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Postado em 15-04-2022
Arquivado em (Artigos) por vitor em 15-04-2022 01:35
TRBN - Tribuna da Bahia - Ponto de Vista: Caminho de Compostela 2
 ARTIGO – PONTO DE VISTA
                 Caminho de Compostela 3
                 Joaci Góes
Ao querido amigo Luiz Cláudio Guimarães.
Independentemente de suas múltiplas motivações, desde as de natureza espiritual até as turísticas, o Caminho de Compostela constitui oportunidade única para o conhecimento do povo espanhol e da estrutura sócioeconômica desta grande nação.
De 1963, quando visitamos a Espanha pela primeira vez, até o presente, os avanços conquistados pelo seu povo são marcantes, a exemplo do que também ocorreu no vizinho Portugal, alcançando um padrão de vida acima do qual parece-nos excessivo por avançar na prática rotineira de desperdícios que comprometem a higidez dos recursos naturais do Planeta.
Estudiosos concluem que esses recursos naturais suportariam ser estendido à totalidade da população humana o padrão de vida ibérico, mas não suportariam o padrão alemão e menos ainda o norteamericano cujo desperdício evitável corresponderia ao PIB francês, segunda maior economia europeia.
Alguns dados, aligeiradamente recolhidos de superficial reflexão, apontam os povos ibéricos, em geral, e o espanhol, em particular, como modelo paradigmático do mais desejável desempenho econômico social.
Apesar da pequenez relativa do seu PIB, a Espanha é o segundo maior investidor na Economia Brasileira, abaixo, apenas, dos Estados Unidos. A mescla racial, praticada pelos povos ibéricos, a partir da invasão dos mouros no ano de 711, expressa a fisionomia etnica crescente dos povos, consoante o reconhecido prestígio dos portugueses como colonizadores, ao se orientarem pelo tríplice principio de “a espada numa mão, a cruz na outra e o pênis no meio”.
Na Península Ibérica, o excepcional bom gosto apoia-se na simplicidade do essencial, sendo qualquer excesso naturalmente proscrito. Exemplo disso é que não há hotel no mundo que supere, em qualidade, os Paradores de Leon e Santiago, sedes antigas do Poder Real.
No futebol, a mais universal das práticas humanas, os espanhóis, há muito, passaram a dar régua e compasso, através da formação e manutenção de duas das maiores equipes que o Mundo conhece.
No plano da redução das desigualdades, as conquistas ibéricas são igualmente notáveis. Quem percorre o Caminho Francês para Compostela, cruzando os Pirineus, faz um corte transversal da pátria de Miguel de Cervantes, impressionando-se por não deparar com o menor sinal de pobreza, colhendo a impressão, substantivamente verdadeira, de que o piso social do País é formado por uma saudável e operosa classe média, atenta não apenas ao que sucede em sua região como no Planeta.
Como brasileiros, ficamos a nos indagar quando num Brasil dotado de tantos recursos com que a Península Ibérica sequer sonha, nossa grande população, a quinta maior do Globo, passará a conviver com semelhante fortuna. Logo, logo concluimos que todos os nossos males decorrem do mal original de continuarmos surdos ao clamor universal segundo o qual não há possibilidade de avanço dos povos sem que o acesso universal a educação de qualidade deixe de ser uma peça retórica e passe a constituir a primeira e fundamental prioridade nacional.
Diferentemente de 1963, quando era perceptível a diferença de qualidade de vida entre as pessoas e as regiões, a Espanha de hoje dispõe de uma qualidade de vida accessível a todos, de um modo que serve de padrão para se estender a toda a humanidade.
A síntese maior de nossa desvalia política está na atual disputa eleitoral em que as pesquisas revelam que maior do que a preferência por qualquer dos candidatos que polarizam o processo, é o eleitorado que vota contra o candidato que lhe parece o pior dos males.
O resultado mais visível dessa crise crônica, é que enquanto percorre centenas de kms para chegar à Catedral Sagrada, com grande segurança, apesar dos ermos solitários que atravessa, o brasileiro naturalmente lamenta ter que se acautelar ao atravessar de um lado a outro da rua onde mora. O problema é que a História ensina que cada povo tem o governo que merece.
Joaci Góes, escritor, é presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Texto publicado orinalmente na Tribuna da Bahia.

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