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DO CORREIO BRAZILIENSE

Fusão de DEM e PSL é o mais novo ingrediente nas articulações políticas

 
JV
Jorge Vasconcellos

 

(crédito: EVARISTO SA/ AFP )

Os movimentos políticos das últimas semanas sinalizam que nenhum outro tema deve tomar mais a atenção dos partidos, daqui por diante, do que as eleições de outubro do próximo ano. Os arranjos estão por todos os lados, e, a partir do perfil dos postulantes a candidatos, é possível prever que a campanha presidencial terá uma temperatura tão ou mais elevada que a de 2018, até hoje lembrada pelas fake news e outras ações de desconstrução de adversários.

Políticos de todas as orientações estão envolvidos em uma maratona de conversas. A maior movimentação é entre os partidos de centro, focados na definição de candidatos para uma terceira via, em alternativa à polarização entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na última quarta-feira, foi dado um passo importante nesse sentido. DEM e PSL aprovaram uma fusão que dará origem a um novo partido, batizado de União Brasil. Além de escolher um candidato para a disputa presidencial, a estratégia busca formar a maior bancada do Congresso, com 81 deputados e oito senadores — seriam 82 representantes na Câmara, mas Joice Hasselmann (SP) acaba de deixar o PSL e se filiar ao PSDB.

Os caciques do DEM e do PSL iniciaram uma ofensiva para ter o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro como candidato em 2022. Um dos principais interlocutores com o ex-juiz da Operação Lava-Jato é o vice-presidente do PSL, deputado Júnior Bozzella (SP). De acordo com o parlamentar, uma definição sobre a possível filiação deve ocorrer em novembro. “Dentro do nosso partido ele terá muitos apoios”, disse Bozzella, que, na divisão interna do PSL, pertence à ala que deixou de apoiar Bolsonaro.

Moro é visto por políticos e analistas como um nome capaz de atrair o apoio de eleitores que deixaram de ter Bolsonaro como opção de voto. O ex-ministro também é alvo do interesse do Podemos. Na semana passada, ele desembarcou no Brasil para conversas com a presidente do partido, deputada Renata Abreu (SP) — atualmente o ex-magistrado mora nos Estados Unidos. Ele prometeu que consultará a família e dará uma resposta até 1° de novembro. Porém, Renata Abreu está tão confiante na confirmação que, a interlocutores, tem anunciado Moro como o nome do partido para a disputa de 2022.

A opção pelo ex-juiz representa uma ameaça aos planos de políticos do União Brasil que também pretendem concorrer ao Planalto. São o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM); o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG); e o apresentador José Luiz Datena (PSL). Pacheco estava, até pouco tempo, com um pé no PSD, atraído pelo presidente do partido, o ex-ministro Gilberto Kassab, que o quer como candidato. Agora, porém, com a fusão entre o DEM e o PSL, as negociações mergulharam em incertezas.

No PSDB, a definição do pré-candidato presidencial ocorrerá durante prévias marcadas para novembro. Estão no páreo os governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, além do ex-senador e ex-prefeito de Manaus (AM) Arthur Virgílio. Atualmente, o partido vive uma divisão interna, causada pela recente filiação da deputada Joice Hasselmann, ex-PSL. A chegada da ex-bolsonarista ao ninho tucano, chancelada por Doria, desagradou boa parte da militância, em especial, grupos que eram próximos ao ex-prefeito paulistano Bruno Covas, falecido em maio.

Périplo
Apontado como favorito pelas pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou por Brasília na semana passada, em mais uma escala do périplo que tem feito pelo país. Ele tenta articular uma aproximação com legendas de centro, principalmente o MDB e o PSD. Mas, em conversa recente, Gilberto Kassab, presidente do PSD, avisou ao petista que a prioridade da sigla é lançar um candidato próprio ao Planalto.

A esquerda deve chegar dividida a 2022. A relação entre o ex-ministro e pré-candidato Ciro Gomes (PDT) e o PT fica cada vez mais desgastada, em razão, sobretudo, dos sucessivos ataques do político cearense à legenda de Lula. Nessa briga, os petistas têm conseguido algumas vitórias, como uma maior aproximação com o PSB, partido cujo apoio também é cobiçado por Ciro.

Enquanto os adversários se movimentam, o presidente Jair Bolsonaro ainda não definiu a legenda à qual vai se filiar para ter a estrutura partidária necessária à campanha à reeleição. PP, PL, Republicanos e PTB estão no radar. O ministro da Casa Civil e presidente licenciado do PP, Ciro Nogueira, tem dito a aliados que o chefe do governo está mais perto de se filiar ao partido.

Bolsonaro também tem prosseguido em viagens pelo país para inaugurações de obras e lançamento de programas, no momento em que amarga os piores índices de popularidade como presidente. Segundo as últimas pesquisas, o fato se deve à insatisfação de grande parte da população com os reflexos do fraco desempenho do governo federal na economia, como desemprego recorde, inflação em alta e aumento da pobreza e da fome.

Preocupado em, pelo menos, conter a queda de popularidade do presidente, o Planalto corre contra o tempo para encontrar uma fonte de custeio para o Auxílio Brasil, um programa destinado a substituir o Bolsa Família e turbinar os recursos transferidos aos beneficiários. Os últimos depósitos do auxílio emergencial serão feitos neste mês de outubro.

Raio-X da União Brasil (se não houver desfiliações)

No Brasil:

82 deputados federais (54 do PSL e 28 do DEM)

8 senadores (6 do DEM e 2 do PSL)

4 governadores (PSL tem RO e TO; DEM tem GO e MT)

554 Prefeitos (464 do DEM e 90 do PSL)

5.546 Vereadores (4.341 do DEM e 1.205 do PSL)

130 deputados estaduais (76 do PSL e 54 do DEM)

Embates devem ser mais tensos

A próxima disputa presidencial promete ser palco de embates calorosos, com um teor de agressividade ainda maior que nos pleitos passados. Entre outras diferenças, ela vai reunir personagens que, de alguma forma, ao longo de suas carreiras, se cruzaram em situações que os transformaram em desafetos pessoais, muito além da disputa política. Analistas ouvidos pelo Correio temem que a discussão de soluções para os graves problemas do país perca espaço para ataques e acertos de contas entre os concorrentes.

Se os atuais postulantes forem confirmados como candidatos por seus partidos, o presidente Jair Bolsonaro vai enfrentar adversários, incluindo ex-aliados, com os quais mantém uma clara relação de inimizade. A lista de desafetos inclui o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); o ex-juiz Sergio Moro, ex-ministro da Justiça do seu governo; o governador de São Paulo, João Doria (PSDB); o ex-ministro Ciro Gomes (PDT); e o médico Luiz Henrique Mandetta (União Brasil), ex-ministro da Saúde de Bolsonaro.

A relação é conturbada também entre os desafetos do presidente. Lula, por exemplo, poderá ficar frente a frente com Sergio Moro, seu algoz da Operação Lava-Jato, que o condenou por corrupção e lavagem de dinheiro, rendendo-lhe 580 dias de prisão na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR) — as condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal (STF), que considerou que Moro agiu com parcialidade nos processos.

As relações entre Doria e Lula também extrapolaram a disputa política, principalmente após declarações nada dignificantes feitas pelo tucano no período em que o petista esteve preso. Entre Lula e Ciro Gomes, a rivalidade também extrapolou para o campo pessoal. O pedetista, até hoje, não perdoa a articulação de Lula que lhe tirou o apoio do PSB nas eleições de 2018.

“No histórico entre os que hoje são os principais postulantes ao Planalto, você tem uma coisa que passa, transcende a questão dos programas, das propostas, e pode descambar para o lado pessoal, principalmente no segundo turno. E o risco é esse: dado à conflagração, a esse ambiente ruim, as grandes questões do país, que hoje não estão sendo efetivamente discutidas, podem ficar em segundo plano nas eleições”, disse o cientista político André Pereira César, da Hold Assessoria Legislativa.

O analista falou sobre outra diferença que a disputa presidencial do próximo ano deve ter em comparação com a passada. “A de 2018 já tinha sido diferente. Não houve a antiga polarização entre PSDB e PT, e deu Bolsonaro. A campanha que se avizinha será uma disputa pós-pandemia, no meio de uma crise que não vai ser solucionada. Então os candidatos vêm para um embate mais forte”, afirmou César.

Eduardo Galvão, professor de relações institucionais do Ibmec Brasília, acredita que a fusão entre o DEM e o PSL, para a criação de um novo partido de direita, o União Brasil, deve levar a uma disputa bastante polarizada e agressiva com o PT.

Ele lembra que, desde a redemocratização, as eleições eram marcadas por embates da esquerda contra a antiesquerda, que, não necessariamente, era a direita. “A gente teve centro, centro-direita, contra a esquerda. Agora a gente está vendo que essa disputa entre esquerda e direita deve continuar, só que agora os partidos de direita estão se organizando com a fusão do DEM e do PSL para criar um partido muito maior que o PT. E essa reorganização de forças deve polarizar ainda mais as eleições no próximo ano entre esquerda e direita”, analisou o docente. (JV)

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