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Postado em 11-02-2022
Arquivado em (Artigos) por vitor em 11-02-2022 01:10

Um manifesto poético

JB
Credit…JB

Por CAIO BUCKER

 

Tenho vivido em pleno estado de poesia. Os dias seguem bizarros, e poderia enumerar tudo que vem acontecendo no Brasil e no mundo, mas acho que seria repetir o óbvio. E mais óbvio ainda é nossa luta, nossa resistência artística e cultural, nossa insistência pela democracia, pelo amor e pelo caminho da luz. Joguemos essa energia para o universo, façamos movimento e sigamos o fluxo, que dias melhores virão. Sinto que estão vindo, e por isso esse estado de poesia. Para mim, este sentimento vem com os projetos culturais em cartaz e os que estão por vir, o cheiro de novos ares, novos amores, novas parcerias, a esperança de um ano melhor politicamente e socialmente. Já escrevi sobre a poesia aqui no JB. A vida é pura poesia, e minha poesia eu coloco nas coisas da vida. Vivemos este sentimento, aprendendo com os sentidos e as sensações. A poesia nos liberta, e entrar neste estado nos permite e nos possibilita sonhar. Dá cor ao banal, vivifica e nos dá asas, pois na poesia não existem correntes. Nem prisão. Gosto da poesia que a vida nos oferece e a que os autores nos proporcionam. E diante destes tempos ultra modernos, desejei poetizar na coluna de hoje, compartilhando alguns que tenho lido e me vieram à cabeça. Uma escolha espontânea, sem esquecer dos outros, porque são muitos. Afinal, viver é poetizar o tempo todo.

MOMENTO, de Adélia Prado

Enquanto eu fiquei alegre,
permaneceram um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça.
A vida é mais tempo alegre do que triste.
Melhor é ser.

VICIADO, de Fabrício Carpinejar

Antes da aula, eu cheirava cola.
Confesso: cheirava cola com ânsia.
Levava os saltos da mãe para consertar no sapateiro.
Escorado no balcão, não apressava Anastácio, boiava os olhos do olfato.
Ria depois dos colegas que se contentavam com o álcool do mimeógrafo.

TRADUZIR-SE, de Ferreira Gullar.

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão:
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera:
outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta:
outra parte se espanha.
Uma parte de mim é permanente:
outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem:
outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte – que é uma questão de vida ou morte –
será arte?

SUI GENERIS, de Mano melo

Este é um país sui generis.
As prostitutas gozam. Os cafifas se apaixonam. Os valentões apanham.
Os ministros cantam e as ministras dão.
Os machões também.
Os ladrões prendem. A polícia assalta.
Os patrões fazem greve.
Os ateus rezam. Os padres praguejam.
Os catedráticos não lêem. Os analfabetos escrevem.
Os banqueiros choram. Os mendigos dão esmola.
Os gatos latem. Os cachorros miam. Os peixes se afogam.
As frutas mordem. As formigas dão leite.
As vacas põem ovos. As galinhas têm dentes.
Então, quer parar de me cobrar coerência, pô!?

ONDE MEU CORPO QUER MORAR, de Zéu Britto

Adentre de forma cutânea, e se sair pelos poros, volte.
Os andares de minha pele forrarão um mote,
criarão escadas e as várias camadas virarão um prédio.
Fique morando aqui nesse pé direito, nesse dedo esquerdo,
nos rudimentos e redemoinhos da cabeça, nos meios suados,
permaneçamos nus e alicerçados.
Venha pelas unhas, me segure, enraíze aqui, esse corpo é tua casa,
devaneia, perambule, conheça as laterais,
vá nas verrugas, nos sinais, é tudo corpo e estrada.
Atravesse devagar, olhe as crateras, as espinhas,
sinta as narinas nas minhas, a deslizante ponte, olha você
do outro lado, na piscina de suores, meu amor, que lugar…Teu corpo é a casa onde meu corpo quer morar.

RÁPIDO E RASTEIRO, de Chacal

Vai ter uma festa que eu vou dançar até o sapato pedir para parar.
Aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida.

LIBAÇÃO, de Elisa Lucinda

É do nascedouro da vida a grandeza. É da sua natureza a fartura, a proliferação, os cromossomiais encontros, os brotos, os processos caules, os processos sementes, os processos troncos, os processos flores, são suas mais finas dores.
As consequências cachos, as consequências leite, as consequências folhas, as consequências
fruto, são suas cores mais belas.
É da substância do átomo, ser partível produtivo ativo e gerador. Tudo é no seu âmago e início, patrício da riqueza, solstício da realeza. É da vocação da vida a beleza, e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la com os nossos minúsculos gestos ratos, nossos fatos apinhados de pequenezas, cabe a nós enchê-la, cheio que é o seu princípio. Todo vazio é grávido desse benevolente risco. Todo presente está guarnecido do estado potencial de futuro.
Peço ao ano-novo, aos deuses do calendário, aos orixás das transformações: nos livrem do infértil da ninharia, nos protejam da vaidade burra da vaidade “minha” desumana sozinha.
Que nos livrem da ânsia voraz, daquilo que ao nos aumentar nos amesquinha.
A vida não tem ensaio, mas tem novas chances.
Viva a burilação eterna, a possibilidade: o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento, a duração inútil dos rancores.
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!

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