Fortaleza:descoberta de uma cidade
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CRÕNICA DE VIAGEM

Ceará: descobertas na chuva

Maria Aparecida Torneros

Pois não é que eu encontrei um Ceará no meio de muita chuva quando cheguei aqui, pela primeira vez na vida, em corpo presente, neste janeiro de 2011?

Vim para passar uma semana, tenho tido dias, de chuva e sol, se revezando, lugares lindos sendo visitados…a bem da verdade, minha a alma já esteve por aqui desde há muito… quando li Iracema, Senhora, a Pata da Gazela, entre outros, minhas paixões afloraram por José de Alencar e suas personagens fascinantes…Ao visitar o teatro José de Alencar, fiz-me cortesã dos anos 800, seu garbo, pompa e glória, a história do nordeste “in locu” revisitada…minha nossa, tenho lembrado muito da Raquel de Queirós, porque trabalhei nos anos 70 na mesma redação que ela, na revista O Cruzeiro, a autora de O Quinze, Memorial de Maria Moura, criatura tão inteligente, de presença tão forte, inesquecível acadêmica das letras brasileiras.

Mas, o Ceará é muito mais. Mostra-se com sede de produção agrícola, muito verde de irrigação e plantação programada, margeando estradas que levam a pontos turísticos, atualmente explorados estratégica e inteligentemente, pelos investidores portugueses, entre tantos. Há uma Fortaleza histórica e uma cidade crescendo verticalmente. Modernidade a olhos vistos, peremeada de resquícios humanos característicos de povo bravo, lutador, tanto faz o jagunço que vem à cidade grande buscar melhores condições de vida, ou o letrado, com seu diploma debaixo do braço a pleitear um lugar ao sol no desenvolvimento.

Este é um estado que deu a volta na secura da terra, que encontrou soluções para seus problemas climáticos, e ainda o faz, com ganas de superar dificuldades, sangrando açudes ao ver o inverno de janeiro chegar com força acima da média, inundando e apresentando uma natureza que reverteu seu movimento, nos últimos tempos.

Tem um sabor de vitoriosa mudança com ares que me adentram as narinas e os olhos, mostrando-me um lugar aprazível, reorganizado, cheirando a novidades, apesar dos problemas normais de cidades e interiores, por cá se objetiva e se vence as agruras dos tempos da terra seca.

Os meninos da colônia de férias do Sesc em Caucaia me passaram uma alegria contagiante, são fruto de nova época, estão antenados, sabem do mundo novo, estão de olho no futuro de um Brasil melhor. Tiramos muitas fotos juntos, pude sentir sua vivacidade com reflexos de orgulho da sua terra natal.

Vim ao Ceará pela primeira vez, ficarei mais alguns dias, entre sol e chuvas, observo seu dia a dia, na capital e adjacências, fazendo passeios a cidades próximas, conhecendo sua gente, trocando gentilezas, comprando com as rendeiras o artesanato magnífico do lugar, bebendo cajuína geladinha, banhando-me em praias de águas mornas.

É tempo de avistar as jangadas dançando no horizonte, de parar para ouvir e dançar o forró e ainda degustar os pargos.

Um cheiro de cardume fresco sopra na brisa que embala a jangada ao longe…fico por aqui e me embriago de superação, admiro a bravura nordestina, dou um viva ao Ceará, rendo-me aos seus encantos, na arte da sua literatura, no esmero das suas rendeiras, no canto dos seus repentistas, descubro um mundo novo e molhado em contraponto a uma história antiga e seca…

No Ceará 2011, tem é muito desenvolvimento, e quando a gente descansa na rede, é para curtir a sombra da construção de um futuro pródigo, exemplar, pedacinho delicioso de um Brasil intenso e extenso, terra com “secura” de melhores dias para sua gente.

Como diz a canção, a vida aqui só é ruim quando não chove no chão…e deixar uma terra assim, mesmo no último pau-de-arara, já é mesmo coisa de um passado causticante, agora, tecnologia e natureza se uniram em prol de um Ceará que está dando nó em pingo dágua…de chuva ou de irrigação, ainda bem!

Aparecida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

A Vila boêmia de Noel e da cronista

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CRÔNICA/UM LUGAR

Noel na minha vida na Vila Isabel…

Maria Aparecida TornerosPiso nas notas musicais desenhadas no chao da Vila Isabel. Em pedrinhas portuguesas, ali estao alguns pedacinhos das canções que Noel Rosa imortalizou, em nosso bairro.

Quando vim morar no Andarai, com meus pais e irmao, tinha 20 anos. Logo, mudamos para a Vila e aqui passamos a morar em casas proximas, a partir dos casamentos e vindas de filhos e netos, costumamos circular pelas ruas onde vivemos, Teodoro da Silva, Maxwell, Artistas, Dona Maria, Souza Franco, e no Boulevard 28 de setembro.

Para quem vive por aqui, ja se tornou habito, dar uma paradinha no Petisco e ouvir historias de Noel.

Passei minha infancia e adolescencia no subúrbio da Leopoldina, precisamente em Ramos, era vizinha do mestre Pixinguinha, morava na rua do bloco Cacique, via e ouvia serenatas, pagodes de quintal, chorinho nos portões das casas, homens nas esquinas tocando violão.

Havia sempre gente cantando num Rio de Janeiro dos anos 50 e 60; cresci metida na “grandeza da gente humilde e fui muitas vezes a igrejinha da Penha, nas suas festas de outubro, subindo ate o alto, de onde avistava uma cidade encantadora, sob o prisma inverso do glamour da zona sul. Por ali, comecei a ouvir o que contavam sobre Noel, passei tambem a escutar sua musica, aprendi a sentir sua alma carioca , especialmente a vida curta e boêmia que levou

A marca do quanto Noel ziguezagueou mesclando-se entre classes sociais, misturando-se sem preconceitos ao seu povo, ele, um estudante de medicina, que se fez amigo dos malandros, que leu e traduziu o espirito gozador que caracterizou as duas decadas da sua passagem na terra.

Seu mundo virou legado e patrimônio para nossa cidade, e alcançou o patamar de brasilidade formada na consciencia cultural de uma capital como o Rio de Janeiro, infestada de fabricas de tecidos, botões, predios publicos, faculdades formadoras de médicos, engenheiros, e vidas paralelas, os botecos, os lugares do baixo meretricio, as noitadas, os amores oficiais e as paixões clandestinas, proibidas ou seus desdobramentos. Festas de São Joaã, festas da igreja da Penha, bailes nas gafieiras do centro, banhos de mar em Copacabana, escapadas da juventude que ele representou. Havia o risco da tuberculose, e ainda pairava nos ares daquele seu tempo, o romantismo quase suicida de viver intensamente as emoções, ainda que o tempo fosse curto, mas de profunda busca da felicidade.

Noel estava constantemente nas histórias suburbanas. Todos os antigos da época sabiam algo sobre ele, cada música sua tinha um enredo tão carioca e tão entranhado no orgulho dos trabalhadores que pegavam o trem de manhazinha.

Nas minhas aulas de escola normal, analisavamos suas letras. Lembro-me que a professora Telenia Terezinha levou semanas trabalhando conosco os versos de algumas das suas criações. Impressionavam-me pelo conteudo e forma, por exemplo: “O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapeu, e também vão sumindo as estrelas lá do céu, tenho passado tão mal, a minha cama e uma folha de jornal, meu cortinado é o vasto ceu de anil e o meu despertador é o guarda-civil, que o salário ainda nao viu”

Como nao se apaixonar por Noel, sua genialidade e seu irreverente viver? Anos mais tarde, trabalhei com um médico que fora seu companheiro de classe na universidade, dr. Paulo Ferreira, que já velhinho, me contava mazelas entre risadas, sobre o rodizio que os colegas faziam para cobrir suas faltas, ajuda-lo nos trabalhos, esconde-lo no fundo das salas, para que ele dormisse nas manhãs em que tentava frequentar a faculdade de medicina, vindo direto da boemia, mas encantando os amigos com seus relatos e poesias musicais.

Talento, arte, encanto, um conjunto privilegiado para um compositor e interprete do seu proprio destino, capaz de nos sensibilizar hoje tanto que ao completar 100 anos de nascimento, e depois de ter vivido somente 26, na verdade, permanece vivo, esta entre nós, e a mim, especialmente, me faz muito bem cantarolar Palpite Infeliz… ” quem e você que nao sabe o que diz, meu Deus do ceu que palpite infeliz, a Vila não quer abafar ninguem, so quer mostrar que faz samba tambem…”

As rodas de samba continuam pela Vila e pela cidade toda, temos uma herança que nos mobiliza especialmente na vida e obra do grande Noel, o sensivel estudante, o apaixonado homem, o gozador e brincalhao letrista que perguntava com que roupa iria ao samba, o sofrido autor do ultimo desejo, o simpatico motorista apaixonado pela operaria da fabrica de tecidos, cujo apito feria seus ouvidos, nas manhas em que ele voltava da farra e observava a jovem que nao lhe dava bola.

Noel fez do seu dia a dia um enredo de canções especiais, imortalizou costumes através das suas poesias, brincou com seus momentos de dor e ultrapassou os sofrimentos humanos nos oferecendo alegria, emoção, a sensação deliciosa de que realmente ser da Vila, com licença, meus senhores, nos confere o status de sermos parceiros do Noel, mesmo um seculo depois…

Cida Torneros, jornalista e escritora, moradora da Vila Isabel, edita no Rio sdew Janeiro o Blog da Mulher Necessária.

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Viva a Vila de Noel, Martinho, Martinália e Cida.

BOA NOITE!!!

(Postado por Vitor Hugo Soares)

Um grande amor, um belo filme

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Amor parece coisa mesmo de novela, romance, cinema… tem muita historia e muita ilusao… na pratica, o perfil amoroso tem sua versao mais comum a interesses de carater financeiro ou sexual, ou ambos, mas nem sempre amor pode ser medido, ou melhor, nao deve ser…uma vez que amor tem um lado irracional, imperfeito, inexplicavel, inquieto, imorrivel ( se podemos usar palavra tao estranha)…amor parece algo que fica, atravessa o tempo, sobrevive ao tempo da morte, sobrevive em sonhos, em lembrancas, em feitos, em paginas, em historias, em contos, em memorias.
Fui ver o filme-documentario Jose e Pilar, sobre o amor entre a jornalista espanhola e o escritor portugues, uma relacao que durou os 20 anos em que conviveram, sendo ela 28 anos mais nova, e tendo ele 63 anos quando a conheceu…conto de fadas? nao, vidas dedicadas ao trabalho, literatura, pesquisa, participacao, viagens, cumplicidade, carinho, respeito mutuo, afinidades, juntaram-se na esquina da vida e construiram um mundo particular capaz de vazar sentimentos para leitores, admiradores, cineastas, e tanta gente que precisa, como eu, redescobrir o misterio que um grande amor possa encerrar dentro de si mesmo, situar nossas expectativas de vida dividida, envelhecimento testemunhado por quem nos ‘e capaz de amar e nos inspira amor em contrapartida…
Nao ha como medir, nao se torna viavel comparar nada, cada um vivera seu proprio amor, dentro das suas chances,sortes, e da coragem de recomecar um dia uma nova vida ao lado de alguem que nao se deixe escapar ou por medo ou por fuga…
Escolhas, sim, amores tambem sao escolhas, sao decisoes, sao tomadas de posicao diante de novas possibilidades… ha que enfrentar o desconhecido, vale mudar de cidade ou pais, vale trocar de rotinas, estudar novas linguas, degustar outras culturas, aprender a andar por novos caminhos, isolar-se em ilhas ou asilar-se em abracos de aconchego e alivio…amor maduro tem o envolocro da seda humanizada, uma paz conquistada e um dia a dia compensador pelas tarefas cumpridas, pelos desejos realizados, pelas conversas longas e esclarecedoras…um casal como Jose e Pilar dao o exemplo do quanto o amor possivel tem lados e mais lados, tem facetas com milhoes de luzes a piscar para as estrelas do universo. Sem Deus, aparentemente, porque a divindade aparece na crenca que Saramago tinha no seu trabalho, na consciencia cidada, na palavra concebida e no afeto correspondido.Pilar tem a funcao de continua-lo. Preside agora a fundacao com seu acervo, segue companheira do homem que ama e amara para sempre.

Cida Torneros , jornalista e escritora, mora no RioJaneiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

Aimirante Carolli: missão de paz

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ARTIGO

SOLDADOS EXEMPLARES

Maria Aparecida Torneros

Em meio a tantas notícias locais de avanços e fracassos na segurança das cidades, com o exemplo das UPPs no Rio, no combate ao tráfico, pelas polícias civis e militares dos estados brasileiros, e infelizmente, pela reação em cadeia que gera instabilidade e tensão quando incendeiam veículos e desafiam as autoridades, uma notícia sobre nossos militares enviados ao exterior, me chamou atenção.

A Força Naval da ONU será comandada, brevemente, por um almirante brasileiro, Luiz Henrique Carolli, sendo assim, a força; que é composta por navios de várias nacionalidades, passará a ser dirigida, por um militar da Marinha do Brasil, na área de conflito entre Israel e Líbano.

Mesmo sem enviar seus próprios navios , o Brasil comandará os militares de 35 países que integram a Unifil, com 9 oficiais, sendo um almirante, quatro oficiais e quatro praças, e mais um capitão de mar e guerra, que comandará a operação naval em curso. Até meados de 2011, serão enviados cerca de 300 fuzileiros navais (primeiro irão 120) como forças de terra, para compor a base da unifil cuja frota fica ancorada em Beirute. Nossos homens substituirão o grupo italiano, que até o momento encontrava-se na região, que conta com o acompanhamento das forças da ONU, desde os conflitos de 2006.

Uma das regiões de maior conflito, esta que terá a presença do Brasil, em missão de paz, cuja reconhecida competência foi um dos motivos que levou o convite, já que o soldado brasileiro é visto como um militar de grande habilidade e excelente preparo para missões de paz, como por exemplo o que acontece no Haiti.

Em entrevista recente, o almirante Luiz Henrique Carolli explicou que a missão que vai comandar é considerada tradicional, e é importante ressaltar que a situação é mais sensível, pois os conflitos entre Líbano e Israel, ensejam pequenos incidentes nas fronteiras, mas no momento, é importante dizer que está sob controle.

A contribuição do Brasil, segundo ele, vem de encontro aos objetivos do programa de defesa nacional, pois nosso país avança em seu papel internacional, e já é apontado como exemplo no que se refere à aceitação pelas partes do conflito. Nossos soldados ganham e ampliam a fama de serem legítimos representantes da paz, da tolerância, da organização e da solidariedade.

Vale conferir a entrevista do almirante Luiz Henrique Carolli, e vale mais, temos que apoiar e nos orgulhar das nossas forças armadas, por seu caráter fundamental na história do Brasil e agora, na conquista e preservação da paz mundial.

Desejamos que a paz a nível nacional, em nossas cidades, também seja uma conquista brasileira, que os nossos cidadãos avancem em direitos e em segurança no seu dia a dia, encerrando, a partir de planejamento, estratégia e boa gestão, o quadro aflito que se delineia com os atentados comandados por marginais, de dentro das prisões, segundo nos informam os noticiários, e que, nossa fama de apaziguadores internacionais, pule para dentro das nossas fronteiras, com decisão e ordem, com progresso e imensa paz.

Aparecida Torneros , jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

nov
19
Posted on 19-11-2010
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 19-11-2010

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CRÔNICA/PARTIDA

Saudades e “solidões” que voam…

( dedicada ao Paulo Faya, parceiro do Guinga)

Aparecida Torneros

Ontem, peguei-me amargurada, depois que, por email, recebi a notícia da morte de um grande amigo, com quem troquei, nos últimos 15 anos, muitas vezes, a sensação de um futuro que teríamos juntos e que nunca aconteceu. Estivemos próximos e distantes, por inúmeros momentos. O tempo se encarregou de nos povoar de uma saudade estranha.

Houve ocasiões em que éramos tão cúmplices das nossas histórias de perdas e desenganos pessoais, que bastava uma conversa de cinco minutos, via telefone, e direcionávamos nossos sentimentos para a construção do grande pilar familiar. Podíamos dividir as preocupações com filhos e com seu neto, por exemplo, com seu futuro. Partilhávamos as dores físicas, as necessidades cirúrgicas, o passar dos anos, minhas dores de coluna, suas dificuldades de locomoção, a tal velhice que iniciava em nós um processo lento de despedida da vida.

Faz alguns meses, aconteceu a última vez em que nos falamos, também por telefone, depois de um ano, talvez, meio perdidos um do outro, senti sua voz embargada do outro lado da linha, perguntei o que acontecia, e ele apenas justificou-se estar emocionado por ouvir-me de novo, após tanto tempo.

Contou-me das mudanças de vida nesse período, falou-me que finalmente estava andando sem as muletas que o perseguiram por causa dos problemas no joelho, fora operado e estava recuperado.

Disse-me que mudara de casa e de bairro, que estava bem feliz, com nova companheira, deixara de morar sozinho, já que era viúvo há muito tempo.

Procurei conter também, por minha parte, a emoção de senti-lo de novo, tão próximo pela voz e tão distante, pelos descaminhos da vida. Mesmo assim, nos prometemos, tirar um dia para sairmos e comemorar, em família, com sua filha e neto, o menino que o orgulhava tanto e que ele não cansava de idolatrar. Prometemos nos encontrar para comermos novamente, juntos, aquele peixinho especial que servem num restaurante localizado nas imediações da minha casa. Este almoço, ficamos nos devendo, então, sei agora, pra sempre.

Quando era possível, ele vinha, depois de atravessar a cidade, da Barra da Tijuca até Vila Isabel, para compartilharmos o sabor dos mares, peixes e camarões, o gosto dos oceanos, a face de alguma saudade que voava sobre nós, de vez em quando.

No fundo, nos recentes meses, comecei a me dar conta dos inúmeros familiares, amigos e amigas que tenho perdido e de como vou acrescendo a lista de saudades destas pessoas em mim e das consequentes solidões que elas me provocam.

O meu amigo se foi, preparo-me para ir assistir a missa em sua homenagem. Lembro-me dele em diversas ocasiões, trabalhando ainda como médico em consultório ou hospital, lembro-me dos nossos almoços, das nossas batalhas políticas, das longas reflexões sobre nossos filhos e das muitas confissões sobre nossas angústias de vida.

Houve ainda, momentos de descontração. Ele cantava algum trecho de canção antiga, no telefone. Ríamos, ele tinha sido compositor-estudante no tempo de universitário. Parceiro do famoso Guinga. Uma composição dos dois intitulada – “sou só solidão”, fora finalista e premiada na primeira eliminatória do inesquecível festival da canção de 1967.

Gostava de me relembrar aquela época de jovem romântico compondo músicas em festivais. Uma vez, fui ao google e o avisei que ele estava lá como compositor de uma canção vencedora em algum desses festivais.

Talvez pudéssemos ter aprofundado o convívio, mas não foi o caso. Tivemos aquele bom viver baseado em admiração, respeito e carinho. Era bom sermos referências mútuas de vidas dedicadas ao trabalho e à família.

Sua admiração pelos filhos, a intensa e dolorosa recordação do filho que perdera, ainda adolescente, o orgulho pelo outro filho fotógrafo de moda, a paixão pela filha advogada, que lhe deu o “netão”, sua felicidade em acompanhar o nascimento e crescimento do menino.

Entre muitas declarações de amizade, pudemos construir uma base para sentirmos imensa saudade, daquelas que voam, que permanecem, além da vida, que flutuam no nosso interior, estejamos em corpo ou em alma, em presença ou ausência, em palavras ou silêncio.

Atualmente, sinto que isto pouco importa, meu amigo está aqui, apesar da sua passagem para o outro lado, ele consegue me trazer a lembrança viva da sua voz embargada, concluo que talvez fosse mesmo o prenúncio da nossa despedida que o tivesse levado às lágrimas, enquanto eu não percebi isso, naquele dia.

O que me deixa amargurada não é o nosso adeus nesta Terra, nem tampouco algum medo de um fim que sei não é eterno, pois creio no encontro espiritual, possível e etéreo.

O que me deixa amargurada, na verdade, tem a interface da proposta de sua velha canção premiada, a idéia da “solidão” como uma premissa infame e constante na vida. Penso que podemos sentir saudades do que nunca aconteceu, do que cultivamos somente em sonhos, do que foi fantasia quando projetamos futuros incertos, das realidades que não alcançamos, e dos desejos que não realizamos.

Penso que estas saudades tão marcantes, refletem o vôo dos pássaros sobre os mares, das gaivotas que buscam os peixes para seu alimento.

Meu amigo e eu, ocasionalmente, baixávamos sobre a linha dágua e engolíamos os tais peixinhos, trocando olhares de satisfação e palavras de esperança, como tento encontrar agora, as mesmas palavras carregadas de emoção e agradecimento por ter podido conhecê-lo e ter dividido com ele tantas boas recordações, e ainda, receber esta herança sem preço… carregar comigo as saudades dele, pairando, voando, sobre meu coração solitário e sobre minha cabeça de “mulher mais inteligente que eu conheço” – era como ele se referia a mim, numa confissão quase infantil, tão sincera e tão inconsistente…

Como eu sempre rebatia…- se eu fosse mesmo tão inteligente assim, teria sabido preencher com mais alegria o coração daquele ser que me legou esta saudade estranha, que agora me invade, dando voltas ao meu redor, alada, voejante, insistente, que me faz chorar e rir ao mesmo tempo, que me confunde entre o sonho e a realidade.

Maria Aparecida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

nov
16

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CRÔNICA

DETALHES

Maria Aparecida Torneros

Como profetizou o Rei Roberto, o tempo pode até transformar todo o amor em quase nada, mas um dia , muitos anos depois, você acorda e não é que lembra dele, por um detalhe, um movimento qualquer do dia-a-dia que faz com que sua lembrança volte, de repente, mesmo que o sentimento tenha se escafedido, o cara reaparece por uma frase que alguém disse, ressuscitado pela magia da memória que devolve o encanto por algum milésimo de segundo. E você se pergunta: onde ficou aquela criatura que me despertou a tal paixão avassaladora daqueles dias da minha mocidade?

Aliás, em tempos de tanto botox, tanta cirurgia plástica, tanta academia, haja “curves”, para conter o avanço da velhice sobre a juventude que se torna objeto de cultivo raro… por seu bom humor e inconsequencia, muito mais do que por sua contaminação de beleza, leveza, soltura de gestos, falta de dores musculares, ou coisa que o valha, pensemos, em contrição e com certa compaixão por nossa caminhada em mundo tão visual, onde parece até que ter peitos e coxas, bundas e faces, etc, etc, conservados em formol, daria a chave para abrir as portas do paraíso…

Como não se curvar diante daquele pequeno detalhe que alguém nos legou para florescer, exatamente, 20, 30, 40 anos depois, como se fora um feitiço virando contra o enfeitiçado? Aí, o som daquela voz antiga volta como num filme, o brilho de certo olhar insistente e pedinte ressurge das cinzas, o desenho de uma boca, de um nariz e até o contorno dos dedos dos pés podem oferecer registro póstumo para um amor que já morreu, uma daqueles transformado em “quase nada”, que, como diz a própria canção , o próprio “quase também é mais um detalhe…

Aí, melhor embarcar na sucessão de “quases”, deixar-se levar pela emoção revivida, anunciar ao velho coração que “tá tudo bem”, que pode se permitir reviver, rememorar, talvez o gosto de um velho beijo, quem sabe o calor de um abraço que virou nada, até a sensação da presença de alguém que a vida já levou para o outro lado, e a gargalhada, seu eco, sua marca, suas piadas, a luz da sua passagem em nossas vidas, pode ser de gente que está viva, nos deu momentos sublimes, e saiu por aí, casando e descasando, como todos nós, buscando pares novos para velhos desejos de sermos felizes…

E estar feliz é exatamente isso, é ter boas recordações, viver intensos encontros, continuar na luta em função de armazenar detalhes tão pequenos que um dia, ora, pode ser hoje e agora, nos tornam pessoas grandes, profundas, maduras, agradecidas por termos lembrancinhas de amores passados, pérolas de brilhos rejuvenescidos, tesouros interiores.

São tantass coisinhas miúdas, patrimônio nosso de cada dia, como o “pão nosso”, como o detalhe nosso, aquele que deixamos marcado em gente que nos ama ou já amou, nos recorda, e até nos reaparece numa manhã de terça-feira, como um presente que o correio deixou de entregar, levou anos na prateleira, e lá vem ele, exatamente no instante em que a gente descobre que estar vivo para reviver, é uma chance única, só nos resta agradecer…

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher necessária

nov
02
Posted on 02-11-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 02-11-2010

ZÉ DIRCEU NA RODA

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Aparecida Torneros

Noite de segunda imprensada no feriadão. Chego do cinema, fui ver a Felicidade Suprema, belo título, mas o filme,apesar de lindas cenas que me trouxeram de volta um Rio de Janeiro romântico e nostálgico, não me entusiasmou. São mais de 22 horas, o telefone toca e é minha mãe, de 84 anos, dizendo para eu assistir o Zé Dirceu, no Roda Viva, que está no ar. Em seguida, ligam mais duas amigas, com o mesmo recado, e lá vou eu, mais uma vez, observar o personagem, o tal que a mídia crucifica nos últimos anos.

Lá está ele, no meio da roda, impávido, bem arrumado, sendo bombardeado, acaloradamente, por um grupo de jornalistas expressivos que parecem organizar as “pegadinhas” do Faustão, e tentam de tudo, para vê-lo escorregar nas cascas de banana que interceptam na sua fala, aliás, atropelam, falam todos ao mesmo tempo, parece uma catarse de grupo, ouve-se bordões, jargões, palavras se repetem, “mensalão”, a importância do PT, a eleição da presidente Dilma ( no dia anterior), o futuro da sua vida pessoal e política, pegam-no no pé, questionam como sobrevive, veladamente, parecem zombar da sua afirmação de que é um consultor, postam-se como se constituissem um tribunal e “quase” julgam-no, ali, aos olhos do povo.

Já cantava o Chico, “tem dias em que a gente se sente, como quem partiu ou morreu, a gente vai contra a corrente, mais eis que chega a roda viva e carrega o destino”.. pra onde? perguntam os questionadores. Para que lado vai o Brasil? O ex-ministro explica suas posições políticas já bastante difundidas com mil versões, fala dos artigos que publica, da sua relação com o presidente Lula, ele conta episódios da sua história quase virando lenda, mas não se furta a sorrir, não se deixa dominar pelo clima intempestivo de alguns dos perguntadores que detonam verbalizações folclorizadas do que vem a ser a construção de um “judas midiático”, que se defende, tanto judicialmente ( ele faz questão de reafirmar o quanto espera sua absolvição no Supremo) e que segue fazendo política, sendo militante do seu partido, sem esconder de todos que isto é lícito, direito este que não lhe tiraram, apesar da cassação para concorrer a qualquer mandato por enquanto.

Os jornalistas se colocam como espectadores, leitores, formam o bloco cuja opinião também sofre as consequencias de uma longa campanha disseminada em cima de notícias veiculadas com frequência, como diz o entrevistado, um verdadeiro julgamento promovido pela tal mídia e uma cassação que ele classifica de política, por motivos que ousa externar em dado instante: talvez para tirá-lo do quadro sucessório, quem sabe?

Fato é que a jornalista Marilia Gabriela, o escritor Augusto Nunes, o representante da revista Época, e outros mais, pareciam querer falar e perguntar tudo ao mesmo tempo, atropelavam-se em palavras, olhares, sorrisos, reclamações, considerações, diante de um Zé Dirceu veemente, concentrado em respostas prontas, fiel a princípios partidários, ideológicos, como um soldado bem treinado, o entrevistado não se deixou levar pelo clima confuso e conduziu sua performance para um ponto de equilíbrio onde foi capaz de oferecer explicações para seu destino de sobrevivente na roda viva da política nacional, permanecendo no centro da discussão, sem mandato, sem cargo político, fenômeno este, que infelizmente, os participantes jornalistas praticamente não abordaram.

Houve até quem questionasse o uso de helicópteros na campanha do seu filho, a Deputado Federal, no Paraná. Havia, por parte dos profissionais uma sede de “pegadinha”, e parecia que nenhum tinha lido os autos do processo ( que na vida do entrevistado é fundamental atualmente) no qual o Zé se empenha em se defender e brada sobre a falta de provas, sobre sua inocência, sobre a possível injustiça de que se diz vítima.

Imaginando que a audiência do programa tenha atingido bons índices, é possível detectar que no ” day after” à eleição da Dilma, uma figura como o Zé Dirceu tem seu papel inegável na história das eleições presidenciais, nas recentes décadas, e desta vez, nem se pode esquecer disso, foi lembrado por um dos jornalistas-perguntadores-julgadores: – Zé, você poderia agora estar sentado na cadeira que a Dilma vai sentar, em que momento isto se perdeu?

Mas eis que chega a Rova Viva e carrega o destino do Zé Dirceu para um programa de televisão. Mais um, talvez um dos mais expressivos onde ele, ao final, fez um balanço sincero, deixou-se contaminar pela certeza de que continua no centro da roda, alvo das atenções, auge da polêmica, diante do respeitoso público.

Maria Aparecida Torneros,  jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

out
31
Posted on 31-10-2010
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 31-10-2010


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CRÔNICA/DO DIA

Pero que las hay, hay

Aparecida Torneros

Uma lenda da Galícia, terra minha avó Carmen e da minha bisavó Manuela, conta que as Meigas (como são chamadas as bruxas por ali), não possuem pelos pubianos, são mestras em aparecer e desaparecer, capazes de ajudar os aflitos, protegem mulheres perdidas e acendem luzes nos caminhos dos peregrinos andarilhos, para que alcancem o fim das suas trilhas, com sucesso.

Mas, é voz corrente que elas são atentas além de boas cobradoras, se andam soltas nos solstícios ou equinócios, em festas que seitas e tradições lhes oferecem, não se descuidam de afazeres cotidianos. Atendem pedidos, esforçam-se para superar as marcas da terrível inquisição, continuam a produzir poções e unguentos, curam feridas físicas e morais, providenciam pares para soldões aparentemente irreversíveis, viajam de avião, modernamente, travestem-se de jovens bem vestidas, algumas vezes estão nos escritórios em pele de executivas ou comandantes de governos, são mulheres modernas, seguem reencarnando em corpos suficientemente capazes de suportar seus dons que continuam surpreendendo os desavisados ou descrentes.

Bruxas, Meigas, Fadas, Feiticeiras, Médius, Sensitivas, quaisquer nomes que assumam, em verdade cumprem missão nos seus povos, através dos tempos, surgem em comunidades ciganas, em aglomerados de periferias, em clubes de bairro, em escolas de governos, em competições olímpicas, em pleitos eleitorais, em salas de aula, em salões de danças, em sets de filmagem, elas se multiplicam, assustadoramente, em olhares hipnotizadores, em perfumes extasiantes, são adeptas do no sense, ou do inebriante instante de prazer , dominam ambientes, param o tempo, proporcionam mudanças de dimensões, passam enganos, deixam que muitos imaginem que estão sonhando, os tiram da realidade, propositadamente.

Hoje, no tal “dia das bruxas”, a la americana, são mostradas como figuras menores, aliadas a abóboras iluminadas, em rituais infantilizados, o que não as incomoda, de modo algum. De tão sábias, em milhões de anos à frente da humanidade aprendiz, elas aproveitam a data e se soltam por aí, nas entrelinhas do tempo, penetram pensamentos cuja guarda se abre, e plantam fé.

Misteriosas, as Meigas influenciam meditações dos que precisam respostas e ainda, de quebra, salpicam dúvidas nos que julgavam detentores de verdades absolutas.

Só brincalhonas, divertidas, mas sabem ser responsáveis nos instantes de dores e dramas, se necessário, fazem dormir e esquecer, acalmam corações aflitos, oferecem chance de aconchego e paz aos que se acham decepcionados ou desesperançados.

Mas, é preciso sintonizá-las, nas noites de lua cheia, por volta da meia-noite, seu zumbido perpassa ouvidos sensíveis, seu perfume inunda narinas delicadas, sua luz ofusca quartos escuros, sua aura desencanta os medos e acende o céu dos insensatos medos, clareando espaços dignos de fantasias impossíveis.

Duma coisa estamos certos, elas estão soltas e devem continuar assim, não as tentem prender, são seres esvoaçantes por natureza, entram e saem das nossas vidas, com o desvelo da liberdade absoluta, não há nada a questionar e nem cadeados a trancar.
Deixem-nas assim, livres como os pássaros, porque Bruxas são criaturas além da nossa compreensão e habitam entre nós em forma de mulheres que todos conhecemos, que identificamos e nos põe interrogações cujas respostas não encontraremos nunca! Se, no meio da madrugada, lhes ouvirmos a gargalhada sonora, ecoando pelo infinito, melhor guardar sua voz como o símbolo do grito do tempo.
Cabe-nos respeitar o delírio do seu riso solto, penetrante, reverberante, aquele riso forte, restaurador e assustador, inquietante e mesmo assim, apaziguador de nossas almas que buscam o elo perdido entre os místicos poderes que sua energia é mestra em administrar. A elas, nosso silêncio e nosso olhar atento, além, claro , de ouvido ansioso por algum cântico que nos revele o paraíso além do universo !

(Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária )

out
09
Posted on 09-10-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 09-10-2010

Palhaço Tiririca

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Lá se vão os anos e a democracia ensina a desentender seus meandros ou a ler nas entrelinhas da sua reação através de um genero de votos, do tipo protesto ou zombeteiro, ou pontualmente fiel ao gosto pelo esporte, pela religião, pelo partido, será só isso?

Muito simplista… tem a preferência pela beleza do candidato ou candidata, tipo que agrada os olhos e o resto nem interessa, vale a ilusão da visão do belo. Tem o gosto pela arte do cara ou da figura que canta, dança, empolga, atua, fala bem, representa, etc.

Vale o encantamento pelo animador de auditório, a apresentadora de televisão, o pastor da igreja do bairro, a líder da torcinda, o chefe da comunidade, o representante da associação, do clube da esquina, do time de futebol, da programação de domingo , quem sabe o costureiro versátil e polêmico como foi Clodovil, talvez o índio antenado como era o Juruna, tem lugar para a galhofa, como o rinoceronte Cacareco de anos passados, no Rio de Janeiro, há espaço para o bom jogador de seleção ganhadora de tetra, ou de penta, etc…

Chegou a vez do palhaço, afinal, ele encanta e faz esquecer dos problemas com suas brincadeiras, nos circos da vida afora, é o inconsciente coletivo expressando sua tese certeira, já que o circo está armado, pão e circo é tudo que o povo parece querer.

Raciocínio lógico, votar em quem nos faz zombar de nós mesmos… Raciocínio ilógico, esperar que ele nos salve de tanta brincadeira de mau gosto que nos assola no festival de besteiras que nos engole a todos, quase sempre.

Bem, cantores, palhaços, animadores, pastores, comandantes de times, jogadores, ídolos de televisão ou rádio, etc. etc. estarão sempre apostos para ocuparem postos assim, eletivos, porque caem nas graças do povo ou de boa parcela dele, ainda que somem teorias de como jogar bem o voto que se vota mal ou melhor, de como se jogar fora o voto que não vale quase nada, à primeira vista. Porque, na verdade, vale milhões em termos de reais, ao fim de quatro anos de mandato, com despesas de salários aos eleitos, seus assessores, suas estruturas parlamentares, seus gastos extras, suas mordomias, tudo isso, evidentemente pago por nós, que precisamos mesmo é usar narizes de palhaços e assumir a brincadeira do espelho, espelho meu….

Dize me espelho se há no mundo palhaço maior que eu!

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

Aparecida Torneros

ago
07
Posted on 07-08-2010
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 07-08-2010

Casa Pueblo: encantamento no Uruguai

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CRÔNICA/LUGARES

Minha primeira vez no Uruguai

Aparecida Torneros

Uma onda de frio polar me recebeu na pacata (aparentemente) cidade de Montevideo. Para uma carioca acostumada ao Rio 40 graus, tem sido um ritual vestir tantas roupas para sair as ruas e conhecer o Uruguai, ou parte dele, jà que eu e minha amiga Katia decidimos ir tambèm a Colönia Sacramento e a Punta del Leste, em datas diferentes, o que nos possibilitou entrar em contato com parte da història do paìs, e com o mundo internacional que domina Punta e seus cassinos.

O domìnio portuguës em Colónia è como um resquìcio de um mundo de muitas lutas. Espanhòis, portugueses, argentinos, uruguaios, brasileiros, todos andaram por estas terras com ganas de fincar suas bandeiras definitivas.

A nossa antiga Provìncia Cisplatina è lugar de muitos campos, muito gado, capital pouco povoada, populacao que enfrenta alem da onda de frio, suas mazelas economico-sociais e tenta seu lugar ao sol, o mesmo sol que ilumina seu emblema nacional, com o complemento das cores azul e branco. Um moderno aeroporto, na capital Montevidèo nos dà sinal de que as coisas estao mudando por aqui, ainda que a passos lentos, mas seguros. Uma explosáo de torres sendo construidas em Punta del Leste nos dão conta do capital investido em lugar de fama mundial, prazeroso balneario do Atlantico Sul.

Apos 5 dias, tento fazer um pequeno balanco e o que me comove, sem pestanejar, è mesmo a visita que fiz à Casa Pueblo, do artista Carlos Paez Villarò. Um encanto me tomou a alma e o coracáo.
Saì de là, com seu livro na máo, o que ele escreveu sobre episodio em que esteve envolvido seu filho Carlito Miguel, nos anos 70, sobre o aviáo que se perdeu nos Andes, do qual o rapaz foi sobrevivente.
A expressao poètica da sua obra-casa, os quadros, as ceramicas, sua semelhanca com mestres como Picasso, Gaudi, Miro, Dali, por exemplo, envolvem os visitantes com a profundidade dos que sabem interpretar o mundo, na beira de um mar insistentemente4 azul, perdidamente plàcido, estonteantemente inspirador.

Acho que para uma primeira vez, degusto as horas que me sobram ( volto ao Brasil no domingo 8) com a sensacao importante de ter vindo ao lugar certo na hora certa, senti-me quase em casa, so nao provei do mate amargo, mas de resto, comi parrilhada, provei seu bom vinho nativo, ouvi sua mùsica, apreciei seus costumes, observei sua gente e me apaixonei por seu artista de punta Balea.

Em tempo, agradeci sua onda polar, mesmo assim, pois pude aquecer com reflexoes o mesmo pensamento que me faz questionar o quanto os paises da Amèrica Latina são berco de povos lutadores, sonhadores, guerreiros, sobreviventes e mesmo assim seguem sendo encantadores, como o pueblo uruguaio…

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária