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Míssil de Putin quebra vidraças do Planalto

Foto: Kremlin/PR
Credit…Foto: Kremlin/PR

Por GILBERTO MENEZES CÔRTES

A Petrobras bem que tentou antecipar os reajustes. Adiou, pressionada pelo presidente Jair Bolsonaro, que temia que os estilhaços dos reajustes dos combustíveis atingissem sua campanha à reeleição. O dólar ajudou, com desvalorização de 10% nos últimos 30 dias ante o real. Mas a escalada dos preços do Brent (mais de 21% no mês e mais de 43% no ano) causadas pelos mísseis atirados pelo exército de Vladimir Putin na Ucrânia, não atingiram só hospitais/maternidades em Mariupol. Também espalhou estilhaços pelas refinarias da Petrobras e vidraças do Palácio do Planalto com os reajustes de 24,98% para o diesel vendido nas refinarias, de 18,76 para o litro de gasolina e de 16,06% para os botijões de gás de 13 kgs, vendidos nas refinarias a partir de amanhã.

De pouco adianta a Petrobras ressalvar que os reajustes do diesel e da gasolina, que valem a partir de amanhã, demoraram 57 dias, desde o reajuste anterior, de 18 de janeiro. E que o reajuste do GLP tenha demorado 152 dias (esses dentro do padrão, que é de reajustes trimestrais). Seria o mesmo que Putin tentar negar os bombardeios dos hospitais, escolas e alvos civis na Ucrânia, atribuindo depois a erro de balística.

A questão é que a Petrobras, ao adotar, em 2016, o sistema de paridade de preços internacionais (para balizar os preços de seus derivados à variação do Brent e do câmbio), de modo a dar competitividade a importadores e eventuais concorrentes da Petrobras, deixou o país muito exposto à variação dos preços internacionais, que sobem no inverno do Hemisfério Norte e caem quando a temperatura aumenta. A invasão da Ucrânia pela Rússia, ordenada por Putin, no auge do inverno, deixou os países europeus vulneráveis e dependentes do gás natural da Rússia – moeda de negociação previamente calculada por Putin.

Mas o que o Brasil, que é exportador líquido de petróleo e derivados (a autossuficiência só não é efetiva porque não interessa ao Brasil refinar mais óleo diesel ou extrair GLP, pois as refinarias teriam excedentes de gasolina, nafta e óleo combustível) tinha a ver com isso? Pela PPI. Comercialmente era vantajoso importar o diesel que excede a capacidade de refino da estatal, bem como GLP. Mas essa foi uma má escolha de Sofia, como se verá adiante.

Invasão da Ucrânia afeta o pré-sal?

Mas no meio do caminho veio a invasão da Ucrânia e a disparada dos preços. Há muito a oposição se opunha ao sistema de PPI e propunha a adoção de preços médios (não fazia sentido o Brasil, grande exportador de petróleo, que extrai a custos baixíssimos mais de 70% de seu petróleo dos gigantescos campos do pré-sal) atrelar 100% de sua produção de petróleo e combustíveis aos preços vigentes nos mercados futuros, que se tornaram mais especulativos do que nunca durante a guerra.

O presidente Bolsonaro, cujas opiniões oscilam conforme a biruta das pesquisas apontam o sobe e desce de sua popularidade, pensava em intervir nos preços da Petrobras quando trocou Roberto Castello Branco pelo general Francisco Silva e Luna, saído do comando da Itaipu Binacional, em abril de 2021. De lá para cá, Silva e Luna multiplicou por mais de 10 os seus honorários, com a participação nos lucros da estatal proporcionados pelo PPI. Mas acompanhar os preços internacionais implicou uma escalada de mais de 67% no ano passado e mais de 30% no diesel este ano.

Alta do IPCA deve dobrar até maio

Os impactos inflacionários dos novos reajustes devem dobrar a inflação de março e abril (e elevar o IPCA em 12 meses a mais de 11%). Não vejo necessidade de o Banco Central carregar mais a mão nos juros na reunião do Comitê de Política Monetária, em 16 de março. Preços agrícolas em alta por motivos climáticos não são combatidos com juros para “conter” a inflação. O que resolve é estimular novos plantios e esperar as novas safras (rápidas no caso das hortaliças e legumes), mais demoradas nas lavouras de ciclo anual. No caso das lavouras de soja e milho, pode ocorrer nova revolta dos caminhoneiros, como em 2018.

O mesmo ocorre num choque externo como o do petróleo. Antes do reajuste, o mercado previa alta dos atuais 10,75% para 11,75% na Selic. Não vejo o que uma alta de 1,25 ponto percentual ou 1,50 p.p. ajudaria no combate à inflação. Só afundaria mais a economia (que foi mal em janeiro, na indústria e no desempenho do mercado de trabalho, com criação de 155.178 vagas líquidas em janeiro, uma queda de quase 100 mil vagas frente a janeiro de 2021, depois da perda de 281,8 mil vagas em dezembro (concentradas no comércio e atividades de serviços, como é sazonal, após o pico do Natal, motivo das contratações em outubro e novembro).

Acionistas X consumidores

Bolsonaro pode ficar desesperado com o impacto nas próximas pesquisas eleitorais. Mas se não tivesse adotado um sistema mais realista de preços para o mercado interno de combustíveis (levando em conta os baixos custos de extração de petróleo e produção de combustíveis da Petrobras, sua cota majoritária na oferta do mercado nacional e a participação residual dos combustíveis importados no mix do consumo do mercado interno), talvez não estivesse em maus lençóis.

Mas ao atender ao excesso de liberalismo de seus ministros da Economia e do Banco Central, ele fez uma opção preferencial: dar mais lucro aos acionistas da Petrobras (União à frente, como controladora de mais de 50% do capital votante e investidores nacionais e estrangeiros) e menos atenção ao povo brasileiro (chegou a dizer a Erdogan, da Turquia, que “a Petrobras era um problema”, quando podia ser uma solução. Agora está diante de um baita problema.

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