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DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS (PORTUGAL)

Por uma vez, democratas e republicanos estão unidos na condenação da invasão da Ucrânia. No entanto, discordam no essencial: terá Joe Biden pulso para liderar o Ocidente?

Putin é o agressor”, declarou o presidente norte-americano, Joe Biden, num discurso musculado onde anunciou as mais duras sanções algumas vez impostas à Rússia, pela invasão da Ucrânia. “Putin escolheu esta guerra. E agora, ele e o seu país vão sofrer as consequências.”

O tom do líder dos Estados Unidos foi ecoado pela condenação generalizada de Vladimir Putin à esquerda e à direita, com um raro sinal de união entre democratas e republicanos perante uma invasão não provocada. Mas embora a simpatia do ex-presidente Donald Trump por Moscovo não tenha atraído muitos apoiantes no seu partido, os republicanos apressaram-se a acusar Joe Biden de ser demasiado fraco e, com isso, ter aberto caminho para a agressão de Putin. O líder minoritário do Senado, Mitch McConnell, disse que Putin foi encorajado pela retirada desastrosa do Afeganistão no verão passado. Um comunicado da liderança republicana da Câmara dos Representantes defendeu que a “conversa dura” de Biden sobre a Rússia “nunca foi seguida de ações fortes.” Ao contrário do louvor vindo das hostes democratas, que elogiaram a rápida ação de Biden para unir os aliados contra a Rússia, os republicanos consideram que o presidente perdeu o controlo da situação internacional.

“Os republicanos vão tentar mostrar que este presidente é fraco na política externa e não toma as decisões difíceis”, disse ao DN a cientista política Daniela Melo, professora na Universidade de Boston. “De certa maneira, reafirma os medos do eleitorado trumpista de que este presidente não tem a capacidade de decisão necessária para fazer frente aos desafios de uma Rússia que se quer impor de novo e de uma China que está em crescimento”, afirmou.

Considerando que este é o grande teste da presidência de Joe Biden na arena internacional, a especialista notou que a estratégia implementada foi incisiva e teve resultados imediatos. “Esta é a grande oportunidade de Biden de fazer aquilo que prometeu, que era reviver a aliança transatlântica”, afirmou Daniela Melo. “Biden escolheu partilhar a informação dos serviços secretos com os europeus, alinhar estratégias e persuadi-los da necessidade das sanções e de trabalharem em conjunto”, descreveu. “Isso claramente deu frutos, porque as reações viram-se de imediato.”

A concertação transatlântica, que levou a um acordo para expulsar certos bancos russos do sistema internacional de comunicações bancárias SWIFT, reflete o trabalho feito pelos americanos desde que descobriram os planos russos, em outubro de 2021.

“Biden usou o seu púlpito de uma maneira muito estratégica e que funcionou, porque até certo ponto conseguiu prejudicar a capacidade de Putin de lançar uma campanha de desinformação”, explicou a académica. “Nunca nenhum outro presidente usou informação dos serviços secretos desta maneira”, disse, considerando que foi “um uso inovador da inteligência.”

Para o politólogo Everett Vieira III, docente na Universidade Estadual da Califórnia, Fresno, esta opção de Joe Biden revelou-se acertada. “Penso que transparência total é útil”, disse ao DN. “É bom para o público americano e internacional, ao verem a invasão russa da Ucrânia sem qualquer provocação, compreenderem o que está em causa.”

O especialista referiu também que a divulgação serviu para contrariar os críticos que dizem que Biden não sabe o que está a fazer e não está na posse de todas as suas faculdades mentais. “Do ponto de vista doméstico, é importante mostrar que isto está a acontecer e que não fomos apanhados de surpresa”, indicou.

Sendo cedo para perceber qual a perceção dos cidadãos perante a ação do presidente, em ano de eleições intercalares, Biden tem tentado explicar que o conflito terá repercussões globais e vai afetar a carteira dos americanos. “Achei muito interessante no discurso de Biden que ele tenha falado diretamente para o povo americano sobre os preços na bomba de combustível”, disse Vieira III. “Ele reconhece que quem está na liderança vai ser responsabilizado por isto nas intercalares.”

Uma guerra inevitável?

“A pergunta que tenho visto mais debatida é se Biden podia ter travado a guerra”, disse Daniela Melo. “A minha resposta é não, ele não podia ter travado a guerra. Putin, claramente, não era persuasível.”

A cientista política referiu a determinação patente nos discursos do líder russo e o facto de a decisão de invadir ter sido tomada no verão de 2021, de acordo com os serviços secretos. Nem a ameaça de sanções e a revelação pública dos planos nem os esforços diplomáticos surtiram efeito, e a professora afasta a ideia de que se Donald Trump estivesse no poder teria sido diferente. “A minha opinião é que, independentemente do presidente, isto teria acontecido. A diplomacia só funciona se ambos os lados quiserem realmente chegar a um acordo.”

 

Vieira III também chamou a atenção para os discursos do líder russo, que podem indiciar ambições mais alargadas que a Ucrânia. “Olhemos para a história e para o passado da União Soviética. Putin tem estado a dizer-nos o que pretende.”

Embora Biden tenha garantido que não enviará militares norte-americanos para lutar na defesa da Ucrânia, enviou reforços para países vizinhos que são membros da NATO. Essa é a linha vermelha, por causa do Artigo 5 do tratado: o ataque a um é um ataque a todos.

“O dilema é o que se segue”, disse Everett Vieira III. “É uma rampa deslizante. Se a Rússia toma controlo da Ucrânia e ganha maior acesso ao Mar Negro, se a Roménia estiver a seguir, talvez a Polónia mais a norte, não sei o que acontece”, continuou. “O próximo passo é a III Guerra Mundial? É muito assustador.”

O politólogo referiu ainda que o que está a acontecer na Ucrânia poderá ser um diagrama para ditadores em várias partes do mundo. “Imagino que Xi Jinping esteja sentado em Pequim a assistir a isto. Vai ver como o Ocidente responde a esta invasão territorial de grande escala não provocada”, indicou. “Se apenas sancionarem bancos e indivíduos e a Ucrânia for anexada, talvez a China pense se é o momento de atacar e tomar controlo de Taiwan.”

O contexto é complexo, porque sem enviar tropas, as sanções económicas são a única coisa que está ao alcance do Ocidente. “Muitos países estão preocupados com esta agressão porque é uma violação da soberania e faz colocar a questão: o que é que impediria a China, a Rússia ou outro estado de os invadirem a eles?”, frisou o especialista.

 

E não é só a leste. “Quem vai parar os Janjaweed no Sudão do Sul, quem vai parar os rebeldes em Mogadíscio ou no Iémen? Ou os massacres na Etiópia? Ninguém vai fazer nada. Tem um efeito de cascata para o resto do mundo.”

Por outro lado, disse Daniela Melo, se a guerra descambar para fora da Ucrânia, a Rússia pode perder o apoio tácito de Xi Jinping. “Esta guerra tem potencial para desestabilizar a ordem mundial”, afirmou a professora. “Mas pode ser de uma maneira que a China não ache nada ideal”, porque pode desequilibrar a interdependência económica que lhe tem permitido crescer.

“Na China, trocam democracia por qualidade de vida. Na Rússia, neste momento, não há nem uma coisa nem outra.”

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