abr
25

DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS (LISBOA)

São historiadores, cientistas políticos, académicos que se têm dedicado ao estudo de um dos acontecimentos mais marcantes (e seguramente o mais celebrado) do século XX português. Nos 48 anos do 25 de Abril, seis olhares sobre o que se sabe da revolução e as zonas de sombra que a historiografia ainda não iluminou.

Todos viveram os dias da Revolução dos Cravos. E acabaram, anos mais tarde, a investigar e a analisar, como diz Adelino Maltez, uma das “mais potentes reinvenções dos nossos nove séculos de História”.

Albérico Afonso, ligado à LCI (Liga Comunista Internacionalista), estava “clandestino, tinha fugido por causa da guerra colonial” e a “planear ir para França”; António Costa Pinto participava numa a reunião do Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa, ligado à União dos Estudantes Comunistas (marxistas-leninistas); Fernando Rosas, que já sabia o que era estar preso por duas vezes, andava “na clandestinidade” pelos arredores de Lisboa em “casas de apoio” do MRPP; Irene Flunser Pimentel, sem saber o que aí vinha, só saiu de casa na manhã do dia 26, direta para o Largo do Chiado, a “levitar”. José Adelino Maltez estava em Coimbra, a “fazer o exame escrito de Medicina Legal na Faculdade de Direito” e ficou “eufórico” quando se tornou claro o que se passava; Silvestre Lacerda, à data com 16 anos, recebeu a notícia por uma fonte bem colocada: o irmão era um dos operacionais que estava na ocupação da RTP.

“O Tempo Histórico e a História do 25 de Abril”, uma organização conjunta DN/JN/TSF com a Câmara Municipal de Setúbal, integrado na iniciativa Venham Mais Vinte Cincos, juntou-os na passada semana para um debate sobre o passado e o futuro. O DN esteve à conversa com os seis, num retrato multifacetado da Revolução, no dia em que passam 48 anos sobre o 25 de Abril.

Albérico Afonso Costa

“A Academia tem tido um certo desprezo em relação ao estudo da dimensão local do 25 de Abril”

Existe mesmo um quase vazio sobre a história do 25 de Abril no poder local, nos 308 concelhos?

É verdade, há um enorme vazio. É uma das áreas em que há um maior déficit  na investigação histórica. Até há pouco tempo, a história local era completamente evacuada da Academia, era, imagine-se, desaconselhada investigação nessas áreas. A Academia tem tido, ao longo destes anos, um certo desprezo, diria, em relação ao estudo da dimensão local.

Cria-se outro vazio, a ausência de conhecimento local do que é ensinado nas escolas?

Em termos das memórias, da memória local que é muito importante, os professores nas escolas, por exemplo, estão muito sozinhos. É preciso que a investigação histórica dê elementos, dê recursos para a história que é ensinada na escola. A única maneira é haver um esforço de investigação, de conhecimento da história local. São pouquíssimos os locais em que há investigação.

Conseguimos perceber o alcance do que estamos a perder?

Muito, muito, estamos a perder muito. Deu há pouco esse número, o dos 308 concelhos. Só essa imagem permite perceber da grandeza do que poderíamos, deveríamos perceber. E até porque muitos dos protagonistas, que estiveram envolvidos no que se passou nesse tempo, estão a desaparecer. Seria importante que as novas gerações de historiadores dessem uma atenção muito especial à investigação da história local.

Setúbal, imagino, até por causa das suas investigações, parece ser uma exceção…

 

Felizmente, em Setúbal há fontes muito diversificadas que permitem a perceção da história.

Há uma multiplicidade de aspetos muitíssimo importantes. Não os consigo resumir nesta conversa, mas desde a manifestação das betoneiras [14 de junho de 1975] em que os homens da construção civil se concentraram aqui à volta da câmara, na Praça do Bocage, como se fossem chaimites…

[a conversa é interrompida. Irene Pimentel está de saída do debate e vem despedir-se. Albérico procura ajuda sobre as sedes da PIDE em Setúbal. Por minutos a conversa entre os dois é sobre essa “procura”. São sempre precisos documentos, “a memória oral, que é muito importante, não é suficiente para um historiador”]

… há um aspeto muito pouco conhecido, por exemplo, a relação entre o poder local, aqui em Setúbal, e a Igreja Católica. Apesar de não ter havido uma questão religiosa como a que aconteceu na I República: este edifício em que estamos ardeu no dia 4 de outubro, arderam conventos, portanto uma questão religiosa muito forte, apesar de não ter havido isso, houve uma conflitualidade muito significativa, nomeadamente quando é instaurada a diocese de Setúbal, em 1975. Há aspetos muito curiosos. D. Manuel Martins, por exemplo, quando veio para cá foi muito contestado, houve manifestações [risos]. A história tem destas ironias, ele acabou por ser o Bispo Vermelho. Há dezenas e dezenas de episódios que estão muito ligados à história nacional. Setúbal foi palco de alguns dos acontecimentos – o 12 de março de 1975, o 7 de março, por exemplo – que tiveram influência na história nacional. Isto para além dos protagonistas como é o caso do Zeca Afonso.

Pelo que percebo, sem a história dos acontecimentos locais, temos uma história do 25 de Abril com demasiadas brechas?

 

Sim, sim, sim… para utilizar uma linguagem militar, dado que o golpe foi militar, há uma história ferida por estilhaços.

No Setúbal, Cidade Vermelha [livro que escreveu sobre os anos de 1974 e 1975] isso percebe-se?

A história é sempre construída pela memória, que tem naturalmente, os afetos e desafetos da altura, e pela documentação recolhida, analisada.

Albérico Afonso é licenciado em História, mestre em História dos Séculos XIX-XX e doutorado em História Cultural e das Mentalidades Contemporâneas. Atualmente é professor coordenador no Instituto Politécnico de Setúbal, investigador integrado no Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL e membro da Network for Studies on Corporatism and the Organized Interests (NETCOR). Nasceu em Portel, a 26 de setembro de 1951, e vive em Setúbal desde 1976.

António Costa Pinto

 

“O 25 de novembro não foi uma tentativa do PCP para tomar o poder, isso não é verdade”

 

Ainda nos falta saber muito sobre o 25 de Abril?

Não, mas é natural que os historiadores do contemporâneo privilegiem e sejam uma espécie de cultores da memória das áreas em que trabalham. No caso do 25 de Abril, há um ponto central: é que a democracia portuguesa, efetivamente, legitima-se no 25 de Abril, ritualiza o 25 de Abril, e, portanto, os portugueses têm uma imagem positiva sobre o 25 de Abril.

Isso tem alguma consequência?

Tem, faz com que exista hoje na sociedade portuguesa, mesmo nas gerações mais novas, uma procura social sobre o que foi a transição portuguesa para a portuguesa.

Uma procura histórica, uma procura sobre a história daqueles tempos?

Histórica, sim. Mas, repare, não é que tomem posição. É conhecimento, saber sobre. Quando nós olhamos para o que é que a sociedade contemporânea portuguesa sabe sobre a sua história, basicamente há três períodos que emergem: os chamados descobrimentos, o salazarismo e Salazar que continua ser uma figura bem conhecida dos portugueses e o 25 de Abril e a transição democrática.

Mas apesar de dizer que já sabemos o essencial histórico, porque mantém dúvidas sobre esse tempo da revolução?

Essas dúvidas que tenho, que em síntese são três, é porque muitas vezes a memória que nós temos sobre o 25 de Abril poderá ser, eventualmente, alterada se nós soubermos mais. E quando digo mais falo de saber mais sobre as condicionantes internacionais do 25 de Abril; o apoio à formação dos partidos democráticos; o papel dos Estados Unidos, por exemplo, até inclusivamente na contenção da extrema-direita durante o processo revolucionário.

E sobre o 25 de novembro…

Se soubermos melhor que, no fundo, esse momento, o 25 de novembro, não foi, ao contrário da memória oficial do centro-direita e até da memória do passado do Partido Socialista, uma tentativa do Partido Comunista Português tomar o poder, mas foi, isso sim, um processo bem mais complexo onde a Esquerda radical teve um papel central e que foi um processo de crise do Estado, se nós soubermos mais, isto, evidentemente, devolve à sociedade portuguesa uma imagem diferente da memória oficial, daquela memória que foi cultivada durante muitos anos.

Onde está a diferença?

O 25 de novembro foi feito, é importante sublinhar, pelas forças democráticas moderadas. O 25 de novembro não representou nem representa uma vitória da direita radical nem uma restauração de memória do que poderíamos chamar de memória mais positiva do salazarismo. O 25 de novembro não foi uma tentativa do PCP para tomar o poder, isso não é verdade.

Apesar das dúvidas, não partilha da ideia de que ainda sabemos pouco?

Não, não partilho. O mundo académico sabe hoje o essencial sobre o 25 de Abril e temos que confessar que a sociedade portuguesa também o sabe graças à ritualização da memória, graças ao facto de todos os anos existirem comemorações, existir material fílmico, existir uma devolução muito significativa à sociedade portuguesa do que foi o 25 de Abril.

É uma perceção sua?

É o que nos dizem os estudos sobre esta matéria, não é a minha opinião. O que é verdade é que para 80% da sociedade portuguesa, o 25 de Abril é histórico, é passado. Quando se vê as ocupações de terras no Alentejo, a dinâmica de saneamentos, a entrada da polícia política para a cadeia, tudo isso é um outro mundo.

Foi em Florença, em 1992, no Instituto Universitário Europeu, que se doutorou. Agregado pelo ISCTE, em 1999, é atualmente investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Professor Convidado no ISCTE, Lisboa. Foi professor convidado na Universidade de Stanford (1993) e Georgetown (2004), e investigador visitante na Universidade de Princeton (1996) e na Universidade da Califórnia- Berkeley (2000 e 2010). Nasceu em Lisboa em 1953.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos