Bahia em Pauta » Blog Archive » Janio Ferreira Soares: um salve a Douglas Souza que corta na cara do preconceito em Tokio

CRÔNICA

                   Crônicas e Marias trazidas pelos ventos

  Janio Ferreira Soares

No meu último texto pensava em escrever sobre “Vento Vadio”, coletânea de crônicas de Antônio Maria, mas a eleição de Gil para a ABL me fez mudar de rumo. Quando é agora, minha intenção era dar um 360º bem lento – pra não derrubar o copo – e então voltar a falar da genial prosa desse gigante pernambucano de 1,80 e 120 quilos, que quando se interessava por uma garota e esta não lhe dava bolas, espertamente admitia sua feiura e aí lhe implorava 15 minutos de um papo que dificilmente chegava ao fim, pois antes de o tempo se esgotar ela já estava hipnotizada pela lábia mais famosa do Rio de Janeiro (Danuza Leão que o diga).

Acontece que antes mesmo de começar a discorrer sobre aquele que Luís Fernando Veríssimo considera nosso maior cronista, algo me dizia que quando chegasse por aqui me sentiria tentado a abrir novamente um parêntese, desses que só fecham lá nos derradeiros parágrafos. Bingo!

É que nos últimos meses, não sei se por causa da peste ou se pelo fato de que a hora é de louvar o que bem merece, alguns lançamentos estão trazendo lampejos de uma época onde, mesmo sob a ameaça da baioneta, tinha-se a sensação de que algo extraordinário rolava no breu das tocas. Prova disso é “Get Back”, excelente documentário dos Beatles – dirigido por Peter Jackson, de O Senhor dos Anéis -, que acaba de chegar na mesma onda que se ergueu no mar e trouxe em sua crista “Vento Vadio” e “Os Sabiás das Crônicas”, cujos trinados, aliás, proporcionaram a este ribeirinho a chance de conhecer uma rara flor do cerrado que vive nas savanas cariocas e, veja que coisa, também se chama Maria. Explico.

Não faz muito tempo, escrevi um texto sobre o livro dos sabiás e aí achei que sua editora, Maria Amélia Mello, poderia gostar de lê-lo. Pesquisando no Google, descobri o e-mail da faculdade onde ela leciona, arrisquei, e logo soube, de um jeito bacana, que ele havia chegado ao seu destino tão ligeiro quanto aquele Concorde que vinha do estrangeiro. Simbora!

Tarde de vento norte balançando mangas e graviolas e vejo um número de prefixo 21 piscando no visor. Mesmo correndo o risco de ouvir o famigerado: “Oi, aqui é da Claro!”, atendo, e uma maviosa voz lá das bandas da Guanabara, diz: “Janio, é Maria Amélia”. E aí, com poucos segundos de prosa, eu, que detesto papos longos ao telefone, me vi tal aquelas comadres que se sentam nas calçadas pra pôr os assuntos em dia (dom dos Marias?).

E aí ela diz que seu pai era alagoano de Quebrangulo, terra de Graciliano, e eu lhe digo que o meu era de Glória, cidade que agora jaz. Aí ela diz que meu texto melhorou seu dia, e eu digo que sua chamada foi massa demais. Aí ela me manda umas matérias de jornais com os amigos Ferreira Gullar e Rachel de Queiroz, e eu lhe mando escritos falando de filhos, de luas e de quintais. Aí, agora que o espaço acabou, enfim o parêntese aberto lá em cima deu meia-volta e, invisível que era, invisível se fechou. Beijos pros Maria

 

Janio Ferreira Soares, cronis, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, nas margens baianas do Rio São Francisco.

“Only the Lonely”, Frank Sinatra: Seja Frank.

BOM DOMINGO

(Gilson Nogueira)

DO ESTADÃO/CONTEÚDO LIVRE

Se fosse possível contar a história de Sérgio Moro por meio de uma única cena de seu livro Contra o Sistema da Corrupção (Editora Sextante, 269 pág.), a escolha recairia na que o ex-magistrado se transporta para o filme Os Intocáveis, de Brian de Palma. Ele se vê na pele de Eliot Ness, interpretado por Kevin Costner, quando o agente usa um machado para arrombar um depósito de bebidas ilegais de Al Capone. Seu parceiro, interpretado por Sean Connery, diz: “Se atravessar essa porta, não terá como voltar atrás”.

Moro se vê como uma espécie de intocável, alguém que arromba portas em nome de um bem maior: o combate à corrupção. Seu “depósito” foi a audiência em outubro de 2014, na qual interrogou o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. “A audiência foi devastadora. A Lava Jato revelava em todos os seus detalhes o sistema de corrupção que governava o Brasil.” Ao fim, disse aos funcionários: “Nada será como antes”.

Moro sofre novas traições no Podemos em votação da PEC dos Precatórios
Moro sofre novas traições no Podemos em votação da PEC dos Precatórios

Moro é assim: se vê na pele de Ness, enquanto os críticos enxergam nele um Simão Bacamarte ou um Girolamo Savonarola, personagens da ficção e da vida real que tiveram fins não muito auspiciosos. Em seu livro, defende sua atuação como juiz e como ministro da Justiça das críticas de parcialidade e de conivência com o governo de Jair Bolsonaro, o principal adversário de seu mais famoso réu: Luiz Inácio Lula da Silva.

Também ataca o petista e o presidente, seus concorrentes em 2022. “Vejo atualmente o governo Bolsonaro muito parecido com o governo Lula, especialmente na parte ética.” Ele critica o Supremo Tribunal Federal, que o considerou parcial ao julgar Lula. Por fim, quer mostrar que não é uma variante de Bolsonaro e se diz comprometido com a democracia.

O livro não se confunde com as autobiografias de personalidades ou influencers. É obra que busca influir no debate público, como Minha Vida, de Leon Trotsky, ainda que, estética e politicamente, esteja distante do revolucionário russo. Trotsky não escondia de que lado da história estava. Moro quer fazer o leitor crer que não fazia considerações políticas ao tomar suas decisões.

Mas o próprio autor diz: “Este livro é a minha história focada no combate ao sistema da corrupção. Um grupo de policiais, procuradores da República, advogados e juízes, com grande apoio da população e da opinião pública, conseguiu vitórias importantes contra a grande corrupção”. Moro parte da premissa de que o juiz é parte de um grupo com procuradores e delegados. Foi esse voluntarismo que fez o STF considerá-lo parcial com Lula.

Moro aborda todas as polêmicas. Conta como manobrou para Teori Zavascki – que morreu em 2017 – voltar atrás na decisão de soltar os réus da Lava Jato em 2014. Diz que pediu informações a Teori e o alertou da presença de um traficante de drogas entre os presos. Os críticos diriam que ficou a um passo de atuar como o Ministério Público, a quem cabe recorrer de decisões favoráveis à defesa.

O autor é superficial ao tratar das provas contra Lula. Pode-se dizer que o fez nos autos, mas agora é pré-candidato e devia demonstrá-las. Moro não conta qual indício específico fez a Polícia Federal ir atrás de Lula. Alega que suas decisões foram referendadas por tribunais. Mas não reconhece as decisões do STF – também um tribunal – como critério para julgar seus atos. Diz que publicar a delação de Antonio Palocci antes da eleição de 2018 não prejudicou Fernando Haddad (PT) porque ele não era citado. Cabe ao leitor julgar o argumento.

Já Bolsonaro é pintado como desleal, mentiroso, extremista e preocupado apenas em proteger a família das acusações de corrupção. No Planalto importava mais se vingar de adversários do que pensar em administrar de forma eficiente. Moro admite que se calou diversas vezes diante do chefe.

Diz hoje saber ter sido um erro aceitar o convite de Bolsonaro. Mas usa a Operação Mãos Limpas, da Itália, para justificar por que entrou no governo. Queria evitar que a Lava Jato fosse destruída, como as Mãos Limpas. Moro esqueceu outra lição dos magistrados italianos: não entrar na política sem quarentena. Dois procuradores foram convidados pelo direitista Silvio Berlusconi para serem ministros. Ambos recusaram.

Moro pensa diferente. Crê que a Lava Jato mudou o jogo da captura do Estado pelos interesses privados. Tudo parece começar e terminar no ex-juiz. Mas, se os homens fazem a sua história, não a fazem segundo a sua livre vontade e sob circunstâncias de sua escolha, mas sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas pelo passado. Essa lição clássica das ciências sociais passou longe do autor. Sua análise é a de um operador do direito, não a de um intérprete de seu tempo.

Moro põe a corrupção dos grandes acima de tudo, como se os males do País pudessem ser explicados pela descoberta de um sistema corrupto. Não que ele não tenha enfrentado obstáculo reais – o balanço da Lava Jato mostra isso –, mas é como se dissesse: “Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são”. Sua história ainda não acabou. Seu eleitor espera que o homem que se vê como Eliot Ness não termine no papel de Macunaíma, revelando o descompasso entre quem ele é e quem gostaria de ser.

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Posted on 05-12-2021
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Bira NO PORTAL

 

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Vídeo mostra primeira-dama e novo ministro do Supremo comemorando votação no Senado, ao lado de líderes evangélicos, na última quarta-feira (1º)
Aos pulinhos, Michelle festeja aprovação de Mendonça para o STF
Foto: Isac Nóbrega/PR

 

Circulou pela internet nesta sexta-feira (3) um vídeo que mostra André Mendonça, Michelle Bolsonaro, Damares Alves e líderes evangélicos assistindo à sessão do Senado que aprovou o nome do ex-AGU e ex-ministro da Justiça para o STF, na última quarta (1º).

Segundo a Folha, o grupo se juntou no gabinete do senador evangélico Luiz do Carmo (MDB-GO) para assistir à sabatina de Mendonça na CCJ do Senado e depois, já com a presença do ex-AGU, à votação no plenário da Casa.

 

A aprovação foi recebida com gritos de “glória a Deus” e “aleluia” pela primeira-dama, também evangélica. Acompanhado da família, Mendonça levanta os braços quando ouve o resultado e abraça Michelle, que dá pulinhos de alegria e supostamente “fala em línguas”.

Clique abaixo para assistir ao vídeo.

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