Gama Livre: Jânio Ferreira Soares, no Bahia em Pauta: O Rio São Francisco, mesmo com milhões de metros cúbicos sem oxigênio, manda de Paulo Afonso um recado de vida e resistência

CRÔNICA

 

Como traduzir em libras o capitão constipado

 

Nos anos 80 trabalhava aqui na roça um mudo de nome Ioiô, que assim como a coruja da anedota – que foi pintada de verde pra se passar por papagaio – não falava uma palavra, mas, com seu olhar de um caburé vigiando a toca, prestava uma atenção danada nas coisas pra poder contá-las por aí.

Gabola dos bons, qualquer caso descrito por ele ganhava aspectos teatrais, como na vez em que matou uma cobra verde e a promoveu a uma cascavel de alta patente, cuja pedrada na cabeça foi dramatizada com um forte cascudo desferido na própria testa, seguido de um estrebucho do corpo caindo ao chão e finalizando com o mindinho abanando lentamente como se fora o chocalho dando adeus.

Devoto de Santo Antônio, sua grande vontade era se confessar em 13 de junho, plano sempre frustrado pelas beatas organizadoras da trezena, até o dia em que chegou a Glória padre Emílio, um boa praça que adorava ir ao bar de Miguel Campos pra se inteirar das novidades mundanas. E lá, ao saber do sonho de Ioiô e de uma famosa história sua, armou com a turma uma estratégia pra confessá-lo na calada da noite, só pra ver se ele confirmaria o que os boêmios diziam ter visto inúmeras vezes nos fundos da casa paroquial.

Disfarçado de frade, Ioiô entrou na igreja pela porta lateral, tirou o capuz e, diante de um Emílio segurando o riso, começou a puxar os braços em direção à barriga em movimentos cadenciados e acompanhados por um relinchar baixinho, finalmente confessando que, sim, estava tendo um caso com a jeguinha do mestre José, inclusive pensando em coisa mais séria, assim entendido por Emílio quando ele formou um aro com o polegar e o indicador da mão esquerda e, em seguida, o enfiou freneticamente no dedo anelar da mão direita como se indicando uma aliança de noivado, embora os gaiatos escondidos na sacristia afirmem que aquele gesto fora apenas para explicitar melhor a mímica do coito.

Pois bem, lembrei-me disso ao ver o desespero dos tradutores de libras na hora de interpretar os excrementos que Bolsonaro anda expelindo pela boca, cuja tendência, agora que sua prega rainha decidiu trancar a pauta intestinal por tempo indeterminado, é triplicar.

Daí que, se vivo fosse, Ioiô daria um show como seu intérprete. Quer exemplos? Pra traduzir “Caguei pra CPI”, ele simplesmente pegaria uma foto de Renan, abaixaria as calças e, dependendo da vontade, soltava um barro daqueles sobre o alagoano. Já pra explicar como milhares de latas de leite condensado seriam enfiadas no rabo da imprensa, ele pegaria um display de Bonner, abriria um orifício no local sugerido e as enfiaria regada abaixo, pra deleite das vaquinhas mococas a mugir aplausos. Por fim, quando o mito começasse a soluçar, Ioiô puxaria sua peixeira de 12 polegadas e partiria pra cima dele, só pra ver se susto cura. “Óia a faca, capitão!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • julho 2021
    S T Q Q S S D
    « jun    
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    262728293031