DO JORNAL DO BRASIL

Que tristeza

Por ADHEMAR BAHADIAN

Quando cheguei à casa de minha irmã, já lá estava Soninha Que Tristeza. Continua com os mesmos olhos verdes, eternamente enaltecidos até mesmo por Nat King Cole no agridoce filme do chinês Wong kar-wai ,“In the mood for love”.

Soninha foi colega de minha irmã no Bennet, colégio das meninas intelectuais dos anos 50-60 do Rio de Janeiro. Uma menina do Bennet tinha a mesma fama de uma nova-iorquina do Horace Mann. E tinham o andar diáfano de quem dialoga com as nuvens. Falavam inglês e costumavam passar nos Vestibulares com a mesma facilidade dos alunos do Pedro II, indiscutivelmente a melhor formação intelectual gratuita já existente no Rio de Janeiro.

Entrou, em primeiro lugar, na mesma Faculdade de Direito que eu, e se transformou no segundo ano numa ativa líder do Centro Acadêmico. Movimentou a ala feminina da faculdade com seus discursos veementes, premonitórios e altamente subversivos, como se dizia nos anos 60. Lia Sartre. Fazia teatro amador. E pretendia ser promotora pública.

Linda de matar, esnobou todos os galãs de praia da época e, para surpresa de todos nós, se encantou com Tuberculina, alcunha de seu namorado, posterior marido, magro e seco como a caatinga, hoje falecido, deixando-a viúva nada alegre. O amor tem dessas inescrutáveis magias.

Soninha, apesar de sua aparência suave, era de uma vivência política notável, uma sensibilidade tocante, amiga dos amigos, voluntária em ações sociais em favelas e, junto com Tuberculina, se inscreveu em inúmeros projetos sociais em hospitais e casas de detenção públicas. Comovia-se frequentemente com a dor alheia e diante da miséria , manifestava sua solidariedade sempre com o mesmo comentário: “que tristeza”. Deriva desta sensibilidade seu apelido, que hoje já não a incomoda e até a faz rir.

Minha irmã me havia chamado porque Soninha lhe dissera que lia meus artigos e que gostaria de bater um papo comigo. Sequer desconfiava que Soninha era minha leitora e não escondi minha alegria quando ouvi dela que recomendava meus artigos a seus filhos. Soninha deve ter hoje quase oitenta anos, dois filhos, quatro netos e uma bisneta a caminho. Somos portanto da mesma safra, nem sempre muito alegre, dos últimos anos do Brasil.

Em 1964, a atividade política de Soninha se aprofundou e embora nunca se tenha envolvido com movimentos radicais, teve alguns encontros desagradáveis com o DOPS e, em 1969, com a edição do AI-5, quando Tuberculina teve que se evadir para o exterior, Soninha, com a ajuda do pai, muito bem relacionado com empresários franceses, conseguiu um emprego discreto e bem pago em Lyon. Moraram na França até 1980 e poucos, quando voltaram ao Brasil. Tuberculina com um doutorado em psiquiatria e formado em psicanálise lacaniana. Soninha, reconhecida ensaísta feminina, com livros publicados na França sobre a condição feminina e sobre Direitos Humanos.

Minha irmã, discreta, deixou a conversar rolar. Como velhas locomotivas sabedoras de que diante de nós se antevia uma montanha escarpada a escalar, começamos com as recordações de praxe, as memórias de amigos que já se foram, de calhordas que lhes viraram a cara diante do exílio, do impacto das notícias tristes que naqueles tempos chegavam por cartas ao exterior.

Aos poucos, fomos abordando pelas bordas o mingau quente dos anos que correm. E saía de nossos lábios o mantra frequente de inúmeros “que tristeza”, “que idiota”, que país, que ministros da Saúde, que ministério. Que vergonha.

Não levantamos a voz. Falávamos como num velório de gente amiga e sabíamos que havíamos perdido quase seiscentos mil e quinhentos compatriotas em dois anos. Alguns, queridíssimos amigos. Havia uma claridade de espanto e quase raiva em seus olhos verdes. E nós não dizíamos, mas sabíamos, que o Brasil pelo qual demos os melhores anos de nossas vidas se havia transformado nesta massa falida, impensável em nossos piores pesadelos.

“Só esta semana – me disse ela – com o brutal linchamento de um africano na praia da Barra, com o leviano homicídio de um homem que cometeu o crime de ser preto e ter esquecido alguma coisa em seu carro, vimos a degradação a que chegamos, a horripilante sensação de que somos bestas humanas descrentes da decência, da dignidade e do mínimo resquício de civilidade. Nunca pensei que sentiria saudades do Geisel. Ele abortou muito disso em seu mandato”.

Diante de nós, o Brasil se derrete na mais exemplar corrosão da Democracia por mecanismos de destruição e vilipêndio de nossas instituições. Uma eventual reeleição deste governo – como já anunciado para quem sabe ouvir – se dedicaria a fazer do Supremo Tribunal Federal o último aliado de um totalitarismo sem disfarces. O Congresso, principalmente a Câmara dos Deputados, à custa de fundo eleitoral e orçamento secreto, torna-se a olhos vistos uma linha auxiliar de um Executivo impenitente. Você sabe como vota seu deputado nos temas antidemocráticos? Dê uma olhada e veja bem se você é um aliado desta balbúrdia. Votar para Presidente não basta. O seu voto, o nosso voto, tem um poder detergente mais do que nunca necessário.

Nossa conversa tinha sido longa. Recheada de silêncios como se não ousássemos falar das milhares de vezes em que pensamos com saudade sobre os ares desta cidade ainda linda, apesar de tudo. Perdemos nossas vidas?

Ainda haveria um fiapo de racionalidade em nossas classes médias, cada vez menos médias, cada vez mais endividadas, incapazes de perceber, como ocorre nos Estados Unidos hoje, que elas serão a bola da vez num próximo quadriênio desta insanidade econômica? Impossível não lembrar do grande Cartola e seu “O Mundo é um Moinho” e seu verso “abismo que cavastes com os próprios pés”. Preste atenção, querida!

Soninha se levantou, recusou graciosamente o convite para jantar. Beijou minha irmã. Me abraçou e suavemente me disse ao ouvido.

“Ainda resta o primeiro turno”. E completou, sorrindo como nos bons tempos: “Que Tristeza.”

*Embaixador aposentado

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