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Postado em 03-06-2022
Arquivado em (Artigos) por vitor em 03-06-2022 17:33
TRBN - Tribuna da Bahia - Ponto de vista: A reiterada crônica de tragédias anunciadas

Joaci Goes

ARTIGO/Ponto de vista
A reiterada crônica de tragédias anunciadas
Já não leio ou acompanho pela TV as reportagens sobre as mortes de pessoas pobres, na periferia das cidades brasileiras, como a tragédia recente que no Recife matou mais de cem pessoas, para saber que elas decorrem de nossa incompetência administrativa, não raro, mesclada com doses variadas de corrupção, estimulada pela garantia da impunidade política e judicial, gerada pela indiferença de um eleitorado majoritariamente incapaz de se indignar porque destituído do mínimo de educação, exigido pela sociedade do conhecimento em que estamos imersos.
Não são necessários sofisticados estudos de engenharia, bastando o inteligente senso comum, disponível em toda parte, para se identificarem os pontos sujeitos a desastres coletivos oriundos das previsíveis, periódicas e altas precipitações pluviométricas, capazes de elevar o nível das águas de rios e provocar alagamentos que destroem casas e corrimentos de terras que soterram tantas vidas, sobretudo, de nossa infeliz população carente. Sempre e sempre, resultando na presença de “otoridades” populistas, lamentando o ocorrido e prometendo a adoção de medidas capazes de evitar novas tragédias! Vana verba, como as “Petrópolis” brasileiras o comprovam.
Nossa incúria coletiva, por ação e omissão, conduz, igualmente, aos fatores que respondem por nossa pobreza crônica, elevados índices de criminalidade, corrupção e impunidade, decorrentes da péssima educação que praticamos, além da falta de acesso a saneamento básico para a maioria, aberrações que se manifestam na Bahia em grau superlativo, levando o nosso Estado a viver o pior momento de sua longa História, com a pior educação do País, os mais elevados índices de violência, a mais alta taxa de desemprego, ao maior contingente de destituídos de saneamento básico, resultando, tudo isso, em baixa longevidade, na menor renda per capita e, consequentemente, no pior IDH de todo o Continente Americano. E ainda há quem ache que a Bahia vai bem, comprovando o acerto da frase de Albert Einstein ao dizer que “tudo é relativo, exceto a estupidez humana”.
A partir do enterro do marxismo como alternativa ao capitalismo inteligente que produz riquezas (a rising tide lifts all boats), o mundo civilizado aponta o papel destinado às instituições para desenhar a nova ação do Estado, visto como uma grande agência reguladora destinada a impedir os excessos de uma competição desenfreada, assegurando aos mais pobres um patamar mínimo de qualidade de vida, assecuratório do exercício de uma cidadania digna, tendo como base a segurança de habitação de qualidade, alimentação, saneamento básico e lazer.
Sede do mais antigo núcleo de poder europeu em todo o Continente Americano, a Bahia possui as mais vetustas instituições do Brasil, a exemplo da Associação Comercial da Bahia, cujos fundadores foram responsáveis para levar D. João VI a “abrir os portos brasileiros às nações amigas”, ensejando o fim do multicentenário Pacto Colonial que obrigava as colônias a só negociarem com suas matrizes europeias.
O episódio é considerado um marco histórico, de caráter planetário, no processo de integração dos povos.
Penso que é mais do que necessário e oportuno que nossa bicentenária ACB, neste ano eleitoral, cobre de cada um dos candidatos a governar a Bahia que se posicione a respeito desses grandes temas, num debate público em sua sede, a mais bela do gênero de que tenho conhecimento, onde a 10 de fevereiro de 1871, o maior de todos os poetas, Castro Alves, declamou pela última vez.
Como fato animador, aumenta o número dos eleitores baianos e brasileiros decididos a não votar em ladrões.
Joaci Góes é escritor, ex-presidente da Academia de Letras da Bahia e atual diretor presidente do Instituto Geogéfico e Histórico da Bahia. Texto publicado originalmente na Tribuna da Bahia, nesta quinta-feira, 3/6.

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