DO JORNAL A TARDE

Morre Jânio Soares, articulista de A TARDE

Secretário de Cultura de Paulo Afonso sofreu um infarto durante a madrugada e não resistiu

 Cássio Santana

 
 
Janinho, como era mais conhecido, deixa esposa e três filhos
Janinho, como era mais conhecido, deixa esposa e três filhos –
 
Em uma de suas muitas crônicas, Janio Soares revela que, se lhe fosse permitido escolher uma última imagem, ante a morte iminente, escolheria contemplar o sertão – só para ser transportado aos seus tempos de menino, na então cidade  de Santo Antônio da Glória, de onde se emancipou  Paulo Afonso. Queria ouvir, pela derradeira vez, os sinos da igreja, relembrar de como atravessava as ruas com uma peteca na mão, os ouvidos atentos às conversas dos mais velhos. Articulista do jornal A TARDE, Janio Soares morreu nesta segunda-feira, 13, aos 62 anos, após sofrer um infarto durante a madrugada, em Paulo Afonso, cidade onde gostaria de guardar seus últimos pensamentos no momento mais crítico da vida. Conhecido como Janinho, muito querido no meio cultural e intelectual, Janio foi um proeminente cronista, famoso pelo seu texto impecável e fluído. Seus escritos, segundo o próprio Janio, eram para “distrair” sua audiência, a quem chamava “minhas velhinhas” Desde a notícia da morte de Janio, a comoção tomou a cidade de Paulo Afonso. A prefeitura do município, em suas redes sociais, lamentou o falecimento e decretou luto de três dias. “É com imenso pesar que a Prefeitura de Paulo Afonso comunica o falecimento do secretário de Cultura e Esporte, Janio Soares, conhecido como Janinho.”, diz a publicação. “O prefeito Luiz de Deus [PSD] decreta luto de três dias e lamenta profundamente a partida do secretário, com quem mantinha um laço de amizade há anos”.A vida política de Janio em sua terra natal começa em 1978, quando o então prefeito do município de Paulo Afonso, Zé Ivaldo, convidou o jovem  para assumir o departamento de turismo e eventos da cidade. Desde sua primeira posse, Jânio só esteve ausente da cadeira quando se tornou também secretário no município de Glória. Em todos os outros anos e até este domingo, 12, ele ocupou a cadeira de secretário em Paulo Afonso.

Ele foi responsável pelo incremento no setor de eventos do município. A Copa Vela, só para citar um dos feitos de Janio, consagrou, nacionalmente, o nome da cidade de Paulo Afonso. Jânio escreveu seu nome no fomento às práticas esportivas de aventura. Com o seu trabalho, ele deu destaque ao maior encontro de motociclistas do nordeste, atraindo milhares de pessoas ao município nos dias de competição.

Janio entrou no A Tarde em meados dos anos 2000, pelas mãos do jornalista Vitor Hugo Soares, que se recorda, com viva lembrança, da ocasião. “Conheci Janio ainda garoto, em Santo Antônio da Glória, hoje um bairro de Paulo Afonso. Eu tinha perdido o contato dele e, um dia, recebi um email de uma pessoa falando de um artigo meu que tinha lido. E aí respondi: ‘olha, eu sei quem é você’. Era o Janio. “, conta Hugo Soares. 

“Eu disse, então: ‘sei que na sua gaveta deve ter alguns bons escritos, pegue o primeiro que você achar e me manda’. Não deu outra, ele me enviou uma crônica dele, eu publiquei na página de opinião do jornal A Tarde. Foi um sucesso logo de saída, um texto primoroso”, recordou o jornalista. 

“Ele sempre foi um tipo raro de cronista. aqueles talentos que escrevem no correr da pena, ele tinha muita essa capacidade. Deixei o A Tarde, criei o blog Bahia em Pauta e ele continuou escrevendo no jornal. Ele foi um talento incrível, de uma sensibilidade muito grande.”, conta o jornalista. “Foi um baque terrível, inesperado. Eu, com 72 anos, jamais poderia pensar que hoje estaria sem o Janio”. 

Janio é lembrado pelas tiradas bem humoradas. Em dezembro de 2020, quando se descobriu com Covid-19, ele recebeu a notícia de maneira descontraída: “Ah, sim, testei positivo, mas até o momento em que teclo estas linhas estou igual ao suicida otimista da piada, que ao passar pelas janelas do prédio antes de se espatifar no chão, repetia: “até aqui, tudo bem!”. Simbora!”, escreveu. 

“Janinho foi um cronista que regressou à tradição lírica e humorística da crônica carioca dos anos 50 e 60, mas situando seu espírito no sertão, no homem e na cultura de Paulo Afonso e arredores. Seus textos eram cheios de poesia, bebida, pratos fartos e vida”, declarou o jornalista Claudio Leal, que também trabalhava no A TARDE à época do ingresso de Jânio, em 2005. 

Amigos durante 16 anos, mesmo com pouco contato físico, limitando-se ao meio on-line, Cláudio Leal afirmou que a partida de Janio é ‘uma crônica sem desfecho’. “Hoje, fico desnorteado com sua perda. Parece uma crônica sem desfecho. Ou uma história absurda do próprio Janinho. Fiquemos atentos. Ele ainda pode estar vivo, na virada de alguma esquina, só para nos pregar uma peça”, homenageou.

“Além de reunir uma série de qualidades que faziam dele um de nossos melhores cronistas, Janio transbordava simplicidade e amor – à sua região, ao São Francisco, ao seu sítio, sua família, suas plantas e seus animais. E sabia cultivar amigos – boa parte deles nem o conhecia pessoalmente, o que não impedia a frequente e rica troca de correspondência.”, afirma a diretora de Redação de A TARDE, Mariana Carneiro.

“Era sempre um enorme prazer receber e editar seus textos, e mais ainda os bilhetes de palavras carinhosas e de fino humor que antecediam a parte destinada à publicação. Nossos sábados em A TARDE nunca mais serão os mesmos sem Janio, estamos muito sentidos com o vazio que ele deixa, em todos os sentidos”, endossa Mariana Carneiro. 

Em suas redes sociais, a jornalista Olívia Soares comentou: “Sem medo de errar, Janinho era um dos melhores cronistas da atualidade. Ele era muito amado pelo povo de Paulo Afonso e por todos que tiveram o privilégio da sua convivência. Meu abraço afetuoso à família e amigos. Adeus, querido.”, escreveu. 

“Apesar de nunca o ter encontrado pessoalmente, era um amigo “on-line” muito querido. Tínhamos um excelente e frequente diálogo. Fiquei realmente triste.”, comentou o  jornalista Dimitri Ganzelevitch, também articulista de A TARDE. 

O também articulista de A TARDE e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Nelson Pretto, foi outro a render homenagens ao colega. “Não consigo acreditar que se foi dessa vida o meu vizinho aqui em A Tarde que se tornou um grande amigo de um único encontro. Janio Soares era – era nada, é! – um gênio da escrita, da cultura, da amizade e da raça humana.”, disse Pretto. 

“Um doce de pessoa. Recebo aqui a notícia, enviada pelo amigo Cacá, outro seu apaixonado leitor, e não me contenho em lágrimas. A cada 15 dias, o sábado era iluminado pelas suas crônicas. Que sensibilidade “., completou o professor. 

Em seu blog, o jornalista Dimas Roque afirmou que Janio, “o homem dos eventos”, como escreveu em seu texto, havia deixado um legado incomensurável ao município de Paulo Afonso.  “Silenciam hoje os tambores e trios elétricos, tristes pela morte da pessoa que fez a cidade balançar literalmente ao som das músicas. Ficamos todos tristes com a partida do eterno jovem Janio Soares.”, escreveu. 

“Para ele, meu carinho fraterno e o abraço apertado que todas as vezes que nos víamos nos dávamos. Hoje, que todas as boas lembranças dos amigos e familiares sejam relembradas.”, completou. 

Janio deixa esposa e três filhos. O velório ocorreu no final da manhã desta segunda, no Ginásio Luís Eduardo Magalhães, em Paulo Afonso. O sepultamento aconteceu no município de Glória.

A MORTE REPENTINA EM PAULO AFONSO, A DOR DA AUSÊNCIA E A ÚLTIMA E MARAVILHOSA CRÔNICA DE JÂNIO FERREIRA SOARES EM A TARDE E NO SITE BLOG BAHIA EM PAUTA..
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Bahia em Pauta » Blog Archive » Janio Ferreira Soares: um salve a Douglas Souza que corta na cara do preconceito em Tokio
 Janio Ferreira Soares : Adeus!
 
 
 O que pensar e, principalmente, o que dizer quanto você vai dormir depois das três da madrugada – e ao desligar o computador onde você trabalhava na atualização do site blog Bahia em Pauta – bate de repente aquele amargor na boca, acompanhado daquela sensação de que algo grave e imponderável está se passando com alguém a quem você está profundamente ligado ou quer bem e nada pode fazer? A primeira vez que senti algo assim foi na morte inesperada de Juarez Bahia, ex-editor Nacional do Jornal do Brasil, , com quem tive a honra e graça de trabalhar no JB por mais de uma década, quando se construiu uma ligação pessoal, profissional e intelectual tão profunda que não caberia neste espaço. Esta madrugada passada sentimento semelhante se repetiu, quando procurei o artigo de Janio na minha caixa de e-mails, acreditando (erradamente) que havia esquecido de edita-lo no domingo.
E ao levantar, já no começo da tarde, sentado na mesa para o café -almoço o repetido aviso de Margarida, para que eu não esquecesse de tomar o remédio da pressão.
E logo a notícia do infarte e da partida repentina de Janio, em Paulo Afonso, onde ele era secretário municipal de Cultura,Turismo e Esportes.
E, logo, o escrito desesperante, da mana Olívia Soares, neste espaço do Facebook: “É uma tragédia perder Janinho. Eu não estou dando conta. Chega!
Janio Ferreira Soares (62 anos) morreu na madrugada desta segunda-feira (13). De acordo com a prefeitura de Paulo Afonso, ele foi vítima de um infarto.
Sem medo de errar, Janinho era um dos melhores cronistas da atualidade. Ele era muito amado pelo povo de Paulo Afonso e por todos que tiveram o privilégio da sua convivência. Meu abraço afetuoso à família e amigos. Adeus, querido.
E o texto de afeto e reconhecimento, postado também no espaço de Olivinha nesta rede social pelo jornalista e poeta Florisvaldo Mattos, mestre e amigo do peito, ex-Editor- Chefe do Jornal A Tarde: “Janio Ferreira Soares , seu querido primo, era realmente um excelente cronista, com qualidade informativa e estilo redacional. Um verdadeiro cantor das margens do Velho Chico. Nem avalio como, neste momento, está o ânimo do jornalista Vitor Hugo Soares, também primo dele, que o levou para figurar na página de Opinião, de A Tarde, lá pela segunda metade dos anos 2000. Que ele descanse em paz”.
O mais são lágrima. é amargura, dor , a ausência (mais doloroso sentimento da morte, o não mais ouvir. falar, cantar e beber juntos, como da última vez que o vi, com Margarida, Gracinha e Lauro, em farra e conversa para não esquecer em fim de tarde na beira do Rio São Francisco. Eternamente Janio. (Vitor Hugo Soares)
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A ÚLTIMA CRÔNICA DE JANIO FERREIRA SOARES NO BAHIA EM PAUTA E NO JORNAL A TARDE.
DEZEMBRO DE VENTOS QUE SOPRAM CRÔNICAS E MARIAS NA BEIRA DO SÃO FRANCISCO.
Domingo, 5 de dezembro no calendário : é dia de tapete vermelho neste pedaço especial do Facebook para receber mais uma brilhante e deliciosa crônica de Janio Ferreira Soares, que vem lá das margens baianas do São Francisco. E passa deslizando com suaves murmúrios, a exemplo da correnteza do rio da minha aldeia, passando quase no quintal do chalé onde eu morava na infância, na hoje submersa e cada vez mais saudosa cidade de Santo Antonio da Glória, e acordava em fases pré natalinas, como esta, cercado dos personagens que povoavam o lugar das minhas melhores recordações. Alguns deles citados nesta linda ( e comovente para este velho editor) crônica ao correr da pena de Janio. A começar pelo pai do cronista, o tenente José da Silva (maior amigo de meu pai na cidade), um dos heróis da minha meninice, de quem ouvi sob a sombra do pé de umbu cajá na frente da Cadeia Pública local, e aprendi as melhores historias de Lampião e Maria Bonita, no tempo em que se escondiam das volantes policiais no Raso da Catarina, ali bem pertinho. E o notável pernambucano, Antonio Maria – da crônica. da música e das grandes conquistas amorosas – cuja fama entrava em minha casa às primeiras horas da manhã, juntamente com os frevos de Capiba, através das ondas potentes da Rádio Jornal do Comércio, falando de Pernambuco para o mundo. Entre tantas coisas boas e felizes. que além de tudo ainda me traz a recordação de quando encontrei, pela primeira vez, na redação da faraônica sede do JB, Antonio Maria Filho (corpanzil e jeito doce, afetuoso e boêmio do pai) , que atuava na editoria de Esportes e emocionou o antigo menino sertanejo da beira do rio, então na sucursal do JB em Salvador. Aí ficamos amigos em idas e vindas da sucursal de Salvador à sede, e vice-versa do ótimo repórter, em suas viagens para coberturas em Salvador, onde o pai famoso trabalhara, no começo da carreira, na Rádio Sociedade da Bahia. Mas isto é outra história. Com a palavra Janio e os encantos desta nova crônica. Boa leitura e ótimo domingo. (Vitor Hugo Soares).
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CRÔNICA
CRÔNICAS E MARIAS TRAZIDAS PELOS VENTOS
 
Janio Ferreira Soares
 
“No meu último texto pensava em escrever sobre “Vento Vadio”, coletânea de crônicas de Antônio Maria, mas a eleição de Gil para a ABL me fez mudar de rumo. Quando é agora, minha intenção era dar um 360º bem lento – pra não derrubar o copo – e então voltar a falar da genial prosa desse gigante pernambucano de 1,80 e 120 quilos, que quando se interessava por uma garota e esta não lhe dava bolas, espertamente admitia sua feiura e aí lhe implorava 15 minutos de um papo que dificilmente chegava ao fim, pois antes de o tempo se esgotar ela já estava hipnotizada pela lábia mais famosa do Rio de Janeiro (Danuza Leão que o diga).
Acontece que antes mesmo de começar a discorrer sobre aquele que Luís Fernando Veríssimo considera nosso maior cronista, algo me dizia que quando chegasse por aqui me sentiria tentado a abrir novamente um parêntese, desses que só fecham lá nos derradeiros parágrafos. Bingo!
É que nos últimos meses, não sei se por causa da peste ou se pelo fato de que a hora é de louvar o que bem merece, alguns lançamentos estão trazendo lampejos de uma época onde, mesmo sob a ameaça da baioneta, tinha-se a sensação de que algo extraordinário rolava no breu das tocas. Prova disso é “Get Back”, excelente documentário dos Beatles – dirigido por Peter Jackson, de O Senhor dos Anéis -, que acaba de chegar na mesma onda que se ergueu no mar e trouxe em sua crista “Vento Vadio” e “Os Sabiás das Crônicas”, cujos trinados, aliás, proporcionaram a este ribeirinho a chance de conhecer uma rara flor do cerrado que vive nas savanas cariocas e, veja que coisa, também se chama Maria. Explico.
Não faz muito tempo, escrevi um texto sobre o livro dos sabiás e aí achei que sua editora, Maria Amélia Mello, poderia gostar de lê-lo. Pesquisando no Google, descobri o e-mail da faculdade onde ela leciona, arrisquei, e logo soube, de um jeito bacana, que ele havia chegado ao seu destino tão ligeiro quanto aquele Concorde que vinha do estrangeiro. Simbora!
Tarde de vento norte balançando mangas e graviolas e vejo um número de prefixo 21 piscando no visor. Mesmo correndo o risco de ouvir o famigerado: “Oi, aqui é da Claro!”, atendo, e uma maviosa voz lá das bandas da Guanabara, diz: “Janio, é Maria Amélia”. E aí, com poucos segundos de prosa, eu, que detesto papos longos ao telefone, me vi tal aquelas comadres que se sentam nas calçadas pra pôr os assuntos em dia (dom dos Marias?).
E aí ela diz que seu pai era alagoano de Quebrangulo, terra de Graciliano, e eu lhe digo que o meu era de Glória, cidade que agora jaz. Aí ela diz que meu texto melhorou seu dia, e eu digo que sua chamada foi massa demais. Aí ela me manda umas matérias de jornais com os amigos Ferreira Gullar e Rachel de Queiroz, e eu lhe mando escritos falando de filhos, de luas e de quintais. Aí, agora que o espaço acabou, enfim o parêntese aberto lá em cima deu meia-volta e, invisível que era, invisível se fechou. Beijos pros Maria
Janio Ferreira Soares, cronista, secretário de Cultura de Paulo Afonso, nas margens baianas do Rio São Francisco.
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FORMIDÁVEL JANIO, ADEUS!

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