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Com mais de 100 mortos e outros tantos desaparecidos, a “capital imperial” do Brasil passou por tragédias semelhantes em 1988 e em 2011. Na de terça-feira, caíram 240 milímetros de chuva em duas horas.

“Foram 240 milímetros em coisa de duas horas, foi uma chuva altamente extraordinária”, disse Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro. “Mas uniu-se uma tragédia histórica com um déficit  que realmente existe e causou este estrago todo, que sirva de lição para que, desta vez, ajamos de forma diferente, não se resolvem 40, 30, 20 anos num ano”, prosseguiu o autarca, diante de um cenário onde pessoas perderam a vida, as famílias, os carros, as casas e nalguns casos o bairro inteiro sob a terra.

Em causa, segundo os meteorologistas, o choque entre uma frente fria vinda do litoral de São Paulo, estado vizinho, e o ar quente da região serrana do Rio, que facilitou o acúmulo de nuvens e fez com que chovessem 240 milímetros num fim de tarde, mais do que era esperado no mês de fevereiro. Além das condições naturais para a tragédia, contribuiu também o descaso das autoridades: um quinto da população de Petrópolis vive, há décadas, em zonas com risco de deslizamentos.

Em 2011, o município foi atingido, assim como as vizinhas Nova Friburgo e Teresópolis, por um temporal considerado um dos maiores desastres socioambientais da história do Brasil: mais de um terço da chuva daquele ano caiu em apenas 24 horas, matando pelo menos 918 pessoas em toda a região, soterradas por enxurradas de lama e rochas a descer pelas encostas.

Nos 11 anos que separam as duas tempestades, o Rio de Janeiro teve cinco governadores – Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Francisco Dornelles, Wilson Witzel e o atual – e nenhum deles conseguiu colocar em prática um plano de prevenção eficiente contra a tragédia iminente, nomeadamente a recuperação de encostas, o reflorestamento das margens dos rios, a demolição de casas em locais de risco e a recolocação de moradores em terrenos instáveis. Aliás, as milhares de casas em risco voltaram a ser habitadas por quem não conseguiu moradia ou discordou das opções dadas pelo poder público.

“Onde moro [Conjunto Habitacional da Posse] alagou tudo nas últimas chuvas. É o mesmo descaso todo o ano. Não há dragagem de rio e contenção de encosta suficiente”, dizia no ano passado, quando a catástrofe completou dez anos, Cláudia Ramos, presidente da Comissão das Vítimas das Tragédias da Região Serrana, citada pelo jornal ???????Folha de S. Paulo.

O prefeito, Rubens Bomtempo, que decretou estado de calamidade pública e suspendeu as aulas, admitiu que “a população foi sendo excluída, ocupando a periferia, em grande parte tentando legitimar um território que foi negado historicamente, aí as pessoas moram em áreas de risco, pois não foi dado para elas o direito de morar melhor, a gente tem que fazer essa reflexão também”.

E já em 1988 haviam morrido 134 pessoas numa tragédia em tudo semelhante à deste ano, com um quadro de carros empilhados, asfalto arrancado, famílias sem casas e socorristas à procura de vítimas soterradas. Na altura, hotéis de luxo e mansões também foram afetadas numa região rica em turismo.

Petrópolis, considerada a cidade menos violenta do estado do Rio de Janeiro e sexta mais segura do país, foi capital oficiosa do Brasil logo após a independência de Portugal, em 1822. D. Pedro I (ou D. Pedro IV, em Portugal) fundou-a, razão do seu nome, para passar períodos de repouso, hábito seguido pelo sucessor, D. Pedro II. Como a corte seguia os monarcas no verão, Petrópolis ganhou o epiteto de “cidade imperial” até ao fim do regime monárquico em 1889.

 

Hoje é sobretudo notícia pelas tragédias, também sobretudo no verão no hemisfério sul. “Mas existe na nossa cidade uma cultura de resiliência a esta questão da chuva, nós temos um sistema de pluviómetro, um sistema de sirenes, núcleos de defesa civil, voluntários que atuam diretamente nas comunidades, há pontos de apoio e as pessoas já os conhecem”, garantiu o prefeito ao ser perguntado sobre o que vai ser de Petrópolis daqui para a frente.

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