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Postado em 24-01-2022
Arquivado em (Artigos) por vitor em 24-01-2022 17:32

 

DO CORREIO BRAZILIESE

Dayana Bárbara dos Santos, a Danda, morou na rua durante 12 anos. Hoje, ela comemora sua aprovação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro

AL
Ana Luisa Araujo
 

 (crédito: Arquivo pessoal)

(crédito: Arquivo pessoal)

Moradora do Rio de Janeiro há sete meses, Dayana Bárbara dos Santos, 36 anos, viveu em Brasília por muitos anos. Durante esse tempo, por não se dar bem com o pai, que bebia muito e morava em Santo Antônio do Descoberto (GO), entorno de Brasília, acabou indo parar nas ruas da capital brasileira. Danda, como gosta de ser chamada, diz que sempre foi uma moradora de rua diferente. Ela sempre estudou e, graças a esse esforço, os estudos a levaram a uma conquista fenomenal, a recente aprovação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) no curso de letras.

“Eu sempre quis a UnB [Universidade de Brasília], mas ela não me quis”, conta, sorridente, ao falar de sua aprovação na estadual carioca.

Natural do Maranhão, Danda afirma que não se lembra de como veio parar em Santo Antônio do Descoberto (GO), distante apenas 50 km do Plano Piloto. “Não me pergunte como, porque uma parte da minha família conta uma história, mas a outra parte diz outra”, revela.

A vendedora ambulante só se lembra de que, por volta de oito anos, decidiu sair de casa por causa dos conflitos com o pai e passou a frequentar as ruas de Santo Antônio do Descoberto. Tempos depois, ela estava em Brasília, em situação de rua, onde ficou por 12 anos.

De acordo com a universitária, a liberdade das pessoas que viviam na rua era algo com que ela se identificava. Ela queria experimentar essa sensação, principalmente porque sofria violência em casa. “Fui embora sem contar com nenhuma pessoa”, afirma. Aqueles que viviam em situação de rua estavam sempre alegres, lembra ela. Não existia tristeza ou espaço para vida pacata.

Na primeira noite, porém, Danda não dormiu, teve tanto medo que foi para o conselho tutelar. De lá, seguiu para um abrigo de Taguatinga, de onde, depois de um mês, fugiu. Ela queria achar seu lugar; fez, então, da rua sua morada. Mas, diferentemente de outros indivíduos em situação de rua, não usou drogas durante um bom tempo, porque tinha medo de perder o controle de si mesma, e estava sozinha naquele local.

“Demorei um pouco a entrar nesse universo, na verdade, fiquei sempre com muito medo de coisas que não conseguia ter o controle”, conta. “Eu ficava na rua, mas quando via que estava apertado demais, a polícia reprimindo muito a galera ou sendo muito violenta,dava um jeito de correr para o abrigo”, continua.

A vendedora ambulante diz que nunca sofreu violência de pessoas que moram na rua, mas de policiais, sim. “Tanto na questão da violência física quanto sexual”, afirma. “O Estado sendo o Estado”, lamenta.

“Na rua, a gente só pernoita”, afirma. Segundo a caloura de letras da Uerj, quando a situação apertava e ela corria para o abrigo, era para se libertar um pouco desse mundo. O abrigo era um local para dormir, comer bem e estar em segurança.

A mudança

Desde os 14 anos, Danda dos Santos frequentou a Escola Meninos e Meninas do Parque, situada no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, no centro de Brasília. A instituição é destinada especialmente a pessoas em situação de rua. Foi nela que a vendedora ambulante conseguiu concluir o ensino médio e tirar seu diploma. Como foi dito, ela vivia nas calçadas, mas era diferenciada, pois sempre estudou.

Ela sempre buscou estudar, ler e, principalmente, escrever. Apesar de ter estudado na Escola do Parque, Danda também passou por uma escola de Taguatinga, enquanto estava no abrigo, e lá se formou no ensino médio, em 2014.

“Sempre gostei de estar por dentro das coisas que me moviam e a educação é uma dessas coisas”, afirma. Na visão dela, o sonho de entrar em uma universidade não é para ela como é para outras pessoas, para ela o cenário era mais difícil. Geralmente, saindo do ensino médio, o estudante ingressa no ensino superior, por volta de 18 anos, mas essa não era a realidade de Danda.

Segundo conta, a preparação que fez não foi para a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), mas para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Todo ano ela fazia o Enem, e melhorava suas notas.

Ela alugava celular para poder estudar duas horas por dia por meio de vídeos no YouTube. Vendedora ambulante durante o dia, durante à noite estudava, mas ainda ajudava seu filho com as atividades da escola.

“Entrei por cotas. Fiquei em sexto com minha nota do Enem, o que me ajudou muito foi a nota da redação, eu consegui tirar 770”, lembra.

Danda também considera injusto o ensino superior no país, uma vez que aqueles que tiveram acesso a escolas particulares conseguem entrar sem muitas dificuldades numa universidade pública, e quem estudou toda a vida em colégios públicos tem um desafio maior.

Vendedora

Apesar de ser um destaque, ainda vivenciava os mesmos problemas que seus companheiros. Danda vendia drogas para conseguir um trocado, e quando completou 17 anos, ela começou a usar. Só parou quando descobriu que estava grávida, aos 20 anos. Foi nesse momento também, que ela decidiu se movimentar e sair da situação de rua.

“Comecei a entender que precisava de uma fonte de renda, de onde eu pudesse tirar sustento para existir, e aí fui atrás”, conta. Desde então, ela passou a comprar doces e vender como ambulante na Rodoviária do Plano Piloto. No entanto, sempre teve o sonho de ser técnica de futebol, uma vez que gostou, durante toda a vida, de esporte.

Para conceber seu filho, ela diz que foi uma dificuldade, uma vez que gostaria de ser mãe, mas só se relacionava com mulheres. Na época então, por volta de 2008, ela se envolveu com um rapaz e conseguiu realizar sua vontade de gerar uma criança.

“Hoje, a minha vida é toda por conta dele”, afirma. “Busco alternativas de mudança, de crescimento, tanto meu, quanto dele”, conta Danda, que se mudou para o Rio de janeiro com a promessa de ser técnica em um time. Ao chegar na cidade, o clube de fato existia, mas não era bem como havia prometido, Arthur, seu filho de 14 anos, ficou um tempo vivendo no alojamento, mas ele não estava em boas condições. Até que eles conseguiram receber proposta de outro time.

“Prefiro comprar um doce do que voltar ao tráfico, não volto”, conta. Danda não quer voltar aquele mundo de forma alguma, e ainda afirma que conseguiu se sustentar assim durante todos esses anos.

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