abr
28


Lula com Dilma: volta a Brasilia na hora da CPI
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ARTIGO DA SEMANA

Relógios suíços de Lula e Dilma

Vitor Hugo Soares

Nestes dias, de geléia geral brasileira, nada poderia ter sido mais expressivo – como ato político e fato jornalístico – que a primeira visita do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, à Brasília, depois do tratamento de câncer na laringe a que se submeteu.
A ambientação, preliminares e repercussões da conversa de

Lula com a sua sucessora “foi o que há”, expressão que uma sobrinha em Salvador (profissional da publicidade arguta e antenada com os signos do poder e do marketing político) costuma utilizar para definir acontecimentos de grande impacto. Ou que são produzidos com esse objetivo.

Tapetes vermelhos (real ou simbolicamente) esparramados no Palácio da Alvorada; sessão especial de cinema, para exibir documentário sobre a posse de Dilma Rousseff; trocas de juras de amor indissoluvel e de fidelidade eterna; risos escancarados, quando em volta tudo (ou quase) gira em ritmo de alta tensão .

“Salamaleques!”, resumiria, provavelmente, se vivo estivesse e observasse essas coisas, o escritor alagoano Graciliano Ramos, sábio no pensamento e sempre econômico nas definições.

Tudo, coincidentemente (ou não?), no primeiro dia de funcionamento, no Congresso, da chamada CPI Mista do Cachoeira. Portanto, um foco a mais para ser bem observado na capital do Brasil, sobressaltada pelos vivos e os esqueletos que se cruzam, ultimamente a cada instante, na inquieta cidade do planalto central.

Denúncias pipocam de todo lado, acompanhadas de “ruídos” e boatos que mais confundem que ajudam a esclarecer sobre “um escândalo que promete abalar Paris”, como se diz em Irecê, no nordeste baiano, assolado, junto com mais de 200 municípios, por mais uma “seca sem precedentes”.

A estiagem – assim como a praga corrupta e corruptora de Cachoeira, que contamina a política, governos, imprensa, empresas públicas e privadas – rola solta há mais três anos na Bahia e em outros tantos municípios da região Nordeste.
Neste ano de eleições para as prefeituras, coincidentemente (ou não?) a seca ganhou dramáticas cores de tragédia de umas semanas para cá, em meio ao alvoroço da CPI no Congresso. Principalmente depois de outro encontro que merecia ser olhado (e analisado) com mais atenção.

Este, ocorrido em Aracaju, nordestina capital sergipana, no começo da semana, entre a presidente Dilma e os governadores da região. Do encontro, além de imagens expressivas no palácio do governo, que lembram pompas de tempos imperiais e de fartura (e não as agruras da seca) resultou o anúncio, com pompa e circunstância, da polêmica “Bolsa Estiagem”, que concederá auxílio de R$ 80, por cinco meses, às famílias residentes nos municípios nordestinos atingidos pela seca”.

“Amaldiçoado quem pensar mal dessas coisas”, diriam os franceses. Mas vale lembrar que Luiz Gonzaga e Zé Dantas já alertavam, em “Vozes da Seca”, sobre o tratamento assistencialista (e eleitoreiro) dispensado, pelo governo, nas estiagens dos anos 50, no século passado: “Seu doutor uma esmola, a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão”.

Mas, antes do ponto final, é preciso retornar ao ponto de partida e crucial das linhas deste artigo: o encontro de Dilma com Lula, no retorno do ex-presidente ao Planalto, onde se multiplicam gestos e sinais de harmonia entre os dois, em meio a um território convulsionado.

“Nosso relógio é suíço. Jamais ele vai ter de atrasar ou adiantar. Nunca temos de acertar os ponteiros”, disse Lula – sem desmentidos ou mesmo um muxoxo de contestação da presidente – em uma das tiradas, bem ao seu estilo, reveladoras de que Lula parece recuperar a velha forma de fazer política e o humor de antes da dolorosa passagem pelo Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

A segunda “tirada de Lula” em Brasília, esta semana, também demonstra a recuperação do velho estilo pernambucano-sindicalista (e petista) de procurar briga. Foi quando ele falou da CPI Mista do Cachoeira, iniciada no dia de seu retorno à capital federal:

“Vocês vão se surpreender com o que essa CPI vai revelar”, disse o ex-ocupante da cadeira de Dilma, sem no entanto esclarecer direito quem ele imagina (ou sabe de fato) serão os surpreendidos. Pelo tom, arrisco, parecia decidido a retomar seus antigos embates com a imprensa e com jornalistas.

A conferir

Vitor Hugo Soares, jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Daniela Mercury na posse de Ayres Brito: anos dourados

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ARTIGO DA SEMANA

STF: Anos Dourados em Brasília

Vitor Hugo Soares

Na fotografia – mal comparando com “Anos Dourados”, a famosa composição de Chico Buarque de Holanda e Tom Jobim feita de encomenda para a série romântica da TV Globo –, dois personagens da Bahia parecem particularmente felizes na solenidade de posse do ministro Carlos Ayres Brito na presidência do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, esta semana: a cantora Daniela Mercury, contente por cantar o Hino Nacional na festa, e Jaques Wagner (PT), governador do estado, cuja alegria surpreende em face do inferno astral que enfrenta estes dias no pedaço do País que ele governa.

Diga-se, a bem de sua excelência o fato: nas fotografias da festa, no Supremo, quase todos demonstram estar felizes, a começar pela presidente Dilma Rousseff. Ressalve-se, evidentemente, a figura macambuzia do ex-presidente do Poder Judiciário, ministro Cezar Peluso. Este, manteve-se o tempo todo com cara e jeito “de quem comeu e não gostou”, como dizem os soteropolitanos, mestres na arte de sorrir no sofrimento.

Peluso tem motivos de sobra para sair do comando da Corte sem se livrar do ar de enfado, azedume e mágoa, que elegeu como sua marca registrada (pelo menos desde a sova jurídica, ética e profissional que tomou da baiana desassombrada, Eliana Calmon, ministra corregedora do CNJ, no episódio do Zorro e o Sargento Garcia). Mau humor piorado ainda mais, seguramente, depois das pauladas que recebeu do vice-presidente empossado do STF, ministro carioca Joaquim Barbosa – aquele que não costuma levar desaforos para casa – em resposta ao jurista paulista que, na despedida inglória, resolveu jogar seu copo cheio de rancor nas vestes de Barbosa, Eliana e Dilma.

O ministro Peluso não poderia ter escolhido adversários mais indigestos. A começar pelo colega do STF, futuro presidente da Corte Suprema, daqui a breves sete meses – ainda mais diante das tempestades que se anunciam com o julgamento dos indiciados no processo do Mensalão, que ele (bom anotar, hein!) prometeu, na entrevista à Veja, levar adiante como questão de honra durante seu curto período de mando). Depois desse curtíssimo prazo, em se tratando de justiça e política no Brasil, o afável, conciliador e romântico jurista e poeta nordestino de Sergipe deixa o posto de comando nas mãos de Joaquim Barbosa.

Cede lugar, portanto, ao aparentemente seguidor dos modelos prescritos pelo escritor Edgar Alan Poe, em narrativas magistralmente terríveis – “O Barril de Almontilado”, por exemplo. Principalmente se a questão for vingança, ou aplicação de lição exemplar e completa – sem possibilidade de troco – quando se é pública e injustamente ofendido. Diante do quadro, não é difícil prever: Cezar Peluso ainda terá muito que beber do fel que produziu em sua passagem melancólica pela presidência do STF, da entrada à despedida. A conferir

Mas comecei estas linhas com o registro da presença da Bahia na posse de Ayres Brito e Joaquim Barbosa. Principalmente o ar de felicidade, nas fotografias congeladas ou imagens em movimento, da Rainha do Axé, Daniela Mercury, e do governador petista Jaques Wagner, na festa do meio da semana em Brasília. A singular e complexa cidade “do Arquiteto”, que aniversaria neste sábado, 21, de convulsionado mês de abril.

Daniela, uma estrela, celebridade do canto brasileiro e famosa, também, além fronteiras, quase sempre tem seus motivos próprios para sorrir e estar contente, mesmo quando a fase artística não é das melhores. Ou, pelo menos, não tão reluzente quanto já foi há bem pouco tempo. Quanto ao governador da Bahia, a história é bastante diferente. Ele próprio reconheceu, esta semana, em Salvador, o demorado período de inferno astral que tem atravessado, desde a greve da Policia Militar. Fato de péssima memória para seu governo e ele próprio, apanhado de surpresa pelo movimento e pela invasão da Assembléia baiana em seguida, quando acompanhava a presidente Dilma em visita a Cuba. O fim do movimento, com a invasão da Assembléia por tropas da Segurança Nacional, Exército e PF à frente, com prisão dos líderes, foi ainda mais desgastante e segue cercado de dúvidas e ressentimentos políticos.

Depois disso, praticamente nada deu certo para Wagner. Somado ao drama da seca, que já dura quase três anos, em algumas regiões do Estado, mas se agravou drasticamente nos últimos meses, Wagner cita o conflito dos fazendeiros do sul baiano com indios Pataxos e, mais recentemente, a paralisação em andamento dos professores que deixa mais de um milhão e meio de estudantes de escolas públicas sem aulas no Estado – e o desgasta mais com a esquerda sindical – entre as principais dificuldades atuais de sua segunda gestão, em ano eleitoral.

Um dia antes de embarcar para “passar o chapéu,” em busca de recursos nos ministérios do governo federal e participar da festa no Supremo, Wagner desabafou em uma solenidade administrativa na Bahia: “Parece que, este ano, o cara lá de cima está querendo me testar”, disse o governador em lamento dirigido a São Pedro, provavelmente!

Como se vê, Wagner não tem motivos para estar feliz (embora assim pareça nas fotografias em Brasília) na posse de Ayres Brito. Salvo talvez pela alegria de estar presente na posse do antigo companheiro nas origens do PT no Nordeste. Mas , a melhor explicação deve estar mesmo na genial canção de Chico e Tom:

“Insanos dezembros, mas na fotografia estamos felizes”.

Vitor Hugo Soares , jornalista. E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

abr
14


Demostenes na Comissao de Etica: mudança de tom

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ARTIGO DA SEMANA

VERDADE OU ENGANO (MAIS UM)?

Vitor Hugo Soares

O mais novo escândalo do Brasil começa a descambar rapidamente e a olhos vistos para as velhas zonas de sombras, confusão e cumplicidades de sempre, em situações do tipo, por estas bandas abaixo da Linha do Equador. Mal comparando, temos no país uma espécie de repetição cabocla do filme italiano “Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, magistral alegoria dos anos 70 sobre investigações policiais, acobertamento e impunidade, quando o crime, corruptos e corruptores se misturam nos plenários e nos gabinetes dos mais altos escalões da política e do poder.

O espanto e a indignação, quase generalizada, dos primeiros dias depois da divulgação, no Jornal Nacional, dos grampos da Polícia Federal que flagram o contraventor Carlinhos Cachoeira em tenebrosas transações com amplo espectro de políticos, negociantes e donos do poder na República – do ex-líder do DEM no Senado e arauto-mor do moralismo da direita nacional, Demóstenes Torres, ao governador da esquerda petista Agnelo Queiroz, encrencado governador do Distrito Federal – muda paulatinamente de tom e cor.

Devagar e sempre, o que deveria se constituir uma questão de interesse público (ver apurado e esclarecido com isenção e devida brevidade os feitos e malfeitos denunciados, para punição exemplar e inflexível de autores e cúmplices em um dos maiores escândalos nacionais na escandalosa história do país), vai-se transformando em desalentador cabo- de -guerra ideológico.

Pior e mais deprimente ainda: este rumoroso caso Cachoeira parece cada vez mais encaminhar-se para uma batalha encarniçada, perniciosa e de resultados ainda imprevisíveis, mas seguramente alheios ao verdadeiro interesse público e ao que de fato espera e cobra a sociedade em casos como este.

De repente, como ficou patente no show deprimente de complacência e “jeitinho brasileiro”, quando da sessão para compor o novo Conselho de Ética do Congresso, na quinta-feira(12), que marcou o reaparecimento público do moralmente devastado Demóstenes Torres. Ele jurou inocência e reivindicou o justo direito de defesa, “no mérito”.

Tudo mais ou menos como de praxe, no filme italiano citado no começo destas linhas, ou nos repetidos escândalos reais por estas bandas. Imagem e semelhança perfeitas, por exemplo, aos acusados políticos e governamentais do antigo e rumoroso escândalo do Mensalão. Este, prestes já a prescrever para efeito de punições judiciais dos culpados, ou absolvição dos inocentes, mas ainda sem data marcada para julgamento, embora o futuro presidente do STF, o jurista e poeta sergipano Carlos Ayres Brito garanta, na entrevista que deu a revista Veja, que o realizará, como questão de honra, nos exíguos sete meses que terá no comando do Supremo.

Verdade, como a sociedade deseja? Mais um sonho de poeta romântico, simplesmente, como alguns proclamam? Ou puro engano? (mais um!), como muitos temem, incluindo o jornalista que assina este artigo. Responda quem souber.

Enquanto isso, o mais constrangedor é verificar como o andamento do caso Cachoeira caminha celeremente para virar uma perversa e devastadora oportunidade de “acerto de contas” político, ideológico e intelectual entre grupos de interesses em litígio, alguns deles, os mais escusos e enviesados possíveis. E a chamada “grande imprensa” e muitos de seus profissionais no meio. “Tudo de bom” e, com certeza, dentro da expectativa de corrupto e corruptores em fuga, a caminho de novo escândalo.

No meio da fumaça que se espalha, resta a esperança da imagem nítida e marcante desta semana, embora praticamente ignorada e descartada como informação relevante pela mídia nacional. O senador gaúcho Pedro Simon (raro exemplar do antigo MDB de Ulysses Guimarães (figura lembrada também por Ayres Brito, na Veja), pregando e dando avisos essenciais, como um Dom Quixote bradando de lança em punho, para um meio cego e desinteressado plenário do Senado brasileiro .

“Disse e repito: não me lembro de uma ocasião em que o Senado Federal esteve tão desgastado, tão no chão, tão humilhado, tão espezinhado pela opinião pública como agora”, alertou. Simon lembrou a Ficha Limpa e a imprensa na época: “Ontem, ela dizia que não ia acontecer nada, que havia um complô, uma movimentação, que o Senado estava tão comprometido que não ia acontecer nada. Aconteceu”. E concluiu com a memoria do escândalo Waldomiro, há sete anos.

“Vim (à época) a esta tribuna e disse: vou sair daqui e vou falar com o governo para ele demitir ainda hoje esse Waldomiro e iniciar o processo contra Cachoeira. Lamentavelmente, Lula não fez isso. Não se movimentou com relação a Cachoeira, não demitiu Waldomiro e as coisas continuaram. Hoje, sete anos depois, o mesmo Cachoeira que iniciou esse escândalo todo, volta. E o então ministro da Justiça de Lula (jurista Márcio Tomas Bastos) é agora e advogado de defesa de Cachoeira”, lamentou o senador gaúcho.

Merece aplausos o senador Simon! O resto, a conferir.

Vitor Hugo Soares, jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Na festa da posse de Gabrielli na Seplan…
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…Dirceu marca presença de astro do PT

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ARTIGO DA SEMANA

Galo paulista em terreiro baiano

Vitor Hugo Soares

A posse do ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, desde ontem novo Secretário de Planejamento do governo de Jaques Wagner, foi organizada por ele e seus aliados, de forma a passar mensagens inequívocas sobre política e poder no melhor estilo baiano. Engana-se, redondamente, quem pensar que alguma coisa foi feita ao acaso – no Centro Administrativo da Bahia – depois do forte temporal que caiu na véspera (8) em Salvador. Ou simplesmente para marcar com pompa e circunstância o início da caminhada do economista da UFBA e um dos fundadores do PT, ao lado de Lula, rumo ao Palácio de Ondina nas eleiçoes de 2014.

Ontem na capital baiana tudo foi pensado, nos mínimos detalhes, para impressionar, principalmente, aos que entendem e sabem decifrar os signos do mando e do marketing. A começar pelo local da solenidade, o auditório da Fundação Luiz Eduardo Magalhães (FLEM), ambiente criado no auge do domínio político de Antonio Carlos Magalhães, para atos e eventos de demonstração de capacidade de planejamento administrativo, força e liderança do Carlismo, preservado quase sem retoques pelo petismo dominante hoje no estado.

Em meio a tão detalhado planejamento, o senão mais lamentado na festa ficou por conta do imponderável. Internado semana passada no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, para cuidar de uma infecção pulmonar, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (que faz tratamento de um câncer de garganta) foi obrigado a cancelar a presença, em Salvador, que estava marcada antecipadamente e “com prioridade” em sua agenda pessoal.

Amigo e principal padrinho e avalista do nome de Gabrielli à sucessão “do galego Wagner”, Lula mandou uma carta de saudação (repleta de elogios pessoais e profissionais ao empossado, com destaques para o Pré-sal, a fundação do PT e a longa convivência do baiano, ao seu lado por dois mandatos) lida com muita emoção na festa petista no auditório da FLEM.

Recinto, diga-se a bem da verdade dos fatos jornalísticos, lotado de pesos-pesados da política, dos negócios empresariais privados, do marketing, do mundo acadêmico e dos mais elevados escalões da administração pública na Bahia e no País, a começar pela nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, substituta de Sérgio Gabrielli na estatal.

Ideia primeira na fase de organização: o evento deveria assinalar, além do prestígio de Gabrielli em sua nova pretensão, o retorno reluzente do ex-presidente Lula (ao lado do afilhado político) aos palcos e palanques das grandes disputas eleitorais. Um ato, portanto, que seguramente alcançaria enorme visibilidade regional e nacional neste ano de previsíveis embates municipais históricos. De São Paulo ao Acre, de Pernambuco ao Pará. Uma prévia fundamental para saber quem tem farinha para vender na feira em 2014.

Isso tudo em um território particularmente agradável e de bons fluidos para o ex-presidente da República (ele próprio tem assinalado este sentimento repetidas vezes na Bahia). Ontem não deu para vir: Lula mandou uma mensagem recebida com muitas palmas e algumas lágrimas. E a festa seguiu. Todo bom político, principalmente em Salvador, sabe que não adianta verberar contra o imponderável. “Toca o carro pra Lapinha”, como manda o grito de guerra dos baianos na Festa do 2 de Julho.

Mas engana-se, outra vez, rotundamente (como dizia Leonel Brizola), quem pensar que, com a ausência de Lula, a festa baiana da posse de Gabrielli, no secretariado do governo petista, ficou sem o brilho de um astro de primeira grandeza no salão.

E nem imaginem que o espaço petista vazio, na ausência de Lula, foi ocupado por Graça Foster, Wagner ou algum dos outros dois ansiosos postulantes que disputam, com Gabrielli, as graças do partido para concorrer como candidato governista à sucessão do “galego”: Walter Pinheiro (líder do governo Dilma no Senado, baleado na asa esta semana, depois da primeira derrota da presidente em votação no Congresso) e o deputado licenciado Rui Costa, novo chefe da Casa Civil do governo estadual (e tido por muitos “companheiros” como candidato “in pectore” do governador).

Na verdade, além do próprio José Sérgio Gabrielli, a grande estrela da festa no Centro Administrativo da Bahia foi o deputado cassado, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Lula e atual poderoso dirigente nacional e articulador político do PT, José Dirceu.

Foram as fotos ao seu lado “e o abraço de Zé” que quase todos disputavam, vivamente, na passagem de Dirceu pelo auditório. Os companheiros históricos e de sempre do PT na Bahia (e não são poucos); os “velhos amigos” do PC do B, a “turma da pesada na esquerda” no tempo das lutas estudantis e da clandestinidade, os neo-petistas, que há pouco tempo balançavam bandeiras do carlismo no estado, e até o “ex-ministro da ditadura” e empresário Angelo Calmon de Sá.

“Amaldiçoado quem pensar mal dessas coisas”, diriam os franceses.

Mas fato é fato, e foi Zé Dirceu quem veio em carne e osso a Salvador – “ele continua um pão”, suspirava uma ex-militante das passeatas baianas, presente ontem na FLEM – para dizer que o nome do partido “e das esquerdas” na Bahia, para a sucessão de Wagner é o do ex-presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. Doa em quem doer.

A conferir.

Vitor Hugo Soares e jornalista – E-mail: vitor-soares1@terra.com.br


Vaclav Havel: adeus  a um estadista

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ARTIGO DA SEMANA

Václav Havel: da Brasilia de FHC a Praga

Vitor Hugo Soares

Guardo duas fortes impressões relacionadas com o ex-presidente da República Checa, Václav Havel – líder político, intelectual, dramaturgo , boêmio e estadista, tudo no superlativo – que morreu domingo passado e foi sepultado nesta sexta-feira (23). A primeira, de quando o líder principal da Revolução de Veludo que transformou seu país esteve em Brasília, no governo de FHC.

A segunda lembrança vem de uma viagem inesquecível a Praga, logo em seguida, quando Václav Havel que já governara a antiga Tchecoslováquia, dirigia então a recém fundada República Checa e a romântica cidade do leste europeu respirava em liberdade plena. Rasgada a cortina soviética, Praga recebia seus visitantes com alegria, beleza, arte, cultura e braços abertos.

Penso nisso enquanto sigo as notícias e vejo as imagens do velório e enterro de Havel ontem . O político e intelectual que parte cercado de honras e admiração de dirigentes democráticos do mundo, mas principalmente do respeito e amor de seu povo. No velório durante a semana e no enterro de sexta, sucessivas e marcantes imagens de emoção diante da perda. Em tudo e em todos no entanto, evidências de sentimento genuínos. Verdade e dignidade – dos políticos e do povo -, bem ao estilo de Havel, um herói da democracia e da liberdade de expressão na Europa.

Que diferença gritante da histeria coletiva que milhões de habitantes do planeta têm visto na Coreia do Norte nestes últimos dias, desde a confirmação da morte do ditador Kim Jong-il. Neste caso, em tudo e em quase todos, toques nítidos de farsa e mistificação ideológicas montados pelo regime e transmitidas através da televisão e outros veículos chapa-branca de comunicação do beligerante país asiático, há década sob o domínio inflexível de um dos governantes mais perversos e violentos da história da humanidade.

Quem quiser que trate da Coreia e seu ridículo ditador morto. Quem julgar relevante que dedique os espaços mais generosos dos “horários nobres” da informação nas nossas redes de televisão e da nossa imprensa à encenação de lá. Isso é parte do jogo e não me surpreende mais.

Neste espaço, porém, prefiro destacar a vida e a história exemplar de Václav Havel, em especial as duas lembranças mais próximas e marcantes que guardo dele. Como esquecer, por exemplo, da estada de Havel em Brasília no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso? Não tanto pelo encontro em si dos dois dirigentes no Palácio do Planalto, do qual pouca ou quase nenhuma memória restou.

O que ficou mesmo foi a recordação da imagem emblemática da estatura política e grandeza intelectual do líder checo, aliada a perfil do homem público de extrema modéstia e simplicidade. Sinais sintetizados na fotografia publicada naquele dia na edição online de grande jornal brasileiro (não lembro se O Globo, a Folha ou Estadão).

Sei que a imagem correu o mundo. Era o flagrante jornalístico do político, escritor, poeta e humanista que, depois do encontro com FHC pediu para parar o carro que o conduzia ao aeroporto na frente de um barzinho popular da zona sul da Capital Federal. Havel queria beber um guaraná, tomar um café e fumar um cigarro antes de retornar ao seu país. O flagrante jornalístico é deste momento do boêmio Havel diante do embasbacado dono do bar.

Pouco tempo depois fiz a minha primeira, única e inesquecível viagem à República Checa. A caminho de Praga, o ônibus procedente de Frankfurt fez uma breve parada em Nuremberg, onde a simpática guia checa Lucila permitiu ao grupo de brasileiros e turistas de outros países, um passeio livre pelo centro da cidade alemã, até a frente do prédio histórico de julgamento dos crimes do nazismo.

“Não vão se perder, hein! Não esqueçam de que o nosso destino é Praga”, lembrava a guia a todo intante.

Não nos perdemos. E antes de Lucila voltar eu já estava com Margarida (minha mulher e também jornalista) dentro do ônibus, conversando em espanhol com o checo e bem informado motorista da excursão sobre a visita recente de Václav Havel ao Brasil.

Falei da minha grande admiração pela obra do intelectual e ação do político condutor da “Revolução de Veludo”. Quando a guia retornou o motorista comentou, apontando para o jornalista: “ele sabe bastante sobre Václav”.

Não esqueço do aceno e do sorriso afetuoso que recebi de Lucila. Nem das histórias que ela contou sobre o revolucionário estadista, até a morte pouco antes do Natal de 2011, deixando mais pobre e mambembe a política europeia e mundial. “Morto Václav Havel, que viva Václav Havel”, como assinalou o “El País” no melhor necrológio que li sobre um estadista, como já não se faz mais hoje em dia.

Vitor Hugo Soares é jornalista.E-MAIL: vitor_soares1@terra.com.br


Wagner e Campos:primeiros movimentos

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ARTIGO DA SEMANA
Egos em chamas no Nordeste

Vitor Hugo Soares

No aeroporto internacional de Salvador fui esperar sábado passado uma querida amiga que retornava de Recife. Como de praxe, passei primeiro na livraria para andar com prazer entre pilhas de jornais, livros e revistas – estas repletas de manchetes e novidades sobre Griselda, Teresa Cristina, o português Guaracy e outros personagens de “Fina Estampa”, a novela da TV Globo , paixão nacional da temporada.

Sou um fã de não perder um capítulo do folhetim escrito pelo pernambucano de Carpina Agnaldo Silva. Na livraria, porém, o que mais me chamou a atenção foi o desenho da capa da revista semanal Carta Capital, assinado por Laura Beatriz, sob a chamada da reportagem principal “O Nordeste avança”, que anuncia:”Após o ciclo dos programas sociais, a região aposta nas grandes obras e nos projetos industriais para crescer acima da média nacional”.

“Nordeste, a segunda onda”. Com indisfarçável orgulho folheio a revista editada no sudeste, às vésperas da divulgação dos dados sobre o crescimento zero do PIB brasileiro no último trimestre. Resultado surpreendente e desastroso que deixou tonto até o ministro Mantega, da Economia, diante do bafo “da crise que vem com força da Europa e dos Estados Unidos”.

O desenho da capa tem o estilo e o apelo típicos das tradicionais capas das publicações da literatura de cordel. Lembra à primeira vista os livretos vendidos nas feiras nordestinas de cidades entre a Bahia e Pernambuco às margens do Rio São Francisco, onde nasci e passei boa parte da juventude.
Uma figura masculina, jovem, com chapéu típico imortalizado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, dá o tom principal da ilustração jornalística. O toque tropicalista sobre o chapéu, no entanto, é que faz toda a diferença: chaminés de fábricas lançando fumaça, automóveis modernos, edifícios em construção, frutas e bebidas em cores que antecipam sabores regionais. “Uma beleza!”, como costuma resumir diante de imagens assim outra amiga sempre otimista, esta de Irecê, no interior baiano.
Ao meu lado, Margarida, minha mulher e também jornalista, logo levanta suspeitas sobre o teor da matéria. “Algum interesse deve haver por trás de tanto otimismo e elogios ”. Vem dela o comentário cético soprado com indisfarçável ironia no ouvido do jornalista ainda deslumbrado enquanto aguarda o troco pela compra da revista semanal, um jornal do dia e algumas publicações com as últimas fofocas de “Fina Estampa”, que ninguém é de ferro.
Não pretendo reproduzir neste espaço o que informa e analisa Carta Capital nas muitas páginas de seu Especial sobre o Nordeste. Quem ainda não o fez e tiver interesse que leia o conteúdo informativo e faça suas próprias avaliações críticas. Peço permissão apenas para destacar a entrevista de Antonio Risério, ao repórter Lucas Callegari .
Na apresentação, o entrevistado é definido como “poeta, antropólogo, tradutor, ensaísta de talento e, mais recentemente, marqueteiro político, com participação ativa em campanhas do PT, inclusive a de Dilma Rousseff”. A edição da conversa leva o título “Autoestima reconquistada”
A revista assinala que Antonio Risério é antes de tudo um baiano, da turma de Gilberto Gil e Caetano Veloso, com a verve sempre a postos para tecer críticas afiadas à política e à cultura. Risério, além disso, demonstra ser um dos últimos e melhores polemistas do país desde a primeira resposta, quando define o Nordeste e o momento vivido pela região Nordeste.
Ele adverte que esta não é uma região homogênea, mas decide falar sobre ela como se fosse um conjunto. E a partir daí afirma que esse conjunto de fato “experimentou notável desenvolvimento social e econômico nos últimos anos, com avanço especial de Pernambuco e do Ceará. E rasga mais fundo com a faca da polêmica : “Pernambuco decolou.Tem um projeto claro e consistente de desenvolvimento sócio-econômico, configurando-se a partir da racionalidade administrativa e do diálogo geral com a sociedade”. Ponto para Eduardo Campos, o governador do PSB exaltado na entrevista.
E a Bahia nesse contexto? “Na verdade, a Bahia, apesar de sua posição no ranking da economia brasileira, está ficando para trás. Há não muito tempo era ela que se industrializava, montava um pólo petroquímico, firmava-se como vanguarda cultural, etc. Pernambuco pouco mais era que um engenho. O panorama mudou. Penso que o problema da Jaques Wagner (governador petista do estado) é que, por não ter um projeto claro para a Bahia, ele não sabe o que fazer com a hegemonia que conquistou. Limita-se a tocar obras federais. É por isso que digo que a Bahia tem a faca e o queijo, mas falta a mão” .
Tem mais pólvora e veneno na conversa, mas acho melhor não riscar o fósforo para não incendiar de vez o circo do poder no Nordeste, lotado de egos flamejantes e que não conseguem ver ou pensar em mais nada alem dos projetos para a sucessão da presidente Dilma em 2014.É só conferir no suplemento especial de Carta Capital, especialmente na entrevista de Risério.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:Vitor_soares1@terra.com.br


Danielle Miterrand: a mulher que abraçou o mundo

ARTIGO DA SEMANA

UMA ROSA PARA DANIELLE

Vitor Hugo Soares

A escritora Simone de Beauvoir abre seu livro referencial sobre o mito feminino, “O Segundo Sexo” (A Experiência Vivida), com uma frase lapidar: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” .

A expressão da pensadora francesa pode servir para muitas outras figuras do gênero, em várias regiões do planeta. No entanto, se encaixa com perfeição máxima no perfil de duas grandes mulheres da França: no da própria autora, que partiu há décadas, e no de Danielle Mitterrand, a militante “gauche” das causas humanitárias – para alguns “das causas perdidas” -, que morreu esta semana em um hospital de Paris, aos 87 anos.

Uma existência exemplar e relevante sob qualquer aspecto. Na política, nas relações humanas, na resistência ou embates sociais. Na generosidade extrema com as pessoas e com os povos de tantos países. Com a América Latina em geral e com o Brasil em particular, onde ela esteve inúmeras vezes (com o marido François Mitterrand ou sozinha na maioria dos casos).

A morte da ex-primeira dama da França durante 15 anos (embora ela não gostasse nem um pouco de ser chamada assim), e principalmente a sua história como polêmica militante e mulher sempre presente e atuante, merecia na despedida mais atenção de defensores e adversários das suas ideias e práticas.

Danielle Mitterrand, ao ganhar outra dimensão como acreditam os espiritualistas, merecia as honrarias do governo da petista, mulher e ex-guerrilheira Dilma Rousseff; os discursos mais vibrantes dos políticos ditos “de esquerda”, “socialistas” ou “progressistas” no poder. Merecia igualmente espaços mais generosos da imprensa brasileira.

Salvo raríssimas exceções, o que se viu esta semana? Uma sonora indiferença diante deste fato que teve expressivo destaque informativo e honras póstumas governamentais e políticas na Europa, na maioria dos países latino-americanos e em outras regiões do resto do mundo. Uma pena de dar vergonha aos que ainda não perderam a memória!

Por dever de justiça vale assinalar nestas linhas escritas na Bahia a imagem quase solitária da deputada Janete Capiberibe (PSB/AP) na tribuna da Câmara dos Deputados, em Brasília. A parlamentar socialista elevou a voz para despertar o sonolento plenário em situações iguais a essa fora de pauta (que não envolvem polpudas verbas públicas ou espúrios “acordos de governabilidade”) para prestar homenagem a Danielle Mitterrand, morta na madrugada de terça-feira, 22.

Em seu nome e do senador João Capiberibe, seu marido, Janete dirigiu emocionada mensagem à Fundação France Libertés, dirigida por Danielle até a morte. “Ela dedicou sua vida à causa dos oprimidos, foi-nos apresentada pelo casal Alain e Francoise Ruellan em 1997 e, a partir daí, tornou-se nossa amiga e amiga do Amapá”, destacou a parlamentar.

Através de sua organização não-governamental ela financiou inúmeros projetos de desenvolvimento na África, na Ásia, na América Latina . No Brasil, dentre outros lugares (como a Bahia), o Amapá, recordou Janete Capiberibe.

Lembro da visita de Danielle a Recife em 1989, na companhia do marido François Mitterrand. Então, Miguel Arraes governava Pernambuco pela segunda vez, depois de retornar de largo exílio. Foi marcante a honrosa, afetuosa e agradecida recepção que o casal recebeu na capital pernambucana. De seus governantes, de seus políticos e de seu povo.

Mais recentemente, Danielle esteve duas vezes na Bahia, em 2008 e no ano passado, respectivamente. Em uma das vezes foi homenageada pela Universidade Federal da Bahia, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa, por sua contribuição através da France Libertés à ciência e às pesquisas no Estado, principalmente na área do cacau. E aplausos de professores e alunos da UFBA por sua luta em defesa da justiça e dos direitos humanos.

Palmas merecidas, bem merecidas de verdade. Nascida em Verdun, em 1924, de pais professores de escola pública, começaria a atuar aos 16 anos na resistência contra a ocupação nazista ao seu país. “Eu tive que sair da minha indiferença para medir a minha capacidade de revolta contra a injustiça, a que sofreram os meninos judeus meus colegas de escola, e a que sofreu meu pai, afastado do magistério por não entregar a lista com seus nomes pedida pelos nazis”, contou Danielle Mitterrand em entrevista ao Le Monde.

Era o começo apenas da longa e aguerrida militância “daquela jovem garota, formosa e com uns olhos de gata admiráveis, fixos além dos limites e acidentes os quais ignoro”, como descreveu um apaixonado François Mitterrand.

O mais este espaço é pequeno para caber. Mas está tudo registrado na história da França, da Ásia, da África, da América Latina, nos inumeráveis relatos sobre a vida desta mulher extraordinária chamada Danielle Mitterrand.

Ou nas imagens poderosamente tocantes do momento em que ela acolhe com altivez e doce generosidade na hora do sepultamento do marido, a filha de Mitterrand fora do casamento, que ela não conhecia e nem sabia da existência.

Agora, na despedida, só resta a exemplo “das flores dos anônimos” depositadas na calçada da residência do casal quando da morte de François, deixar também minha rosa vermelha no tumulo de Danielle Mitterrand.

Que mulher!

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Mariano Rajoy entre simpatizantes na Espanha
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ARTIGO DA SEMANA

Espanha: Direita, volver!

Vitor Hugo Soares

A alternância de poder (sempre e tão almejado objetivo que motiva, mobiliza e dá sentido a todas as verdadeiras democracias do mundo) sopra em rajadas neste fim de semana sobre terras de Espanha, no quase início de inverno europeu de 2011. A imprensa brasileira, mobilizada de uma maneira geral em torno da pacificação da Rocinha, no Rio de Janeiro, ou do xaveco do ministro Carlos Lupi, em Brasília, parece não ter-se dado conta ainda da intensidade da tempestade política e econômica que vem do outro lado do Atlântico.

No continente à beira de um ataque de nervos que ameaça contaminar outras terras e outras regiões do planeta (atenção Dilma Rousseff e PT), milhões de eleitores do país de Dom Quixote (viva Cervantes!) vão às urnas este domingo (20), prometendo surpresas de arrepiar. A começar por uma virada de quase 180 graus da esquerda para a direita.

A vitória esmagadora do conservador do PP, Mariano Rajoy, sobre os socialistas e aliados da esquerda de José Luiz Zapatero, no comando do país há quase uma década (esta é a previsão de praticamente todos os institutos de pesquisas), era algo quase inimaginável há quatro anos, quando andei nas ruas e avenidas monumentais de Madri pela última vez.

Era abril de 2007, começo de primavera na Europa em tempo de apogeu do milagre econômico espanhol. Madri, como a Buenos Aires do tango de Gardel, exibia-se outra vez florescente, bonita e aberta para o mundo. “Uma capital ensolarada, festiva e em obras”, como proclamavam eufóricos seus principais jornais e emissoras de TV.

Otimismo borbotava por todos os poros. Os diários e revistas semanais em geral, mas principalmente as redes de TV, não cansavam de mostrar imagens dos múltiplos e imensos canteiros de obras de uma capital e de um país a quase pleno emprego, paraíso de poderosos grupos financeiros e das grandes empreiteira da construção civil a pleno vapor.

Tudo começava já no monumental aeroporto de Barajas, que acabara de ser ampliado e de passar por ampla reforma modernizadora bilionária em todas as instalações. Ali desembarquei com Margarida (minha mulher e também jornalista) em uma manhã de fim de Semana Santa. Retornava à Espanha depois de viver intensamente dias muito agradáveis em Londres, naquele ano em que também o Reino Unido e sua capital viviam de braços com a felicidade e o bem-estar.

O Reino Unido e sua principal vitrine urbana, política e social, até importavam na época profissionais de nível superior, sem emprego em seus países do leste europeu, para trabalhar na capital britânica. Ambiente bem diferente da cidade tensa e tumultuada por protestos que os noticiários exibem quase diariamente neste tempo de crise braba.

Lembro, por exemplo, do simpático hotelzinho em Notting Hill, onde fiquei hospedado. Parecia uma agradável representação de Praga, a capital da República Tcheca, às margens do Tâmisa. Dos recepcionistas às camareiras, todos falavam o inglês britânico com forte e inconfundível sotaque do Leste desde o tempo da antiga e extinta União Soviética.

No embarque em Heatrow, um primeiro sinal de alerta: os encarregados da Imigração no principal aeroporto londrino, aos berros e caras de poucos amigos, me mandaram abrir o cinturão que segurava as calças, tirar sapatos e meias, e ficar de braços abertos como espantalho em roça de milho no sertão baiano, para a revista em regra. Margarida quase precisou jogar fora o vidro de perfume preferido usado que trazia na bolsa, antes de receber ok para deixar a Inglaterra.

Na chegada à Madri, menos de duas horas de vôo depois, a recepção dos sonhos de qualquer turista em suas viagens. Um aeroporto quase novinho em folha, apinhado de gente, com todas as conquistas da moderna tecnologia funcionando para facilitar e amenizar a vida do cidadão viajante, em lugar de atanazá-lo com suspeitas e burocracia invencíveis. Nem ao menos um cara daqueles renitentes para conferir se a bagagem que você está levando e a sua mesmo.

E estamos na Espanha de 2007, antes da segunda e esmagadora vitória da esquerda nas eleições para o Parlamento, que levaria Zapatero ao comando do poder, onde se manteria por longo período até a crise chegar, corroendo o prestígio desgastado até o final melancólico de uma era que se anuncia para este domingo espanhol.

Ateu baiano que acredita em milagre vibrava com as imagens e o otimismo que borbulhavam em minha volta naquele tempo. Margarida, ao meu lado, mais cética como devem ser os jornalistas, pontuava como uma espécie de permanente e vigilante consciência crítica a soprar nos meus ouvidos: “Isto é muito bonito, mas não me cheira bem. Não sei explicar o motivo, mas algo me diz que alguma coisa está fora da ordem ou de controle por aqui”.

É sobre isso que reflito agora nestas linhas, véspera da eleição que promete virada histórica na Espanha neste final de 2011. Quatro anos depois de passar pela “Espanha socialista”, leio agora em um dos principais diários europeus:

“Mariano Rajoy Brey, 56 anos. Galego da gema, conservador nascido em Santiago de Compostela em 1955 no seio de uma família de políticos, presidente e candidato do Partido Popular, é o favorito nas sondagens e já considerado o futuro primeiro-ministro de Espanha”.

Quem diria? Direita, volver! Mas ainda assim, viva o voto popular e se as previsões se confirmarem nas urnas de amanhã, viva a alternância de poder na Espanha.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Argentinos celebram nas ruas…
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…Condenação do torturador Astiz
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ARTIGO DA SEMANA

A ARGENTINA E NÓS

Vitor Hugo Soares

A presidente da República combina com o PCdoB, Lula e o PT, despacha Orlando Silva do ministério do Esporte, encaixa o deputado Aldo Rebelo no lugar e pronto: bola pra frente, que a Copa do Mundo de 2014 vem aí e nada parece ser mais importante que isso agora, nem mesmo a honra e a credibilidade do País.

Reclame quem quiser, mas diante deste faz-de-conta na base do muda qualquer coisa para deixar tudo como está, mesmo com a “faxina” da presidente Dilma Rousseff, é recomendável não gastar tanta vela nem levar demasiadamente a sério a geleia geral e as arengas de poder destes dias no Planalto Central. Depois da queda do sexto ministro, começam as apostas sobre onde explodirá o novo escândalo federal no Brasil e quem será a bola da vez.

Haja paciência e complacência! A trama, que não se resolve, começa a ficar repetitiva, sem graça, desgastante e a cheirar mal por aqui. Enquanto isso, se acumula o lixo debaixo dos tapetes para abrir espaços às novas denúncias, aos escândalos quentinhos da hora e, finalmente, a exemplo do verificado no Esporte, os novos “acordos da governabilidade”.

“Vida que segue”, escutei tantas vezes o grande João Saldanha repetir na redação do Jornal do Brasil, no Rio, ou na sucursal do JB, na Bahia. Depois lia tudo com enorme prazer em sua coluna de texto primoroso, na qual ele misturava futebol, política e mazelas brasileiras. Tudo embalado com suprema maestria no texto repleto de informações, boas histórias e o toque de coragem e dignidade de um dos maiores jornalistas que conheci e tive a graça de conviver profissionalmente.

Sem um Saldanha por perto para ajudar a iluminar o cenário embaralhado por estas bandas, o melhor talvez seja observar com mais atenção – a exemplo do que tem feito a imprensa mundial nas últimas semanas – os fatos e os ventos que sopram da Cordilheira dos Andes e movimentam as águas do Rio da Prata.

Em Buenos Aires, olhos, ouvidos e lentes da mídia internacional ainda captam fatos e imagens capazes de ilustrar as reportagens e análises sobre a reeleição domingo passado da presidente Cristina Fernández de Kirchner em primeiro turno – depois de aplicar histórica surra eleitoral em seis concorrentes diretos. Além de mais quatro anos de mando na Casa Rosada, a reconquista da maioria que o governo justicialista havia perdido no Congresso. Ou seja: a faca e o queijo na mão.

Como se não bastasse, eis que a Argentina virou palco na madrugada da quarta-feira, 27, de um acontecimento transcendente. Destes com dimensão e força capazes de emocionar e levantar um país. Além de renovar as esperanças de um povo em sua longa e decidida luta por justiça e pela punição exemplar para crimes e criminosos hediondos que imaginavam ficar impunes e sob proteção do estado, de cujo poder ditatorial se utilizaram, insana e covardemente, para delinquir.

O ex-oficial da Armada argentina Alfredo Astiz foi finalmente condenado a prisão perpétua por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura militar no país vizinho, no período entre 1976 e 1983. Este foi um dos maiores processos judiciais de direitos humanos na Argentina, onde as estimativas são de que tenham morrido 30 mil pessoas, vítimas de um dos mais violentos e sanguinários regimes na história do continente latino-americano.

Conhecido como “Anjo Loiro da Morte” (alcunha angariada em razão de seu aspecto físico quase angelical), Astiz foi considerado culpado de tortura, assassínio e sequestros. Entre as suas inúmeras vítimas estavam duas freiras francesas e fundadores do grupo de direitos humanos Mães da Praça de Maio.

Astiz comandava então Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA), um dos maiores e mais terríveis centros de torturas e assassinatos do regime, com corpos atirados ao mar. Esta foi também a primeira vez que 16 elementos deste centro de torturas compareceram perante a justiça. Doze deles, incluindo Astiz, foram
condenados pelo Tribunal Federal.

“Esta é uma decisão que honra a Argentina”, proclamou o chanceler francês Alain Juppé ao saudar a sentença que condenou por delitos de lesa humanidade a 16 dos 18 torturadores julgados na “causa ESMA” – entre eles os assassinos das freiras francesas Alice Domon e Léonie Duquet. Este fato de destaque mundial evidencia o compromisso do país “na luta contra a impunidade e os crimes cometidos pela ditadura militar”, assinalou Juppé.

Para Victoria Donda, filha de desaparecidos, eleita deputada pela Frente Ampla Progressista (FAP), “a sentença de quarta-feira é um triunfo coletivo da Argentina”. O julgamento, e em especial as condenações impostas aos torturadores, trazem “a paz que só a verdadeira justiça pode trazer a uma pessoa e um povo que lutaram por ela”.

Sábias palavras. Salve a Argentina, a sua Justiça e seu povo. Que este notável exemplo de coragem e tenacidade frutifique além das barrancas do Rio Prata e que a brisa de paz e justiça que sopra estes dias na Cordilheira chegue até nós.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Marcha contra a corrupção em Salvador
Foto: Marcia Dourado/Bahia em Pauta
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ARTIGO DA SEMANA

Corrupção: mergulho no tempo

Vitor Hugo Soares

Sobrevivente passageiro militante das agitadas manifestações e passeatas dos anos 60/70, nas ruas de Salvador, senti esta semana a sensação de mergulhar no tempo, dessa quase impossível de descrever na totalidade de suas múltiplas nuances e contradições. O que detonou tudo foi a Marcha Contra Corrupção realizada em dezenas de cidades brasileiras no feriado da Padroeira do Brasil. Uma delas na capital baiana, entre o Morro do Cristo, na Barra, e o palácio residencial do governador da Bahia, no bairro de Ondina.

Membro de uma geração tachada então de “legítimos pequenos burgueses da classe média”, a exemplo da maioria dos companheiros das barricadas universitárias e secundaristas – muitos deles perdidos nas lutas contra o regime militar (cheio de civis) – não dá para escutar calado o que alguns incomodados andam espalhando por aí em relação ao MCC.

Além do ceticismo atávico do jornalista profissional, estas circunstâncias históricas e políticas provavelmente explicam o fato de estranhar e não engolir bem a conversa enviesada dos que tentam colar um rótulo “de direita” nas Marchas Contra a Corrupção em curso no País.

Pelo que vi na Bahia e em outras regiões esta semana, o movimento popular sem partido, nascido e alimentado pela capacidade de mobilização das chamadas redes sociais na Internet , deu a nítida sensação, em números e simbolismos, de ter ganho nova e expressiva musculatura, além de inegável identidade com um sentimento nacional de repulsa aos corruptos e à corrupção.

Principalmente aquela encastelada nos núcleos da política e dos governos (federal, municipais e estaduais), em cumplicidade aberta ou mal disfarçada com corruptores e corruptos da iniciativa privada. A participação ativa da Ordem dos Advogados do Brasil e as bênçãos explícitas da CNBB nas igrejas, seguramente serviram para encorpar as passeatas do dia de Nossa Senhora Aparecida, passando a nítida sensação de que o movimento “vai pegar”.

A desconfiança em relação aos mísseis de controle remoto disparados nos ataques de cunho ideológico contra o MCC me fez levantar cedo na terça-feira, 12 de outubro. Decidi espanar a preguiça no feriado e sair para conferir de perto o pulso, o jeito e as intenções do movimento nas ruas de Salvador.

Repito: acho muito estranho, não engulo e nem entendo bem esta tentativa com jeito de “malandragem de gatuno”, ou tática de defesa prévia de quem parece esconder algum complexo de culpa ou teme ser apanhado em algum malfeito, como definiu recentemente, em artigo certeiro e brilhante, o colunista político Ivan de Carvalho, na Tribuna da Bahia (reproduzido no Blog Bahia em Pauta, que edito em Salvador).

Esses ataques que crescem, em barulho e virulência, na mesma proporção em que as marchas contra a corrupção sinalizam que vieram para ficar – pelo menos por um bom tempo – partem principalmente de poderosas corporações sindicais, de intelectuais da academia ou pendurados em polpudos cargos oficiais, representantes de núcleos de partidos políticos governistas jogados de escanteios pelo MCC.

Além, obviamente, de boa parte da chamada grande imprensa, que mais uma vez parece dançar no ritmo da famosa canção do movimento tropicalista: “Não tenho nada a perder, eu só quero saber do que pode dar certo”. E assim se faz de desentendida, surda e cega diante dos fatos e das boas pautas jornalísticas que gritam na sua calçada. Uma pena!.

Em Salvador, terça-feira, com medo da resistência física precária, de sedentário, baquear no meio do caminho – sob um sol de rachar depois das 14h, quando a marcha saiu da Barra – não me arrisquei na caminhada até o palácio de Jaques Wagner (PT) no alto de Ondina. Após um primeiro olhar desanimador, logo depois do meio dia, sobre um reduzido número de pessoas em torno do paupérrimo carro de som parado a poucos metros da estátua do Cristo, na praia baiana, procurei a sombra e bebida fresca num bar mais próximo, para apreciar a concentração do MCC, acompanhado de Margarida (minha mulher e também jornalista)e um grupo de amigos de diferentes profissões, todos passageiros de antigas utopias, nas asas de grandes passeatas.

E então uma das imagens mais expressivas e emblemáticas do dia. No meio da rua, sozinho, passo resoluto, o engenheiro António Tonhá, uma de minhas melhores e mais generosas referencias na UFBA e no movimento estudantil da Bahia. Ia decidido a caminho da área de concentração e depois seguir a pé até Ondina. Dou um abraço no velho amigo, aplaudo sua coragem e Tonhá vai em frente, deixando a mesa desfalcada da economista, amiga comum e ex-militante do ME, 10 anos mais nova, Marcia Dourado, que resolve acompanhá-lo na marcha que logo somaria mais de mil participantes.

Mais tarde ouviria do jornalista José Valverde (Ex-Tribuna da Bahia, Jornal do Brasil e O Globo), um dos melhores repórteres de Economia que conheci e veterano militante das manifestações de rua, como este que vos escreve: “Esta é a primeira passeata da qual participo quase 40 anos depois. Que sensação! Até os gritos e convocações dos militantes pareciam retornar; “Não fique aí parado, você também é roubado”, relata Valverde.

Voltei para casa com a forte impressão que compartilho aqui: O Movimento Contra a Corrupção, pelo que se viu na mobilização de milhares de pessoas, a maioria jovens da geração iPHONE, em mais de duas dezenas de cidades brasileiras, parece ganhar o jeito e a textura do bolo do antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), na tão singela quanto perfeita definição de seu saudoso presidente e timoneiro, Ulysses Guimarães: “Quanto mais bate, mais cresce”.

A conferir nas próximas marchas.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br