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Um velho rastafári no novo Maracanã

Janio Ferreira Soares

Numa das rampas improvisadas de acesso ao novo Maracanã, um solitário rastafári desliza seus dedos pelas cordas de um violão plugado numa pequena caixa de som. Apesar da pose de jamaicano da gema, ele não canta nenhuma de Bob Marley, tampouco de Jimmy Cliff. De sua garganta sai um entusiasmado “eu te amo, meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde-amarelo-branco-azul-anil”, talvez para dar um clima retrô à ocasião. Olho para o chão e não vejo nenhum chapéu a implorar moedas. Seu intuito – pelo visto, inútil – é chamar a atenção de algum repórter das TVs que circulam pelo local em busca do inusitado.

O relógio marca 14 horas e poucos minutos, e milhares de pessoas continuam passando em sua frente sem lhe dar a mínima. Explica-se. A maior parte sequer tinha nascido quando Dom e Ravel criaram os versos da canção que virou o hino do Brasil Ame-o ou Deixe-o. Arrepio-me só de lembrar e bato três vezes no tapume de madeira. Vade-retro, Garrastazu!

Por todo o trajeto, voluntários com megafones dão boas-vindas a um público em sua grande maioria usando camisas da Nike e bermudas de grifes, completamente diferente daqueles torcedores que víamos nos jogos das antigas. Cadê o negão banguela que aparecia em close na tela do Canal 100? Cadê o gordinho com o moto-rádio colado no ouvido roendo as unhas? Cadê a charanga marcando um samba atravessado? A Fifa comeu.

Na entrada são distribuídos milhares de minis Joões-bobos. Cheios, eles são quase tão barulhentos quanto à caxirola, com a desvantagem de não ter o mesmo peso para um arremesso certeiro na cabeça de Felipão. Para completar a presepada, um esforçado locutor incentiva uma coreografia ao som de Danúbio Azul, com a plateia fazendo a marcação da famosa valsa batendo um bastonete contra o outro. Fosse eu um discípulo de Chico Xavier, certamente teria visto o plasma de Strauss tentando furar os 65 mil Joãozinhos e seus bobinhos amestrados com o arco do seu violino.

Quanto ao futebol de nossa Seleção, bem, se eu fosse você ia procurar lá no Posto Ipiranga.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Esporte e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do São Francisco

mar
16

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Habemus Jacuipense e Juazeirense

Janio Ferreira Soares

Agora que a Argentina nos deu um zignal e emplacou o Papa, pelo menos um consolo material para os baianos. Trata-se do novo estádio da Fonte Nova que, justiça seja feita, ficou muito bacana.

Só lamento que seu virginal gramado já comece sendo brutalmente violentado por chuteiras bavinianas que não merecem sequer apilar o barro amarelo dos campos das várzeas.

A propósito, com todo respeito aos seus torcedores, é constrangedor assistir na TV a apresentadores cortando o maior dobrado para me convencer de que Jacuipense, Juazeirense e Feirense representam algo além de uma feliz consonância, que pode até servir de inspiração para batizar essas bandas moderninhas que misturam Jackson do Pandeiro com batidas eletrônicas (“Jacuipense Samba Trio”, “Juazeirense Bossa and Roll”…) – ou então nominar alguma instalação politicamente correta desses artistas de vanguarda, cuja obra ninguém entende lhufas (tipo: “Feirense, Jacuipense e Juazeirense sob o olhar inocente de um pequeno afro-nagô santamarense”).

Daí a neguinho querer me persuadir a perder preciosos minutos de um tempo cada vez mais escorregadio assistindo a jogos insignificantes em tristes estádios vazios, aí já é demais.

Mas, como na piada do cachorro que tem o pescoço preso numa armadilha e quando acha que nada pode ficar pior aparece um vira-lata malandro para desmoralizar sua macheza, o que era ruim apenas para uma minoria agora se expandirá. É que depois do fiasco na Copa do Nordeste, Bahia e Vitória finalmente estrearão no campeonato baiano aumentando consideravelmente o público nos estádios e fazendo com que a mediocridade, até então restrita a poucos gatos pingados, agora seja testemunhada por milhares de cúmplices que se acham torcedores.

Em tempo: acho que Simanca ouviu meu papo com um amigo especialista em fumaça antes de fazer sua charge da última quarta-feira. Enquanto a chaminé do Vaticano soltava o negro fumacê, ele me disse: “meu velho, pela carburação, cor e textura acho que só tem cardeal da Jamaica nesse conclave!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Geleia Geral 2013

Janio Ferreira Soares

Fosse hoje, Torquato Neto e Gilberto Gil teriam inúmeras opções para uma nova versão da genial Geleia Geral, que poderia ser assim: “Azeredo desfolha a bandeira e o fagueiro Dirceu se inicia, Rosemary, falante, faceira, no Planalto Central rodopia e no Banco Rural brasileiro o careca Valério anuncia: ê, Lula-yê-yê-yê-boi, mensalão que vem e que foi, ê Lula yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi.

Paulo Preto é a prova dos nove e Sarney é um porto seguro, minha terra é um rodízio de pizzas, e Brasília é onde o trigo é mais puro, cachoeira no delta-selvagem, Maranhão é o país do futuro. (Repete o refrão, com FHC no lugar de Lula e privatização no de mensalão).

É a mesma dança nas salas, nos gabinetes, em Paris, e quem não dança ensaia, Carnaval, Brown e Gil, mais um santo baiano, superpoder de paisano, barba branca, olho anil, metrô que não risca o trilho, Wanda Chase, Psirico, salve Baby do Brasil. Prefeito novato na área, armistício, céu de prata, bobeou vira Judas na praça, Ba x Vi na incompetência e raça, sons que envergonham o Farol da Barra, baiano é um povo massa/ordeiro/cordeiro/feliz.  (Repete o refrão, com Joaquim Barbosa no lugar de FHC).

Plurialva, contente e brejeira, miss Dilma Brasil diz bom dia, e outra moça também, miss Inácia, da janela examina a folia, salve o lindo pendão dos seus olhos, que o olhar de Eduardo Campos irradia. (Repete o refrão, agora com o ministro Fux na guitarra e todos os colegas do STF fantasiados de Caboclos de Lança tocando tambores do baque virado. Edison Lobão, seminu, dança um toré contra raios e apagões, enquanto Gabrielli, Luiz Caetano, Walter Pinheiro e Otto Alencar esperam a hora de entrar na dança com arcos, flechas e pinturas rupestres nos rostos. Pelegrino chora. Aécio assunta. Suplicy blowin’in the wind).

Renan desfolha a bandeira e o Congresso volta a ser colorido, viva Jader, Idelis e Salvattis, Ribamares, bigodes ao vento. Ê Dilma-yê-yê-yê-boi, pibinho que vem, pibão se foi, ê Dilma-yê-yê-yê, coitado do Mantega, meu boi”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco



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CRÔNICA

Zé Dirceu seria canibal?

Janio Ferreira Soares

Apesar da promessa de não mais escrever sobre o tema, é impossível ficar indiferente à saga da eterna seca, que este ano, em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga, deverá se chamar “Óia eu aqui de novo, rachando!”. A pré-estreia aconteceu em Salvador, onde a presidente Dilma – que deveria ter chegado pilotando um caminhão-pipa -, posou ao lado de governadores com feições calculadamente compungidas, como se alguém ali tivesse boi descarnado no pasto. Fossem sinceros, terminariam a farsa cantando o final de Se Eu Quiser Falar Com Deus, de Gil, que profetiza: “… ao findar vai dar em nada, nada, nada, nada, nada…”.

É por isso que Piaba, prima de Baleia (a vira-lata de Vidas Secas), não se cansa de latir em direção aos helicópteros que passam levando autoridades para visitar as obras de transposição do São Francisco. O sonho dela é que esse pessoal desça só um pouquinho e explique ao povo daqui porque, com o rio tão perto, neguinho ainda continua carregando latas d’água na cabeça. No embalo, ela aproveitaria e daria uma boa mordida na batata de algum ministro ou – quem lhe dera! -, no mocotó de um certo alguém de terninho bege. Pega, Piaba, pega!

P.S. 1 – Soube que os ministros do STF, depois que leram em A TARDE que Zé Dirceu comeu um bode na Bahia, estão discutindo se ele, considerado por muitos o bode expiatório do mensalão, pode ter a pena aumentada pela prática de canibalismo. Segundo Joaquim Barbosa, “alguém capaz de comer um igual e ainda lamber os beiços caracteriza um autoflagelo só cometido por frios e calculistas”. Já Levandowski defende que é preciso provar se a carne era realmente de caprino, “pois há muito cordeiro disfarçado de bode coxeio (olhando cinicamente para Barbosa) por aí. Além disso, cadê a prova material? Cadê as marcas dos caninos de Zé na coluna dilacerada do velho pai-de-chiqueiro (novamente fitando Barbosa estirado numa cadeira ergométrica)?”.

P.S. 2 – É uma honra para este caubói estar no meio do tiroteio proporcionado por Kid Risério e Emiliano Bill. O saloon agradece.

Janio Fereira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Vale do São Francisco.


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Michel Teló agora é afro

Janio Ferreira Soares

Depois das reservas de cotas para afrodescendentes nas universidades federais, o governo resolveu lançar editais que servirão exclusivamente para viabilizar produções e criações artísticas de pessoas negras. Sob a alegação de reparar injustiças passadas, o polêmico anúncio deverá ser feito no Dia da Consciência Negra (22/11) pela nova ministra da Cultura, Marta Suplicy, e certamente vai gerar um furdunço danado, sobretudo entre os branquelos que se acharão, também, discriminados. Mas nada que uma boa temporada no sertão do São Francisco não resolva.

Tomemos como exemplo Michel Teló, que recentemente solicitou ao Ministério da Cultura R$ 1,3 milhões para custear um documentário intitulado “Michel Teló no Mundo” e teve o seu pedido negado. Com essa nova lei ele pode muito bem se embrenhar na catinga sob um sol de torrar calango e, depois de virar um neo-negão, reapresentar o seu projeto com o título de: “Michel dos Palmares no Sertão Afro Delícia”.

Mas as coisas ainda estão meio obscuras. Existirá um padrão de tonalidade para o solicitante? Vale moreno claro? Nos casos suspeitos – como o de Teló – poderá haver exames invasivos, tais como olhar as partes mais cavernosas do corpo para saber se as gradações ocultas combinam com o visual externo? E se mostrar fotos dos ancestrais com os olhos arregalados com medo de tomar leite com manga, aumenta a chance? Espero que essas dúvidas sejam logo esclarecidas para que o Brasil possa ser brindado com uma nova safra de artistas da pesada que, na visão do MinC, ainda não apareceram porque estão esperando uma ajuda oficial que os liberte do manto preto que aprisiona sonhos.

Só não entendo porque Pixinguinha, Riachão, Machado de Assis, Gil, Paulinho da Viola, Lázaro Ramos, Moacir Santos, Milton Nascimento e tantos outros descendentes dos chicoteados d’antanho conseguiram mostrar suas genialidades sem nenhuma espécie de cota. Cheguei até a pensar que fora tão somente pelo talento de cada um. Mas, com toda essa onda, estou quase convencido de que foi milagre de São Benedito.

jul
07


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CRÔNICA/FIGURAS

Kertész, ACM Neto, Pelegrino e Messi

Janio Ferreira Soares

Apesar de o sorteio dos jogos da Copa de 2014 só acontecer em dezembro de 2013, é por demais tentador imaginar algo parecido envolvendo a próxima eleição para prefeito da capital baiana. E aí eu fico pensando em como seria se também houvesse algum evento semelhante para anunciar os nomes daqueles que a partir de agora irão prometer, num átimo de tempo, devolver à Cidade da Bahia o velho brilho que até há pouco encantava multidões e que, por conta das peripécias de um alcaide com ar de moço bom – e com a marca da inépcia estampada na testa -, findou-se. Divaguemos, pois.Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

Costa do Sauipe lotada de jornalista e convidados de todo o planeta, shows de axé comendo no centro, capoeiristas de dorsos ebanizados a destilar malícia diante de boquiabertas gringas esperançosas de que a noite vai ser boa e de tudo vai rolar – ao som de mestre Bimba sem parar -, eis que surgem os apresentadores Varela, Bocão e Wanda Chase (cuja missão é dar um toque de intimidade ao ambiente) para anunciar os nomes daqueles que prometem tirar Salvador do limbo. Antes, porém, uma questão de ordem é levantada pelo PSOL, que quer saber se o partido pode usar o mesmo jingle das eleições para governador (o reggae “eu quero Hilton 50”), já que o atual candidato, Hamilton, possui a mesma fonética e, portanto, faz jus a rima. Autorização concedida, Varela dá uma mãozada sobre o púlpito em formato de berimbau e começa a cerimônia.

No telão surgem as fotos de ACM Neto, Mário Kertész, Pelegrino e companhia, causando as mais diversas reações das torcidas, notadamente quando aparece o nome de Kertész, muito aplaudido pela galera húngara, que pensa tratar-se de André Kertész, genial fotógrafo nascido em Budapeste.
Fim das apresentações, a sensação que se tem é a de que falta um Messi, um Neymar, sei lá, alguém que levante a torcida com uma jogada genial. Mas isso pouco importa diante dos primeiros acordes do Asa e da perspectiva de cruzar com Wanda Chase sentada na pérgula da piscina com as pernas dentro d’água, entrevistando Magary Lord e Saulo.

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CRÔNICA

São João com clima de Natal

Janio Ferreira Soares

Embora a Rio + 20 sirva apenas como um belo pretexto para a galera do oba-oba praticar a velha arte de encher linguiça (só que, nesse caso, não pode ser uma linguiça qualquer; ela tem que ser verde, de preferência feita de pele de calango mantido a base de alface, pistache e caldo de cana, criado num cativeiro sustentável iluminado por vaga-lumes reforçados por microchips solares nos rabos, e abastecido por energia da combustão do estrume de jegues alimentados com papelão orgânico), reconheço que algo realmente anda fora de ordem nesse mundão de meu Deus. É tanto que, assim de revestrés, não me recordo de nenhum outro São João com um jeito tão de Natal como o deste ano.

Para você ter uma ideia de como estão às coisas por essas bandas, o clima anda confundindo até os mais experientes sertanejos, como meu tio Lindemar (quase 90 anos, recentemente eleito numa pesquisa informal como o melhor prefeito que Glória (BA) já teve), que outro dia chegou da feira meio ariado pelo sol de quase dezembro a lhe queimar o quengo achando que já era fim de ano, só porque a difusora estava tocando uma velha canção de Roberto. Mas isso é por conta dos delírios climáticos motivados pelos falsos sinais enviados pela atmosfera, que perdeu de vez a outrora condição de calendário alternativo do sertão.

Houve uma época em que bastava contemplar o mundo para saber qual festejo batia à nossa porta. Céu azulado, meio cinzento, acompanhado de um vento norte arrastando folhas secas pelas veredas? Neguinho já podia sonhar trovoada, mulher iniciava à engorda do peru e menino subia no armário atrás dos burrinhos e das lâmpadas coloridas para decorar as lapinhas dos velhos natais. Passarinhos se acasalando? A Semana Santa era questão de dias. Nuvens baixinhas quase triscando as serras? Podia plantar o milho que Antônio, João e Pedro garantiam o forró.

Em todo caso já fiz minha fogueira e, por via das dúvidas, colocarei um sapatinho na janela do quintal. Vai que Papai Noel confunda um balão com uma estrela cadente… Feliz São João.

abr
27


Governadores do Nordeste com Dilma em Sergipe: “ETs?”
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Órfãos da infinita seca

Janio Ferreira Soares

A leitura que se pode fazer da foto de Dilma reunida com os governadores nordestinos para tratar dos problemas da estiagem, é a de que parece que todos são extraterrestres que acabaram de chegar por aqui e (“oh, surpresa!”) encontraram o sertão esturricado, coitado, como se a seca fosse apenas uma turista acidental que, cansada de atravessar o deserto de Saara, deve ter acordado numa quentíssima manhã de sol e dito: “Allah, meu bom Allah, acho que eu vou mudar um pouco de ares. Vou dar um rolê pelo interior do Nordeste, matar uns bois, secar uns açudes e fazer um belo estrago nos pés de milho que o sertanejo plantou no dia de São José achando que iria colhê-los no São João. Volto antes do Carnaval, para não ter que ouvir neguinho lhe pedindo para mandar água pra Ioiô”.

Tudo bem que a estiagem atual é uma das maiores dos últimos anos, mas, desculpe a redundância, ela é exatamente igual àquela que passou e igualmente igual àquela que virá, só mudando seu tempo de permanência. Agora, o que me irrita é vê-la mais uma vez sendo tratada com um misto de admiração e desdém pelos nossos governantes e por apresentadores de telejornais, que adoram se comover e franzir o cenho diante do gado se estrebuchando no chão, mas já no bloco seguinte abrem o maior sorriso para comemorar mais um golaço de Neymar.

Sabe o que comove de verdade? É ver seu Antônio, seu João e seu Zé, ganhando o mundo antes que o impiedoso clarão do dia cruze seus fachos pelos furos das telhas e transforme o chão de seus barracos numa triste rave comandada por calejados DJs e suas enxadas nas costas; é vê-los sempre agradecendo e se benzendo quando voltam e passam diante do calendário com a gravura do Sagrado Coração de Jesus pregado no reboco, ali somente para confortá-los e lhes dar alento, pois os dias nascem e morrem sempre iguais; é sabê-los José, João e Antônio, nomes santos que são, implorando clemência aos céus e recebendo em troca esmolas travestidas de ajuda oficial. Mas o que dói mesmo é vê-los resignados, humildemente dizendo: “amém”.

Janio Ferreira Soares, cronista, e secretario de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco


Janio Ferreira Soares
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E se o disjuntor da usina da Chesf desligar?

CRÔNISTA

O dia em que Wagner tremeu

Janio Ferreira Soares

Cena 01 – Junho de 2014, Arena Fonte Nova lotada para o primeiro jogo da Copa. Na tribuna de honra o governador Jaques Wagner, em plena campanha para eleger seu sucessor, vibra com a festa e com o som dos tambores do Olodum, que reverbera pelas arquibancadas antes de desaparecer pela nesga que revela o Dique e aborta o anel. Do lado direito das cabines a torcida grita “bahêêêa!”, para surpresa dos estrangeiros que pensam tratar-se de um ritual. Acertaram. A resposta vem em forma de vaias, o que faz com que alguns políticos tremam na base, como se dissessem: “pronto, me descobriram”. Mas é apenas a torcida do Vitória dando o troco.

Cena 2 – Final do primeiro tempo, Wagner e comitiva sorriem aliviados. Agora é esperar os 45 minutos finais e comemorar. Os jogadores retornam ao gramado já iluminado por modernos refletores de led, que em contraste com o Sol que se põe por trás do Farol proporcionam imagens aéreas indescritíveis. Mas eis que, quando tudo se encaminha para os tradicionais tapinhas nas costas seguidos de “parabéns, governador!”, apagam-se os refletores e o verde vira breu.

Cena 3 – Enquanto as luzes de emergência são acesas (para alívio de muitos que já tinham colocado suas carteiras no bolso da frente) Wagner e Leonelli disparam telefonemas aflitos, até que o locutor avisa que o problema é numa usina de Paulo Afonso e que os jogos de Recife, Natal e Fortaleza também foram interrompidos. Imediatamente os turistas e jornalistas procuram nos panfletos distribuídos pela Embratur alguma informação sobre essa estratégica cidade que pode parar uma Copa. Espanto. A Bahiatursa sequer a colocou entre os destinos baianos indicados para visitação durante a competição. O bem informado locutor da Globo estranha e comenta que Paulo Afonso, com seus cânions e cachoeiras, é uma das cidades mais bonitas e importantes do País, já que é de lá que sai toda a energia que abastece o Nordeste. Em meio às vaias, alguém liga: “operadores da Chesf? Acho que dessa vez o governo aprendeu a lição. Religuem o disjuntor”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, cidade da margem baiana do Rio São Francisco, mas que a administração estadual quase nem liga, a não ser quando alguma pane desliga as usinas da CHESF


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CRÔNICA/NATAL

Três bilhetes para Papai Noel

Janio Ferreira Soares

“Prezado Noel, antes de tudo quero lhe dizer que eu só comecei a acreditar no senhor depois que outro barbudo (este sim, o meu eterno Papai Noel) me deu de presente mais de 50 milhões de votos e me colocou aqui onde estou. Até então – apesar de sua roupa vermelha e da barba parecida com as de velhos companheiros -, eu o via apenas como uma abstração mantida pelos reacionários para iludir a juventude oprimida. Mas agora, até eu vou me transformar em você para surpreender o fofo do meu netinho Gabriel na noite de Natal. A propósito, espero não receber nenhum telefonema do Gilbertinho contando novas denúncias sobre algum ministro, pois meu saco já está literalmente cheio”.

“Companheiro Noel, lembro que lá em Caités (PE) nem sapato eu tinha pra colocar na janela. Uma vez eu inventei de botar minha japonesa no terreiro e no outro dia só tinha um pé, pois um desgraçado de um vira-lata levou o outro pro meio do mato. Resultado: perdi o chinelo e ainda levei uns petelecos de mãe Lindu no meu pé-de-ouvido. Mas o motivo dessas mal traçadas é para agradecer as recompensas que o senhor me proporcionou. Todavia (gostou da evolução?), ainda quero lhe fazer um baita de um pedido, esse sim, o mais importante da minha vida. Não vou nem dizer o nome pra não dar azar, mas espero que no próximo ano eu esteja barbudo, cabeludo e joiado pra pegar minha galega e fazer uma farra daquelas por aí”.

“Noel, meu rei, sabias que por causa da minha barba branca muitas crianças me confundem com o senhor? Quem dera fosse verdade, pois aí eu pediria a mim mesmo que desse um jeito na Cidade da Bahia, pois a sujeira, a violência e o caos no trânsito tomaram conta das ruas, mangues e Pelourinho, tudo ao som de uma trilha sonora de dar saudade do negão da Baixa do Tubo. Ainda bem que nosso povo é manso e festeiro, prefere ouvir Chiclete à ler Risério e já é quase fevereiro. Aí vem o Carnaval, oclão escuro na cara…O baiano é massa. Axé, Papai!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, lado baiano do vale do Rio São Francisco