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Postado em 20-07-2021
Arquivado em (Artigos) por vitor em 20-07-2021 00:04
DO EL PAÍS

PT, PSOL e PCdoB lançaram notas focando as críticas no embargo comercial norte-americano que asfixia a economia cubana há mais de meio século, mas há também vozes falando sobre a importância de olhar a dinâmica da política doméstica

Cubanos se manifestam contra o Governo no último domingo, 11 de julho, em Havana.
Cubanos se manifestam contra o Governo no último domingo, 11 de julho, em Havana.Ernesto Mastrascusa / EFE
 
São Paulo

Criticar publicamente o regime cubano ainda é um tabu entre a esquerda brasileira. Militantes e os principais partidos progressistas do país vêm se manifestando nas redes sociais e através de comunicados reconhecendo, em grande parte, a legitimidade dos protestos em Cuba, ao mesmo tempo em que se esquivam de criticar o Governo de Miguel Díaz-Canel. Pelo contrário, o apoio a ele parece ser quase uma unanimidade. O foco é na exaltação no que consideram ser conquistas sociais da Revolução Cubana e nas críticas ao embargo comercial promovido pelos Estados Unidos há mais de meio século, tendo como agravante as mais de 200 sanções econômicas impostas à Ilha pela administração Donald Trump e que ainda não foram suspensas por seu sucessor, o democrata Joe Biden. Ficaram de lado as várias contradições internas, como as reformas econômicas promovidas no ano passado que agravaram a situação, a insatisfação da juventude e o papel da internet entre as novas gerações.

A sociedade cubana está em movimento e promoveu no último domingo, 11 de julho, os maiores protestos em quase 30 anos. As causas parecem ser múltiplas e envolvem desde demandas por liberdade política e democracia como também o cansaço por viver numa situação de sufocamento econômico, com cortes de eletricidade, falta de medicamentos ou alto custo dos alimentos. Ao bloqueio econômico se somam as reformas promovidas pelo Governo no fim do ano passado, que unificou moedas, assim como as dificuldades geradas pela pandemia da covid-19. Apesar de inéditas em muito tempo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principal líder de esquerda do país e possivelmente da América Latina, tratou de minimizar a questão. “O que está acontecendo em Cuba de tão especial pra falarem tanto?! Houve uma passeata. Inclusive vi o presidente de Cuba na passeata, conversando com as pessoas”, afirmou durante uma entrevista à radio Bandeirantes na última terça-feira. Trechos da conversa foram compartilhados em suas redes sociais. “Já cansei de ver faixa contra Lula, contra Dilma, contra o Trump… As pessoas se manifestam”, afirmou, como se protestos na Ilha fossem corriqueiros.

Além de tecer críticas ao embargo norte-americano, tratou de comparar a repressão na Ilha à violência policial dos Estados Unidos. “Mas você não viu nenhum soldado em Cuba com o joelho em cima do pescoço de um negro, matando ele… Os problemas de Cuba serão resolvidos pelos cubanos”, afirmou, sem mencionar a denúncia de organizações não-governamentais de que há mais de 200 pessoas presas ou desaparecidas depois dos protestos. Nas redes sociais, o PT tratou de se mostrar solidário ao regime cubano.

O PSOL e o PCdoB se manifestaram através comunicados. O primeiro reconheceu a legitimidade dos protestos e reafirmou a “confiança no Governo cubano e em seus esforços para contornar a grave crise econômica sem afetar as conquistas da revolução”. Também repudiou “quaisquer interferências estrangeiras nos assuntos internos de Cuba” e denunciou o bloqueio econômico imposto pelos EUA. Já o segundo partido sequer reconheceu que há demandas legítimas por parte da população. Afirmou que “o povo cubano vem enfrentando uma nova onda reacionária golpista” e que, pouco depois de boas notícias, como a autorização para o uso da vacina cubana Abdala, “irrompe na mídia ocidental uma série coordenada de imagens que tentam projetar para o mundo a ideia de que uma grande revolta popular estaria em curso”. Outras importantes lideranças de esquerda também se posicionaram nas redes. Guilherme Boulos (PSOL), candidato a presidente em 2018 e a prefeito de São Paulo em 2020, tratou de minimizar a questão. “Cuba teve 1.584 mortes por Covid em toda a pandemia, menos do que qualquer bairro de São Paulo. Mesmo sob um bloqueio econômico perverso está desenvolvendo sua própria vacina. E tem gente por aqui pedindo SOS para Cuba…”, escreveu em seu perfil no Twitter.

Mais ao centro, os ex-ministros Marina Silva (Rede), candidata a presidente em 2010, 2014 e 2018, e Ciro Gomes (PDT), também candidato ao Planalto nas últimas eleições e pré-candidato em 2022, foram mais duros com o Governo cubano. “O embargo imposto pelos EUA para castigar os cubanos tem, nos últimos tempos, aprofundado a crise de abastecimento, econômica e sanitária no país. Some-se a isso um regime político fossilizado que restringe as liberdades individuais. O apelo à revolução serve apenas ao proselitismo dos burocratas que controlam o poder na ilha”, escreveu a ambientalista em nota divulgada nas redes sociais. Já Ciro publicou nesta sexta-feira, 16 de julho, um vídeo no qual busca se distanciar tanto do presidente Jair Bolsonaro, ao defender a soberania de Cuba e o princípio da autodeterminação do povo cubano, como do PT, ao dizer que o regime da Ilha é uma “ditadura política”.

Para a jornalista e cubanista Vanessa Oliveira, que lançará neste ano o livro Google em Cuba: novas mídias, velhas intervenções, pela Editora Elefante, estas são manifestações históricas, sem precedentes além do Malaconazo em 1994. “Não estava no imaginário das últimas gerações uma movimentação desse tipo”, explica Oliveira. Para ela, a avaliação das esquerdas brasileiras sobre o que acontece no país fica muitas vezes pautada pelo “mito Cuba”, e não numa leitura de sua conjuntura interna atual. “Existe uma tensão há bastante tempo de várias forças” da sociedade cubana, inclusive “de grupos mais à esquerda” que encontram dificuldades de acessar os dispositivos de escuta “engessados” do regime. “Temos uma esquerda institucionalizada [no Brasil] precisando falar sobre uma esquerda revolucionária que teve seu auge há 60 anos. Existem incongruências na hora de voltar a conquistas desse período e de usar isso pra explicar um processo novo que pouco sabemos, principalmente se você não está conectado todo tempo à Ilha”, explica.

O frade dominicano e escritor Frei Betto, que possui uma relação de décadas com Cuba —tendo inclusive exercido um papel no desgelo das relações com os EUA em 2014, durante o Governo Barack Obama—, explica que “inimigo a gente denuncia e amigo a gente critica”. Por ter trânsito com as autoridades cubanas, explica ele, “lá eu faço minhas críticas”. Mas reconhece as “enormes” dificuldades enfrentadas pelos cubanos. “Juntou o bloqueio com a mudança da moeda e a pandemia. Mas a imprensa super dimensiona Cuba como se aqui fosse uma perfeita democracia. E, para mim, democracia não é votar a cada dois anos, para mim é a partilha econômica”, argumenta. Ele nega, por exemplo, que haja a prática de tortura em Cuba por parte das forças de segurança. “Eu já conversei com vários ex-presos políticos, e nunca me descreveram tortura. Sempre falei para Fidel que se soubesse que há tortura, eu cairia fora. Eu passei por isso, fui preso duas vezes na ditadura, e isso é um principio meu de que não abro mão”, explica ele, ao defender o regime cubano.

Papel da internet e influência dos EUA

Um fator que parece ser incontestável é o papel da Internet nessa onda de protestos e a influência norte-americana que chega através dela. Oliveira, que mantém contato com ativistas e amigos cubanos, afirma que existe uma demanda das novas gerações por “mais oportunidades e por acabar com a sensação de estar fora jogo, em isolamento”. Não é só uma questão econômica ou de burocracia política, explica ela, mas também de mudança gradativa do ethos social. “De repente você tem essas ferramentas de empresas estadounidenses [redes sociais, smartphones] que priorizam o indivíduo e isso impacta os desejos das novas gerações por participação. Talvez a burocracia cubana não seja suficiente para absorver essas demandas agora. Mas não necessariamente esses jovens querem um capitalismo feroz. A demanda das pessoas é também por fortalecimento das políticas de Estado, por mais diálogo, por instrumentos de escuta que se renovem…”, argumenta a cubanista. “Existe um grito de rua por liberdade que vai funcionar pra chamar atenção da mídia no exterior, mas na hora que você vai falar com as pessoas a demanda é pelo básico”.

Ela considera que o Governo Díaz-Canel sabe que possui questões estruturais a serem resolvidas e que o regime, após o desgelo das relações com os Estados Unidos, caminhava para uma maior abertura política. Com o Governo Trump, esse processo foi interrompido. Além disso, Oliveira opina que a reforma econômica do final de 2020 foi um tiro no pé. “Então, você tem essa crise econômica combinada com uma insatisfação popular, as redes sociais… A mídia de Miami chega hoje a Cuba de uma maneira que não chegava antes. Temos também uma internet que prioriza polarização, prioriza a fake news”, explica ela, sobre a atual conjuntura cubana que as esquerdas brasileiras têm dificuldade de ver. “Esse momento de insatisfação, de crise social, de crise econômica, cuja raiz inescapável são 60 anos de embargo imposto pelos EUA, vai casar com essa potência que é a rede social, que não viabiliza o diálogo, mas a polarização.”

Frei Betto reconhece que a Internet está trazendo mais informação, mas ressalta que “ela é controlada unicamente pelo capitalismo”. E faz uma das poucas críticas ao Governo cubano: “Um dos erros que a revolução sempre cometeu foi comparar Cuba mais com os EUA do que com o resto da America Latina. A juventude cubana se compara com aquilo que se passa nos EUA, é um erro”, argumenta. “Esses jovens não têm ideia de como as coisas do ponto de vista social são muito melhores do que no Brasil, em Honduras, no Panamá, na Guatemala… A revolução deveria trabalhar melhor a educação política dos jovens, existe uma falha nesse sentido”, completa. Ele também diz ser falsa a informação de que a Internet foi cortada na Ilha após os protestos. “Eu mesmo falei com cinco amigos meus ontem [terça-feira]”, assegura.

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) compartilhou em suas redes sociais o texto de uma historiadora que, a partir de uma perspectiva de esquerda, também chama atenção para a necessidade de olhar para os problemas internos e “as contradições atuais” da Revolução Cubana. “O bloqueio dos EUA representa uma parte importante dessa crise, não há dúvidas. Mas é um erro atribuir o problema exclusivamente ao bloqueio”, explica Joana Salem. “Parte da esquerda brasileira comete esse erro reiteradamente e não examina as contradições internas da sociedade cubana. A longevidade da revolução só pode ser explicada pela sua fortaleza interna. Recusar a ver as fissuras internas é também uma forma de negacionismo”, acrescenta.

Em outro trecho de seu artigo, ela aponta para o “engessamento ou quebra” dos canais de escuta e de poder popular no país. “Faz anos que alguns cubanos de esquerda alertam sobre a necessidade de recriação das formas do poder popular”, explica. Ela ainda cita organismos e braços do Partido Comunista que “estão burocratizados, perderam representatividade histórica e se tornaram insuficientes”. “São demasiado oficialistas e já não absorvem as contradições internas da sociedade, para vocalizar a população em suas diferentes nuances. Na realidade, muitos deles se tornaram órgãos de representação do Estado perante a sociedade, e não da sociedade perante o Estado”, complementa.

Para Frei Betto, a Revolução Cubana “vai dar conta” dos novos desafios. “Não é a primeira crise. Agora, é normal que em qualquer país haja pessoas insatisfeitas. É normal. Não é o povo, a maioria, tanto é que a revolução resiste há mais de 60 anos.”

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