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Colunistas do JB| O Outro Lado da Moeda

Foi a perda de renda que travou o PIB, estúpido

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CPDOC JB
Credit…CPDOC JB

Por GILBERTO MENEZES CÔRTES

 

Em novembro de 1992, o democrata Bill Clinton venceu George Bush (pai) que custou a entender como o “herói” de um ano antes, saudado nas cidades americanas quando as forças aliadas, lideradas pelos Estados Unidos, expulsaram as tropas de Saddam Hussein, que tinham invadido o Kuwait. Coube ao marqueteiro de Clinton, James Carville, traduzir a questão rudemente: “É a economia stupid” (em inglês o sentido está mais para bobo, idiota, não a tradução rasteira de estúpido que adotamos por aqui). Pois agora, vivemos algo parecido.

O Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 5,9% no 1º semestre de 2020, quando a decretação da pandemia da Covid-19 na 2ª metade de março, derrubou a produção e o consumo nos meses de abril, maio e junho (queda de 11,4% frente ao 1º trimestre). Por isso, não dá para comemorar o crescimento de 6,4% no 1º semestre de 2021, anunciado nesta 4ª feira, 1º de setembro, pelo IBGE. No 2º trimestre o PIB encolheu 0,1% (Bradesco e Itaú previam expansão de 0,2%) e, após a escalada da inflação com o aumento de 50% na tarifa de energia em setembro, os bancos estão revisando para baixo as projeções de 2021 e de 2022.

Antes da crise hídrica se instalar – que afetará a produção industrial e o consumo das famílias, além de efeitos secundários na agropecuária e no setor de serviços – a previsão era de que o PIB poderia crescer até 0,9% neste 3º trimestre e 5,7% no ano (previsão do Itaú). No acumulado de quatro trimestres o PIB cresceu 1,8%. Faltaria uma forte aceleração neste 2º semestre. Mas já ninguém mantém esta aposta. A LCA Consultores prevê que a alta de 50% na energia elevará a inflação em 0,30 p.p. em setembro empurrando a taxa de 2021 para 7,7% e forçando o Banco Central a aumentar a Selic a 8% ao ano. Com isso, o PIB cresceria só 5% este ano e 2% em 2022 (antes do tarifaço, o Itaú esperava apenas +1,5% em 2022).

Consumo das famílias, o termômetro do PIB

O consumo das famílias – atrelado ao emprego e à renda (que determina a capacidade de consumo de cada família, quando a inflação não tira poder de compra) – tem sido o fator determinante da expansão ou recuo do PIB. Até porque, pelo lado da demanda, representa cerca de 63% do PIB. No 1º semestre de 2020, o PIB encolheu 6,4% e o consumo das famílias caiu 7,1%. Em 2020, enquanto o PIB encolheu 4,1%, o consumo das famílias caiu 5,5%.

No 2º trimestre de 2021, o PIB teve contração de 0,1% e o consumo das famílias ficou estagnado. No acumulado do 1º semestre (frente a igual período de 2020), o PIB avançou 6,4%, mas o consumo das famílias só aumentou 4,2%. E no acumulado de quatro trimestres, o placar é de avanço de 1,8% para o PIB contra queda de 0,4% no consumo das famílias. Está explicado para os que acreditaram em um cenário de franca recuperação em 2021?

Em compensação, os gastos do governo voltaram a se expandir 0,7% no trimestre e tendem a crescer com a redução das desonerações fiscais e aumento nos gastos do Bolsa Família e outros projetos já visando a formação de palanque eleitoral para 2022. A política fiscal ainda expansionista, com previsão de déficit primário (receitas menos despesas, excluídos os juros da dívida pública) de R$ 49,5 bilhões no ano que vem, deixará o Banco Central com margem mais estreita para manobras, daí a aposta da LCA de que a Selic vai ficar em 8%. O que travará a economia em 2022, com uma base de comparação não deprimida, como 2020.

O erro dos estoques no 1º Tri

Outro fator muito celebrado no crescimento de 1,2% do 1º trimestre (puxado pela alta de 5,7% da produção agropecuária – a colheita da soja, principal produto agrícola, ocorre no período -, que teve encolhimento de 3,8% no 2º trimestre pela redução da safra do café) foi o crescimento de 4,8% na Formação Bruta de Capital Fixo.

Na ocasião, muitos economistas observaram que houve uma excessiva formação de estoques de produtos industriais no 1º trimestre que deturpavam o levantamento (no final de 2020 houve fato semelhante, com a importação de equipamentos de prospecção de petróleo para desfrutar dos incentivos do Repetro (regime fiscal especial).

Pois neste 2º trimestre a FBKF teve encolhimento de 3,6%, mostrando que muita gente se deixou levar em clima de euforia, fazendo prever crescimento de 7% no PIB deste ano. De fato, sobre a base deprimida do ano passado, o 1º semestre registrou alta de 6,4% no PIB. Mas isso nada significa.

Numa perspectiva de longo prazo, o indicador da FBKP serviria de termômetro da taxa de investimento, ou seja, da sustentabilidade do crescimento. Investimentos em infraestrutura são fundamentais. Não apenas para o aumento da produção e da produtividade (com máquinas mais modernas), mas para a superação de gargalos – como o da oferta de energia, cuja taxa de crescimento do consumo tende a superar a do PIB. Tomando por base o ano de 1995 como 100, o IBGE mostrou que o PIB estaria em 171,4 pontos (expansão de 71,4%) no fim do 1º trimestre de 2021. Já a taxa acumulada da FBKF era de 171,8%. Quase sem folga.

O voo da galinha

Ou seja, há pouca margem para sustentar o crescimento. Sem investimentos em infraestrutura e um ambiente economicamente estável (inflação e gastos públicos sob controle) uma economia só permite voo de galinha. Quem conhece aves sabe que os patos e marrecos voam mais tempo e mais alto do que qualquer galinha, cujos voos se caracterizam por pequenos espasmos de crescimento, sem sustentabilidade.

No Brasil tudo que falta no momento é estabilidade. Os gastos fiscais seguem trajetória de fortes desequilíbrios (os indicadores de endividamento deste ano melhoraram com a recuperação, não muito forte, do PIB e, principalmente, com a alta dos preços, sobretudo de produtos influenciados pelas cotações internacionais e a taxa do dólar). Já a infraestrutura pode ser resumida na crise hídrica (latente desde 2020, sem que o governo se antecipasse a ela, com o lançamento de projetos de energia solar, por exemplo, que poderiam poupar água nos reservatórios das usinas hidroelétricas).

Um indicador complementar que pode captar parte do aumento do parque produtivo é o desempenho da construção (nos dados do IBGE entram as atividades de construção civil, mais ligadas à indústria imobiliária e ao comércio – shoppings, por exemplo – e a construção pesada (estradas, ferrovias, portos, hidroelétricas, instalações industriais). Pois a construção avançou 2,7% no 2º trimestre frente ao 1º, enquanto o PIB caía 0,1%, e 13,1% sobre igual período de 2020, contra alta de 12,4% do PIB, na mesma base de comparação. E no acumulado de 4 trimestres, enquanto o PIB acumulava alta de 1,8% a construção ainda registrava baixa de 0,7%. Há muito o que recuperar.

Brasil, o país da piada pronta.

No mesmo dia 31 de agosto:

A Procter & Gamble, gigante da higiene&limpeza, divulga pesquisa que mostra que o brasileiro é o povo que mais toma banho no mundo – média de 8,6 banhos por semana.

À noite, o Ministro das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, diante da crise energética, pede na TV para o povo não usar o chuveiro elétrico. Ou seja: tomar menos banho.

A reação de muitos espectadores foi de mandar o ministro pro chuveiro.

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