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Postado em 28-03-2022
Arquivado em (Artigos) por vitor em 28-03-2022 00:34
 

Direita x esquerda

Por WILSON CID, 

Um desafio ao raciocínio lógico dos analistas políticos é sugerido no curso de ensaios dos acordos com vistas à sucessão presidencial. Há indícios de que, mais que qualquer outra eleição, a de outubro prometeria ser vigoroso embate entre esquerda e direita, previsão que se fortalece nos posicionamentos adotados por Bolsonaro, que não esconde sua origem direitista, e bate de frente com Lula, que absorve a esquerda, ainda que nela muitos preferiram algo melhor de conteúdo político-ideológico. Mas não há outro com suficiente fôlego para o jogo duro que se prenuncia.

Não obstante os sinais da disputa nesse nível, démarches e propostas de alianças negam, ou – pelo menos tentam negar – a previsão dessa medição de forças. Na verdade, acima dos ideais ideológicos, o que se tem conversado nos conciliábulos privados ou à vista da imprensa revela que já não há grande respeito pelas linhas limítrofes que separam direitistas e esquerdistas; nem mesmo nas searas centristas. Em certos episódios, o banimento de princípios ideológicos até se processa sem maiores cerimônias. Um caso para confirmar o salto sobre linhas divisórias está na aproximação do PT com Geraldo Alkimin. O ex-governador paulista, agora socialista, tem uma vida inteira para atestar que sempre passou ao largo do líder petista, que, com apetite, revela ânimo para também avançar em velhos redutos de um PSDB outrora poderoso, e hoje com poucos ares para respirar. Azar das coerências.

Quando se analisa o lado de Bolsonaro, não diferentemente, são vários os sinais de aproximação dele com setores que, em condições diversas, tenderiam para a esquerda. Mas isso, convenhamos, é fenômeno que, independentemente de ideologias, é facilitado, em parte, pelo esvaziamento de partidos fragmentados e programaticamente inconsistentes. Jejunos de conteúdo, têm sido convite permanente aos candidatos para se virarem, cuidar de sua própria sorte e garimpar todos os apoios possíveis, sem olhar para trás e para os lados; ou se as adesões procedem da esquerda ou da direita.

Um quadro assim delineado permite duvidar se a eleição de outubro viria, de fato, estampada com nitidez ideológica. Uma dúvida que é acatada por pensadores que têm na conta de coisa superada essa divisão de direita e esquerda; até porque bem avaliadas, mostram que, em ambas as correntes, há virtudes e defeitos, em proporções muito próximas. A sabedoria recomenda extrair de cada qual apenas os resultados positivos, como pontificava, nas eleições do Rio, nos anos 50, Ernâni do Amaral Peixoto (1904-1989), calejado de pessedismo.

Não é de hoje que se suspeita de a real necessidade de eleição para cargos executivos (contrariamente ao que se admite na escolha de parlamentares) pautar-se basicamente no que pensam e querem os segmentos doutrinários. Talvez seja hora, até com certo atraso, de tomar essa reflexão como ponto de partida para a avaliação do perfil do presidente desejável. O filósofo italiano Norberto Bobbo (1909 – 2004) advertia que direita e esquerda, como antítese, igualam-se no ódio à democracia. Acaba sendo isso mesmo.

Pacto sonhado

Na semana anterior, em passagem discreta por Minas, apenas quebrada pela palestra proferida no Tribunal de Justiça, Michel Temer definiu, como tarefa imediata e principal da agenda do próximo presidente, um plano de pacificação política do país. A seu ver, trata-se de tarefa de envergadura, e, por isso, nem deve excluir as correntes do pensamento. Essa pacificação, ainda sob sua ótica, situa-se na base de todas as tentativas de desenvolvimento, porque não se investe onde há insegurança na política e nas instituições.

O ex-presidente levou aos mineiros uma preleção que não se pode definir como defeituosa. Na verdade, ao lembrar a missão pacificadora, valeu-se da obviedade, e nisso nega espaço para contestações. O que faltou dizer é que o desarmamento dos espíritos, como base para a paz da sociedade, está longe de ser tarefa a se cobrar apenas do novo ocupante da Presidência. Temer já esteve lá e sabe que, em circunstâncias diversas, e por mais que deseje o melhor, seu poder de decisão é sempre insuficiente.

São vários os ingredientes capazes de alimentar tensões ao redor do presidente; e dele, muitas vezes, escapa a capacidade de fazer o necessário para assegurar climas pacificados. Figura entre os fomentadores de conflitos a prolífera organização partidária, que, quanto mais numerosa, mais sedenta, numa fome de poder a provocar constantes divergências. Seria exercício de ingenuidade não querer atribuir a esse apetite uma das razões da guerra que Temer quer extinguir. Há que se considerar, por total cabimento, que também influi para afastar a harmonia política o descuido impatriótico do Congresso em relação à moralidade no trato do dinheiro gerado pelos impostos, tal como se viu na descabida decisão de arrancar alguns bilhões do povo para financiamento das campanhas eleitorais. As trincheiras que fazem a guerra são várias. Ele não pode negar a evidência.

A palestra pacificante do ex-presidente também condenou os atuais candidatos à presidência da República por digladiarem, o que certamente ajuda a criar desassossegos. Também nisso ele está certo. O que seguramente faltou em sua pregação foi abrir espaço aos seus notórios conhecimentos de jurista para convocar os ministros do STF a se conterem na prática de avanços sobre atribuições dos demais poderes. Eles também alimentam intranquilidades. Temer sabe muito bem que é dali que saem arroubos que comprometem a paz na vida brasileira. Aliás, em proporções até maiores que o xingatório dos candidatos. O pacto que Temer propõe, e todos desejam, passa pelas poltronas dos ministros do Supremo. Todos sabemos disso.

Sobre a outra via

Leitor dos comentários desta terça-feira, citando o que se escreve sobre a sucessão presidencial, lembra trecho de um artigo da semana passada que lhe interessou particularmente: “uma via eleitoral divergente de Bolsonaro e do PT só vingaria se pudesse unir e fundir os projetos de Ciro Gomes e Moro. Os dois, somados, esbarrariam nos 15 pontos, e a via alternativa poderia prosperar. Fora dos dois dígitos não é possível sonhar.”

Sem discordar da análise, admite uma “outra possibilidade que está no ar”. Refere-se à União Brasil (fruto da fusão entre DEM e PSL), que tenta atrair Ciro Gomes para unificar uma terceira via. De fato, o presidente do União Brasil, Luciano Bivar, defende que Ciro Gomes seja chamado à mesa de negociações, juntamente com MDB e PSDB.

Não é fácil a construção desse projeto eleitoral, mas não impossível, porque, mesmo que esse conjunto de partidos pretenda se coligar, majoritariamente, para disputar a presidência da República, o passo seguinte seria agregar o Podemos. E com isto forçar a desistência de seu candidato, Sérgio Moro. Na verdade, precisariam os mentores dessa frente ampla convencer de desistência, além do Moro, Simone Tebet (MDB) e Dória (PSDB). Eis o desafio.

Caso o arrojado projeto se concretizasse, igualmente não menos difícil ficaria a arquitetura dos acordos regionais de partidos com compromissos já alinhavados nos estados. Outra interrogação a incomodar refere-se a quem poderia ser o vice na chapa com Ciro Gomes. Alguém que seja capaz, desde a campanha, de saber lidar com o temperamento do pedetista, reconhecidamente mercurial.

Enfim, se todos os obstáculos forem transpostos, o eleitorado ganharia uma opção concreta à polarização indesejável.

 
Pior Congresso?

O mundo parlamente desabou sobre o ex-presidente Lula. Concentrado em um assentamento do MST, em Londrina, garantiu ele que o atual Congresso é o pior de toda a História. Dissesse isso ao Doutor Ulysses, ouviria dele: “Calma rapaz. Este é pior que o de ontem, mas certamente melhor que o de amanhã”. Em tempos idos, Lula já qualificara a Câmara dos Deputados como casa de 300 picaretas; um descuido ou gesto de mea-culpa, porque ele próprio estava lá, membro na bancada do PT.

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