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Postado em 27-02-2022
Arquivado em (Artigos) por vitor em 27-02-2022 00:20

 

DO PORTAL UOL/FOLHA

Público no mundo de cultura árabe e islâmica se incomoda com a pouca atenção dada às suas guerras

Diogo Bercito

?A invasão da Rússia na Ucrânia tem causado reações contraditórias no mundo de cultura árabe e islâmica. Por um lado, abundam as demonstrações de solidariedade diante da destruição e da morte causadas pelo exército do presidente russo Vladimir Putin. Por outro, moradores de países como a Síria – que vivem guerras cruentas há anos, inclusive com ataques russos a alvos civis – se perguntam por que é que o drama ucraniano emociona mais do que o deles, no exterior. Nas entrelinhas, dizem: nossas vidas valem tão pouco?

Essa angústia ficou evidente na manhã deste sábado (26), quando começou a circular um vídeo do correspondente Charlie D’Agata, da rede americana CBS. Cobrindo a guerra na Ucrânia, ele afirmou ao vivo que a situação era particularmente problemática porque Kiev é uma cidade “relativamente civilizada, relativamente europeia” – ao contrário, disse, de lugares como o Iraque e o Afeganistão. Eis a frase:

 

Esse não é um lugar – digo com todo o respeito – como o Iraque e o Afeganistão, que viram conflitos por décadas. Esta é uma cidade relativamente civilizada, relativamente europeia… Tenho que escolher essas palavras com cuidado. Você não esperaria que isso acontecesse, ou torceria para que não acontecesse…

Charlie D’Agata

Correspondente da CBS

O vídeo tem circulado nas redes sociais, acompanhado de duras críticas a um mundo que privilegia certas vidas em detrimento de outras. “Imaginem o tipo de dano que essas pessoas vêm causando ao longo dos anos”, comentou um repórter. Alguns usuários pediram que o correspondente da rede americana se desculpasse pelo que ele disse.

Imagem mostra um grupo de artistas escrevendo a palavra "Ucrânia" em inglês, em meio a destroços.
Artistas sírios pintam um mural em uma cidade insurgente, na Síria, em protesto à invasão da Ucrânia. – Omar Haj Kadour/AFP

Não é que ignorem o imenso risco trazido pelas ações russas na Ucrânia. Como disse à Folha o historiador britânico Jeremy Black, “a Rússia tem a capacidade de transformar um conflito regional em uma guerra de grande escala”. Além disso, “como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia tem o poder de destruir a arquitetura das relações internacionais”, afirmou. Dito isso, as palavras usadas para se referir a outros países e povos – estes são civilizados, aqueles não – contribuem à desumanização deles. A desumanização, por sua vez, barateia a vida de quem é tido como menor, como inferior.

Essa desumanização ajuda a entender as primeiras reações europeias quanto aos refugiados ucranianos que devem começar a chegar. Alguns líderes já se mostraram favoráveis à entrada de ucranianos – mas, no passado, eles tinham recusado os sírios, os iraquianos e os afegãos.

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