de movimento de corpos no espaço, busca de marcação de gols, em aceleração contínua de músculos e objetivos em torno de um foco único: vencer e levantar a taça!

Assim, equipes de homens e mulheres, integram a presença das suas forças na humanidade oferecendo ao Planeta, repentinamente, a concomitância de conquistas. Tanto no futebol, no esporte, quanto na física, na ciência, há que perceber que qualquer parte por menor que possa parecer, é responsável pelo resultado macro, ainda que ele escape, em teoria, ao nosso entendimento, é fácil sentir, intuir, se deixar contaminar pela alegria de constatar que funcionamos sim, em equipe, como diz o treinador técnico do Corinthians, o Tite, sobre a amizade do grupo, ou seja, o quanto é importante que pessoas se unam em torno de causas, para descobrir Deus, levantar taças ou até para tentar compreender o que uma coisa tem ou não tem nada a ver com a outra…

Aceleremos pois, e vamos comemorar a vitória das equipes tanto do LHC como do Timão, ora, ora!!! Maria Aparecida Torneros, escritora , jornalista e professora universitária, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida. Colaboradora de primeira hora do Bahia em Pauta .

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CRÔNICA

São João com clima de Natal

Janio Ferreira Soares

Embora a Rio + 20 sirva apenas como um belo pretexto para a galera do oba-oba praticar a velha arte de encher linguiça (só que, nesse caso, não pode ser uma linguiça qualquer; ela tem que ser verde, de preferência feita de pele de calango mantido a base de alface, pistache e caldo de cana, criado num cativeiro sustentável iluminado por vaga-lumes reforçados por microchips solares nos rabos, e abastecido por energia da combustão do estrume de jegues alimentados com papelão orgânico), reconheço que algo realmente anda fora de ordem nesse mundão de meu Deus. É tanto que, assim de revestrés, não me recordo de nenhum outro São João com um jeito tão de Natal como o deste ano.

Para você ter uma ideia de como estão às coisas por essas bandas, o clima anda confundindo até os mais experientes sertanejos, como meu tio Lindemar (quase 90 anos, recentemente eleito numa pesquisa informal como o melhor prefeito que Glória (BA) já teve), que outro dia chegou da feira meio ariado pelo sol de quase dezembro a lhe queimar o quengo achando que já era fim de ano, só porque a difusora estava tocando uma velha canção de Roberto. Mas isso é por conta dos delírios climáticos motivados pelos falsos sinais enviados pela atmosfera, que perdeu de vez a outrora condição de calendário alternativo do sertão.

Houve uma época em que bastava contemplar o mundo para saber qual festejo batia à nossa porta. Céu azulado, meio cinzento, acompanhado de um vento norte arrastando folhas secas pelas veredas? Neguinho já podia sonhar trovoada, mulher iniciava à engorda do peru e menino subia no armário atrás dos burrinhos e das lâmpadas coloridas para decorar as lapinhas dos velhos natais. Passarinhos se acasalando? A Semana Santa era questão de dias. Nuvens baixinhas quase triscando as serras? Podia plantar o milho que Antônio, João e Pedro garantiam o forró.

Em todo caso já fiz minha fogueira e, por via das dúvidas, colocarei um sapatinho na janela do quintal. Vai que Papai Noel confunda um balão com uma estrela cadente… Feliz São João.