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Postado em 05-09-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 05-09-2021 00:08

DO EL PAÍS

A fotógrafa Kiana Hayeri saiu do Afeganistão rumo a Doha em 15 de agosto, depois de trabalhar durante sete anos no país. Centrada na situação das mulheres e crianças afegãs, ela tirou esta foto em 5 de maio na escola feminina Marshal Dostum, em Sheberghan. A cidade foi tomada pelos talibãs em 6 de agosto. As afegãs têm medo, mas principalmente desesperança. E contam isso em primeira pessoa

Três alunas da escola Marshal Dostum, em maio deste ano, em Sheberghan, no norte do país, uma das primeiras capitais a cair em agosto.
Três alunas da escola Marshal Dostum, em maio deste ano, em Sheberghan, no norte do país, uma das primeiras capitais a cair em agosto.KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

 Ángeles Espinosa

|Kiana Hayeri
“Se a comunidade internacional não ouvir nosso apelo e alguns países reconhecem os talibãs, será uma catástrofe”, alerta Farzana. Essa engenheira afegã de 42 anos dedicou sua vida adulta a trabalhar por uma sociedade civil e pelos direitos das mulheres. Agora, vê em perigo tudo pelo que lutou. Incluindo sua vida e a de sua família. Seu caso é um exemplo, entre milhões, das possibilidades que a derrota do regime talibã pelos Estados Unidos abriu para os afegãos em 2001, e que agora eles veem ser irremediavelmente fechadas com os barbudos novamente em Cabul.
Gaisu Yari é uma referência para as mulheres do Afeganistão. Comissária de Assuntos Sociais do Governo anterior, formada nos EUA, teve de abandonar o país com a chegada dos talibãs. Esta fotografia foi tirada em Cabul em março de 2020.
Gaisu Yari é uma referência para as mulheres do Afeganistão. Comissária de Assuntos Sociais do Governo anterior, formada nos EUA, teve de abandonar o país com a chegada dos talibãs. Esta fotografia foi tirada em Cabul em março de 2020.KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

Farzana (nome falso para proteger sua identidade) nasceu em uma das províncias do norte do Afeganistão em 1979. Aquele ano fatídico, que começou com a revolução iraniana, terminaria com a invasão soviética de seu país e desencadearia uma onda islamista que mudou o mundo para sempre. Mas, acima de tudo, marcou sua vida e a dos demais afegãos, especialmente a das mulheres. Antes que ela completasse 11 anos, já havia explodido a guerra contra a ocupação soviética, seguida por um conflito civil ainda mais brutal. Na idade em que deveria ter entrado na universidade, uma milícia de fanáticos religiosos tomou o poder e trouxe paz, mas destruiu seus sonhos.

Nas ruas, as pessoas se referiam a eles como “os talibãs” (estudantes) porque tinham sido recrutados nos seminários islâmicos do vizinho Paquistão, onde centenas de milhares de afegãos que fugiram da guerra se refugiaram durante os anos anteriores. Sob sua interpretação particular e extrema do islã, as mulheres perderam os poucos direitos que tinham em uma sociedade patriarcal, pobre e atrasada. A partir dos 10 anos, já não podiam sair à rua sem ser acompanhadas por um homem de sua família e sem se cobrir com uma burca (uma veste que oculta o corpo inteiro, exceto por uma abertura na altura dos olhos). Para elas, estudar além da escola primária (onde houvesse) era proibido.

A fotógrafa Kiana Hayeri saiu do Afeganistão rumo a Doha em 15 de agosto, depois de trabalhar durante sete anos no país. Centrada na situação das mulheres e crianças afegãs, ela tirou esta foto em 5 de maio na escola feminina Marshal Dostum, em Sheberghan. A cidade foi tomada pelos talibãs em 6 de agosto.
A fotógrafa Kiana Hayeri saiu do Afeganistão rumo a Doha em 15 de agosto, depois de trabalhar durante sete anos no país. Centrada na situação das mulheres e crianças afegãs, ela tirou esta foto em 5 de maio na escola feminina Marshal Dostum, em Sheberghan. A cidade foi tomada pelos talibãs em 6 de agosto. KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

Por mais que os artigos jornalísticos repitam uma e outra vez, é muito difícil compreender o que isso significa. Talvez o esgotamento vivido durante o confinamento pela pandemia permita ter uma ideia. Multiplique esse confinamento por cinco anos, em casas muito modestas, sem comodidades e, frequentemente, sobressaturadas com famílias ampliadas por parentes que fugiram de áreas de combate. Com as meninas e mulheres da casa à mercê dos homens para limpar, cozinhar e satisfazer seus apetites sexuais. Sem nenhum contato com o exterior. Não havia internet e os talibãs proibiram até a televisão.

Fui testemunha desse horror em uma viagem a Cabul em 1422. Sim, você leu bem, não é um erro tipográfico. Esse era o ano do calendário islâmico que os islamistas usavam, e assim ficou marcado em meu passaporte aquele maio de 2001. Não era um regime medieval, era um regime cruel. Até mesmo na Idade Média as mulheres podiam ganhar a vida. Já os talibãs as proibiram de trabalhar fora de casa. Com o agravante de que, àquela altura, duas décadas de guerra tinham deixado quase dois milhões de viúvas, que eram o único sustento para seus filhos. Na capital, então uma cidadezinha de apenas um milhão de habitantes, metade das famílias tinha uma mulher à frente.

A atriz Hasiba Ebrahimi, que abandonou o país há um ano diante das ameaças dos talibãs, em uma foto tirada em Cabul em março de 2020. Refugiada na Austrália, comenta de seu exílio para o EL PAÍS: “Apesar dos problemas emocionais que esta situação me provoca, vou fazer o melhor que puder pelas crianças e mulheres afegãs através da mídia. O futuro das afegãs está nas mãos dos líderes mundiais”.
A atriz Hasiba Ebrahimi, que abandonou o país há um ano diante das ameaças dos talibãs, em uma foto tirada em Cabul em março de 2020. Refugiada na Austrália, comenta de seu exílio para o EL PAÍS: “Apesar dos problemas emocionais que esta situação me provoca, vou fazer o melhor que puder pelas crianças e mulheres afegãs através da mídia. O futuro das afegãs está nas mãos dos líderes mundiais”. KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

A experiência foi dura. As imagens fora de Cabul eram bíblicas, com crianças descalças conduzindo burros carregados de palha. Na capital, chegou a ser incômodo. Os olhares dos homens pareciam me despir. “Fazia cinco anos que não viam o rosto de uma mulher que não fosse de sua família imediata”, desculpou-se um funcionário das Nações Unidas.

Mas os políticos são políticos em todos os lugares. O regime de apartheid que os talibãs impunham às afegãs deixava de fora as jornalistas estrangeiras, transformadas, por passe de mágica, em uma espécie de homens honorários. É verdade que o acesso ao país era complicado, mas na hora de transmitir sua mensagem os extremistas não faziam distinções. Pude até entrevistar seu ministro de Relações Exteriores, Wakil Ahmad Muttawakil, a face visível do setor moderado do Talibã.

Afegãos desolados após um atentado da insurgência contra uma escola em Cabul em maio.
Afegãos desolados após um atentado da insurgência contra uma escola em Cabul em maio.KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

As leituras anteriores à minha viagem alertavam que, nesses casos, a repórter deveria ficar na sala ao lado e fazer as perguntas com uma cortina no meio. Quando chegou a hora, só faltou o ministro apertar minha mão. Nós nos sentamos frente a frente em poltronas separadas. Ele falava inglês bem e se mostrou cordial. Também não se esquivou do olhar direto que outros talibãs com quem interagi evitavam. Aceitou até que eu tirasse algumas fotos dele, apesar do tabu em relação ao regime. Saíram muito escuras. Não sei se foi porque a câmera era descartável ou por causa do ambiente.

Fosse por convicção ou pela situação de emergência humanitária que o país vivia, Muttawakil ofereceu um discurso apresentável para o Ocidente. Admitiu que as meninas tinham de estudar, mas “de acordo com os princípios do islã”. O mesmo adendo que, 20 anos depois, seus sucessores repetem. Sua interpretação desses princípios limitava muito o alcance de suas palavras.

Uma família se despede em 1º de junho, em Cabul, daqueles que partem, jogando água para que seu caminho seja luminoso e voltem logo.
Uma família se despede em 1º de junho, em Cabul, daqueles que partem, jogando água para que seu caminho seja luminoso e voltem logo. KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

Sejam quais forem as promessas dos talibãs hoje, essa é a sombra que paira sobre as afegãs. Foi também a experiência que Farzana viveu até que os bombardeios dos Estados Unidos em represália pelos atentados do 11 de Setembro derrubassem a ditadura fundamentalista no final de 2001. Ela não demorou para se matricular na universidade, onde obteve seu diploma de engenheira em 2011. Enquanto estudava, começou a colaborar com organizações que cuidavam da infância e da saúde. “Desde então, trabalhei duro para melhorar a vida das mulheres e das pessoas das áreas rurais”, confidencia, sabendo que esse trabalho de promoção da educação, da saúde e dos direitos das meninas a colocou na mira dos extremistas.

Graças ao trabalho de Farzana e de milhares de mulheres como ela, a sociedade afegã deu uma guinada nestas duas décadas: a escolarização das meninas no ensino fundamental chegou a 80% (de um ponto de partida próximo de zero), caiu significativamente a gravidez em adolescentes e um número sem precedentes de afegãs se incorporou ao mercado de trabalho. A Constituição democrática lhes reservou um de cada quatro assentos do Parlamento. Com seu empenho, elas assumiram 20% dos cargos públicos, segundo dados do Banco Mundial.

Hosna Jalil, vice-ministra do Interior (à direita), e a capitã Rahima Ataee. As duas mulheres faziam parte do Governo anterior e foram fotografadas em junho de 2020.
Hosna Jalil, vice-ministra do Interior (à direita), e a capitã Rahima Ataee. As duas mulheres faziam parte do Governo anterior e foram fotografadas em junho de 2020.KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

Bastava dar uma volta pela área de Paktonistan Wat na hora da saída dos ministérios para ver a numerosa presença feminina. Não só nos de Economia e Relações Exteriores. Também nas pastas da Defesa e do Interior, onde Munera Yousufzada e Hosna Jalil (fotografada por Kiana Hayeri nestas imagens) quebraram tabus como vice-ministras. Além de médicas e professoras, duas ocupações mais fáceis de aceitar em uma sociedade conservadora, as afegãs também quiseram ser militares como a capitã Rahima Ataee, policiais como a tenente Zala Zahai (também fotografadas) ou rappers como Ramika Khabari.

A alferes Zala Zazai (de costas), uma das primeiras mulheres policiais do país (na foto, em Khost em junho de 2020).
A alferes Zala Zazai (de costas), uma das primeiras mulheres policiais do país (na foto, em Khost em junho de 2020).KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

“As mulheres fizeram progressos extraordinários”, constata Freshta, pseudônimo com que pede ser identificada a até agora diretora de um veículo de comunicação provincial, de 39 anos. “O fato de a Constituição consagrar a igualdade de direitos entre homens e mulheres nos permitiu votar e ser candidatas, dirigir organizações oficiais e não governamentais, abrir empresas e realizar atividades culturais”, destaca, antes de lembrar que “tudo isso foi conseguido nas últimas duas décadas; não existia com os talibãs”.

Não foi fácil. Elas tiveram de superar muitos obstáculos para transformar seus sonhos em realidade. “Na universidade e no meu bairro, tenho de me cobrir o rosto para evitar os insultos”, contou-me Khabari quando a entrevistei. Algumas vezes passaram medo, como muitas estão passando agora com a incerteza que paira sobre o futuro de seu país. Mas sempre acreditaram que valia a pena. Tinham esperança de que as coisas estavam melhorando pouco a pouco. Mesmo Wajmah, que depois de se casar optou por ficar em casa e cuidar de sua família, agradecia poder sair à rua sem burca (embora se cobrisse com um lenço) e saber que suas duas filhas poderiam estudar.

Rada Abkar, fotógrafa e estilista, em uma exibição de seu trabalho em março de 2020, antes da ofensiva talibã.
Rada Abkar, fotógrafa e estilista, em uma exibição de seu trabalho em março de 2020, antes da ofensiva talibã. KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

Zoha, uma jornalista independente que trabalhou principalmente nas áreas rurais, enfatiza que lá “as mudanças também foram enormes”, embora admita que “nas áreas mais inseguras, meninas e mulheres tiveram dificuldades para ir à escola ou não puderam exercer suas liberdades básicas”. Para ela, o direito de participar da vida política deu às afegãs “o poder para lutar por seus direitos e trabalhar por outras mulheres”.

Agora voltou o medo, sim, mas principalmente a desesperança. “As conquistas das últimas duas décadas, a democracia pela qual tanto lutamos, estão gravemente ameaçadas”, alerta Farzana. “A Constituição, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o trabalho das mulheres fora de casa, sua liberdade de movimentos… dá a impressão de que perdemos tudo.”

A piscina Amu fica em Cabul. E nos últimos anos foi uma das duas que as mulheres podiam frequentar. Esta foto foi tirada em novembro de 2019.
A piscina Amu fica em Cabul. E nos últimos anos foi uma das duas que as mulheres podiam frequentar. Esta foto foi tirada em novembro de 2019. KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

Uma jovem artista, que não aceita ser identificada nem com um apelido, considera que o que está acontecendo é horrível. “Não sei como vou sobreviver. Nem os homens podem aguentar esta situação, estão desesperados tentando sair [do país]. Preferem morrer [tentando] a viver sob o regime talibã. Assim, como é que mulheres como eu, uma artista apaixonada pela música, seremos capazes de aguentar? Neste momento, estou buscando alternativas”, admite, desolada com a ideia de ter de sair do Afeganistão e se tornar uma solicitante de asilo em um país distante.

Freshta lembra com nostalgia que seu trabalho a levou a viajar por meio mundo e a receber numerosos prêmios. “E isso em um país tradicional e com um ambiente social pouco favorável, porque a maioria da comunidade era contra as mulheres trabalharem, especialmente na mídia. Nossa geração abriu caminho para as jovens que vieram depois.” Por isso, ela teme agora que os talibãs no poder tentem impor novamente suas regras. “Isso significaria que não há lugar nem oportunidades para as mulheres no Afeganistão”, conclui.

Grupo de mulheres trabalha o açafrão em Herat (dezembro de 2018).
Grupo de mulheres trabalha o açafrão em Herat (dezembro de 2018). KIANA HAYERI / New York Times / ContactoPhoto

Elas reconhecem que seu país é conservador, mas sentem o rigorismo exibido pelos talibãs como algo alheio a elas. “Com meu trabalho, eu podia ter acesso a mulheres de aldeias que não falam com homens, que confiavam em mim e cuja voz eu tentava transmitir”, conta Zoha. Quem ouvirá agora suas penas e preocupações?

Para Farzana, é difícil até verbalizar o que as espera. A ideia de que as mulheres sejam proibidas de trabalhar, como já está ocorrendo em algumas províncias, só possam sair à rua acompanhadas de um homem ou tenham de usar a burca é dolorosa demais para elas. É o esforço de 20 anos perdido. Mas agora que as afegãs conhecem seus direitos, será mais difícil silenciá-las. Algumas, corajosas, atreveram-se a pedir que os talibãs as incluam em seu Governo. Estão dispostas a lutar de dentro para manter cada centímetro conquistado. Outras não podem se arriscar e trabalharão de fora. Todas elas lutam em seu foro íntimo contra a desesperança que as invade.

Em uma imagem do passado que dificilmente se repetiria agora, um grupo de mulheres pratica ioga em Cabul em abril. A fotógrafa Kiana Hayeri é pessimista: “Não vejo luz no fim do túnel”.

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