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Postado em 18-12-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 18-12-2021 00:32

CadernoB/ Jornal do Brasil

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Por CAIO BUCKER

Essa foi mais uma daquelas colunas que, embora tivesse muitas opções e ideias para desenvolver, nenhuma batia com o momento que sentei para escrever. Resolvi fazer um café, acender um incenso e ligar o som, nada diferente do meu ritual de muito tempo. Fiquei escolhendo playlists e zapeando álbuns, mas queria ouvir Belchior. Quase sempre eu quero ouvir Belchior. A primeira música que entrou foi “Comentário a respeito de John”, que começa com um grito: “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam, de que lado nasce o Sol, porque bate lá meu coração.” Aí minha vontade imediata foi de responder para o mestre que “sonho e escrevo em letras grandes de novo, pelos muros do país.” Belchior, o tempo andou mexendo com a gente, sim, e eu não esqueço que a felicidade é uma arma quente. Que pedrada! Eu tinha tanta coisa pra comentar com o rapaz latino americano que estudou filosofia e gostava de pintura. A poesia musical que ele fez é realmente necessária para exorcizar nosso coração selvagem.

Macaque in the trees

O cantor e compositor Belchior (Foto: Foto: Folhapress)

O cara é tão genial com sua dose de loucura, que nos últimos anos de sua vida, ficou desaparecido, recluso e fazendo um detox da vida social. Acho que ele até fez bem, só exagerou um pouco no tempo, a meu ver. Você fez falta, cara! Todo mundo te procurando entre galos, noites e quintais, e querendo saber, cadê você? Enquanto vivia seu exílio voluntário e que nunca teve explicação, suas músicas eram tocadas sem parar em bares, shows, fones de ouvido e nas minhas playlists. Diziam que ele acumulava dívidas – inclusive com seus dois carros, abandonados em estacionamentos – e acumulava também mistérios e suposições de todos os lados. Acho que a última aparição em show foi ao lado de Tom Zé, e depois sumiu de vez. Sempre tinha alguém dizendo que tinha visto Belchior aqui ou ali, mas tudo de forma vaga e sem comprovação. Foram parar até no Uruguai para entrevistá-lo, e depois uma equipe de jornalistas rodou o Ceará. Ele brincava de Elvis mesmo estando vivo. Infelizmente, a certeza de onde estava Belchior se deu no dia 30 de Abril de 2017, com sua morte, em Santa Cruz do Sul (RS). Foi uma comoção nacional, porque o esconde-esconde acabava ali, e o ídolo brega romântico sumiria do pequeno mapa do tempo de vez. A não ser por sua obra, que continua viva. Mais viva do que nunca.

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes nasceu em Sobral (CE), e brincava dizendo que literalmente era um dos maiores nomes da MPB. De família grande com 23 irmãos, foi programador de rádio, estudou Filosofia e completou seus estudos no colégio de padres. Optou por viver um período religioso, numa comunidade com frades italianos em um mosteiro, onde aprimorou o latim, o italiano e o canto gregoriano. Após esse período, regressou a Fortaleza e estudou Medicina, mas largou para se dedicar à vida musical. Se juntou a um grupo de jovens promissores, como Ednardo, Amelinha e Fagner, conhecidos depois como o “Pessoal do Ceará”. Tocando em festivais pelo Nordeste, em 1971, venceu o 4º Festival Universitário de MPB com a composição “Na Hora do Almoço” No ano seguinte, fez a canção “Mucuripe”, gravada por Elis Regina, o que chamou atenção de sua carreira. Em 1974 lançou um disco homônimo, e anos depois, o álbum “Alucinação”, com todos seus hits, alcançando o auge da carreira, que se manteria por anos e anos. Já contaram sua história em regravações, livros, filmes, podcasts e até em peças. Nosso sujeito de sorte falava – e continua falando – de temas universais, como amor, juventude, política e reflexões sociais, indústria cultural, alienação e relações mercantis, embora alguns tenham diminuído seu trabalho como um mero cara romântico. E se fosse?

Belchior apresentou a verdade existencial de uma geração. Uma premonição sabida de tempos sombrios que estavam por vir. “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” ressoam aos quatro cantos com versões e mais versões, inclusive por jovens artistas. Ele era contra a “arte alegre”, moda na época. O filósofo Adorno já dizia que “a arte se utiliza de elementos da vida enquanto material, e se a vida social é cindida pela divisão do trabalho, que separa o homem de sua produção e da natureza, e impede a felicidade enquanto reconhecimento recíproco entre sujeito e objeto, a arte que imita essa vida deve ser triste, como a própria vida. A arte alegre seria, então, ideológica, uma falsa verdade”. O cantor até brinca com a alegria de Caetano, dizendo: “Veloso, o sol não é tão brilhante pra quem vem do Norte e vai viver na rua”, em “Fotografia 3×4”. O colega jornalista Dellano Rios comentou que “ele foi tomado como uma espécie de herói romântico, radicalmente lúcido em seu disparate. Afinal, o desejo de se apartar do mundo é universal. Uma hora ou outra, se insinua para todos.” E completou: “Ele fez em vida o que outros sonharam em canções. Raul Seixas pediu “pare o mundo, que eu quero descer”, em “Eu também vou reclamar”. Roberto Carlos, uma década antes, havia cantado “Quero que você, me aqueça nesse inverno, e que tudo mais vá pro inferno”. Até sua transgressão se tornou poesia.

Mas ele, assim como muitos gigantes, viveram o hiato e o esquecimento depois de uma sequência de sucessos, shows e mais shows, prêmios e discos de ouro. Suas canções marcaram a vida de muitos, seja com “Apenas um rapaz latino americano”, seja com “A palo seco” ou “Como nossos pais”, um hino gravado por Elis. Belchior usa de uma retórica sentimental que toca em nossas feridas e em nossos medos com sua potência lírica. Ele mesmo disse: “Eu tenho medo de abrir a porta, que dá pro sertão da minha solidão. Apertar o botão: cidade morta; placa torta indicando a contramão. Faca de ponta e meu punhal que corta, e o fantasma escondido no porão.” Tudo é tão profundo! Lembro da primeira vez que ouvi sua música, e senti uma mistura de angústia por me identificar com aquilo, e conforto em poder compartilhar. Sempre foi muito bom. Seu trabalho tornou-se atemporal e nunca deixou de ser relevante. São versos que nos agarramos até hoje, mesmo perplexos em colocá-los em prática. Mas Belchior seguirá nos movendo com canções e o mistério da vida a se levar. Até porque, viver é melhor que sonhar.

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