Noites(e dias) de medo e vazio no verão de Salvador
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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

De Salvador (BA)

Os seguidores do Candomblé cobrem Yemanjá de cravos e rosas, os atabaques anunciam o orixá do mar, as contas em azul e branco escorrem nos tabuleiros. Na praia do Rio Vermelho, os barcos vão ao alto-mar, pejados de flores. “Chegou, chegou, chegou/ Afinal que o dia dela chegou”. A canção de Caymmi governa o Dois de Fevereiro. O som de uma das barracas a confronta: “Minha vó tá maluca/ Tanta coisa pra comprar, ela compra uma peruca”.

Os milhares de devotos, místicos e transbaianos ignoram a greve parcial da Polícia Militar. Mas os pequenos furtos, as enfiadas de mão nos bolsos e uma certa agressividade, alimentadas pela presença recolhida de policiais, anunciavam qualquer coisa. Na Avenida Paralela acontecera qualquer coisa, não ali. Houve qualquer coisa na Avenida Sete. E um arrastão, qualquer coisa assim, no Imbuí. As mensagens são disparadas pelos celulares, durante almoços festivos: “Merda geral na cidade”, “Tiroteio na Paralela”, “Fique aí, tem arrastão”.

Os boatos abafam Caymmi e limpam a noite do Dois de Fevereiro, por tradição fervilhante no Mercado do Peixe. Policiais encapuzados paralisam os ônibus. O pânico em Feira de Santana. O governador está em Cuba. O prefeito de Salvador prefere o Rio de Janeiro, onde seria surpreendido num cooper, em Copacabana, pela cantora Mariella Santiago.

A cidade vazia se impõe. Dezoito homicídios na região metropolitana. Dois dias depois, na Colônia de Pescadores do Rio Vermelho, a própria Casa de Yemanjá seria arrombada por ladrões – os quais, num refluxo, levaram as moedas ofertadas à Mãe d’Água. Do Centro à periferia, a madrugada cairia em saques, homicídios e assaltos, apesar da convocação da Força Nacional.

A “grande noite de paz da Bahia”, evocada por Jorge Amado em Capitães da Areia, aos poucos seria apenas vazia. Bem antes da greve, um passeio noturno por Salvador poderia demonstrar a morte das ruas, pois há uma década a cidade de cultura popular e de boemia ancestral se converteu num reduto do medo.

“Essa porra hoje vai inchar”, diz o motorista de táxi, enquanto observa as praias vazias e os primeiros grupos de soldados do Exército. Por hábito engarrafada, Salvador tem um fluxo menor de carros. À tarde, no bairro litorâneo da Barra, um dono de banca de revista, assustado por boatos, começa a guardar seus magazines. “O arrastão está na Graça, descendo para aqui. Vamos fechar”. Na Avenida Sete, de comércio popular, os lojistas iniciam a cerimônia de encerramento.

Nas televisões, o jornalismo de sensação e de histeria – a linguagem também se rebaixa em comentários cafajestes. A palavra: “bandidagem”. Volta a noite. Em pronunciamento, após regressar de Cuba, o governador Jaques Wagner fala em “momentos de intranquilidade” e garante: “agi imediatamente e com rigor”.

O terror recolhe os baianos, apesar das tranquilidades do Estado. No Solar do Unhão, o show de Karina Burh está cancelado. Outros espetáculos tomam rumo igual, da Timbalada a Ivete Sangalo. O Pelourinho em silêncio. Mesmo os tradicionais puteiros seguem fechados. No Santo Antonio Além do Carmo, os bares são salvos pela frequência marciana de turistas.

Do início da greve, em 31 de janeiro, até a madrugada deste sábado (4), a Bahia registrou 53 homicídios. Uma guerra cotidiana, não apenas episódica, realçada pela greve de 30% da PM (estimativa oficial). Na laje de um bar do Santo Antônio, em cima da encosta que rasga a topografia de Salvador, vê-se, outra vez, “a grande noite de paz”. E a cidade vazia. Poucos carros deslizam nas avenidas da Cidade Baixa. O porto permanece reluzente, com navios ancorados na larga barra. A Igreja do Bonfim está apagada. O verão do medo, somado à noite de paz, ganharia mais doze mortos até o amanhecer.


Nelson Motta recebeu críticas de contemporâneos de Glauber Rocha, que levantaram erros na biografia. Exemplares com informações erradas ainda serão vendidos pela editora
Foto:Eduardo Lopes/Terra
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Claudio Leal

Após a publicação de críticas e levantamentos de erros da biografia “A primavera do dragão – A juventude de Glauber Rocha”, do escritor e produtor musical Nelson Motta, a editora Objetiva decidiu reimprimir a obra, com correções, até 15 de novembro.

Nesta quinta-feira, Terra Magazine publicou os erros cometidos por Motta, que foram levantados por membros da Geração Mapa, liderada por Glauber nos anos 50 e 60, na Bahia.
“A editora Objetiva fará as alterações necessárias, conforme as instruções do autor, na próxima reimpressão, que é iminente. Devemos reimprimir até o dia 15 de novembro”, avisou a assessoria.

O poeta e historiador Fernando da Rocha Peres se irritou com os erros da obra e dirigiu um telegrama à Objetiva: “Senhor Editor: Recebi dois exemplares não-solicitados do livro A Primavera do Dragão, do Sr. Nelson Motta. Agradeço a oferta editorial. Tenho a dizer que o livreco é feio, mal escrito, mentiroso e mais houvera adjetivos. Deste modo, acredito que o editor vai cuidar de minorar este equívoco que foi a publicação de um livro irresponsável.”

Em mais de 25 citações a seu nome, Peres é chamado de “Bananeira”. Mas este é o apelido de outro Fernando da geração Mapa, o jornalista Fernando Rocha. As histórias de “A primavera do dragão” são cravadas de adjetivos: “mentirosas”, “folclóricas”, “falsas”, “inverídicas” e “ficcionais”, disparados por amigos de Glauber ouvidos por Terra Magazine.
“Desprezo as ofensas, agradeço as informações e farei as correções desses equívocos pontuais e irrelevantes para a narrativa da formação de um protagonista extraordinário cercado por personagens que se tornaram grandes nomes da cultura brasileira, como Nelson Pereira dos Santos e João Ubaldo Ribeiro, e por muitos pequenos, médios e grandes amigos, conhecidos e colegas, que se misturam ao longo da sua juventude e, ao contrário de Glauber, se dissolveram no tempo”, reagiu Nelson Motta, em resposta a Terra Magazine.

Leia mais sobre este assunto na Terra Magazine:

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nov
03


Fernando Peres: “Sistema de editoras brasileiras favorece picaretagem editorial” / TM

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Nelson Motta: o autor contestado/TM

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Claudio Leal

Os membros da geração Mapa, liderada na Bahia pelo cineasta Glauber Rocha (1939-1981), questionam a veracidade da narrativa biográfica de “A primavera do dragão” (Editora Objetiva), do produtor musical e jornalista Nelson Motta. O livro retrata a juventude de Glauber, o maior diretor da história do cinema brasileiro, e se estende até o início da trajetória internacional do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, em 1964.

O poeta e historiador Fernando da Rocha Peres se irritou com os erros da obra e dirigiu um telegrama à Objetiva: “Senhor Editor: Recebi dois exemplares não-solicitados do livro A Primavera do Dragão, do Sr. Nelson Motta. Agradeço a oferta editorial. Tenho a dizer que o livreco é feio, mal escrito, mentiroso e mais houvera adjetivos. Deste modo, acredito que o editor vai cuidar de minorar este equívoco que foi a publicação de um livro irresponsável.”

Em mais de 25 citações a seu nome, Peres é chamado de “Bananeira”. Mas este é o apelido de outro Fernando da geração Mapa, o jornalista Fernando Rocha.

- Tenho esse apelido desde a idade de 12 anos. Em Boa Vista de Brotas, minha casa tinha uma touceira de bananeiras. Eu e minha família distribuíamos bananas aos amigos. O ‘Bananeira’ vem daí – explica Rocha. – Nunca falei com ele (Motta). É um absurdo isso, rapaz! O cara escreve por ouvir dizer, sem tomar conhecimento.

Peres tem uma opinião mais dura:

- A troca de nomes pelo senhor Nelson Motta revela a sua incapacidade de lidar com o gênero biográfico.

Admitindo a troca, Nelson Motta pede desculpas:

- Gostaria de me desculpar com o poeta e historiador Fernando Rocha Peres e o jornalista Fernando Rocha, por ter atribuído a um o apelido do outro (“Bananeira”), um equivoco que lamento e será corrigido na próxima edição, mas em nada afeta a narrativa em que o protagonista absoluto é outro Rocha: Glauber.

As histórias de “A primavera do dragão” são cravadas de adjetivos: “mentirosas”, “folclóricas”, “falsas”, “inverídicas” e “ficcionais”, disparados por amigos de Glauber ouvidos por Terra Magazine.

A geração Mapa (o nome da revista do grupo, inspirado em poema homônimo de Murilo Mendes) atuou na literatura, nas artes plásticas, no cinema e no teatro, contribuindo para a renovação da cultura brasileira nos anos 50 e 60. O núcleo inicial era formado por Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Fernando da Rocha Peres, Jaime Cardoso, Fernando Rocha, Calasans Neto, Ângelo Roberto, Antonio Guerra Lima (o “Guerrinha”) e Albérico Mota. Também se agregaram ao grupo os escritores Carlos Anísio Melhor, Fred de Souza Castro, João Ubaldo Ribeiro, Florisvaldo Mattos, Sônia Coutinho, Noênio Spínola, David Salles e o pintor Sante Scaldaferri, entre outros.

“Anedotário gasto”

Protagonista da Mapa e autor de “Glauber Rocha, esse vulcão” (Ed. Nova Fronteira), reputada pela crítica como a melhor biografia do diretor de “Terra em transe”, João Carlos Teixeira Gomes avalia que Motta usa “um anedotário gasto, sem sentido e já desmoralizado”.

- Como biógrafo de Glauber, não gosto de analisar livros sobre ele escritos por outros autores. Mas não pode deixar de me incomodar essa tendência, que julgava superada, de se engrossar a crosta de anedotário sobre uma figura da dimensão cultural de Glauber Rocha. O livro está cheio de erros, falhas de informação, que tumultuam a leitura – critica Joca, como é conhecido (no texto de Motta, ele é chamado de “Joca Teixeira”, tratamento jamais usado por seus camaradas).

Para o biógrafo e amigo de Glauber, há “coisas absolutamente estranhas” em “A primavera do dragão”.

- Nunca soube que Caetano Veloso, que nem tinha vinculação com nossa geração, nem aparecia em nada que fazíamos, teve algum caso de amor com Anecy (Rocha, irmã do cineasta). E, se teve, isso é absolutamente irrelevante para a compreensão da vida de Glauber. São muitos os erros de informação, dando uma visão completamente falsa do que foi a geração Mapa, repleta de anedotários irrelevantes, quando na verdade era uma geração de papel cultural destacado na Bahia.

Na abertura do livro, Motta descreve as fontes de boa parte das histórias: “Conversei com seus amigos de colégio e faculdade, o artista plástico Calazans Neto, os poetas e escritores João Carlos Teixeira Gomes e Fernando Rocha Peres, o cineasta Orlando Senna, o produtor e escritor Rex Schindler, o cineasta e inventor Roberto Pires, que criou uma lente de Cinemascope baiana”. Segundo o autor, o romancista João Ubaldo Ribeiro contou “aventuras e travessuras com Glauber”.

Ocorre que Peres e Joca, incluídos nessa lista, sustentam que nunca foram entrevistados por Nelson Motta. Apenas teriam sido procurados para fornecer e identificar fotografias. O pintor e gravador Calasans Neto morreu em maio de 2006. Peres reage à citação:

- Esta é uma mentira mais deslavada. Não me recordo que este rapaz tenha me entrevistado e creio que também não entrevistou Sante Scaldaferri e Joca, certamente não entrevistou outros companheiros da geração. O que eu fiz foi atender a um porta-voz dele, que me solicitou a identificação de pessoas em uma fotografia que seria publicada no livro. Fiz isto, a contragosto. Hoje, me arrependo, pois o que eu deveria ter dito é que eu só faço depois de ler o livro, porque constato que esse rapaz não sabe escrever. O que ele sabe é enrolar o público, com muita habilidade e um sorriso muito gentil, através da televisão. A competência dele não passa disso. Lamentavelmente, o sistema editorial brasileiro favorece esse tipo de picaretagem editorial. Por isso mesmo, ultimamente vem ululando escritores que mais parecem macacos de circo.

Em resposta enviada a Terra Magazine, Nelson Motta sustenta que o entrevistou, na capital baiana, em 1989:

- Em 1989, quando fui a Salvador fazer entrevistas para o livro sobre Glauber que pretendia escrever na época, fui muito bem recebido por Fernando Rocha Peres, que pode ter esquecido, mas gravou uma entrevista (que tenho até hoje) em que contou com graça e bom humor alguns ótimos episódios da Jogralesca, da revista Mapa e de farras juvenis de Glauber (…) Se o citei como participante de algum episódio em que ele não estava presente, me desculpo e o deletarei na próxima edição. Eram muitos os amigos, conhecidos e colegas de Glauber em sua juventude, não acredito que um a mais ou a menos faça grande diferença para contar como Glauber Rocha se tornou Glauber Rocha.

( Confira a íntegra da resposta de Nelson Motta)

Além de Peres e Joca, as críticas partem de outros companheiros geracionais de Glauber: o jornalista Fernando Rocha (“Bananeira”), o artista plástico Sante Scaldaferri, o advogado Antonio Guerra Lima (“Guerrinha”), o poeta Florisvaldo Mattos e o pintor Ângelo Roberto. Nenhum deles foi entrevistado por Motta.

“Livro é ficção”, diz membro da Mapa

No livro, Motta explica a origem do projeto biográfico, que remonta a 1989. “Com as gravações das entrevistas transcritas, eu começava a estruturar o livro quando uma notícia de jornal me fez mudar de ideia: Zuenir Ventura estava escrevendo uma biografia de Glauber Rocha”, revela

Contudo, o jornalista Zuenir Ventura desistiu do projeto depois de perder o material pesquisado “no carro de uma amiga que foi roubado numa rua de Ipanema”. Autor de “Noites Tropicais” e “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, Nelson Motta relata que, a partir de 2010, entrevistou Nelson Pereira dos Santos, Luiz Carlos Barreto, Cacá Diegues, Sérgio Ricardo, Yoná Magalhães, Walter Lima Júnior e Caetano Veloso – personalidades que não integravam o grupo de amigos de Glauber na “fase baiana”.

- Adoto o princípio glauberiano: cada um é livre para escrever o que quiser. Mas o livro é uma ficção. É mais para enaltecer Glauber. Ele não tem compromisso com a verdade dos fatos – avalia Guerrinha.

Joca procura condensar parte das críticas ao livro:

- Vários os episódios relatados jamais testemunhei como integrante da geração Mapa. Nunca soube, por exemplo, de qualquer tentativa de sequestrar o dono do “Jornal da Bahia”, João Falcão, para metralhar Juracy Magalhães ou para pichar um navio espanhol em protesto contra a ditadura de Franco. Tudo isso, se ocorreu, jamais foi comentado entre os membros da geração Mapa, que, afinal de contas, ao lado de Glauber, eram os protagonistas da história, que Nelson Motta não soube contar – diz Teixeira Gomes, incluído na bibliografia de “A primavera do dragão”.

Motta minimiza a polêmica e considera que “não dá para levar a sério” o relato das conspirações – “nem era para isto.”

- As “conspirações” de araque – como a tentativa de pichar o navio Ciudad de Toledo, a de explodir bancas de jornais, de assassinar políticos, de sequestrar banqueiros, de “espalhar o caos bakuniniano” na Bahia – que compõem alguns dos momentos mais divertidos da história, e que obviamente não eram sérias, apenas fantasias anarquistas de jovens movidos a cerveja e alegria, me foram relatadas pelo artista plástico Calazans Neto, pelo escritor João Ubaldo Ribeiro e pelo cineasta Orlando Senna, em entrevistas gravadas, às gargalhadas – argumenta o jornalista.

Na Bahia, o artista plástico Calasans Neto era conhecido pelo talento para fabular e contar anedotas nem sempre fidedignas. Cético, Peres duvida que Ubaldo tenha se equivocado:

- Não creio que João Ubaldo tenha sido o grande informante do senhor Motta, pois sendo mais jovem não fazia parte de nosso grupo e portanto não pode ter tanta memória. A amizade acontecida entre os dois, posteriormente, possivelmente, não teria permitido informações inverídicas, levianas e grosseiras. Com a palavra João Ubaldo!

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Leia integra da reportagem de Claudio Leal e mais sobre o assunto em Terra Magazine:

http://mail.terra.com.br/

out
21
Posted on 21-10-2011
Filed Under (Artigos, Claudio) by vitor on 21-10-2011


Prefeito João Henrique à cavalo no carnaval de Salvador

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Claudio Leal

Nos últimos anos, Terra Magazine vem realizando um longo debate sobre a democratização do Carnaval de Salvador, com as opiniões de artistas e intelectuais.

Em carta, o secretário de comunicação da Prefeitura de Salvador, Diogo Tavares, contestou uma das questões feitas em entrevista com o prefeito João Henrique Carneiro (PP), sobre o descontentamento de “blocos populares” com a estrutura empresarial da folia. Tavares criticou o termo “genérico”.

Cerca de 130 entidades carnavalescas e blocos populares (com adesão crescente) questionam, em debates no Legislativo e em ação judicial, a estrutura do Carnaval de Salvador. Em 2011, elas entraram com um processo, no Tribunal de Justiça da Bahia, pedindo 30% do faturamento dos camarotes e arquibancadas. A Câmara Municipal realizou uma audiência pública.

A Prefeitura de Salvador afirma que a aferição da popularidade de João Henrique, realizada em 2010, é “antiga”. Consultado por Terra Magazine, o instituto de pesquisas Datafolha, um dos mais conceituados do País, afirma que o “ranking de prefeitos” é realizado, anualmente, no mês de dezembro. Como as eleições municipais ocorrem em 2012, uma nova sondagem deve ser repetida este ano nas dez principais capitais brasileiras, inclusive Salvador, para avaliar o desempenho dos gestores.

Em 23 de dezembro de 2010, o jornal Folha de S.Paulo divulgou o resultado da Datafolha, apontando o prefeito soteropolitano como o segundo pior do País: “João Henrique Carneiro (PMDB), de Salvador, recebeu nota 4,5 dos moradores da cidade. Ele é aprovado por apenas 18% e tem taxa de reprovação de 50%”.

Terra Magazine ouve opiniões plurais sobre o Carnaval de Salvador, como comprova o painel abaixo, com alguns dos críticos e defensores do modelo da festa:

“Você tem um modelo que precisa ser revisto urgentemente, precisa ser democratizado. Você tem coisas ali… A questão dos horários (dos blocos e trios) precisa ser democratizado, não pode ser da maneira que é, hoje. Mas aí o nosso nível de intervenção é muito limitado” (Albino Rubim, secretário estadual da Cultura, 20 de junho de 2011)

(http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5192153-EI6581,00-Carnaval+de+Salvador+precisa+ser+democratizado+diz+Rubim.html)

“Isso (violência) só vai se acabar quando tiver bloco de graça pro povo, quando a polícia for menos violenta no carnaval e a gente tiver um sistema de reeducação durante o ano todo, que já se comece agora um sistema de educação governamental para que as pessoas percam a coisa de ir pra rua brigar, bater, que é cultural. Eu lhe digo porque, quando era pequeno, era guri, ia pra rua também fazer isso (…) Isso sempre foi assim. Não sei se vai acabar, não” (Márcio Victor, compositor, da banda de pagode Psirico, 11 de março de 2011)

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4983812-EI6581,00-Marcio+Victor+Quem+vai+preso+e+preto+pobre+e+fodido.html

“E quando alguém diz assim: ‘ah, mas está ficando muito elitizado!’ Elitizado, como? Qual é a prova que você me dá de que hoje o Carnaval da Bahia é mais elitizado do que ele foi em qualquer momento do passado? Não vejo (…) E você vem sempre alegar: ‘mas tem os desvios…’ Sempre tem. Não estou falando de sociedade de situações ideais, onde tudo está perfeito. Tô falando de processos onde as dificuldades também caminham juntas. Se você vai pra questão da renda, setores enormes de baixa renda foram incluídos, vem pra festa, estão nas ruas, cantam, defendem, escolhem aquela música do Psirico, aquela outra do (Carlinhos) Brown… O que há vinte ou trinta anos atrás era mais democrático? Como era mais democrático? Primeiro, se o próprio acesso ao conjunto e à produção carnavalesca, aos vários produtos criados pelo Carnaval, era um acesso muito menor?” (Gilberto Gil, compositor, 2 de março de 2009)

( http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3605440-EI6581,00-Gil+O+mundo+me+tirou+a+regua+e+o+compasso.html)

“O Conselho Municipal do Carnaval – COMCAR foi criado em 1990, no âmbito da Lei Orgânica do Município, com o objetivo de “definir critérios e regras de apresentação, seleção e composição dos participantes do Carnaval” e de “fiscalizar” a gestão da festa. Duas décadas depois de criado, o COMCAR continua devendo, e muito, à comunidade carnavalesca, à cidade do Salvador (…) Com tal composição, e ainda por cima sem poderes para impor decisões que impliquem despesas já que depende,sempre, da vontade da Prefeitura em acatar ou não suas deliberações, tornou-se, assim, ao longo destas duas décadas, refém da administração municipal. Pior ainda, tornou-se refém do mercado da festa. (…) Daí que nem delibere nem fiscalize, ou melhor, que só delibere e fiscalize em favor dos interesses dos grandes grupos empresariais que, controlando o Conselho, controlam os milionários negócios do carnaval.” (Paulo Miguez, ex-secretário nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura na gestão de Gilberto Gil, 12 de maio de 2011)

( http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5124308-EI17867,00-Carnaval+urgente.html )

“(…) nós não vamos intervir, a festa é espontânea, a festa acontece por si só. Ela aconteceria sozinha, sem o poder público. Agora, na medida que o poder público pode ofertar um transporte coletivo melhor, segurança pública melhor, iluminação pública melhor, ordenamento de ambulantes melhor, saúde pública melhor, claro que isso vai vender melhor a imagem da cidade, pra que no próximo ano a gente possa atrair mais pessoas, aumentar a geração de empregos, aumentar a renda da cidade… Mas que a festa é espontânea, é. Que ela tem as suas características próprias, tem. Seria inimaginável nós fazermos uma intervenção mudando o modelo do carnaval.” (João Henrique Carneiro (PP), prefeito de Salvador, em 20 de outubro de 2011)

( http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5423975-EI6578,00-Prefeito+diz+que+e+inimaginavel+mudar+carnaval+de+Salvador.html )

“Na contracorrente, uma pesquisa da Secretaria de Cultura (Secult) e da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI/Seplan) ajuda a medir o grau de envolvimento dos soteropolitanos e a esvaziar os clichês midiáticos sobre a festividade dos baianos. (…) Realizada em maio, junho e julho de 2009, a sondagem coletou informações da folia daquele ano, com entrevistados de 14 anos ou mais. Foram aplicados 6.677 questionários. De início, identifica-se um baixo de grau de envolvimento: 77% dos soteropolitanos (1,93 milhão) não comparecem a nenhum dos seis dias do evento; desses resistentes, 62,7% ficaram em casa e 14,3% viajaram. Isso não significa que tenham se livrado totalmente do impacto do Carnaval – seja pela montagem (e transtornos) da estrutura, seja pelas transmissões das TVs (7,3% assistem à cobertura)” (“Pesquisa: 77% dos moradores de Salvador fogem do carnaval”, Terra Magazine, 9 de março de 2011)

( http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4979467-EI6581,00-Pesquisa+dos+moradores+de+Salvador+fogem+do+carnaval.html )

“Em 2007, nós fizemos uma pesquisa em todos os meios de hospedagem de Salvador e constatamos alguma coisa como 350 mil turistas, sendo que 115 mil ficavam em meios de hospedagem formais (hotéis, pousadas). Isso representa mais ou menos 30% do total de turistas. Essa relação deve permanecer mais ou menos a mesma: apenas 30% dos turistas que vêm pra Salvador ficam em hotéis. Esse número aumentou bastante. Na última pesquisa que fizemos, constatou-se 490 mil turistas.” ( Domingos Leonelli, secretário de Turismo da Bahia), em entrevista a Terra Magazine, 3 de março de 2011)
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Maria Luiza e João Henrique: fim da relação
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Claudio Leal

“Ninguém briga sozinho, ninguém faz nada sozinho”, desabafa a primeira-dama de Salvador, a deputada estadual Maria Luíza, que anunciou o divórcio do prefeito João Henrique Carneiro (PP). O rompimento tem sequelas políticas, além das matrimoniais. Principal conselheira do (ex) marido, apontada como a mais influente personalidade na gestão municipal, a deputada do PSC anunciou sua migração para o PSD, que integra a base do governador Jaques Wagner (PT).

Apesar do rompimento, ela diz que aceitará dar conselhos a João Henrique, caso seja convocada.

- Eu opinava mais por ser a esposa. Nem todas as opiniões que eu dei foram acatadas. Não tenho cargos na prefeitura, nunca tive. Sempre procurei trabalhar de forma muito técnica (…) Se puder colaborar, continuarei. Se me for rejeitada essa colaboração, eu não farei mais.

Em São Paulo, durante o lançamento do Carnaval de Salvador para patrocinadores, na noite desta quarta-feira (19), o prefeito João Henrique foi protegido por assessores e evitou falar do rompimento com a primeira-dama – o debate do dia nas mesas dos bares da Cidade da Bahia. “Não sei… Não sei…”, respondeu, lacônico, às perguntas de Terra Magazine sobre as consequências políticas da separação. “A gente está aqui comemorando, viu, querido? O prefeito não quer comentar isso, viu?”, emendou o assessor de imprensa, afastando o repórter.

Maria Luíza, no caminho contrário, expõe o divórcio político:

- A minha posição política sempre foi independente. A minha esfera de trânsito sempre foi no plano estadual. No plano municipal, sempre foi o prefeito. Isso pode mudar com o tempo. Só Deus sabe o destino – comenta Maria Luíza, que comunicou sua decisão às redações baianas.

Confira a entrevista exclusiva, realizada por telefone.

Terra Magazine – Deputada, a separação representa também um distanciamento político do prefeito?
Maria Luíza – Veja só, em relação à Prefeitura, o prefeito é quem fala. Politicamente, minha vida não muda, porque em geral eu sempre tive um partido, ele outro. A vida prossegue. Ele tem o partido dele, eu já tinha o meu. Estou fazendo a migração pra base do governador. Eu só quero formalizar isso de forma aberta, transparente, e formalizando meu apoio ao governador. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. São momentos extemporâneos. A separação já vem de um tempo, em torno de 30 dias ou mais.

A senhora vai para o PSD?
PSD, exatamente, da base do governo. A minha posição política sempre foi independente. A minha esfera de trânsito sempre foi no plano estadual. No plano municipal, sempre foi o prefeito. Isso pode mudar com o tempo. Só Deus sabe o destino. Mas tenho que falar de posições reais e concretas.

Mas a senhora sempre exerceu influência muito grande na prefeitura, até na indicação de nomes para compor o secretariado. Isso, naturalmente, não vai se dar mais, né?
Não, eu nunca, digamos assim, impus nada. Quero deixar de forma muito franca que parte disso se repercutiu às vezes por retração de uma posição ou outra da própria autoridade que estava ali. Porque qualquer pessoa que é gestor ou gestora de uma unidade pública ou privada tem autonomia para escolher. Assim como eu, outros opinam. Eu opinava mais por ser a esposa. Nem todas as opiniões que eu dei foram acatadas. Não tenho cargos na prefeitura, nunca tive. Sempre procurei trabalhar de forma muito técnica. Sempre estive dentro das minhas expectativas do que deve ser a condução correta e nunca saí disso, aonde eu participei… Se puder colaborar, continuarei. Se me for rejeitada essa colaboração, eu não farei mais. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Falar da separação é um assunto pessoal. Duas pessoas é que vão estar resolvendo um assunto que não diz respeito ao resto. O que tenha mais nisso aí é muita especulação que se pode dar. É o jogo do poder, da política. Nesse momento, as pessoas devem compreender e respeitar. Como sou uma pessoa pública, e essa situação já vinha se dando, não tenho intenção de esconder. Mas peço respeito.

A separação foi em “comum acordo”?
Ninguém briga sozinho, ninguém faz nada sozinho, tá certo? Quero deixar bem claro que não imagino que seja também atribuída a mim essa decisão unilateral. As coisas são muito óbvias. Não tem nada demais. É um proceso de relação, que já vem ao longo do tempo. Como sou pessoa pública, não queria esconder isso.

É vida que segue?
De forma tranquila, transparente. Não tenho nem queixas nem nada a estar expondo.

A senhora comunicou a separação ao prefeito esta semana? Ou há um mês?
Nós chegamos à conclusão de que era necessário, sim, haver esse processo. Faz mais de um mês. Isso vinha sendo mantido em reserva. Mas quis (divulgar) de informação mesmo pra pessoas, pra que essas diferenças… Você estava dizendo: “Você opinava muito”… Então, agora as coisas podem ser observadas. Eu tenho consciência, assim como ele, que o objetivo foi sempre de fazer de forma acertada, de forma trasnparente. Essa é a melhor maneira de se lidar com qualquer assunto. Eu sempre fui assim.


Waldir Pires:”aplauso e solidariedade, conterrânea”

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Claudio Leal

O ex-ministro da Defesa e da Controladoria Geral da União (CGU), Waldir Pires (PT), enviou um telegrama de solidariedade à corregedora nacional do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), Eliana Calmon, apoiando as declarações da magistrada sobre a existência de “bandidos” no Judiciário.

“Existem desonestos em todos os poderes da República, sim. Sempre existiram. É preciso combater eficazmente a corrupção em todos eles sempre insistentemente e com a participação da sociedade por inteiro”, afirmou Pires, na mensagem enviada à ministra.

Em entrevista à APJ (Associação Paulista de Jornais), Eliana Calmon criticou a tentativa de restringir o poder de investigação do CNJ sobre juízes. “Acho que é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga”, atacou. “Sabe que dia eu vou inspecionar São Paulo? No dia em que o sargento Garcia prender o Zorro. É um Tribunal de Justiça fechado, refratário a qualquer ação do CNJ”, cravou.

Presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e do CNJ, Cezar Peluso organizou uma nota de repúdio à entrevista. Segundo os conselheiros apoiadores do texto, a ministra lançou “acusações levianas que, sem identificar pessoas, nem propiciar qualquer defesa, lançam, sem prova, dúvidas sobre a honra de milhares de juízes que diariamente se dedicam ao ofício de julgar com imparcialidade e honestidade”.

Nesta quarta-feira, o STF adiou o julgamento da ação proposta pela AMB (Associação dos Magistrados do Brasil), para limitar o poder de investigação do CNJ.

Confira a íntegra do telegrama do ex-governador da Bahia Waldir Pires, 84 anos.

“Ministra Eliana Calmon: quero enviar, digna eminente magistrada e conterrânea, minha palavra de aplauso e solidariedade a suas declarações publicadas hoje na imprensa do País. Corajosas e necessárias para que se assegure ao nosso povo a confiança indispensável no compromisso de caminho da construção da democracia no Brasil. Existem desonestos em todos os poderes da República, sim. Sempre existiram. É preciso combater eficazmente a corrupção em todos eles sempre insistentemente e com a participação da sociedade por inteiro; não tolerar absolutamente a impunidade nas tarefas da administração pública, nos encargos da atividade legislativa e na missão do julgamento judicial das pessoas e dos cidadãos. Aqui, então, missão de honrosíssima e imperdível responsabilidade. Parabéns. Cordial abraço, Waldir Pires”.


Capinam: uma voz em defesa do museu afro-brasileiro
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Fotografia de Bauer Sá é parte do acervo em exposição em Brasília/TM
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Claudio Leal

À espera da liberação de verbas contigenciadas pelo governo, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, sediado em Salvador (BA), apresenta em Brasília, até 23 de outubro, o acervo inicial de sua coleção de arte. Acolhida pelo Museu Nacional, a mostra pretende destacar o nascimento da instituição e instigar os parlamentares a apoiarem a fase inicial do projeto.

Na gestão de Juca Ferreira no Ministério da Cultura (MinC), a primeira parcela (de R$3,8 milhões) dos R$10 milhões previstos foi liberada para garantir a restauração do prédio do Tesouro, no Centro Histórico de Salvador. Uma parte dos recursos se destinou à compra do acervo, que estacionou em 300 peças.

Um dos principais letristas do Tropicalismo e da canção brasileira, o poeta José Carlos Capinan dirige o museu na Bahia. À frente da Amafro (Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira), ele esclarece os sobressaltos da criação:

- O projeto começou em 2002, com o ministro Francisco Weffort. Ele já existe de fato, mas precisa ser aprovado o projeto de lei, para se institucionalizar. Chegou a hora. Para isso, precisamos de apoio parlamentar. Vou procurar todos os ministros e políticos baianos. A presidente Dilma se orgulhará de saber que será na sua gestão que o museu vai ser instalado. É o maior projeto cultural que a Bahia tem hoje em processo. Acredito que o governo do Estado estará comprometido com isso – afirma Capinan, acrescentando que a abertura oficial ocorrerá em novembro.

Curador do museu e organizador da mostra “Primeira coleção de um acervo em perspectiva”, o artista plástico Emanoel Araújo procurou evitar a estigmatização do espaço destinado à arte afro-brasileira.

- Meu envolvimento com o museu vem de quando Weffort me pediu para escolher o prédio, em Salvador. Escolhi o Tesouro para fugir da ideia de um museu de cultura afrodescendente em um lugar estigmatizado. Chegaram a ofertar a Casa de Sete Mortes…! Não quisemos. O Tesouro foi construído pelo governador J.J. Seabra e tem uma arquitetura eclética, além da questão simbólica da moeda, do ouro.

Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro Brasil em São Paulo, esclarece que a exposição brasiliense cumpre um objetivo político.

- Esse museu passou por dois ministros baianos, Gilberto Gil e Juca Ferreira, que pouco fizeram por ele. Enfim, no apagar das luzes da gestão de Juca, foi liberada uma parcela da verba para terminar o edifício e fazer com que o museu se constituísse em suas atividades museológicas. Minha participação foi a convite do próprio Capinan, para ser curador do museu. Nesse projeto com o MinC, houve R$ 600 mil para a compra do acervo, com o parecer do conselho (do qual também participam Juarez Paraíso, Muniz Sodré e Ubiratan Castro de Araújo). Por outro lado, como o museu não está em Brasília, achei que esta exposição seria uma forma de trazer para a capital o conhecimento do que foi feito, para que essa verba seja liberada.

A reportagem ( de Terra Magazine)foi convidada para o lançamento da primeira mostra da coleção, aberta neste 13 de setembro, no Museu Nacional (DF), ao lado da exposição “Hereros”, do fotógrafo Sérgio Guerra. No acervo, constam obras de artistas como Rugendas, Debret, Heitor dos Prazeres, João Timótheo, Agnaldo Manoel dos Santos, Rubem Valentim, Yêdamaria, José Maria, Helio Oliveira, Walter Firmo, Eustáquio Neves, Mestre Didi, entre outros. Capinan diz que o museu discutirá “a inclusão do negro na sociedade brasileira”:

- Será um roteiro maior para abordar a cultura afrodescendente, desde o tráfico de escravos, passando por todos os saberes – a língua, a comida, a dança, o canto. Não é só uma reverência ao passado, mas perguntar o que esse passado tem a ver com o amanhã. E o acervo é também a cidade do Salvador. O museu é o lugar onde se concentra a força desse diálogo. Não será um diálogo monotemático, mas permeável a todas as discussões – conta o poeta.

Segundo Capinan, o museu pode se intregrar a um futuro “corredor cultural” no Centro Histórico de Salvador, fortalecendo a presença do Espaço Unibanco de Cinema, do Liceu de Artes e Ofícios e dos antiquários da rua Rui Barbosa.

- É fazer uma rede de casas de cultura e reestruturar o Centro Histórico, que está, neste momento, muito machucado, arruinado, desfigurado. O visitante precisa ver que os shoppings não representam a alma baiana – argumenta Capinan.

A senadora Lídice da Matta (PSB-BA) se engajou na batalha parlamentar para garantir os recursos e a aprovação do projeto de lei. Congressistas baianos como Emiliano José (PT), José Carlos Aleluia (DEM), Lúcio Vieira Lima (PMDB), Luiz Alberto (PT), Josias Gomes (PT) e Jean Wyllys (PSOL-RJ) compareceram ao evento. Lídice pretende mobilizar o governador Jaques Wagner:

- Logo no início do governo Dilma, nós estivemos com a ministra Ana de Hollanda. Ela nos falou do contigenciamento e se comprometeu em liberar o restante, o que ainda não ocorreu. Apenas um terço dos recursos do museu foi liberado. O lançamento dessa exposição vai renovar nosso compromisso. Mantive contato com a Petrobras, para ver o que eles podem ter de patrocínio, através da Lei Rouanet. Quando o governador Jaques Wagner voltar de viagem, vamos pedir o envolvimento dele – relata a senadora.

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Uma das paisagens urbanas mais famosas do Brasil, o Pelourinho, em Salvador (BA), pode ganhar um palco milionário para shows; opositores do projeto veem risco de mutilação do centro antigo/TM
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CLAUDIO LEAL

O Ministério Público Federal (MPF) da Bahia vai investigar o projeto de um “palco articulado” milionário no Pelourinho, no centro histórico de Salvador, a partir da denúncia feita pelo ex-diretor regional do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) Fernando da Rocha Peres, em entrevista publicada por Terra Magazine. Peres expôs o risco do projeto para o conjunto arquitetônico considerado patrimônio da humanidade pela Unesco.

Nesta quinta-feira (28), o caso foi distribuído para a procuradora Bartira de Araújo Góes, no ofício de meio ambiente e cultura. No final da tarde, ela decidiu abrir um procedimento administrativo e, como primeira iniciativa, pedir informações ao Iphan.

Em 19 de julho, o Diário Oficial da União abriu a licitação do palco – projetado em formato de gaveta -, de autoria do arquiteto Pasqualino Magnavita, com valor de R$ 4.719.649,93 e avalizado pelo Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural).

O chefe de gabinete do Iphan na Bahia, Mateus Morbeck, diz que o órgão fez pequenas exigências ao projeto, aprovado em sua versão prévia. O Escritório Técnico (Etelf), composto por representantes do Iphan, da Prefeitura de Salvador e do governo do Estado, avaliará a formatação final da obra.

“O estudo preliminar foi aprovado. O Iphan fez as avaliações e foram feitas algumas exigências que estão sendo cumpridas. Conceitualmente, o Iphan não tem o que se opor”, diz Morbeck. Procurado por Terra Magazine, o superintendente regional do órgão de proteção ao patrimônio, Carlos Amorim, não concedeu entrevista.

Na quinta-feira, 21 de julho, a assessoria do Ipac afirmou que as obras tinham a aprovação do Iphan. O diretor do organismo estadual, Frederico Mendonça, também evitou dar entrevista. Esperava-se o pronunciamento em conjunto dos secretários de Turismo e de Cultura, além da chefia de gabinete do governador Jaques Wagner (PT). A coletiva estava prevista para esta semana. Em 2010, uma versão preliminar do projeto foi divulgada no YouTube e indicava a construção de um prédio moderno em meio às construções seculares.

Projeção do palco no Pelourinho, divulgada em 2010 pelo governo da Bahia

“Gavetão”

Reformado no governo de Antonio Carlos Magalhães, na década de 1990, o Pelourinho vive uma crise de violência, crescimento do crack e decadência do comércio. O governo de Jaques Wagner criou um escritório para conduzir as intervenções no centro da primeira capital do Brasil. Até agora, a iniciativa de maior vulto é o projeto milionário do palco “gavetão”, projetado para abrigar shows e espetáculos no Largo do Pelourinho, onde estão a Igreja do Rosário dos Pretos e a Fundação Casa de Jorge Amado.

Especialista em patrimônio e professor emérito da Universidade Federal da Bahia, Fernando da Rocha Peres se indigna com o risco de mutilação de uma das mais importantes paisagens urbanas do País. “A vibração é tão intensa que vai detonar o casario e a igreja. Esse palco é para iludir a população, mais uma vez, com festas populares”, ataca. Peres critica o comportamento dos jornais baianos, que se omitem na polêmica sobre o Pelourinho. “Os jornais locais preferem ignorar esse assunto”, lamenta. Ele afirma que o palco agravará a “destruição da velha Salvador”.

Numa reunião na Academia de Letras da Bahia, o abade do Mosteiro de São Bento, Dom Emanuel D’Able, relatou que os beneditinos retiram as obras-de-arte do museu, na semana do Carnaval, para evitar a destruição das peças durante a passagem dos trios elétricos, no circuito da avenida Sete de Setembro. Os críticos do palco milionário evocam essa ameaça ao Pelourinho e questionam a prioridade da obra, pois o processo de arruinamento se acelerou em centenas de casarões da cidade histórica.

Decoração

A montagem da nova sede nacional do Iphan, no Edifício Lucio Costa, em Brasília, expôs outro foco de polêmica na Bahia, apesar de desmentidos do instituto. Terra Magazine apurou que uma parte do mobiliário da Casa dos Sete Candeeiros, um palacete do século XVIII, em Salvador, foi preparada para ser conduzida à sede nacional. O Iphan da Bahia, responsável pela guarda dos móveis e da imaginária do prédio, onde funciona o setor de restauração e arqueologia, negou ter definido o envio das peças, mas admitiu a existência de uma demanda.

A assessoria de comunicação do Iphan, na capital federal, desmente a existência do pedido de transferência e de qualquer documento. O presidente do instituto, Luiz Fernando de Almeida, teria conduzido apenas “uma conversa quase que informal” com superintendências estaduais, para averiguar a “representatividade” das peças históricas de diversas regiões do País, com levantamentos fotográficos.

“Tomei até um susto. A gente não tem conhecimento dessa transferência do mobiliário. Recebemos uma consulta da presidência do Iphan, que está montando a nova sede em Brasília. Eles estão consultando o Brasil todo, para que a nova sede do Iphan tenha peças que sejam representativas de todo o patrimônio cultural do Brasil. Mas ainda não foram definidas quais peças serão”, garante Mateus Morbeck, o chefe de gabinete do Iphan-BA.

Segundo o técnico, não é “verídico” que os móveis estejam embalados. “Não foi fechado que material vai, quanto tempo vai ficar. Por isso, achei estranha essa informação de que estejam embalados pra levar. Me causa surpresa”, acrescenta Morbeck.

O historiador Fernando da Rocha Peres identifica uma ameaça ao patrimônio baiano nas movimentações do Iphan. “É estranho porque, anteriormente, isso seria inconcebível. Nem no período da ditadura militar aconteceu algo desta natureza. Quando ocorria a saída de uma peça, era por empréstimo, por pouco tempo. Uma ou duas peças para uma eventual exposição. Se as peças, que vão sair da Bahia, são para decorar a nova sede do Iphan em Brasília, me parece estranho e indevido, porque vão retirar objetos que pertencem à cultura e à história da Bahia. Isso pode significar, quem sabe, até um desaparecimento desses objetos, como tem acontecido. É inadmissível que este governo federal, que se diz tão sério e correto, permita uma coisa desta natureza”, Peres contesta.
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Projeto do Gavetão do Pelô/Img.TM

Perto de completar quatro anos de sua morte (27 de julho de 2007), o ex-governador Antonio Carlos Magalhães segue ainda como um divisor de águas da política e da administração pública em seu estado, para o bem e para o mal.

O secretário da Cultura, professor Albino Rubim, por exemplo, em entrevista exclusiva publicada esta segunda-feira, 20, na revista digital Terra Magazine, culpa ACM pelo atual declinio cultural baiano.

” Avalio que o carlismo (corrente política de ACM) foi muito ruim para a Bahia em vários sentidos. Um dos sentidos é que toda a política construída no tempo do carlismo era de uma baianidade autossuficiente, como se a Bahia fosse uma espécie de ilha isolada do arquipélago da cultura (…) Isso empobreceu muito a Bahia, porque cortou muitos laços, trocas e diálogos”.

Não falta quem pense exatamento o contrário das análises de Albino na entrevista ao jornalista baiano Claudio Leal, inclusive em relação à sempre polêmica questão do Axé.

Confira em Terra Magazine ( http://terramagazine.terra.com.br )

(Vitor Hugo Soares)
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Rubim: “Há uma espécie de letargia da cultura
brasileira como um todo, não só na Bahia” /
Roberto Viana-Agecom

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Claudio Leal

Vanguardeira dos anos 1950 até a geração da contracultura, a Bahia começou a emitir, na última década, sinais de marasmo. Do teatro à literatura, o Estado se ressente de não revelar novos criadores essenciais para a cultura brasileira e de conviver com a evasão de talentos.

O discurso da “baianidade autossuficiente”, aprofundado nos governos sob a liderança política de Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), é apontado pelo novo secretário estadual da Cultura, Albino Rubim, como um dos fatores do declínio da força cultural da terra de Gregório de Mattos e Jorge Amado.

- Avalio que o carlismo (corrente política de ACM) foi muito ruim para a Bahia em vários sentidos. Um dos sentidos é que toda a política construída no tempo do carlismo era de uma baianidade autossuficiente, como se a Bahia fosse uma espécie de ilha isolada do arquipélago da cultura (…) Isso empobreceu muito a Bahia, porque cortou muitos laços, trocas e diálogos – analisa o secretário, em entrevista a Terra Magazine.

Rubim avalia que os outros Estados também não produzem movimentos significativos. “Há uma espécie de letargia da cultura brasileira como um todo. Não vejo nenhum movimento muito significativo de renovação. Se você pegar as temáticas que são predominantes, nos filmes que têm mais impacto no Brasil, é a questão da violência”, acrescenta o especialista em Política Cultural e ex-diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), escolhido pelo governador reeleito Jaques Wagner (PT) para comandar a secretaria no segundo mandato.

Nesta entrevista, Albino Rubim debate os dilemas culturais da Bahia – da preservação do patrimônio histórico ao Carnaval – e conta quais são os seus projetos para tirar Salvador dessa letargia. No início da gestão, ele encontrou uma dívida de R$16 milhões deixada por seu antecessor, o diretor teatral Márcio Meirelles, cuja passagem pelo cargo foi marcada por críticas de artistas e produtores. Os novos editais foram suspensos até ser finalizado o pagamento dos antigos.

- Nem no plano federal, nem no plano estadual, foi desenvolvida uma política para os artistas, uma política para essa cultura que é mais profissionalizada – pondera o secretário petista, autor do livro “As Políticas Culturais e o Governo Lula” (Ed. Perseu Abramo).
Há seis meses no cargo, ele detalha o programa do governo baiano para revitalizar o Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador, um dos principais pontos turísticos da capital, restaurado nos anos 90 pelo então governador ACM. O modelo de ocupação do casario colonial, com a troca de moradores por estabelecimentos comerciais, sempre foi criticado pelos partidos de esquerda.

No governo Wagner, os antigos adversários do carlismo passaram a lidar com o crescimento da violência e do consumo de crack nas vielas da primeira capital brasileira. Agora, um plano de revitalização econômica e arquitetônica começa a ser aplicado, para impedir a degradação do patrimônio.

- A grande questão do Pelourinho, e o plano diz isso, é você reinserir aquele tecido urbano dentro do tecido geral da cidade e criar uma dinâmica para aquilo ali.

A mudança do modelo do Carnaval de Salvador, saturado pelo reinado de grandes blocos e empresários de Axé Music, é outro dos temas que devem marcar o segundo mandato do PT no Estado, embora o governo enfrente barreiras legais para entrar no terreiro municipal.
- Você tem um modelo que precisa ser revisto urgentemente, precisa ser democratizado. Você tem coisas ali… A questão dos horários (dos blocos e trios) precisa ser democratizado, não pode ser da maneira que é, hoje. Mas aí o nosso nível de intervenção é muito limitado – admite Albino Rubim.

Confira a entrevista.

Terra Magazine – Como o senhor avalia a sensação de que a cultura baiana está em declínio, perdeu sua importância nacional, num processo que viria desde os anos do carlismo (corrente política de Antonio Carlos Magalhães) até os tempos atuais, com o PT?

Albino Rubim – Avalio que o carlismo foi muito ruim para a Bahia em vários sentidos. Um dos sentidos é que toda a política construída no tempo do carlismo era de uma baianidade autossuficiente, como se a Bahia fosse uma espécie de ilha isolada do arquipélago da cultura.

Como se a gente tivesse uma cultura própria, da baianidade. Isso não quer dizer que estou falando mal da baianidade em geral, mas de uma determinada visão que promove uma monocultura da baianidade. Isso empobreceu muito a Bahia, porque cortou muitos laços, trocas e diálogos.

Pessoalmente, acho que os momentos mais ricos da cultura, em qualquer lugar do mundo, são os momentos de diálogo intercultural. Na hora que você corta isso e põe uma cultura autossuficiente, que não precisa dialogar com outras, isso empobrece. De outro lado, a própria característica do carlismo, enquanto uma postura autoritária, que não permitia divergência, impositiva, não é nenhum clima razoável para o desenvolvimento cultural. Cria uma cultura de subserviência. É um clima nocivo. Sem dúvida, essas coisas atingiram profundamente a cultura da Bahia.

Certo, mas não houve o fortalecimento do Axé Music no período de Antonio Carlos Magalhães, com a formação de uma indústia na área musical?

Mas, veja, aí eu já acho o seguinte. Não estou defendendo o Axé, mas eu acho que existe também um preconceito enorme de elites intelectuais brasileiras e baianas contra o Axé. Ele tem muitos pontos complicados, mas outros não. Por exemplo, o Axé criou a possibilidade de você desenvolver uma indústria da cultura fora do Rio e de São Paulo. Não vejo isso como uma coisa negativa, pelo contrário, é uma coisa positiva, no sentido de que você descentraliza a possibilidade de uma cultura mais mercantil. O Axé é uma coisa genérica, a gente fala em Axé para designar muitas coisas. Não acho que toda música baiana criada nesse período foi sem qualidade, seja rítmica, seja melódica, seja das letras. Não dá pra generalizar dessa maneira. Sofreu um preconceito grande. E também é um preconceito de quando uma cultura popular cria uma conexão com a indústria. Há uma postura preconceituosa contra esse tipo de conexão.
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LEIA ENTREVISTA COMPLETA DE ALBINO RUBIM EM TERRA MAGAZINE

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jun
10


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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

Uma refrega judicial torna incompleta a festa dos 80 anos do maior artista popular brasileiro, João Gilberto. Os álbuns “Chega de Saudade” (1959), “O Amor, o Sorriso e a Flor” (1960) e “João Gilberto” (1961), marcos da Bossa Nova, seguem fora do mercado fonográfico e sem a certeza de que serão relançados com a aprovação técnica do músico.

Em 1992, a gravadora britânica EMI, detentora do catálogo da Odeon, reuniu os três bolachões e o EP “Orfeu da Conceição” num único CD, “O Mito”, à revelia de João Gilberto, que se indignou com o fim da “sequência harmônica” das faixas. Ele questiona os defeitos da remasterização e os estragos na mudança para o formato digital, com a deformação das gravações originais.

O músico abriu um processo contra a EMI, em 1997, e até 2011 não entrou em acordo com a multinacional. João Gilberto busca a “abstenção definitiva” da EMI e da Gramophone de produzir e comercializar sua obra no Brasil e no exterior, a retirada de “O Mito” do mercado, a indenização por danos morais e o pagamento de royalties.

Os arranhões à obra do artista se desdobram na esfera comercial. Outro calo de João também está na Inglaterra. Sem autorização, a gravadora inglesa Cherry Red Records passou a reproduzir os álbuns “Chega de Saudade” (1959) e “O Amor, o Sorriso e a Flor” (1960).

Disponíveis no site da gravadora e na loja virtual Amazon, os discos mimetizam o projeto gráfico original e preenchem uma parte da lacuna fonográfica. A britânica Cherry Red argumenta que está amparada pelos fundamentos jurídicos europeus, pois as leis de direitos autorais na Europa permitem que o repertório caia no domínio público depois de 50 anos.

No primeiro semestre de 2011, para celebrar os 80 anos do músico, Terra Magazine publicou uma série de reportagens sobre a preservação da obra de João Gilberto e as querelas judiciais com as gravadoras.

Confira mais textos sobre João Gilberto em Terra Magazine
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