ago
29
Posted on 29-08-2010
Filed Under (Crônica, Gilson) by vitor on 29-08-2010

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CRÔNICA/DESPEDIDA

Dinamitando a História

Gilson Nogueira

A morte do amado Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova, irá se transformar em um espetáculo midiático. Neste domingo, 29, assim que bananas de dinamite implodirem o que restou daquela praça de esportes, ou seja, seu lance de arquibancadas mais perto do céu, o Ibope vai fazer muita gente feliz. Depois, no lugar da Fonte Nova, o vazio, como o marco zero do absurdo.

E que ironia do destino, logo em um domingo, dia que, em passado nem tão distante, assim, ir à Fonte Nova carregava o mesmo sabor de uma feijoada completa, acompanhada de Coca Cola, e a magia de uma missa na Basílica do Bonfim.

Portanto, aproxima-se o momento do tiro fatal, em forma de aperto de um detonador, que irá calar, de vez, o grito de gol que não quis ir embora e que agonizava, ali, raquítico, faminto, tonto, esperançoso, no fosso úmido e fedorento, à beira do campo, já sem as traves, confiante em tomar forma, após a jogada do craque fantasma, capaz de virar o jogo, e, desse modo, não permitir o desmoronamento do templo maior de sua religião futebol.

Rasga-se, assim, com a implosão do último pedaço da Fonte Nova, uma página da história do desporto baiano. Explode-se uma espécie de cofre das mais ricas lembranças do povo da Boa Terra. Mais que isso, um relicário de proezas gigantescas dos jogadores de futebol da Bahia, em defesa das cores de sua seleção e de seus times, no campeonato local, e em disputas oficiais e amistosas com times de outras plagas.

Que saudade da zorra do Guarani, do Galícia, do Ypiranga, do São Cristóvão, do Botafogo, do Leônico, do meu Bahia mais Bahia que o Bahia de hoje. Que falta você vai fazer,minha Fonte Nova abençoada !!!

Ao som das dinamites pipocando, das palminhas de sempre, nessas ocasiões, e dos gritinhos da moda, encenados por quem não experimentou a sensação indescritível de assistir um Bahia e Vitória pelo buraco do portão do Xaréu da Fonte Nova e, com isso, dar-se por glorificado em ver, apenas, o jogador do seu time bater o corner e esperar o grito da torcida, você desaparece do mapa. Em seu lugar pretendem construir uma arena (argh!), com o nome de Nova Fonte Nova. Não gosto desse nome e morro um pouco com você, querida vizinha de muitos anos.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador de origem do Bahia em Pauta e, na juventude, também ex-morador da Rua do Genipapeiro, bairro da Saúde/Nazaré. A casa de sua família ficava a menos de 500 metros do portão de entrada da Fonte Nova.

jul
22
Posted on 22-07-2010
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Hotel da Bahia: salvo na cidade que desmorona

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CRÔNICA/ SALVADOR

UM TUBO SEM SAÍDA

Gilson Nogueira

Até hoje, pela manhã, havia um poste estendido no chão, em pleno coração de Salvador, cidade que espanta pela beleza e, paradoxalmente, por absurdos. Na esquina do Largo do Campo Grande, onde está localizado o Teatro Castro Alves, com a Avenida Leovigildo Filgueiras, pequeno e fino, de ferro, pintado de azul cobalto, indicando aqueles dois logradouros públicos, o poste permanece sobre o passeio do TCA.

É, de alguma forma, monumento ao desleixo com que são tratadas algumas questões urbanas da cidade da Bahia. Sendo assim, a pergunta: Será que algum preposto ( êpa!) da Prefeitura Municipal de Salvador não constatou o ocorrido?

Convém que a comuna procure levantar o equipamento derrubado por algum vândalo, considerando estar sua base aparentando haver sido danificada, após empurrão, por mãos criminosas.O fato é triste, para uma cidade que se diz capital do turismo. Urge, portanto, providência.

E, nessa viagem citadina, a pé, entre espantos e surpresas, num festival de assombrações e alumbramentos, vejo a frondosa mangueira do Hotel da Bahia, encostada às pilastras de um dos ícones da hotelaria brasileira, sacudir-se em verde amazônico, cheia de oxigênio, à minha passagem, anunciando-me ter sido o HB salvo, pelo Governo do Estado, de uma punhalada anunciada, voltando a ser, ele, o HB, hotel, de primeira, a serviço da boa imagem da Bahia,e, não, como pretendiam alguns, mais um empreendimento imobiliário colocado à mesa dos que só pensam em abocanhar o lucro,sem compromisso algum com a cultura e as tradições da Boa Terra. Para o bem da Bahia e de sua história, o Hotel da Bahia continua vivo. Palmas para os responsáveis por sua salvação!

Entre as observações matinais, na ida ao Campo Grande, um soco, sem mão, silencioso, no peito do repórter, ao constatar quase uma dezena de jovens deitados nas calçadas com o sol tentando despertá-los, sem conseguir, já que o efeito arrasador de alguma substância, inalada na madrugada, suponho, os impele ao entorpecimento, ao sono profundo, sem colorido, na companhia dos atores de uma peça conhecida. Enquanto isso, a cidade é invadida por carros de som com propaganda política, ” santinhos ” são distribuídos à população. Na cara de pau.

Faz parte do triste show da vida de uma Salvador desmoronando.

Aqui, sim sinhô,onde jovens sem futuro fazem dos passeios prancha para entrar em um tubo sem saida.

Gilson Nogueira é jornalista

jul
14
Posted on 14-07-2010
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CRÔNICA/BATATINHA

A hora da razão

Gilson Nogueira

Vamos nessa, Batata, aproveita que você está aí em cima pertinho de Deus e manda um recado em forma de poesia para o Criador do Universo ajudar sua Associação Casa de Batatinha (Rua Gabriel Soares, 68, Aflitos, Salvador, Bahia ), através da iniciativa privada e governo, municipal, estadual e federal, com grana salvadora, visando impedir que o telhado da casa onde você nasceu caia na cabeça dos seus filhos que lutam para manter a “ Casa de Batatinha” aberta ao público e, desse modo, não deixar o seu nome se apagar na memória do povo.

Quem aprendeu a admirar sua obra musical, construída desde o dia 5 de agosto de 1924, quando você veio ao mundo e chorou um samba, nos braços de sua mamãe, sabe que você, poeta, que iria completar 86 anos, aqui, entre nós, está vivo na lembrança e admiração da gente brasileira. Quem sabe de samba o considera um dos grandes mestres da nossa música popular. Salve você, saudoso Oscar da Penha, sambista imortal, autor de mais de 100 composições dignas de aplausos celestiais, que, no dia 5 de agosto, vai receber, em hora oportuníssima, justa homenagem dos seus familiares, amigos e colegas, e de milhares de fãs, por sua obra monumental.

Não vou perder, amigo Batata ( lembra do prato de dobradinha que compartilhamos, felizes, com cerveja, em pleno calçadão do Porto da Barra, naquele verão dos anos 80?), a bela programação que está sendo bolada para o dia do seu aniversário. Anuncia-se que Nelson Rufino, Valmir Lima, Riachão, Claudete Macedo, Edil Pacheco e outros astros e estrelas do samba raiz da Bahia vão estar, lá, na sua “ Casa de Batatinha”, fazendo o tempo, a partir das oito horas da noite, parar para sua turma cantar e tocar samba feito parabéns a você nessa data querida. O sobrinho do Mano Cae, J. Velloso, que inteligentemente produziu o único CD gravado por você, com Paquito, Diplomacia, vai abrir o show dos seus 86 anos. Tudo em clima de intensa emoção e alegria, com seu DVD rodando, fazendo você espalhar seu olhar, seu sorriso, sua voz, seu jeito de anjo e diplomata, sem desespero, pelos ares da cidade.

No dia 3 de janeiro de 1997, aos 72 anos de idade, o inesquecível Batatinha foi morar no céu, deixando, atrás de si, além de suas canções memoráveis, o rastro luminoso dos gênios da música. Em tempo, Batata, se você encontrar Bethoven, aí, em cima, convide essa figura para tomar uma com a rapaziada, no próximo dia 5, no botequim em que irá se transformar a sede da Associação Casa de Batatinha, presidida por um dos seus filhos, o elegante Artur Emílio dos Santos Penha. Vai ser porreta, meu rei!

Gilson Nogueira é jornalista

mai
03
Posted on 03-05-2010
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 03-05-2010


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CRÔNICA/ ESQUADRÃO

O Bahia é coisa de Deus !

Gilson Nogueira

“O vento torce contra o Bahia,” é o que penso sorrindo, enquanto tento pendurar uma pequena bandeira do meu time que veio encartada em um jornal local na janela do meu apartamento. Tentei várias vezes fazer o escudo ficar de cara para a rua e o vento pirracento, com jeito de quem é Vitória, desde que Deus criou o mundo, enrola a bandeira e, assim, não permite que ela tremule, como eu gostaria, botando pra fora minha paixão tricolor. Já que não tem jeito, lutar contra a natureza, recolho minha idéia de pano e vou direto ao armário procurar um documento histórico da Revista Placar sobre a conquista do título de Campeão Brasileiro de 1988, pelo Bahia.

Lá está um pôster, gigante, da equipe formada por Ronaldo, Paulo Rodrigues, João Marcelo, Claudir, Paulo Róbson e Tarantini, Gil, Zé Carlos, Bobô, Charles e Sandro. Na publicação, a ficha de cada um dos comandados do técnico Evaristo de Macedo, chamados pela revista de tricolores elétricos. “ Um campeão em ritmo de lambada”, refere-se o texto à epopéia do Tricolor de Aço, no século passado. Ele começa dizendo que, até o dia 19 de fevereiro de 1989, a maior façanha já alcançada pelo time do Bahia era a primeira Taça Brasil, de 1959, conquistada em cima do Santos.

Dobro a quase revista e, na contracapa, está lá, o título, em negrito: A Primeira Grande Glória, com a foto do Bahia campeão da Taça Brasil de 1959 .Vê-se, em pé: Nadinho, Leone, Henrique, Flávio, Vicente e Beto; agachados: Marito, Alencar, Léo, Bombeiro e Biriba. Diz a legenda: “Este time derrotou o grande Santos de Pelé na final. Ao lado, a festa dos 3 x 1 da conquista no Maracanã”, referindo-se a um flagrante jornalístico de O Globo, com os heróis dando a volta olímpica, no Maraca, envergando um uniforme de listras verticais em azul, vermelho e branco, sem o escudo do clube.

Pronto, aí, de repente, pinta o que quero falar, aqui, agora, substituindo a vontade de pendurar a bandeirinha do Bahia na janela: um recado aos seus jogadores que, hoje, no Barradão, precisam vencer seu grande rival, por 2 x 0, na final do Campeonato Baiano de Futebol, para poder gritar, de novo, Sou Campeão!!!

Vejam bem, vocês estarão, hoje, à tarde, diante de um desafio monumental, vencer o Leão, em seus domínios. O leão é animal valente, símbolo de uma agremiação que orgulha a Bahia, por tudo que fez e faz pelo esporte. Por isso, viva o Vitória!

Sintam-se, jogadores tricolores, na hora do vamos ver, como gladiadores da bola e, no instante decisivo, lembrem que, naquele memorável triunfo do Bahia, em pleno Maracanã, contra uma das mais fortes esquadras do planeta, o escudo que não estava na camisa havia ficado invisível aos olhos de todos, no estádio. Ele era o coração de cada um daqueles atletas que deram ao clube seu primeiro título nacional e mais uma demonstração que o Bahia, antes de ser um time, é uma coisa de Deus a pulsar vida dentro da gente!

Gilson Nogueira, jornalista, colaborador do BP e esquadrão de aço pra valer. Texto escrito com brio tricolor antes do jogo de domingo no Barradão.

mar
04

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SEM PALAVRAS

Gilson Nogueira

Meu coração bate em ritmo de angústia, com a notícia da morte de Johnny Alf. Acabo de lê-la no site Bahia Já, de Tasso Franco, um dos mais competentes jornalistas do país. Minha mulher retransmite-me a mesma notícia, da partida de Alf, ao captá-la no Jornal Nacional da TV Globo. Ao computador, onde estava a conferir as últimas do momento, meu batimento cardíaco acelerou.

No mesmo instante, pensei em encontrar uma foto de teclado de piano, no Google, para ilustrar meu adeus ao gênio Alf.. Não deu outra, encontrei a imagem que queria! As teclas de luto, que as envio, anexo, para resumir o que a Bossa Nova, em particular, e a música, no geral, veste nessa hora de partida do sol da BN para o lado de Deus. Lá, a brisa, com certeza, sopra diferente, em cores misteriosas, reservadas ao infinito, espaço, no qual, os espíritos bons devem formar uma orquestra de paz e amor cujos acordes se espalham pelos espaços de silêncio, cá embaixo.

No meu desejo de registrar a partida de Afl para outro plano da existência, encontro, no meu baú de raridades da BN, um CD do sol da BN em que uma das músicas tem o seguinte título: Tema sem palavras, de autoria do saudoso Durval Ferreira e do, ainda ativo, toc, toc, toc, Maurício Einhorn. Não há letra na música. É, apenas, uma composição instrumental. A letra? Não precisa. Adeus, grande Johnny!

Gilson Nogueira é jornalista e discípulo de Alff )

fev
24
Posted on 24-02-2010
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 24-02-2010


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CRÕNICA / BAHIAS

FAZENDO FÉ

Gilson Nogueira

No mês passado, voltando da Colina Sagrada, no dia da Lavagem do Bonfim, vi dois siris jogando bola. É brincadeira. Eram, na verdade, dois rapazes fazendo de conta que sabiam jogar capoeira! O local, parte baixa do Elevador Lacerda. Observei, também, um terceiro entrando na parada para evitar que a idéia deles acabasse em briga. Foi fácil apartar o grandalhão que pisava forte no chão, depois de recolher a perna comprida, ameaçando uma “benção” enganadora no seu “oponente”. De capoeirista o grandalhão não tinha nada. Ele queria aparecer, imaginei, enquanto bebia água de coco gelada para amenizar o calor de verão.

Faltava-lhe, sobretudo, a espinha mole, um dos atributos que identificam quem entende do riscado que o saudoso Mestre Pastinha ensinou a milhares de baianos na capital do berimbau. O respeito a si e ao próximo são um dos mandamentos que ficaram gravados na memória dos que juraram obediência aos conselhos que ele, O Pai da Capoeira Angola, lhes deu e que, por essas e outras, podem – e devem – ser respeitados – e aplaudidos- como verdadeiros discípulos do saudoso Manoel dos Reis Machado, o inesquecível Pastinha, ex-marinheiro, que os tinha como verdadeiros filhos, continuadores de seus ensinamentos iluminados.

Aos que pensavam aprender capoeira, na sua academia, localizada em um velho casarão do Pelourinho, hoje restaurante-escola, do Senac, o velho Pastinha alertava: Não era com ele que iriam obter diploma para baixar o cacete em deus e o mundo. Capoeira não era isso. Para o Papa da Capoeira Angola, no Brasil, tratava-se, sobretudo, de arte, prática sagrada, religião

E o som da pisada do sujeito alto e forte no asfalto, naquela quase porrada, intensifica-se, na cabeça, lembrando o dos coturnos atrás de estudantes nos idos das nuvens de chumbo, em Salvador. Ela tinha ginga de mágico barato, calculei. Ou melhor, de enganador do povo, desses que parecem, mas, não são. Brasília está cheio deles, denorex da política.

A caminho de casa, ocorreram-me lembranças da cidade de Salvador que o tempo não apagou, como acontece com músicas que o incansável pesquisador da MPB Perfilino Neto faz desfilar no seu programa, na Rádio Educadora da Bahia, Memórias do Rádio, a partir das dez horas da noite. Um das recordações, o Carnaval de Ontem, que me faz chorar ” pedacinhos coloridos de saudade”. O que acabou de ser visto, nas ruas da província , é, simplesmente, como a capoeira do grandalhão que maltratava a cultura baiana, uma mentira. Esta, eletrizada. Não tinha confetis. Nem serpentinas. Só as que Waltinho Queiroz testemunhou sendo atiradas nos ombros de uma foliã desiludida e que, ao final da festa, deu-se por recompensada com o cupido de papel.

Desejoso em citar o que o mestre Gildo Alfinete escreveu, como dedicatória, no livro Pastinha, da Coleção Gente da Bahia, da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, redigido pelos jornalistas José de Jesus Barreto e Otto Freitas, afirmo: é urgente intensificar-se o rigor da fiscalização dos mestres e órgãos competentes (?) para o jogo de “capoeiristas de araque” que visam , apenas, parece, pelos relatos ouvidos, de gente de fora e daqui, arrecadar, muitas vezes com agressividade, dinheiro de turistas incautos, praticando um esporte fora dos padrões ensinados nas academias.

Ah, Gildo Alfinete, um dos seguidores da Religião Angola, fiel escudeiro da obra do eterno Pastinha, anotou, no belo livro: “ As águas do mar são fortes e o vento tem seu poder / quem anda com Deus nada pode acontecer / Na Bahia tem petróleo, tem cacau e tem dendê, tem Capoeira Angola para eu me defender / Você joga pelo alto, eu jogo pelo chão, na roda da Capoeira todos nós somos irmãos.” Por último, emocionou-me, um pouco mais: “

“Você é um amigo irmão, você é gente da gente, acredite, faça fé. Mestre Gildo Alfinete.” É bondade sua, parceiro. Saravá!

Gilson Nogueira é jornalista
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fev
13
Posted on 13-02-2010
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 13-02-2010

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CRÔNICA / CARNAVAIS

Boêmio azul turquesa

Gilson Nogueira

Sorveteria Primavera, verão, quatro horas da tarde, a brisa sempre mansa e sinuosa entra pelas mangas da mortalha. Feito espiã do sexo chega às chamadas partes íntimas do malandro e suaviza o calor. Parece picolé do céu escorrendo na pele ouriçada com o beijo da francesa linda – e anônima- no folião moreno de sol do Porto da Barra envergando a mortalha do Broco do Jacu, o maior e melhor bloco do planeta, até que Deus apareça para fundar outro igual. Sigo desfilando na avenida saudade. E lembro que brincar o Carnaval de Salvador tinha algo de estágio no paraíso.

Sorveteria Primavera, quatro e meia da tarde. A francesa já beija outro baiano e, logo em seguida, some no beco, como se quisesse confirmar que amor de Carnaval desaparece na fumaça, de acordo com a música que deveria haver escutado em algum lugar antes de aterrissar ali. O Relógio de São Pedro imita um vigia do tempo, mas, está parado, inerte na sua importância e magnífico enquanto ícone do passado glorioso da primeira capital do Brasil. Seus ponteiros dormem, um em cima do outro, sugerindo o acasalamento da sua falta de manutenção que atravessa os anos com a idéia de que meio-dia de domingo é uma boa hora de se fazer amor. O tesão do beijo da conterrânea de Brigitte Bardot segue firme, fazendo mais um adão de todas as evas do Carnaval da Bahia querer mais e mais…

O beijo daquela lourinha sapeca fez o tempo parar. E um silêncio regado a uísque com cerveja tomar conta do boêmio azul turquesa que acabara de misturar línguas em confraternização universal de amor à vida, como aluno da escola da dialética do prazer. “Adeus, francesinha cheirosa, remetendo ao perfume de Paco Rabane e ás flores de Besançon!”, soluçou, baixinho, mergulhando em uma dose de uisque escocês que Buldogue levava enfiado no short.

O couro come de cor e salteado nas barracas de mesas e tamboretes de madeira, onde a turma deixa cair a alegria picárdica de uma geração cheia de charme, astúcia, talento, beleza e picardia. Os metais e couros da “orquestra” atacam sucessos do grande compositor Waltinho Queiroz, fundador do bloco, cidadão que honra a cultura nativa, guardião da música baiana, defensor dos pobres e oprimidos, São Jorge da gandaia honesta.

E uma tristeza, de repente, abraça o folião exausto de tanto sonhar. O Carnaval não deveria ser o mesmo, nos anos que viriam, pensou ele, solitário, próximo ao Mosteiro de São Bento, misturando samba e reza, entendendo que o progresso, inevitável, infelizmente, iria impor modismos, envelhecendo o que se fazia, ali, sem medo de ser assaltado, de ser agredido, na felicidade geral.O Bloco do Jacu, do maioral Waltinho, que foi obrigado a rasgar sua fantasia, assimo como fiz, também, é, apenas, um retrato na parede. A culpa é sua, progresso.

( Gilson Nogueira é jornalista )

fev
05
Posted on 05-02-2010
Filed Under (Artigos, Gilson, Multimídia) by vitor on 05-02-2010


A PONTE

jan
26
Posted on 26-01-2010
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 26-01-2010

Frutos baianos

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CRÕNICA/ SABORES

UM TRAVO NA GARGANTA

Gilson Nogueira

A manga madura despenca do galho e cai no meio da rua, o caju ainda verde é retirado do pé por mãos famintas – e burras-, para ser jogado fora, cajás são alvo de pedradas, o coco verde é arrancado antes do tempo, árvores da Mata Atlântica são desprezadas em quintais esquecidos e derrubadas por ” tratores” assassinos do verde que ficou. Salvador vai, assim, mantendo seu lado campestre ao sabor da sorte, sem que os ditos poderes competentes detenham, como deveriam, a ação do maior de todos os predadores: o homem.

Na paisagem da cidade, a natureza pede socorro. Aqueles e outros frutos descendentes de exemplares nativos das chácaras que existiam, no início do Século XX, nos bairros de Graça e Brotas, por exemplo, sentem, na maciez de sua pele, o toque da estupidez humana. E gritam: “ Cuidem de mim, não me arranquem a vida!!!”

Enquanto isso, em passeios da metrópole, precários tabuleiros de madeira e carrinhos de mão ( de ferro ) oferecem sapotis, umbus, cajás, cajus, bananas, mangas, e outras delícias da flora, sem a mínima condição de higiene. Na poeira da falta de fiscalização, atiram-se os caroços e cascas nos caminhos, sem a devida preocupação com a limpeza urbana e com os pedestres que por eles circulam.

“ Eles que se f…, se escorregarem!” Ouvi, de um desses vendedores de estação das frutas tropicais da Bahia, no centro da capital, a frase amarga., como o caju menino assassinado por um vagabundo. Cabe, portanto, à Prefeitura Municipal tomar urgentes providências visando proteger, de maneira especial, as árvores frutíferas soteropolitanas que ocupam o espaço público da cidade e dar um basta nesse comércio maluco de vendedores de tudo que atrapalha o ir e vir das pessoas. Em nome do faturamento do dia, a afronta a um direito sagrado é o troco que não vale nada.

Há, por isso, um travo na garganta do cidadão que espera ver Salvador ter a cara que sua publicidade pinta, nos jornais, revistas e tevês.

Gilson Nogueira é jornalista

jan
16
Posted on 16-01-2010
Filed Under (Artigos, Gilson) by vitor on 16-01-2010

Lavagem: “emoção coletiva”

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CRÕNICA: BAHIA

BÊBADO DE ALEGRIA

Gilson Nogueira

Uma adolescente rodopia feito bailarina e dá sem querer um beijinho rápido na boca do rapaz que parecia parado aguardando o encontrão. E o beijo. Ambos sorriem e seguem. Uma vendedora de cerveja em lata faz do pequeno isopor barreira para dançar sozinha à frente da multidão. Um garoto ajoelha-se de cansaço e faz a família parar em volta dele para um bate-papo em plena avenida.

A grande procissão do povo baiano em louvor ao Senhor do Bonfim avança. No acostamento da caminhada os braços de uma mulher alcança o pescoço do amigo que não via há anos. E uma latinha a mais é recolhida pelo catador que vibra com a fartura daquele ganha-pão rolando no asfalto. O policial prende um ladrão. E outro ladrão desaparece como um coelho, no mato, depois de afanar a carteira do rapaz do interior.

Em pequeno bloco com corda de nylon azul a coroa dança sozinha, de cara para o sol, e tem seus cinco minutos de rainha de bateria na sua imaginação. Um casal que namora ao som da charanga autenticamente baiana, fantasiada de talento e improviso, sente o tempo parar na colada monumental. E abençoada! Colada quente como a cachaça vendida na barraca da Feira de São Joaquim.

Um cachorro vadio lambe uma poça d’água. O samba e o pagode se confundem no remelexo da cabrocha. Muitos foguetes explodem sem ligação com a fé. Outros simbolizam no seu estouro e na sua fumaça, que risca o ar, lembrando traços de Caribé, o orgulho de ser baiano. O passo não se altera e não há contornos que façam enganar o desejo de chegar aos pés da Basílica do Nosso Senhor do Bonfim para festejar O Santo Maior da Bahia.

A emoção coletiva une as pessoas. O agradecer é maior que o pedir. As lágrimas que rolam na face de cada uma delas por receberem a benção de Nosso Senhor do Bonfim dizem mais que tudo. No bater de folhas no peito a sensação de proteção divina se amplia. Como uma armadura invisível, levo-a para casa. E a farei brilhar, até o ano que vem. Para brilhar, cada vez mais!

A festa de paz, de amor ao próximo, reúne mais de um milhão de amigos! Mais que tudo, vi o dar, o oferecer-se, em contrição, em prece comovente. A alma e os sonhos tornam-se leves. Mais leves. Encosto o corpo na parede de uma casa. Defronte à igreja, sinto-me bêbado de alegria. Um sorriso santo me fez mais feliz. Aquela água derramada sobre a minha cabeça não foi à toa. Agradecido, chorei. Voltei, em silêncio, andando atrás de mim, sem querer ficar de costas para a escadaria enfeitada de promessas e gratidão. Uma sombra do adeus que não dei me acompanha. Quem sabe!

A baiana do acarajé, que não economizou no camarão, disse que meus olhos estavam vermelhos. Sorri. O moço que estava apertado não fez questão de ser o primeiro no sanitário público e o vendedor de fitinhas não quis cobrar pelas duas que escolhi. Uma azul e uma branca, as cores de Oxalá! O toque da batucada me fez lembrar velhos carnavais e um suspiro impediu-me a tristeza. A vida segue.

Multipliquei por dois os oito quilômetros que unem a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia à Basílica do Senhor do Bonfim. A razão? A força da fé; Aquela água santa do pote de barro que a baiana lindíssima despejou na minhalma não secou. Nem secará. Em casa, senti falta das guias do Senhor do Bonfim que havia pendurado nos meus óculos. Não faz mal.Elas devem estar em boas mãos. Meus três pedidos continuam valendo!

Axé!

Gilson Nogueira é jornalista