set
21
Postado em 21-09-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 21-09-2021 00:07
DO CORREIO BRAZILIENSA

Levantamento do Atlas Político mostra que passou de 23% em julho para 28% este mês o número de pessoas que buscam uma alternativa a Lula e Bolsonaro. Rejeição de quase 60% do presidente e liderança do petista nas pesquisas antecipam articulações para 2022

O senador Rodrigo Pacheco durante entrevista em fevereiro.
O senador Rodrigo Pacheco durante entrevista em fevereiro.Andressa Anholete
Afonso Benites
Brasília

Faz só uma semana que os grupos Movimento Brasil Livre e Vem Pra Rua realizaram atos para medir nas ruas a temperatura de uma eventual terceira via para as eleições de 2022. Com o mote nem Lula nem Bolsonaro, trocado às pressas de última hora para Fora Bolsonaro, a convocatória terminou em um esvaziado protesto de 12 de setembro. Foi o deleite para os seguidores do ex-presidente petista, que lidera as pesquisas eleitorais, e para os bolsonaristas, que estão em segundo lugar nas intenções de voto a um ano do pleito do ano que vem. A última pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no dia 17, mostra que Lula lidera em todos os cenários, e tem vitória certa num segundo turno contra Bolsonaro, com 56% a 31%.

 Mas fora do Fla-Flu nas redes sociais que lulistas e bolsonaristas levantaram pelo resultado do ato do dia 12, o brasileiro está mais atento a buscar alternativas do que parece. Um levantamento do Atlas Político mostra que, neste momento, há 28% de eleitores que esperam uma nova candidatura fora dos dois nomes que lideram as preferências. Em julho, eram 23%. “Houve uma pequena queda tanto do Lula como de Bolsonaro, mais deste último”, observa Andrei Roman, CEO da Atlas Político. Também o mais recente Datafolha mostra que 38% dos brasileiros ainda não sabem qual é seu candidato, o que deixa uma avenida enorme para novos nomes a entrarem na peleja.

Faltando um ano para as eleições e depois de quase três anos de um Governo de ultradireita que ataca a democracia, nunca houve tanta pressa em marcar posição como em outros tempos. São 11 legendas trabalhando para construir uma terceira via até se tornar competitiva no ano que vem. O presidente do partido Cidadania, o ex-deputado Roberto Freire, diz que a campanha eleitoral se antecipou de uma maneira até então inédita. “Nunca tivemos de discutir nomes com tanta antecedência”, afirma. Seu partido é um dos que participa das negociações pela terceira via, que tem como potencial candidato à presidência o senador pelo Sergipe Alessandro Vieira.

Vieira esteve na avenida Paulista discursando para o público presente, assim como o pedetista Ciro Gomes, a senadora Simone Tebet (MDB-MS), o governador João Doria (PSDB-SP), e o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS). Foi a primeira vez que todos eles mostraram juntos a cara nas ruas. Até o momento, as articulações têm ficado por conta de reuniões semanais entre dirigentes partidários e incontáveis debates online em busca de convergências. A primeira delas, a temática impeachment do presidente Bolsonaro, especialmente depois da ousadia golpista do mandatário diante de seu público nos atos do dia 7 de setembro.

O principal de tudo é a falta de um nome. Não há líderes nesse grupo

Carolina Botelho, cientista política

No entanto, falta consenso sobre quem seria bom de voto para as urnas de 2022, que pudesse catalisar articulações em torno do seu nome. Por ora, o país vive a fase de balão de ensaio, em que vários políticos testam a aceitação junto a potenciais eleitores, para trabalhar articulações em torno do mais prestigiado. “O principal de tudo é a falta de um nome. Não há líderes nesse grupo”, diz a cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do Laboratório de Neurociência da Universidade Mackenzie e do Laboratório de Estudos Eleitorais, das universidades IESP e UERJ. No atual cenário, avalia Roberto Freire, a oposição ao Governo Bolsonaro tem de se articular em duas frentes: se estruturar para a eleição, e pressionar pelo impeachment. “Estou mais otimista do que muita gente. Ainda estamos no primórdio de uma articulação contra o presidente. É a fase de comando de agitação e propaganda”, afirmou Freire.

Desde que as discussões sobre um caminho alternativo a Lula e Bolsonaro surgiram, três nomes já ficaram pelo caminho: o do apresentador Luciano Huck, que decidiu assinar um novo contrato com a Rede Globo, o do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, que se afastou do debate sobre candidatura, e o do ex-dirigente do Novo João Amoêdo, que desistiu após deputados de seu partido insistirem no apoio ao Governo. Se os diálogos avançarem, outros deverão ficar pelo caminho até meados de fevereiro de 2022.

Ciro Gomes discursa no protesto do dia 12 de setembro.
Ciro Gomes discursa no protesto do dia 12 de setembro.AMANDA PEROBELLI / Reuters

Até o momento, um dos nomes mais cotados, já testado pelas pesquisas, é o de Ciro Gomes (PDT), que em 2018 ficou na terceira posição. Atualmente, ele também ocupa a terceira colocação nas pesquisas, com até 12% dependendo do cenário. Mas dirigentes das demais legendas ouvidos pelo EL PAÍS afirmam que Ciro não teria o apoio deles em uma suposta frente ampla e não representaria esse caminho à polarização entre Lula e Bolsonaro.

O ex-governador do Ceará e ex-ministro se identificaria com o mesmo eleitorado de Lula e a avaliação é que, com o andar da campanha, ele pode perder apoio. “O Ciro se perdeu num personagem que nem ele mesmo acredita. Ele tinha um vigor, era um candidato de esquerda, agora não se identifica nem com um lado nem com o outro. Tem um discurso meio confuso. Não convence nem os partidos de centro direita e parece estar perdendo apoio de uma parte da esquerda”, disse a pesquisadora Carolina Botelho.

Outros potenciais candidatos, que já aparecem nas pesquisas de opinião, são os governadores tucanos João Doria Jr., de São Paulo e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. A disputa entre os dois nomes do PSDB é algo que deve ser resolvido nas prévias do partido marcadas para o final de novembro. A rejeição a Doria, no entanto, o coloca em desvantagem. Conforme o Datafolha, o paulista é o terceiro mais rejeitado —atrás de Bolsonaro (59%) e Lula (38%)— com 37%. Leite, por sua vez, se beneficia pelo fato de ainda ser pouco conhecido e tem uma rejeição bem menor —18%, a sétima entre 11 candidatos testados.

A meta do partido é, definida a candidatura, investir em comunicação para, o quanto antes, se chegar aos 15% nas pesquisas. Nos cenários testados até o momento, nenhum dos nomes da terceira via ultrapassa os 5% de apoio. “Se chegarmos aos 15% passaremos a ser vistos como uma boa opção à polarização e atingiremos rapidamente em torno de 25% dos votos, o que deve nos colocar no segundo turno. O difícil é chegar aos 15%”, pondera Marcus Pestana, ex-deputado e presidente do Conselho Curador do Instituto Teotônio Vilela, uma fundação do PSDB que promove debates políticos e prepara as estratégias eleitorais.

O PSDB tem hoje um grupo rachado de deputados que oscila entre fazer oposição a Bolsonaro e seguir apoiando as pautas do Governo. Isso ficou explícito na votação em agosto do projeto de recriação do voto impresso e no apoio ao impeachment, manifestado pelo presidente do partido, Bruno Araújo, logo após os atos golpistas de 7 de setembro. Vários políticos saíram a público para ponderar essa decisão, mostrando a falta de consenso do tucanato.

Na Câmara, por mais que o partido tenha orientado a votar contra o voto impresso, uma pauta claramente bolsonarista, 14 de seus 31 deputados contrariaram as ordens da legenda. E como ser terceira via se ainda tem esse grupo alinhado com o atual presidente? “Nós temos primeiro que resolver esse nosso problema interno, para depois seguir aprofundando nossas conversas com os outros partidos. E isso não quer dizer que o nosso nome será o candidato do grupo todo”, diz Pestana. Tanto o PSDB como os demais ainda têm o tempo a seu favor até a campanha eleitoral de fato. “O ex-presidente Tancredo Neves falava que, perto da eleição, o poder futuro tem mais força que o poder presente. Ou seja, quando você gera expectativa de poder, os oportunistas largam o osso e se reposicionam”, completa o ex-deputado tucano.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2021
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     12345
    6789101112
    13141516171819
    20212223242526
    27282930