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Postado em 01-11-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 01-11-2021 00:32
DO EL PAÍS

A denúncia pública daquela que foi uma das grandes ‘top models’ dos anos noventa abre o debate sobre o preconceito etário em uma profissão que não tolera a passagem do tempo

A modelo Linda Evangelista na Índia, em 2005.
A modelo Linda Evangelista na Índia, em 2005.Hindustan Times (Hindustan Times via Getty Images)
Raquel Peláez
Madri –
 
 
 A lendária modelo Linda Evangelista (St. Catherine’s, Canadá, 56 anos) nunca disse que não se levantaria da cama por menos de 10.000 dólares, ou pelo menos não quis dizer a sério. “Foi um comentário irônico, mas foi sendo reproduzido algumas vezes durante anos e não posso contê-lo”, disse à edição espanhola da revista Vanity Fair em 2013. “O que mais me irrita é que Augie [seu filho] vai ler essas coisas quando for mais velho.“ O que disse a esta jornalista, em várias ocasiões, foi que não descartava a possibilidade de fazer uma intervenção cirúrgica: “Mas quando o fizer terei o Steven ao meu lado, para me dizer exatamente onde devo mexer.” Steven é Steven Meisel, o fotógrafo fetichista da Vogue Italia que, em 2005, assinou uma sessão fotográfica com Evangelista intitulada Makeover Madness, em que a modelo interpretou a paródia de uma diva que vagueia pelos corredores de um hotel cinco estrelas vendada dos pés à cabeça após ter sofrido uma cirurgia estética integral.

Essas fotos, que criticavam contundentemente a tirania do culto juvenil, ganharam um significado totalmente novo, quase premonitório, quando sua protagonista decidiu confessar por conta própria no Instagram, no dia 23 de setembro, o motivo pelo qual há tempos “desapareceu”: há seis anos começou a fazer um tratamento denominado coolsculpting —uma técnica alternativa à lipoaspiração, supostamente não invasiva e sem pós-operatório, que retira gordura localizada pelo congelamento de células— que a deixou “brutalmente desfigurada”, o que a forçou a rejeitar, em suas próprias palavras, “compromissos importantes no calendário da moda” e a mergulhou em uma depressão profunda.

Isso explicaria sua comentada ausência na reunião de top models icônicas dos anos noventa organizada por Donatella Versace em 2017, que incluía Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen, aquelas mulheres sobrenaturalmente bonitas que nos anos noventa eram tão famosas quanto as estrelas do rock. Nas mesmas datas em que o evento foi realizado em Milão, o jornal britânico Daily Mail publicou algumas imagens da modelo canadense caminhando pelo aeroporto de Nova York “totalmente irreconhecível”. Manchete grandiosa que ela mencionou em sua última declaração e que, na verdade, continha um eufemismo malicioso: ao contrário do resto de suas colegas, que quase não sofreram mudanças físicas em 20 anos, ela havia ganhado peso com o tempo e a forma oval de seu rosto, angular e felino, não era a mesma “de sempre”. Isso seria estar desfigurada?

Há duas semanas, a jornalista Rhonda Garelick especificou em artigo do The New York Times, pré-aprovado por Evangelista, detalhes que a própria modelo omitiu em seu depoimento, como em quais partes do corpo o tratamento frustrado teria sido aplicado —nas coxas, abdômen, costas e sob o queixo—, lugares onde estavam as lesões —partes de sua pele estariam permanentemente inchadas— mas, acima de tudo, vocalizou o grande debate por trás desse escândalo: como é possível que seja universalmente aceito tal nível de violência no corpo para atingir uma suposta perfeição? “Vamos admitir que o simples fato de extrair gordura assim é inerentemente agressivo”, acrescenta a jornalista. “Apesar de toda a conversa sobre a aceitação do corpo e diversidade, magreza, dieta, juventude e refinar a pele humana para uma suavidade cristalina continuam sendo uma obsessão nacional.” Sobre a persistência dessa obsessão e seu reflexo na cultura interna das agências de modelos, vários gerentes de casting internacionais se recusaram a fazer declarações para o artigo do jornal norte-americano. Falaram apenas em off, sem se identificar, para dizer que Linda Evangelista é uma figura grande demais e o caso espinhoso o bastante para alguém se meter a fazer avaliações, principalmente quando o processo judicial contra a Zeltiq, empresa que comercializa a técnica de resfriamento, ainda está aberto. Também não quiseram dar declarações os representantes da DNA Models, agência que representou a modelo durante anos e pela qual Evangelista fez seu último trabalho relacionado ao mundo da moda. Foi em 2018 e consistiu em atuar como membro de júri, ao lado de outros grandes nomes, como Naomi Campbell e Adwoa Aboah, em um concurso que decidia quem ocuparia a capa dos 20 anos da prestigiosa revista Love.

A modelo espanhola Nieves Álvarez, que desfilou com Evangelista para Oscar de la Renta e ainda está ativa aos 47 anos, explica porque entende perfeitamente que um acidente como este pode mergulhar uma supermodelo em depressão, por mais que a diversidade corporal povoa as conversas em voga: “É muito traumático se olhar no espelho e não se reconhecer. Tenho um caso parecido muito próximo de mim, de uma pessoa que sofreu alteração no metabolismo, e sei que ela sofreu muito. Esta é uma profissão em que somos julgados pelo nosso físico, somos uma vitrine e nos dizem muitas coisas cruéis. Muitas vezes me perguntam o que eu fiz, se antes eu tinha um rosto mais redondo, se injetei alguma coisa na bochecha. E é, simplesmente, que com a idade você muda!.“

Linda Evangelista no CFDA Fashion Awards, em 2013, em Nova York.
Linda Evangelista no CFDA Fashion Awards, em 2013, em Nova York.Theo Wargo (Getty)

A partir de 2017, Evangelista nunca mais apareceu nas páginas de nenhuma publicação, nem as agências redistribuíram suas imagens. Mas ela não desapareceu: em 2018 concedeu, sem fotos, uma entrevista ao jornal canadense Vancouver Sun como embaixadora de uma empresa de produtos de beleza chamada Erasa (da qual é a imagem até hoje). Nessa entrevista, que passou despercebida por todos os meios de comunicação que até agora ecoaram o drama pessoal da modelo, ela própria explicou como lidou com a complicada relação dos meios de comunicação com a ideia do envelhecimento de um ícone: “Se você não tem o aspecto que costumava ter quando jovem, você não está bem. Se tentar fazer algo, dizem: ‘Ah, olhe para ela, está tentando parecer jovem! Não há como ganhar.” E embora não tenha mencionado que já estava passando por uma provação devido ao coolsculpting (que, de acordo com os dados do New York Times, começou em 2015), falou sobre como sua própria conta no Instagram a fez entender que o público não está disposto a aceitar que o tempo também passa para os ícones: “As poucas vezes em que, no início, coloquei uma foto minha natural, sem maquiagem, o comentário foi ‘Meu Deus, está doente?’ Eles esperam que você tenha a mesma aparência das fotos da Vogue Italia, mas eu não sou assim! Isso é conseguido após quatro horas de maquiagem e modelagem de cabelo! Então, quando você dá às pessoas o seu verdadeiro eu, elas não te querem. Pelo menos não eu.“

Quando, em setembro passado, a modelo decidiu dar o passo de falar publicamente sobre sua situação, uma das pessoas que transmitiu sua solidariedade e compreensão, também publicamente, foi Edward Enninful, que atualmente é diretor da edição britânica da Vogue, mas que em 2005 foi o encarregado de estilizar aquela sessão de fotos premonitória de Steven Meisel, na qual a modelo apareceu coberta de bandagens.

Nos últimos quatro anos, Evangelista (com quem este jornal tentou falar, sem sucesso) continuou a atualizar as suas próprias redes, nas quais quem navegou encontrou imagens do seu pug Mini Moon, fotos do Augie, o filho que ela teve com o magnata do luxo (e agora marido de Salma Hayek) François-Henri Pinault —por cuja gravidez também teve de lutar, recusando um pedido do parceiro para abortar, com o consequente barulho da mídia— e muito ocasionalmente, uma selfie. O último post é de 2019 e, nele, não se vê uma mulher “brutalmente desfigurada”, mas sim a pessoa que ela é.

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