Crédito: Leopoldo Silva/Agência Senado

Simone Tebet: “A CPI tem que dar nome, sobrenome e CPF dos corruptos”

Publicado em Entrevistas

Eixo Capital, por Ana Dubeux

Não é sobre abrir portas; é sobre empurrá-las. Assim a senadora Simone Tebet (MDB) reflete a respeito do seu pioneirismo na política. Primeira prefeita de sua cidade natal, Três Lagoas (MS), não parou mais de derrubar muros. Mas não se sente só na empreitada: “Não sinto que é uma presença solitária. Ainda somos poucas, mas a luta coletiva não nos faz sozinhas”.

Sabe, no entanto, que a luta é árdua. “Isso exige sacrifícios, o que compromete, não raras vezes, a vida pessoal. Ficamos suscetíveis às críticas, à difusão de fake news e a muitas outras formas de violência política. Sofremos, sim, assédio de todos os tipos, especialmente o psicológico”, conta, nesta entrevista ao Correio.

Essa realidade não é mais branda na CPI da Covid, na qual tem tido participações destacadas. “A CPI tem sido um celeiro de atitudes grosseiras para com a bancada feminina. A melhor forma de combater é fazer o que estamos fazendo. Mostrar que somos capazes, que nossa atuação faz diferença e é importante para o país. Tentaram, mas não conseguiram calar a nossa voz”, diz.

A senadora acredita que a “CPI já tem fortes indícios e muitos elementos probatórios da prática de crimes, incluindo a corrupção passiva e ativa”. “Temos documentos, troca de mensagens, quebras de sigilos. Na volta do recesso, a CPI terá de colocar nome, sobrenome e CPF dos responsáveis. Quem foram os corruptores, os cooptados, os atravessadores, os servidores, os agentes políticos”, avalia.

Sobre uma possível candidatura à presidência, Simone Tebet diz que não é hora de pensar em 2022, mas que a possibilidade de uma terceira via, fora dos extremos, é bem-vinda.

Entrevista / Simone Tebet

A primeira a presidir a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a primeira vice-governadora do Mato Grosso do Sul, a primeira líder de bancada do PMDB… Como encarou a presença solitária, como mulher, nos diversos postos que assumiu quebrando tabus?
Na minha trajetória política, realmente fui pioneira por diversas vezes. Comecei sendo a primeira prefeita da minha cidade natal, Três Lagoas (MS). Depois, foi uma sequência de “abrir portas”, embora, muitas vezes, tenha sido preciso “empurrá-las”.
Claro que isso me dá orgulho, mas também não nego uma ponta de tristeza. Já estamos na década de 20 do século 21, e eu ainda tenho sido a primeira a ocupar postos importantes na política. O que me conforta é que isso significa saber que, depois de mim, virão muitas outras mulheres. Não sinto que é uma presença solitária. Ainda somos poucas, mas a luta coletiva não nos faz sozinhas.

O que diria a uma jovem adolescente que sonha em ingressar na política?
Eu fui uma jovem que gostava muito de política, mas achava que meu papel era trabalhar nos bastidores. Mas eram outros tempos. Hoje, precisamos, sim, apoiar mulheres, especialmente as jovens, que sintam e queiram se engajar politicamente. Na verdade, há, hoje, talvez como em nenhum outro momento, um chamado para a vida pública. Isso exige sacrifícios, o que compromete, não raras vezes, a vida pessoal. Ficamos suscetíveis às críticas, à difusão de fake news, e a muitas outras formas de violência política. Sofremos, sim, assédio de todos os tipos, especialmente o psicológico. Mas, o sobrenome da mulher é coragem. E sei que o Brasil tem milhares de jovens insatisfeitas com o que estão vendo na política, e com esse desejo, tão ímpar, da juventude de promover mudanças. Então, venham para a política! Não tenham medo! Tragam a sua verdade e trabalhem por um país com mais desenvolvimento, educação e justiça social. Sigam o caminho da boa política.

As mudanças na legislação eleitoral aprovadas pelo Senado vão mesmo garantir espaço maior das mulheres na política?
Há anos temos lutado por isso. Fazendo uma retrospectiva, percebemos que estamos num crescente nas conquistas. A “bancada do batom”, na Assembleia Nacional Constituinte em 1987-1988, foi fundamental para inserir na Carta Magna direitos essenciais para as mulheres brasileiras. Depois, conseguimos estabelecer a cota de 30% de candidaturas, brigamos na Justiça por mais recursos e tempo de rádio e TV nas eleições e, agora, esta semana, aprovamos uma PEC e um PL importantíssimos, neste mesmo sentido. É um passo a mais para termos mulheres nos Legislativos. Queremos 30% de vagas — e não mais somente candidaturas — de mulheres nos Legislativos federal, estadual e municipal. Será um grande avanço. Hoje, somos 15% no Congresso e cerca de 10% nas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. Como a realidade atual é de prevalência dos homens no Congresso, precisamos ir, aos poucos, conquistando nosso espaço. Por isso, o texto propõe a ampliação das vagas de forma gradual, começando com 18% já nas próximas eleições, subindo para 20%, 22% e 30%, até 2040.

As mulheres precisam trabalhar mais do que os homens para obter o mesmo reconhecimento. A senhora enfrentou discriminação e preconceito ao longo da sua carreira?
Sim. Certamente. Infelizmente, ainda vemos mulheres que, exercendo a mesma função, ganham menos do que os homens. Isso implica que as mulheres precisam, sim, fazer mais, estudar mais, se dedicar mais, porque somente assim conseguem ter o tratamento igualitário. A esperança é que a nova geração já se comporta de forma diferente. O tal “empoderamento” já entrou no vocabulário das meninas. Os meninos também estão aprendendo que não existe mais profissão exclusivamente “de homem”.

Qual a forma adequada de lidar com os preconceitos sexistas no dia a dia dentro e fora do parlamento? A discriminação de gênero ainda é demolidora na política?
Qualquer forma de preconceito é demolidora. Infelizmente, temos visto episódios muito tristes de preconceito e machismo. A CPI tem sido um celeiro de atitudes grosseiras para com a bancada feminina. A melhor forma de combater é fazer o que estamos fazendo. Mostrar que somos capazes, que nossa atuação faz diferença e é importante para o país. Tentaram, mas não conseguiram calar a nossa voz.

A senhora é filha de uma lenda política. A política brasileira decaiu?
Obrigada pela referência tão carinhosa ao meu saudoso pai, Ramez Tebet. Infelizmente, sou obrigada a concordar que estamos vivendo um apagão de grandes lideranças. Fazem falta homens públicos como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Mário Covas, e tantos outros de outros tempos políticos. Temos hoje bons políticos, aqueles que indicam caminhos, mas nos faltam grandes estadistas, os que caminham, e nós os seguimos. O estadista é aquele que, como diria o poeta, quando parece não haver caminho, o fazem, ao caminhar.

Seu nome aparece bem nas listas de pré-candidatos à presidência em 2022. Essas citações a encorajam? A presidência é um sonho? O MDB se uniria em torno da sua candidatura?
Estamos diante da pior crise sanitária da história do Brasil. Graças às vacinas, o número de mortes tem caído. Estamos em meio a uma CPI que pode ter um desfecho demolidor na política nacional. Temos de resolver a gravíssima crise econômica, com índices assustadores de desemprego e de fome. Não é hora de falar de 2022. Sou a favor da construção de uma terceira via consistente com reais chances de vitória. O Brasil não merece a repetição de uma disputa entre os extremos. Em relação ao meu partido, tenho dito que meu nome está à disposição, mas não escondo a minha preferência por concorrer à reeleição ao Senado. Mas, em política, tudo muda muito rapidamente. Então, o momento é de serenidade para aguardar a hora certa para decidir.

Por que é ainda tão baixo o número de mulheres em cargos significativos de órgãos públicos e empresas? Preconceito? Machismo?
Prefiro olhar pelo lado positivo. As mulheres estão conquistando espaços como CEOs de grandes empresas. Há pesquisas que indicam maior lucratividade nos negócios geridos por mulheres. Então, acredito que é questão de tempo. Hoje em dia, a maioria dos bancos universitários são ocupados por mulheres. Haverá mais equilíbrio na ocupação de postos-chave no futuro, seja nas grandes corporações, nas ciências ou na política. O machismo é cultural e estrutural, mas está sendo quebrado, ainda que mais devagar que o devido.

Qual a materialidade de corrupção no caso da Covaxin?
Temos fortes indícios e muitos elementos probatórios da prática de crimes. Isso mesmo: no plural, incluindo a corrupção passiva e ativa. Temos documentos, troca de mensagens, quebras de sigilos. Na volta do recesso, a CPI terá de colocar nome, sobrenome e CPF dos responsáveis. Quem foram os corruptores, os cooptados, os atravessadores, os servidores, os agentes políticos.

Está convencida de que houve prevaricação do presidente Bolsonaro? Que provas a CPI já elencou para comprovar o crime do presidente?
Houve omissão do Governo Federal na condução errática da pandemia. Da primeira fase da CPI, temos elementos que dão conta do estímulo ao uso de medicamentos sem comprovação científica, da ação para fazer a população acreditar na imunidade de rebanho, do atraso na compra de vacinas, da falta de planejamento nacional na condução das ações voltadas à pandemia, da inexistência de comunicação com a população no sentido de uma melhor proteção contra o coronavírus. Agora, já existe materialidade de crimes relacionados à negociação para a compra da Covaxin. O presidente diz que, ao ser informado pelos irmãos Miranda, passou a bola adiante para o ministro da Saúde, general Pazuello. Esse, por sua vez, disse ter encaminhado a incumbência da investigação para o então secretário-executivo, coronel Élcio Franco, o mesmo que, em um único dia, se deu por satisfeito para encerrar qualquer averiguação de irregularidade. Onde está a comprovação do pedido de investigação? Ainda não chegou à CPI documento que comprove não ter havido prevaricação por parte do governo federal.

Qual o papel e a importância das mulheres nos trabalhos da CPI?
Estamos estudando os documentos públicos e sempre temos conseguido pontuar aspectos importantes que têm contribuído enormemente para as investigações. Todos lembram que, após horas de interpelação, o deputado Luis Miranda revelou o nome do líder do governo, deputado Ricardo Barros, durante os meus questionamentos. Eu também questionei a veracidade dos invoices da Precisa Medicamentos, demonstrando erros primários nos documentos. Temos exemplos de contribuições essenciais das senadoras Eliziane, Leila, Zenaide, Soraya, enfim, a bancada feminina está unida para que sempre estejamos presentes na CPI. Apesar de não terem nos dado direito a uma cadeira, temos nos feito ouvir e estamos procurando fazer a diferença.

Sua atuação firme e implacável na CPI a fez virar alvo do exército bolsonarista nas redes sociais. Isso a amedronta?
Isso tudo é fruto da divisão que se acelerou, nos últimos tempos. Caminho ao largo desses extremos. Já passei por vários momentos difíceis nas redes. O que não admito é mentira. Fake news. Já fui vítima de injustiças. Acho interessante e fico muito grata a todos os que me defendem, porque conhecem, e reconhecem, as minhas ações. Isso é muito bom. Apesar dos ataques, tenho percebido uma mudança de humor nas minhas redes. Muitas manifestações de apoio, e isso me dá força para seguir em frente, sabendo que estou no caminho certo

Como o Senado contribui para minimizar os efeitos da pandemia?
Desde o ano passado, nos unimos para aprovar, de forma célere, projetos no sentido de minimizar os efeitos da pandemia. Foram inúmeros projetos ligados à liberação de recursos para saúde, auxílio emergencial, socorro aos estados e municípios, apoio aos pequenos e microempresários, alterações no direito privado essenciais para ajudar os brasileiros a atravessar esse momento tão complexo da nossa história.

Como a pandemia pode reforçar os valores humanistas da sociedade?
Vimos inúmeros exemplos de solidariedade. Nessas horas difíceis, nos damos conta do quanto o ser humano tem a capacidade de ajudar o próximo. É hora de darmos as mãos aos irmãos que estão em situação de maior vulnerabilidade.

É possível ter um olhar poético diante deste momento difícil? Como faz para aliviar a tensão?
Sim, a poesia também flui nesses momentos de dor. É uma forma de deixar a emoção vir à tona. Para aliviar a tensão, gosto de caminhar, ouvir boa música, assistir a filmes e ler. Leio, e releio, de ensaios à literatura e à poesia. Manoel de Barros, Mário Quintana e Fernando Pessoa estão entre os meus preferidos.

O que mudou na sua rotina neste ano de pandemia?
Muita coisa. Acho que, como todos os brasileiros que passaram a atuar em home office, trabalhei até mais. Ganhei maior familiaridade com todas essas ferramentas de reunião virtual. Aliás, o que seria de nós sem essa tecnologia? Esse ano e meio que passou foi muito diferente de tudo o que já vivemos. Entretanto, embora possa ter produzido muito, sinto falta do contato pessoal. É próprio da política a conversa olho no olho. Nas duas últimas semanas, fizemos esforço concentrado, e a volta ao presencial foi muito boa para todos nós.

Como ficam as grandes questões da humanidade no pós-pandemia?
Ficam ainda maiores. Não há dúvida de que teremos de repensar muitos paradigmas de antes, porque o mundo não será mais o mesmo. Certos dogmas, na política, na economia, e na vida no seu todo, terão de passar por um novo crivo. Muitas verdades de antes deverão ser contestadas. Por exemplo, descobrimos agora os milhões de “invisíveis”, quando, na verdade, a política é que era cega em relação a eles. Teremos de trazer para mais perto o conceito de desenvolvimento, no lugar do mantra do crescimento. O desenvolvimento é o crescimento com distribuição de renda. A desigualdade social não pode ser, apenas, tema de discursos. Ou de planos que prometem tudo mudar, mas para que, ao final tudo permaneça como está.

Que ensinamento este momento nos deixa?
É um momento de muita resiliência, solidariedade, saudade. Difícil. Muitas pessoas perderam entes queridos e amigos, muitos ficaram sem emprego, muitos passam fome. É uma crise sem precedentes. Atingiu a economia, mas, especialmente, o emocional de todos nós. Claro que, depois de tudo isso, a vida ganhou novo significado. Espero que possamos sair melhor. Aprender com as dificuldades e superar estes enormes desafios que ainda temos pela frente.

Como vê a perda de tantos brasileiros na pandemia? Os governos deveriam ter sido mais céleres nas decisões? Que exemplo no mundo poderia ser usado no Brasil?
É muito triste. Sinto a dor dessas famílias enlutadas que, em muitos casos, perderam seus entes queridos prematuramente. O mais revoltante é que muitas vidas poderiam ser poupadas, se as pessoas tivessem sido vacinadas a tempo, e se a ciência tivesse também tivesse se poupado do negacionismo que imperou entre nós, neste momento tão difícil. Nesse quesito, o mundo está repleto de bons exemplos. A recíproca não é verdadeira. Aqui, o que mais se viu foram os maus exemplos.

A importância da união em torno de um projeto suprapartidário para mitigar os efeitos da pandemia nos próximos anos é possível?
Eu sou uma pessoa que valoriza o diálogo. Temos de nos sentar à mesa para absorver as melhores ideias de cada um e construir programas consistentes e políticas públicas eficazes. Entendo que o caminho seja mesmo esse. De forma republicana, uma união suprapartidária seria importante para encontrar as melhores saídas para o pós-pandemia. Não é hora de extremismos. Não é hora de muros que nos dividam, muito menos de cercas que nos segreguem.

jul
20

“Wave”, Frank Sinatra:

 
“Wave”, de Tom Jobim, com Frank Sinatra, no You Tube, o resto é mar!
BOM DIA!!!
(Gilson Nogueira)

jul
20
Posted on 20-07-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 20-07-2021
 
ST
Sarah Teófilo
 

 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, Omar Aziz (PSD-AM), voltou a comparar o presidente Jair Bolsonaro com um macaco guariba. A comparação ocorreu depois que Bolsonaro o chamou de “anta amazônica”, em conversa com apoiadores no ‘cercadinho’, no Palácio da Alvorada.

“Sabe quem é o predador do macaco guariba? É a onça. É a onça, presidente, que está atrás do macaco guariba, aquele que quando foge da onça, ele faz dejetos pelos orifícios, urina e defeca para se proteger da onça. Presidente, a onça vai pegar o macaco guariba. Tenha certeza”, afirmou Aziz em vídeo divulgado pelo Twitter. Na semana passada, Aziz havia comparado o presidente com este macaco, dizendo que o mandatário “defeca pela boca”.

Aziz ainda falou que o presidente não sabe o que é uma anta amazônica. “Mas quem trabalhou aqui, serviu aqui, os valorosos militares que serviram na Amazônia, sabem o que a anta amazônica significa para o meio ambiente”, afirmou. A CPI tem apurado envolvimento de militares em supostas irregularidades envolvendo a aquisição de vacinas. Recentemente, Aziz afirmou que os bons fardados estariam envergonhados com o “lado podre” das Forças Armadas — mas depois se retratou, dizendo que não estava generalizando.

O Ministério da Defesa, entretanto, e os comandantes das três forças emitiram uma dura nota, interpretada como uma mensagem a toda a CPI, e não apenas à Aziz.

Ainda em vídeo em resposta a Bolsonaro, o presidente da CPI alfinetou o presidente, dizendo que o cercadinho de apoiadores fica “cada vez menor”. “Presidente, toda vez que o senhor chegar no cercadinho, se solidariza com as vítimas da covid, com as famílias que estão perdendo pessoas queridas, parentes, amigos, conhecidos”, afirmou.

jul
20
Posted on 20-07-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 20-07-2021



 

 Amarildo, NA

 

jul
20
Posted on 20-07-2021
Filed Under (Artigos) by vitor on 20-07-2021
DO EL PAÍS

PT, PSOL e PCdoB lançaram notas focando as críticas no embargo comercial norte-americano que asfixia a economia cubana há mais de meio século, mas há também vozes falando sobre a importância de olhar a dinâmica da política doméstica

Cubanos se manifestam contra o Governo no último domingo, 11 de julho, em Havana.
Cubanos se manifestam contra o Governo no último domingo, 11 de julho, em Havana.Ernesto Mastrascusa / EFE
 
São Paulo

Criticar publicamente o regime cubano ainda é um tabu entre a esquerda brasileira. Militantes e os principais partidos progressistas do país vêm se manifestando nas redes sociais e através de comunicados reconhecendo, em grande parte, a legitimidade dos protestos em Cuba, ao mesmo tempo em que se esquivam de criticar o Governo de Miguel Díaz-Canel. Pelo contrário, o apoio a ele parece ser quase uma unanimidade. O foco é na exaltação no que consideram ser conquistas sociais da Revolução Cubana e nas críticas ao embargo comercial promovido pelos Estados Unidos há mais de meio século, tendo como agravante as mais de 200 sanções econômicas impostas à Ilha pela administração Donald Trump e que ainda não foram suspensas por seu sucessor, o democrata Joe Biden. Ficaram de lado as várias contradições internas, como as reformas econômicas promovidas no ano passado que agravaram a situação, a insatisfação da juventude e o papel da internet entre as novas gerações.

A sociedade cubana está em movimento e promoveu no último domingo, 11 de julho, os maiores protestos em quase 30 anos. As causas parecem ser múltiplas e envolvem desde demandas por liberdade política e democracia como também o cansaço por viver numa situação de sufocamento econômico, com cortes de eletricidade, falta de medicamentos ou alto custo dos alimentos. Ao bloqueio econômico se somam as reformas promovidas pelo Governo no fim do ano passado, que unificou moedas, assim como as dificuldades geradas pela pandemia da covid-19. Apesar de inéditas em muito tempo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principal líder de esquerda do país e possivelmente da América Latina, tratou de minimizar a questão. “O que está acontecendo em Cuba de tão especial pra falarem tanto?! Houve uma passeata. Inclusive vi o presidente de Cuba na passeata, conversando com as pessoas”, afirmou durante uma entrevista à radio Bandeirantes na última terça-feira. Trechos da conversa foram compartilhados em suas redes sociais. “Já cansei de ver faixa contra Lula, contra Dilma, contra o Trump… As pessoas se manifestam”, afirmou, como se protestos na Ilha fossem corriqueiros.

Além de tecer críticas ao embargo norte-americano, tratou de comparar a repressão na Ilha à violência policial dos Estados Unidos. “Mas você não viu nenhum soldado em Cuba com o joelho em cima do pescoço de um negro, matando ele… Os problemas de Cuba serão resolvidos pelos cubanos”, afirmou, sem mencionar a denúncia de organizações não-governamentais de que há mais de 200 pessoas presas ou desaparecidas depois dos protestos. Nas redes sociais, o PT tratou de se mostrar solidário ao regime cubano.

O PSOL e o PCdoB se manifestaram através comunicados. O primeiro reconheceu a legitimidade dos protestos e reafirmou a “confiança no Governo cubano e em seus esforços para contornar a grave crise econômica sem afetar as conquistas da revolução”. Também repudiou “quaisquer interferências estrangeiras nos assuntos internos de Cuba” e denunciou o bloqueio econômico imposto pelos EUA. Já o segundo partido sequer reconheceu que há demandas legítimas por parte da população. Afirmou que “o povo cubano vem enfrentando uma nova onda reacionária golpista” e que, pouco depois de boas notícias, como a autorização para o uso da vacina cubana Abdala, “irrompe na mídia ocidental uma série coordenada de imagens que tentam projetar para o mundo a ideia de que uma grande revolta popular estaria em curso”. Outras importantes lideranças de esquerda também se posicionaram nas redes. Guilherme Boulos (PSOL), candidato a presidente em 2018 e a prefeito de São Paulo em 2020, tratou de minimizar a questão. “Cuba teve 1.584 mortes por Covid em toda a pandemia, menos do que qualquer bairro de São Paulo. Mesmo sob um bloqueio econômico perverso está desenvolvendo sua própria vacina. E tem gente por aqui pedindo SOS para Cuba…”, escreveu em seu perfil no Twitter.

Mais ao centro, os ex-ministros Marina Silva (Rede), candidata a presidente em 2010, 2014 e 2018, e Ciro Gomes (PDT), também candidato ao Planalto nas últimas eleições e pré-candidato em 2022, foram mais duros com o Governo cubano. “O embargo imposto pelos EUA para castigar os cubanos tem, nos últimos tempos, aprofundado a crise de abastecimento, econômica e sanitária no país. Some-se a isso um regime político fossilizado que restringe as liberdades individuais. O apelo à revolução serve apenas ao proselitismo dos burocratas que controlam o poder na ilha”, escreveu a ambientalista em nota divulgada nas redes sociais. Já Ciro publicou nesta sexta-feira, 16 de julho, um vídeo no qual busca se distanciar tanto do presidente Jair Bolsonaro, ao defender a soberania de Cuba e o princípio da autodeterminação do povo cubano, como do PT, ao dizer que o regime da Ilha é uma “ditadura política”.

Para a jornalista e cubanista Vanessa Oliveira, que lançará neste ano o livro Google em Cuba: novas mídias, velhas intervenções, pela Editora Elefante, estas são manifestações históricas, sem precedentes além do Malaconazo em 1994. “Não estava no imaginário das últimas gerações uma movimentação desse tipo”, explica Oliveira. Para ela, a avaliação das esquerdas brasileiras sobre o que acontece no país fica muitas vezes pautada pelo “mito Cuba”, e não numa leitura de sua conjuntura interna atual. “Existe uma tensão há bastante tempo de várias forças” da sociedade cubana, inclusive “de grupos mais à esquerda” que encontram dificuldades de acessar os dispositivos de escuta “engessados” do regime. “Temos uma esquerda institucionalizada [no Brasil] precisando falar sobre uma esquerda revolucionária que teve seu auge há 60 anos. Existem incongruências na hora de voltar a conquistas desse período e de usar isso pra explicar um processo novo que pouco sabemos, principalmente se você não está conectado todo tempo à Ilha”, explica.

O frade dominicano e escritor Frei Betto, que possui uma relação de décadas com Cuba —tendo inclusive exercido um papel no desgelo das relações com os EUA em 2014, durante o Governo Barack Obama—, explica que “inimigo a gente denuncia e amigo a gente critica”. Por ter trânsito com as autoridades cubanas, explica ele, “lá eu faço minhas críticas”. Mas reconhece as “enormes” dificuldades enfrentadas pelos cubanos. “Juntou o bloqueio com a mudança da moeda e a pandemia. Mas a imprensa super dimensiona Cuba como se aqui fosse uma perfeita democracia. E, para mim, democracia não é votar a cada dois anos, para mim é a partilha econômica”, argumenta. Ele nega, por exemplo, que haja a prática de tortura em Cuba por parte das forças de segurança. “Eu já conversei com vários ex-presos políticos, e nunca me descreveram tortura. Sempre falei para Fidel que se soubesse que há tortura, eu cairia fora. Eu passei por isso, fui preso duas vezes na ditadura, e isso é um principio meu de que não abro mão”, explica ele, ao defender o regime cubano.

Papel da internet e influência dos EUA

Um fator que parece ser incontestável é o papel da Internet nessa onda de protestos e a influência norte-americana que chega através dela. Oliveira, que mantém contato com ativistas e amigos cubanos, afirma que existe uma demanda das novas gerações por “mais oportunidades e por acabar com a sensação de estar fora jogo, em isolamento”. Não é só uma questão econômica ou de burocracia política, explica ela, mas também de mudança gradativa do ethos social. “De repente você tem essas ferramentas de empresas estadounidenses [redes sociais, smartphones] que priorizam o indivíduo e isso impacta os desejos das novas gerações por participação. Talvez a burocracia cubana não seja suficiente para absorver essas demandas agora. Mas não necessariamente esses jovens querem um capitalismo feroz. A demanda das pessoas é também por fortalecimento das políticas de Estado, por mais diálogo, por instrumentos de escuta que se renovem…”, argumenta a cubanista. “Existe um grito de rua por liberdade que vai funcionar pra chamar atenção da mídia no exterior, mas na hora que você vai falar com as pessoas a demanda é pelo básico”.

Ela considera que o Governo Díaz-Canel sabe que possui questões estruturais a serem resolvidas e que o regime, após o desgelo das relações com os Estados Unidos, caminhava para uma maior abertura política. Com o Governo Trump, esse processo foi interrompido. Além disso, Oliveira opina que a reforma econômica do final de 2020 foi um tiro no pé. “Então, você tem essa crise econômica combinada com uma insatisfação popular, as redes sociais… A mídia de Miami chega hoje a Cuba de uma maneira que não chegava antes. Temos também uma internet que prioriza polarização, prioriza a fake news”, explica ela, sobre a atual conjuntura cubana que as esquerdas brasileiras têm dificuldade de ver. “Esse momento de insatisfação, de crise social, de crise econômica, cuja raiz inescapável são 60 anos de embargo imposto pelos EUA, vai casar com essa potência que é a rede social, que não viabiliza o diálogo, mas a polarização.”

Frei Betto reconhece que a Internet está trazendo mais informação, mas ressalta que “ela é controlada unicamente pelo capitalismo”. E faz uma das poucas críticas ao Governo cubano: “Um dos erros que a revolução sempre cometeu foi comparar Cuba mais com os EUA do que com o resto da America Latina. A juventude cubana se compara com aquilo que se passa nos EUA, é um erro”, argumenta. “Esses jovens não têm ideia de como as coisas do ponto de vista social são muito melhores do que no Brasil, em Honduras, no Panamá, na Guatemala… A revolução deveria trabalhar melhor a educação política dos jovens, existe uma falha nesse sentido”, completa. Ele também diz ser falsa a informação de que a Internet foi cortada na Ilha após os protestos. “Eu mesmo falei com cinco amigos meus ontem [terça-feira]”, assegura.

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) compartilhou em suas redes sociais o texto de uma historiadora que, a partir de uma perspectiva de esquerda, também chama atenção para a necessidade de olhar para os problemas internos e “as contradições atuais” da Revolução Cubana. “O bloqueio dos EUA representa uma parte importante dessa crise, não há dúvidas. Mas é um erro atribuir o problema exclusivamente ao bloqueio”, explica Joana Salem. “Parte da esquerda brasileira comete esse erro reiteradamente e não examina as contradições internas da sociedade cubana. A longevidade da revolução só pode ser explicada pela sua fortaleza interna. Recusar a ver as fissuras internas é também uma forma de negacionismo”, acrescenta.

Em outro trecho de seu artigo, ela aponta para o “engessamento ou quebra” dos canais de escuta e de poder popular no país. “Faz anos que alguns cubanos de esquerda alertam sobre a necessidade de recriação das formas do poder popular”, explica. Ela ainda cita organismos e braços do Partido Comunista que “estão burocratizados, perderam representatividade histórica e se tornaram insuficientes”. “São demasiado oficialistas e já não absorvem as contradições internas da sociedade, para vocalizar a população em suas diferentes nuances. Na realidade, muitos deles se tornaram órgãos de representação do Estado perante a sociedade, e não da sociedade perante o Estado”, complementa.

Para Frei Betto, a Revolução Cubana “vai dar conta” dos novos desafios. “Não é a primeira crise. Agora, é normal que em qualquer país haja pessoas insatisfeitas. É normal. Não é o povo, a maioria, tanto é que a revolução resiste há mais de 60 anos.”

  • Arquivos