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Postado em 12-09-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 12-09-2021 00:34

 

Gama Livre: Jânio Ferreira Soares, no Bahia em Pauta: O Rio São Francisco, mesmo com milhões de metros cúbicos sem oxigênio, manda de Paulo Afonso um recado de vida e resistência
CRÔNICA

 

Quando John Lennon nos chamou para sonhar

Janio Ferreira Soares

Numa dessas raras e felizes coincidências – provavelmente arquitetada por algum Deus que ama os Beatles, os Stones e a Democracia -, na mesma hora em que milhares de insanos saíam às ruas empunhando armas e bandeiras de um país que desconheço, o verso “Imagine all the people living life in peace” (Imagine todas as pessoas vivendo em paz) era projetado na Catedral de St. Paul e no Parlamento, em Londres, e em prédios de Berlim, Tóquio e Liverpool, cidade natal de seu autor. É que nessa semana o mundo civilizado festeja 50 anos do lançamento de “Imagine”, obra prima que John Lennon nos presenteou antes de ontem, 9 de setembro, só que em 1971.

Na ocasião, quando de férias em Salvador, eu vivia ligado na Rádio Cruzeiro, pois nela havia um locutor que traduzia sua letra enquanto a música rolava. E você não tem ideia do que representava para um jovem ávido, em plena ditadura militar, saber que o genial ex-beatle o chamava pra sonhar junto a ele um mundo sem paraíso nem inferno (portanto, sem religiões), sem nações a provocar guerras, sem motivos pra matar ou morrer, com todos vivendo em paz e harmonia sob o firmamento que, em noites sem luzes, até hoje, assemelha-se a um lindo escudo celestial pronto a nos blindar de nossos medos.

Pois bem, meio século depois, eis-me aqui no meu cantinho protegido pelas rezas das tias que me restam e por entes alados que me amparam toda vez que tentam sabotar as cordas do meu trapézio, ainda sonhando, sim, em voltar a viver num país onde as músicas possam soar na cadência das águas de março, na alegria daquele abraço, no galope de um coração alado ou no mistério de algum objeto não identificado.

Onde os livros tenham aquele jeito itaparicano e erudito do velho João Ubaldo ou então a picância exata do nosso Jorge Amado; onde as poesias exalem o perfume das begônias de Adélia Prado e espalhem as deliciosas insignificâncias dos jardins de seu Manoel de Barros; onde as crônicas que nunca fiz me acordem bem cedinho, tanto faz se no grito duma suindara rasgando mortalhas ou se num canto de um raro passarinho.

Onde o navio de Fellini passe lentamente nesse meu rio, levando no seu convés Brigitte e Lollobrigida; Django e Cantinflas; Deneuve e Sophia; Glauber e Macunaíma, todos me acenando e gritando: “Tchau, bambino, Janio!”, enquanto Morricone rege um trio formado pelo bom, o mau e o feio, executando o tema de Cine Paradiso.

Onde o futebol seja movido pela doce ingenuidade de um Baiaco (“A gasolina pode subir todo dia, que eu só boto 50 contos”!), pela coragem do punho cerrado de Reinaldo, por um golaço de Zico num Maracanã lotado ou por qualquer verso de Pelé rabiscado no gramado, pois o Rei, como bem disse outro cracaço de nome Romário, “Foi nosso poeta maior”, desde que… calado.

Você me acha um sonhador, querido leitor e amada leitora? Pois saiba que não sou o único. Viva Lennon e, pra manter a chama acesa, bye, bye, Bozo!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do Rio São Francisco.

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